27 de abril de 2008

Donos e Deuses (1)

Tive duas cadelas, chamadas Pinta e Preta, uma gata chamada Mimosa e dois gatos, o Cigano e o Maltês1. Já morreram todos, mas quando convivia com eles pensava muitas vezes em como eles me viam.

© Carlos Cabanita 2008. Free to copy & publish but must indicate author, modification not allowed.

[ESTE TEXTO CONTINUA NA MENSAGEM SEGUINTE]

Nunca tive qualquer ilusão que eles me considerassem seu igual. Para eles eu era um bicho infinitamente superior. Sim, usam formas de homenagem que nas suas espécies correspondem ao trato com um animal considerado superior na hierarquia — o que é muito interessante e um assunto de que falarei a seguir — mas basta comparar a forma como um cão se relaciona com outro cão, com a forma como se relaciona com o seu dono, para perceber que são muito diferentes.

Toda a vida dos humanos é inteiramente incompreensível para um animal doméstico. Imagino que ele compreende as operações mais básicas e mais animais, como a alimentação e a higiene, mas mesmo essas são desempenhadas de uma forma tão estranha que o pobre bicho mal pode perceber que existem.

Para um animal doméstico, os seus donos passam os dias a fazer coisas que não têm qualquer sentido. Mas há acções dos humanos que o afectam e algumas dessas têm sem dúvida um cunho milagroso.

As coisas que fazemos com as mãos estão fora da compreensão dos quadrúpedes, desprovidos das ligações cerebrais sofisticadas desenvolvidas pelos primatas. Numa cozinha, num dado momento, não há comida. Está tudo limpo, não cheira a nada. Vem de lá o dono, mexe nuns pedaços de metal, e de repente há comida, cheirosa e abundante! Há sede, não há água, e o dono toca nuns sítios na parede e sai água! Não adianta nada lamber a torneira do bidé, só sai água quando o dono quer. O único sítio onde há água é na sanita e os donos ficam furiosos se o animal for lá beber, vá-se lá saber porquê...

As portas e portões limitam drasticamente a liberdade do animal, mas só obedecem à vontade dos donos. Tocam-lhes e elas abrem-se, tocam-lhes e elas fecham-se. Todos os encontrões e arranhões do mundo não abrem uma porta, a não ser que o dono venha fazer o seu gesto mágico para abri-la. Os donos em certas ocasiões felizes pedem companhia, noutras condenam o animal ao isolamento, e as portas lá estão para impor a sua vontade.

E os automóveis? Entra-se num sítio, anda-se um bocado aos trambolhões e depois sai-se num lugar completamente diferente, às vezes um lugar inquietante como o veterinário, outras vezes um lugar excelente como a praia...

Outro dos milagres que os humanos fazem com as mãos são as carícias, melhores, mais completas e mais delicadas que tudo o que os bichos podem fazer a si próprios ou uns aos outros.

Hora a hora, os animais domésticos encontram-se completamente à mercê dos seus donos e dos seus inexplicáveis milagres.

Em contrapartida, um animal doméstico compreende desde logo que lhe é exigida obediência cega. Começa com as regras de higiene, com a repressão dos seus comportamentos naturais e continua com centenas de proibições e obrigações, à medida que o animal se socializa, não segundo as regras da sua espécie, mas segundo outras regras, impostas pelos seus donos.

Para um cão, por exemplo, não ladrar às pessoas, não marcar o território em casa, não assaltar a despensa, não disputar a comida aos donos, não entrar em casa, ou entrar só em certas ocasiões, não dormir no sofá da sala, ou dormir lá mas não na cama dos donos, brincar segundo o que os donos esperam dele, ir buscar a caça mas não comê-la, fazer algumas habilidades nada óbvias, defender a casa mas não atacar os amigos do dono, enfim, a lista é enorme e varia de caso para caso, porque as regras impostas por cada dono são diferentes.

Assim o animal, com alguma sorte, vive feliz, bem alimentado, numa tirania benévola ao cuidado de seres superiores. Mais que uma vez, perante a reverência canina das minhas cadelas, imaginei que para elas eu era um deus.

Estamos em terreno muito escorregadio. Podem objectar que um cão não pode ter tal noção. Claro. Não estamos a falar de filosofia!

Durante muito tempo imperou a noção de que os animais não pensavam. Os homem era racional, os animais usavam o instinto. O homem tinha alma, os animais não. Nos últimos tempos foi ao mesmo tempo posta em causa a racionalidade do homem e a falta de pensamento dos animais. Não me vou alongar sobre isso, mas creio que hoje a situação é mais vista como uma linha contínua do que como uma quebra abrupta.

De qualquer modo, não digo que os bichos tinham qualquer noção filosófica sobre deus. O que acontecia era que eles me tratavam com uma veneração e uma uma fé cegas, do mesmo modo que um indivíduo religioso se sente perante a sua divindade. E isso, digo eu, é devido à enorme diferença de nível cultural e mental entre os dois bichos, eu e a minha cadela. E devido também a um processo cultural que começou há talvez 15 000 anos: a domesticação do cão.

Há vários casos em que grandes diferenças culturais levaram a que um grupo humano venerasse outro como deuses. Para além das várias situações políticas em que governantes se arrogaram posição divina, lembro-me de relatos sobre a aparente deificação do capitão James Cook no Hawai, em 1779. E os cultos da carga (cargo cults) que existiram na Nova Guiné e em ilhas do Pacífico, imaginando que a carga dos navios visitantes era trazida por deuses.

Vários escritores de ficção científica especularam sobre relações entre raças extraterrestres de tal diferença de nível que os mais avançados eram, para todos os efeitos, considerados deuses. Philip Jose Farmer, no Cosmos de Kikaha imaginou uma raça de seres superiores (mas moralmente imperfeitos, como os deuses gregos) que criava universos privados e os povoava de criaturas comuns, inclusive humanos, para seu deleite. Robert Heinlein, nos Filhos de Matusalém, imaginou um planeta de gente perfeitamente civilizada e aparentemente autónoma, mas que se revelou estar totalmente dominada por outra espécie superior que vivia nos seus templos. Van Vogt, no Homem dos Mil Nomes, imagina mesmo uma hierarquia, em que seres muito superiores e praticamente considerados deuses pelas culturas inferiores, eram por sua vez considerados atrasados e desdenhados por outras culturas ainda mais superlativas.

Então temos o animais doméstico mais antigo, o cão, sujeito a uma diferenciação genética, com reprodução selectiva há milhares de anos, com alteração das regras de sobrevivência da caça para a dependência dos homens, mudança da alimentação, mudança da cultura, de uma estrutura de alcateia para a simbiose e submissão a outra espécie. Chama-se a isto domesticação. Traços característicos no cão são a criação de uma dependência afectiva total em relação ao dono, a submissão pronta à sua vontade.

Mas outros traços denunciam o carácter recente desta transformação. O cão selvagem ainda está muito próximo. Apesar de terem sido profundamente transformados fisicamente pela domesticação, o mundo mental dos cães parece não ter evoluído assim tanto. Quando os cães são abandonados pela sociedade humana, revertem rapidamente para um comportamento próximo do seu estado selvagem (presumivelmente depois de terem sido eliminados muitos indivíduos incapazes de se adaptarem).

Domar o homem

O processo da civilização2 humana não é muito diferente. Desde a revolução neolítica, as sociedades humanas tornaram-se cada vez mais complexas e dependentes da sua infra-estrutura social. As aptidões conducentes à sobrevivência nas sociedades de caçadores-recolectores foram substituídas parcialmente por outras. O caçador não suporta facilmente o trabalho repetitivo de sol a sol. A obediência a ordens alheias é uma qualidade, preferida à iniciativa individual. Sociedades de grande densidade e crescente complexidade asseguram a sobrevivência de um número crescente de indivíduos, premiando os que se adaptam às suas regras cada vez mais artificiais e excluindo os outros3.

Desde o tempo de Roma, em que pequenos exércitos profissionais e disciplinados desbaratavam hordas enormes de bárbaros, ao século fim do século XIX, com o uso de metralhadoras contra os Zulus (ou Mouzinho de Albuquerque a submeter o Gungunhana), as sociedades mais urbanas e complexas derrotaram sistematicamente, deportaram, escravizaram e exterminaram as culturas de caçadores-recolectores ou mesmo as sociedades rurais mais primitivas. Hoje isso não acontece tanto porque essas sociedades estão praticamente extintas. Os guerreiros que conseguiram isso eram menos corajosos, menos fisicamente aptos, menos capazes de combater independentemente, mas eram mais disciplinados e capazes de se integrar numa operação complexa e de contornos não locais.

A diplomacia tornou-se um bem necessário para sobreviver em teias de relações complexas, com prémio para a capacidade de ignorar ou mesmo louvar o que nos desagrada, desde que não nos ameace. Muitas vezes a sobrevivência depende da capacidade de ser amado ou mesmo tolerado. Cada vez menos pessoas põem alguma vez os pés na natureza, mas cada vez mais enfrentam um meio extremamente complexo e exigente em disciplina, diplomacia, obediência a horários e trabalho cada vez mais abstracto.

Ajuda também ter a capacidade de resistir a epidemias devastadoras.

Tudo isto mudou a humanidade? Geneticamente não, possivelmente não houve ainda tempo para isso. Ao contrário dos cães, a humanidade não foi sujeita a procriação selectiva e aparentemente os critérios de escolha sexual ainda são atávicos. Os tipos guerreiro e mãe continuam a ser preferidos, apesar dos marrões que todos boicotam no secundário terem mais hipóteses de sobrevivência e sucesso.

Somos fisicamente diferentes dos membros das sociedades primitivas? Quase de certeza. Muitos dos indivíduos que, na vida cruel dessas sociedades, eram impiedosamente eliminados (por terem miopia, como eu, por exemplo) hoje sobrevivem e têm sucesso. Pelo contrário, muitos dos tipos mais aguerridos que dantes prosperavam têm hoje tendência a meter-se em problemas e serem marginalizados.

Tenho a certeza que, havendo uma catástrofe da civilização actual, as culturas sobreviventes retornariam rapidamente a um nível básico (depois de, naturalmente, terem sido eliminados milhares de milhões, possivelmente os mais fracos e com menos sorte). Todo o comportamento civilizado desapareceria rapidamente. Isso foi testemunhado repetidamente em situações de fome e calamidade, ao longo da História.

Portanto, o verniz da civilização é fino. Tal como a domesticação dos cães.

Na verdade, eu penso que é o mesmo processo. A civilização é um processo de domesticação. Para sobreviver, os homens tiveram que aprender e submeter-se a regras cada vez mais mais estranhas e arbitrárias, contrárias à forma como tinham vivido durante toda a sua história evolucionária. Tal como o cão tem problemas com as portas e as torneiras, dependemos de toda uma série de mecanismos que dificilmente compreendemos. Nem sequer um quadro governamental compreende todos os aspectos que governam toda a sua vida, quanto mais o homem da rua! Temos simplesmente de aceitar.

Mas aceitar não chega. É preciso aplaudir. Não basta fazer os movimentos, é preciso aderir. Muito do processo da civilização é feito de investimento afectivo. Partindo dos sentimentos do homem primitivo para com o seu grupo, provavelmente semelhantes a estruturas afectivas de outros animais gregários, estes ampliam-se e tornam-se mais complexos, numa estrutura de lealdades sobrepostas. Família e bairro, clube, nação, por exemplo. Os nossos colegas de profissão, os trabalhadores em geral, a terra natal... Mas também contam os ódios de estimação: os estrangeiros, o outro clube, os capitalistas, os comunistas, os pretos, os brancos, os ciganos, os indianos, os chineses, os da Europa de Leste...

Tal como o cão domesticado navega uma paisagem de ansiedades à espera que as suas necessidades sejam satisfeitas pelo dono e ganha uma gratificação afectiva quando isso acontece, o humano domesticado vive na esperança que a sociedade o premeie pelo seu esforço. E a adesão às actividades sociais como o desporto e a política dá-lhe o prazer de pertencer. A necessidade de pertencer é tanto mais importante quanto o indivíduo está dependente disso para sobreviver.

O cão não pode aceitar que os donos se esqueçam dele, porque a sua vida depende literalmente disso. Também o homem não pode dar-se ao luxo de não pertencer, porque a sociedade pode facilmente esquecer-se de sustentá-lo.

Mas todos estes recursos não são suficientemente fortes para impor à sociedade a disciplina e a coesão necessárias. Os cães têm a vantagem do convívio constante com os seus donos, numa ditadura benévola mas implacável. Há pontos de contacto entre a posição dos animais domésticos e a posição das crianças numa família, o que se verifica pela sobrevivência de comportamentos infantis como as marradinhas nos gatos e o abanar o rabo nos cães, que nos animais selvagens desaparecem com a idade adulta.

Tal como as crianças na família, os animais domésticos estão sujeitos a uma ditadura benévola, a uma supervisão constante por criaturas superiores, atentas e bem intencionadas. E adoram os seus senhores, é claro.

A humanidade não teve este tipo de supervisão. A civilização ou domesticação dos humanos foi assim muito mais caótica, sem a supervisão constante de inteligências exteriores. Mas foi também mais rica e mais social, sendo inteiramente uma relação entre humanos.

Mas se lermos as mitologias das várias culturas, não é assim que elas contam as suas histórias. Em todas elas, a civilização ou a domesticação dos homens aconteceu exactamente como a dos cães. Nos mitos, os humanos sempre tiveram um dono ou donos.

Os homens não têm dono, mas precisavam de um para serem domesticados. Portanto inventaram-no. [CONTINUA]


1 Eu sei. Fora a Pinta (nomeada em honra da Praia do Pintadinho, onde foi encontrada, e de uma caravela de Colombo), são nomes politicamente incorrectos. Os gatos chamei-os assim por causa de uma canção do Zeca Afonso (Chamaram-me um dia Cigano e Maltês; menino, não és boa rês...), não porque tivesse nada contra os ciganos e os malteses. Quando chegou a Preta, já estávamos em maré de nomes politicamente incorrectos e ela era realmente uma cadela de água completamente preta. (Voltar ao texto)

2 Ultimamente tornou-se elegante para certos autores porem em causa o progresso e a civilização. Que não há verdadeiro progresso em valores, que se destrói tanto quanto se cria, que se cria tantos problemas como os que se resolve. É paleio sem sentido, bom para quem está de barriga cheia numa universidade ocidental, a pensar que devia fazer dieta e que não devia comer tanto ao almoço. Visto de um bairro da lata no Quénia, estou convencido que o problema tem um aspecto bem diferente.(Voltar ao texto)

3 Podem dizer que a nossa sociedade premeia a iniciativa individual e a liberdade. Mas isso acontece depois de longos hábitos de aceitação do que é ou não é possível se terem imposto, ao longo de milhares de anos. E acontece em sociedades privilegiadas que vivem largamente da exploração da riqueza e do trabalho de outras sociedades com menos riqueza e menos liberdade. Além disso, os valores de iniciativa e liberdade aplicam-se mais às elites do que às amplas massas. Para estas, o conformismo continua a ser um factor de sobrevivência. (Voltar ao texto)

26 de abril de 2008

Desenhos com mesa digitalizadora (2)

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A facilidade de desenho é excelente. O traço é vivo e pessoal como no papel. Sem o atrito do papel, o desenho escorrega bastante. Outra dificuldade é que os meus dedos seguram a caneta num sítio e os meus olhos controlam o desenho noutro lugar.

Controlar a grossura do traço é outra luta. Nenhuma caneta no mundo "real" se comporta de forma tão livre. Como de costume, um instrumento electrónico tenta emular um instrumento físico e acaba por ultrapassá-lo largamente. A pressão da caneta pode ser configurada para variar a espessura do traço, a cor, a transparência ou combinações desses parâmetros. Aqui só variou a espessura.

O Windows Vista suporta parcialmente o aparelho, mas sem pressão variável. O Linux nada. Só no XP a pressão variável realmente brilha.

Desenhos à mão livre, sem esboço, no programa vectorial Inkscape.

Só depois comecei a aprender truques como inclinar a mesa. O objectivo destes desenhos não era a perfeição mas a expressão livre do traço.

Inicialmente foram criados em SVG (scalar vector graphics), mas foram convertidos para PNG para publicação, porque muitos browsers não têm suporte para SVG.

Desenhos com mesa digitalizadora

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Sempre quis ter uma mesa digitalizadora, que me permitisse realmente desenhar no computador. O rato é um instrumento grosseiro, porque usa os músculos errados, as ligações psicomotoras erradas. Para desenhar, há que usar as pontas dos dedos e as suas ligações ao cérebro, fruto de milhões de anos de evolução.

Durante anos, não pude ter uma, porque uma mesa Wacom custava perto de 400 €, mas descobri que baixaram bastante de preço. Finalmente tenho uma NGS DrawMaster (made in China) e estou a adorar.

Isto é um desenho feito sobre uma foto da minha neta, usando o GIMP2.

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6 de abril de 2008

Genealogia

Pode encontrar aqui uma genealogia parcial e formatada não profissionalmente da família Cabanita.

Trabalho

Arbeit macht frei, estava escrito à porta de Auschwitz. O trabalho liberta. Os coitados que lá entravam, quando não podiam trabalhar, eram libertados deste vale de lágrimas. Uma coisa parecida, em russo, estava escrita à porta do campo de concentração de Verkhouta, o maior dos gulags*.

Eu, que não nasci rico, ainda por cima com grandes dificuldades de aprendizagem** nos saberes relacionados com a aquisição de fortuna pessoal, fui condenado a trabalhar. O trabalho libertou-me (mas por pouco) de passar fome.

Estou convencido que o esforço enorme que o Departamento de Defesa americano está a fazer no domínio da inteligência artificial para a criação de máquinas de matar "inteligentes" (por exemplo, aqueles aviões não pilotados que sobrevoam o Iraque, o Paquistão e o Afeganistão e de vez em quando matam uma família de nómadas pensando que era o Bin Laden) um dia destes vai dar fruto na iniciativa privada, com a criação de robots versáteis e polifuncionais, mais económicos que semi−escravos chineses e que vão tornar o trabalho assalariado, tal como o conhecemos hoje, desnecessário e inútil.

O problema é que, se não trabalharmos, muitos de nós ficarão sem desculpa para receber um ordenado. Vai ter que se inventar outra desculpa. Talvez estarmos vivos seja um dia desculpa suficiente, quem sabe...

É pá! Eu era suposto falar sobre o meu trabalho... Mas que assunto aborrecido! Fica para outro dia, tá bem?


* Caso o leitor sofra de défice de informação específica sobre um leque alargado de assuntos (notou esta expressão politicamente correcta?) e não costume ir à Wikipedia, Auschwitz era uma instalação industrial para escravizar e matar pessoas (especialmente judeus, ciganos, comunistas e homosexuais) que os nazis criaram durante a II Guerra Mundial. Verkhouta era o maior dos campos de trabalho escravo, chamados gulags, que existiram na Sibéria no período do paraíso soviético. (Voltar ao topo)

** As modas correntes no domínio da educação não permitem dizer que um indivíduo é burro ou atrasado mental. Já houve tempo em que os termos cretino e imbecil tinham um conteúdo científico. Penso que cretino era um indivíduo com um QI menor que 75 e imbecil quem o tivesse menor que 80, ou coisa parecida. Assim, outrora eu poderia dizer que era, no que toca à aptidão para ganhar dinheiro, um cretino a estudar para me tornar imbecil, mas chumbei. Mas agora não posso dizer isso, porque não devo ofender os... bem, as pessoas com dificuldades de aprendizagem!
Assim, quando o leitor quiser criticar alguém dizendo: "Irra, que é mesmo idiota!", terá que moderar-se e usar a expressão politicamente correcta: "Vê-se mesmo que tem imensas dificuldades de aprendizagem!" Eventualmente, a expressão dificuldades de aprendizagem, ao ser usada como insulto, terá de ser também banida e substituída por outra ainda mais diluída. Mas a realidade a que as palavras se referem vai manter-se a mesma, é claro! (Voltar ao topo)

5 de abril de 2008

Formação 3

Conclusão de Formação 2

Fim dos milagres

As soluções mistas e de baixo custo como as que desenvolvi, com todos os seus problemas de fiabilidade e de improviso, vieram a mostrar uma outra vantagem decisiva, depois de 1992, em situação de crise económica, com a retracção do investimento publicitário: a firma onde trabalhava pôde adaptar-se à proliferação do desktop publishing caseiro e aceitar sem problemas os documentos que as empresas produziam nos seus escritórios ou os particulares em casa, com versões piratas do CorelDraw ou do PageMaker, ou mesmo no Word, no Excel ou pior que tudo, em PowerPoint. Outro chapéu na minha cabeça: especialista em desencravar trabalhos caseiros!

Durante todos estes anos, a minha besta de carga em design gráfico tem sido o Corel Draw!, em todas as suas versões da 1 à 13 corrente. Posso condiderar-me um perito em CorelDraw! Mas mexo em virtualmente todos os programas de desktop publishing e de escritório. Em que programa mais odeio mexer? No FreeHand, antes da Macromedia, agora da Adobe. Mas mexo, se for preciso! Também nunca gostei muito do Quark Xpress. Actualmente o meu paginador é o InDesign da Adobe.

Em 1992 deixei a Grafe, para fundar uma boutique criativa. Não nos demos mal. Éramos três, um criativo, um comercial e uma arte-finalista e conseguimos facturar 60 000 contos (300 000€) por ano, três anos seguidos. Ao fim de três anos, conflitos pessoais levaram ao fecho da empresa.

Estava esgotado. Ainda tentei voltar a arranjar trabalho como criativo, mas não me senti muito atraído. A criatividade em si não me cansa, o que me destrói é a responsabilidade de pôr uma empresa a facturar com coisas que saem da minha cabeça. E se não saem? E se a idéia que me parece excelente agora não passa de uma idiotice? E se a ideia for boa, mas o meu concorrente tiver uma melhor? Sim, durante esses nove anos na Grafe, além de todas as cabriolas tecnológicas que acabei de descrever, ainda fui o director criativo no sentido estrito; o brainstormer, o criador de estratégias de marketing e comunicação, campanhas, slogans, textos, ilustrador e às vezes produtor, e ainda ajudando os accounts no contacto com os clientes.

Chamo a isto o complexo de Jesus. Imagine Jesus na Galileia, a visitar aldeias com os seus apóstolos e a fazer milagres. Imagine ainda que nesta fase a natureza divina da sua pessoa não era muito clara. Fazia os seus milagres, cada um mais espectacular que o outro, e (imagino eu) atormentava-se: E se de repente, numa aldeia qualquer, o leproso não sara, o cego não vê, o coxo não anda? Que fará esta gente? Apedrejam-me até à morte?

Não tenho nenhuma fantasia de ser Jesus, não é isso. Mas o problema é que a minha profissão era fazer milagres e as expectativas eram muito altas. Os êxitos eram considerados corriqueiros, os fracassos eram dolorosos. A tensão acumulava-se e, no meu caso, manifestava-se por problemas de pele. Noutros criativos era o alcoolismo ou as drogas; em mim era a pele. Além disso, estava a caminhar para o meu segundo divórcio.

Designer gráfico, designer de um processo industrial

Levei um ano a tentar ganhar a vida como pintor, mas não resultou. Então arranjei um emprego como designer gráfico.

A ideia era arranjar um emprego fácil. De facto era fácil, comparado com o que tinha andado a fazer. Mas o escorpião não pode deixar de picar, e em pouco tempo estava envolvido na transformação tecnológica da empresa. Penso que a minha contribuição foi decisiva para a sobrevivência da firma, num cenário de grave crise em que centenas de empresas gráficas de todos os tamanhos fecharam. Esta, pelo contrário, teve um crescimento espectacular.

A minha contribuição centrou-se na implementação de um sistema gráfico avançado através de soluções baratas, flexíveis e eficientes, e também no uso pioneiro da Internet para captura de trabalhos e para a sua produção. Hoje em dia isso é corriqueiro, mas no início parecia que estava a falar da quinta dimensão!

Para além de melhorar muito a produtividade da empresa, o uso da Internet para encomenda, recepção e aprovação dos trabalhos deve ter poupado algumas toneladas de CO2, em viagens que não foram feitas pelos carros da firma. Mas, pelo lado inverso, o ganho de produtividade levou à destruição de mais uns hectares valentes de floresta, convertidos em papel.

Em retrospectiva, chego à conclusão que fiz exactamente o mesmo que já tinha feito por duas vezes, tendo em conta a evolução tecnológica: ajudei a desenvolver uma solução mista de PCs e Macs, recebendo trabalho profissional de agências através dos Macs e trabalho caseiro e de escritório através dos PCs; uso de soluções muito baratas porque baseadas em know-how próprio da empresa e não nas soluções dos vendedores; uso de serviços de criatividade invulgares numa empresa gráfica para fidelizar os clientes; rentabilização desses serviços através da criação de vários canais de produção (impressão offset, impressão digital, grandes formatos, dados variáveis).

Porém, fiz tudo isso num meio em que não há qualquer prémio para o know how e desta vez não tive o benefício de ser sócio da empresa, portanto não ganhei praticamente nada com isso.

Das artes gráficas à Web

Presentemente, estou cada vez menos interessado no mundo das artes gráficas e cada vez mais interessado na Web. A minha autoformação centra-se numa linha independente do emprego. Desde há anos que desenvolvo como hobby todas as tecnologias da Web: HTML, CSS, Flash, mais as novas promessas da Web 2.0, Ajax e XML. Não sei se isto levará a algum proveito financeiro. Tudo o que fiz na Web, com excepção de uma loja online há uns anos, foi gratuito. Mas tudo pode mudar e estou aberto a novas possibilidades.

Depois de tantos anos a propor o uso dos PCs nas artes gráficas, estou agora numa via de transição, cada vez mais interessado no mundo Unix e nas soluções de Open Source.

Fim (artigo anterior: Formação 2)

Formação 2

Continuação de Formação 1 Termina em Formação 3

Criativo de publicidade, criativo de empresas

Larguei Arquitectura, portanto. Tinha que sustentar a família e comecei a fazer trabalhos de publicidade. Cheguei a ter um período louco com um emprego de revisor de imprensa no Dafundo das 7:30 às 13:30 mais outro de professor de Educação Visual na Azambuja à tarde e publicitário em Odivelas à noite, morando na Parede e sem ter ainda carro.

Nunca fiz qualquer esforço para me dedicar às artes gráficas, pode-se dizer antes que elas vieram ter comigo em várias ocasiões. Na actividade estudantil, estive sempre ligado a tarefas editoriais, umas clandestinas, outras semi. Uma das minhas tarefas políticas, antes do 25 de Abril, foi trabalhar numa tipografia clandestina (não era nada de especial, era apenas uma máquina de escrever e um policopiador num apartamento alugado em Paço de Arcos, mas ter-me-ia dado uns anitos de prisão se fosse descoberto).

A minha actividade política pós-25 de Abril teve sempre uma forte componente editorial. Por outro lado, o meu emprego honesto de revisor de Imprensa pôs-me em contacto com o jornalismo.

Essa formação informal ajudou-me na minha actividade seguinte. Rapidamente o trabalho de publicidade se tornou tão absorvente (e melhor pago) que abandonei a revisão.

Aprendi os ossos do ofício praticando. Estava num pequeno gabinete de criatividade e era o único criativo. Apliquei àquilo a metodologia de projecto de Arquitectura, mais a capacidade de escrever que sempre tive e o jeito para desenhar inato. E li tudo o que pude sobre o assunto, claro.

A empresa teve sucesso. Teve um crescimento explosivo e em breve se transformou numa agência de publicidade de serviço completo. Fui convidado para ser sócio, para evitar que me fosse embora à procura de melhor ordenado.

Durante nove anos fui o director criativo da Grafe, que passou de uma facturação de 30 000 contos (150 000€) para 400 000 contos (2 000 000€) nesse período. Um crescimento de mais de 13 vezes. A empresa fez alguma TV, mas mais de 90% da sua produção era em anúncios para imprensa, outdoors, material impresso e material de ponto de venda. Havia também uma componente importante de relações públicas, através de empresas associadas.

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Este era o circuito gráfico quando comecei a trabalhar
 

Fiz criatividade de publicidade, ilustração, copywriting e muitas outras coisas, mas a coisa mais criativa que fiz teve lugar ao nível da empresa. Nesse período aconteceu a informatização das artes gráficas e da publicidade. O modelo dominante eram as máquinas pesadas de fotocomposição Agfa, então dominantes no mercado, e um esquema informático de estações dedicadas, capazes apenas de produzir tiras de película que eram montadas à mão. Chegava então a revolução PostScript: máquinas de fotocomposição Linotronic, ligadas a estações de trabalho Apple. Estudei as alternativas e achei as possibilidades emergentes do Postscript muito mais interessantes. Perguntei−me então: seria possível fazer criar um sistema com PCs, que custavam menos de um quarto dos Macs?

Tornei-me um pioneiro em duas coisas: na implementação do Postscript como método de fotocomposição, centrado em compositoras Linotronic em vez das limitadas Agfa, e na criação de linhas de produção gráfica baseadas em PCs e nas primeiras versões Windows (o primeiro PageMaker que usei, creio que era a versão 1.0, trazia uma versão runtime do Windows... 1.0!). Na verdade eram redes mistas, porque havia sempre Macs, imbatíveis na gestão de cores. Isso implicava outro pioneirismo em Portugal: a conectividade de redes mistas.

A meio dos anos 80 havia em Portugal bastante resistência a este tipo de soluções. A fotocomposição tradicional apresentava soluções fiáveis e conhecidas. As novas soluções eram um tiro no escuro e uma aventura. Muitas coisas não funcionavam ou pediam paciência de santo para serem configuradas. Os operadores eram profundamente conservadores. Nessa altura imperava o fotocompositor ou teclista, um indivíduo capaz de escrever num teclado a uma velocidade vertiginosa, enquanto discutia futebol ou telenovela. A última coisa que ele ou ela queria era que as teclas deixassem de estar nos lugares habituais. É preciso lembrar também que o hardware dessa altura tinha performances ridículas!

Eu fartava-me de provocar crises. Durante o fim−de−semana instalava na secção de fotocomposição uma nova versão do Windows ou do PageMaker. Na segunda-feira era o fim do mundo, com os protestos dos operadores. Eu fazia assim porque se estivesse à espera do acordo deles, nunca me deixariam mudar nada!

Nessa altura não havia programas de desenho, para além do Illustrator, um exclusivo Mac com um início atribulado, caríssimo, lento e cheio de bugs. O PageMaker só fazia texto simples, sem condensação nem outlines. Alguém me deu um manual de Postscript e eu descobri que tudo era possível, estava na linguagem, mas os aplicativos não implementavam as coisas mais interessantes. Então a primeira linguagem de programação que aprendi foi o Postscript. Escrevia um file de texto com o Postscript, enviava-o para a porta LPT1 da impressora e ficava a ver a luzinha a piscar, que me dizia que o file estava a ser processado. Se a impressora cuspisse uma página impressa, era uma vitória; se a luzinha acabasse, algo correra mal. Toca a voltar ao ficheiro de texto.

A vantagem era que se conseguia criar funções matemáticas e iterações que produziam por vezes curvas muito mais elegantes que com os sistemas interactivos posteriores. Quando apareceu o CorelDraw! (1.0), deixei de programar em Postsctript e acabei por esquecer tudo o que tinha aprendido. Tinha as minhas rotinas guardadas em diskettes de oito polegadas cujos drives desapareceram e acabei por jogá-las fora ou perdi-as.

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Este é o circuito informático gráfico actual (simplificado). Textos, imagens, layouts, pedidos de trabalho ou obras completas são recebidos via Web, flash pens, CDs ou DVDs. Macs e PCs estão integrados numa rede interna, com um servidor para armazenamento dos ficheiros. Depois de design gráfico, preparação ou paginação nas estações de trabalho e revistos/aprovados através de provas digitais, são convertidos no formato Acrobat PDF e processados para várias saídas possíveis: impressão offset via CTP (Computer to Plate), impressão digital, grandes formatos, ou ainda enviados para produção externa. A coerência da cor é assegurada por perfis de cor integrados que comandam automaticamente a afinação das máquinas de impressão. Impressoras de provas, digitais, CTP, plotters de grande formato ou de corte estão na rede, muitas vezes geridas por computadores especializados chamados RIPs (raster image processors) que também tratam da imposição (arrumação das páginas em planos de grande formato).

Outra área onde me tornei pioneiro foi a colaboração com as gráficas. Fomos dos primeiros em Portugal a conseguir produzir páginas inteiras processadas em conjunto numa película pela saída Portscript; até então o normal era haver tiras de texto, títulos e "selecções" (conjuntos de quatro películas de cada cor para as fotos) e tudo era montado manualmente na mesa de luz. As selecções levaram tempo a integrar-se no processo informático, pois eram produzidas em scanners pesados e carísssimos que não tinham qualquer forma de diálogo com as soluções que começavam então a chamar-se desktop publishing. Produziam película e pronto. Além das selecções, muitos materiais existiam em película e era mais fácil integrá-los na montagem. Nessa altura ainda se fazia muita arte final à mão.

A primeira vitória foi conseguir produzir páginas inteiras com texto, títulos e traços, que depois eram levadas para a empresa de pré-impressão, onde estava o scanner, junto com os originais fotográficos para digitalizar. Aí se fazia a integração final, em quatro películas grandes cheias de outras películas coladas com fita, cada uma correspondente a uma cor de impressão. De cada uma dessas películas gravava-se uma chapa de impressão, que era entregue na gráfica. Pouco a pouco as casas de pré-impressão, ou casas de fotolito, foram sendo capazes de colocar os scanners online e produzir as películas inteiras, sem montagem. Então o desafio era fazer chegar as páginas à pré-impressão em suporte digital. Não havia CD-ROMs nem flash pens, muito menos Internet ou banda larga. Apenas diskettes e zips da Iomega.

Outra guerra: os formatos. Antes da revolução Acrobat, a comunicação só se podia fazer, em cima, através de programas que mantivessem o mesmo formato em Macs e PCs, como o PageMaker e o Quark Xpress; em baixo através de Postscript puro ou EPS. Era sempre extremamente pouco fiável. Tornei-me, por necessidade, especialista em formatos, na transição de formato para formato.

Um exemplo curioso desta guerra de formatos. Algures nos anos 80, surge a possibilidade de fazermos o relatório anual da Finantia (acho que na altura ainda não era um banco). Qual o problema? Parece que o eng. Jorge Jardim Gonçalves, o mesmo que mais tarde fundou o BCP (penso que era a mesma pessoa, mas posso estar enganado), era fã do sistema de desktop publishing Ventura. Obrigava toda a gente no escritório a trabalhar com ele e o relatório estava em Ventura. Eu apenas sabia que esse software existia. Falei com o homem ao telefone, e disse que me encarregava do relatório. Arranjei uma diskette do Ventura e instalei-o, para o que tive de abandonar o Windows e trabalhar com uma interface mais antiga chamada Gem. O Ventura era um sistema magnífico, para alguém que conseguisse pensar logicamente. Compreendo que o eng. Jardim Gonçalves gostasse dele. Porém, nunca consegui contagiar ninguém com o meu entusiasmo. As secretárias da Finantia usavam-no, a julgar pelo tom em que falavam, porque o sr. engenheiro assim queria e pronto. E lá fiz o relatório, vários anos seguidos, guardando o programa, ano após ano, para essa eventualidade.

Continua e conlui em Formação 3

Formação 1

Continua em Formação 2

Talvez escreva um dia um texto sobre a minha formação (ou falta dela). Ou sobre a deformação da formação profissional, ou mesmo sobre a formação da deformação profissional.

Ou ainda sobre a inefável relação entre formação e educação, entre educação e cultura, entre cultura e sabedoria.

Ou então sobre a relação entre curiosidade e imaginação, formação e formatação permanente.

Mais: talvez me atreva a escrever sobre a relação entre formação da imaginação e resistência à formatação!

Mas para já, falemos dos dados essenciais da minha formação. Formalmente, em termos de canudo, tenho apenas o terceiro ano incompleto de Arquitectura, que nunca exerci. O Instituto de Emprego e Formação Profissional anda a falar em fornecer às pessoas canudos correspondentes à formação adquirida por experiência, ao longo da sua vida profissional. Aí, acho que arranjava um grande canudo...

Estudei Arquitectura, mas...

Devido à minha idade, ainda fui vítima do sistema escolar salazarista, com os seus métodos terríveis de ensino sebenteiro e autoritário. Mas uma coisa vos digo: o sucesso e o aproveitamento escolares eram muitíssimo superiores ao que se consegue actualmente. Não digo que devamos voltar ao antigamente; o que eu digo é que alguma coisa está errada no ensino actual e ainda não se descobriu o que é.

© Carlos Cabanita 2008. Free to copy & publish but must indicate author, modification not allowed.

Levei parte dos anos 70 a fazer figuras destas

Não me dei mal por lá, até era um dos melhores alunos. As minhas aptidões apontavam para a carreira artística e por isso fui para Arquitectura.

O curso estava a ser muito interessante, mas a minha atenção era cada vez mais puxada para a actividade política (clandestina, nessa altura). Andei ligado ao movimento associativo estudantil e ao marxismo radical. Financiava o curso com um part-time como desenhador de construção civil. Então chegou o 25 de Abril. A revolução tornou-se muito mais absorvente que tudo o resto, além do que me deixou sem emprego, porque o atelier que me empregava fechou.

Nos anos seguintes interrompi a minha formação. Tinha um pequeno part-time como revisor de imprensa e o resto do tempo era dedicado à actividade política. Um curso completo de marxismo pode-se considerar formação?

Por fim deixei a actividade política (e o meu primeiro casamento), em 1979, e voltei a estudar Arquitectura. Correu tudo muito bem, até que estava prestes a passar para o quinto ano, com notas excelentes, quando o curso se desmoronou devido a um problema de procedências. Quero dizer, algumas cadeiras que eu tinha deixado por fazer no 25 de Abril invalidavam todo o curso que eu tinha tirado até então.

Este problema tinha-se posto anos antes para centenas de alunos de outras faculdades e tinha-se achado uma solução. Mas para mim, isolado e atrasado, não havia nenhuma. Tive que ir a correr fazer História da Arte do segundo ano, para ficar com o terceiro incompleto, o que me deu habilitação para ser professor de Educação Visual por uns meses, anos mais tarde.

Ainda tentei continuar a estudar a partir do terceiro ano, mas aquilo não tinha piada nenhuma. Estava a fazer cadeiras que já tinha feito e a escola estava a ser invadida pela versão mais oportunista do pós-modernismo, o taveirismo. Não queria defender o modernismo tradicional (!), não queria aderir ao taveirismo e estava muito mais interessado noutros dois campos decisivos para a minha formação humana: tinha descoberto a noite, primeiro, e a paternidade, depois.

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Quando comecei como criativo ainda era quase tudo feito à mão. As maquetas eram pintadas com marcadores e com letras transferíveis, as ilustrações eram criadas com pincel e aerógrafo; os textos eram escritos à mão...

O tempo que passei a estudar Arquitectura não foi perdido. Nunca exerci, mas aquilo é um curso geral de design, muito melhor que os cursos específicos que há por aí. O método de projectar acompanhou-me por toda a vida, quer seja a criar uma campanha de publicidade, uma página Web ou uma empresa.

Continua em Formação 2

4 de abril de 2008

Quem sou

Sou um português de 55 anos, bidivorciado e bom rapaz. Sou avô de um trio de netos. Não sou o tipo mais sociável do mundo, mas adoro conversar sobre os mais abstrusos assuntos. Isso pode ser bom ou mau, depende. Para uns posso ser interessante, para outros um grande chato. Penso que não sou mau tipo de todo, embora as minhas ex possam ter uma opinião diferente.

Intro

Olá

Este site pessoal não pretende ser muito lógico, mas apenas um lugar para eu publicar o que tenho feito. Interesso−me por web design, política, filosofia, por ler e escrever e ainda desenho e pinto umas coisas, portanto o site reflecte, ou há−de reflectir, os meus interesses. Assim:

Identidade

Na secção Identidade, as páginas Quem sou e Trabalho ainda esperam pachorra para serem preenchidas. Escrevi uma pequena graçola em cada uma, só para não desiludir totalmente quem lá vá parar.

Na Formação, comecei a descrever o meu processo formativo e autoformativo e acabei quase numa autobiografia.

Falar de nós próprios não é simples. É preciso ter o bom senso de omitir coisas que adoramos dizer, mas que são uma seca para terceiros, bem como ter a coragem de dizer coisas que nos custam, mas que os outros poderão achar muuuuito interessantes. E saber se devemos dizê−las, de qualquer modo.

Assim, consultei a minha alminha preguiçosa sobre estas questões e ela ainda não me respondeu. Entretanto, fiquem lá com as graçolas...

Mas nessa secção há uma genealogia da minha família, onde é explicado finalmente o mistério da origem do nome Cabanita. Os Zé−Ninguéns como eu também podem ter uma genealogia, não são só os pretensos fidalgos. Os meus antepassados podem não ter comandado exércitos nem armadas, mas são gente concreta cujas vidas tiveram consequências − uma delas eu.

Interesses

Na secção interesses já há bastante mais para ver. Como eu sou um leitor compulsivo, há algumas notas de leitura, não sobre todos os livros que li recentemente, mas sobre os que me interessaram o suficiente para querer escrever sobre eles. Trata-se de Battle Ready, de Tom Clancy, Plan of Attack, de Bob Woodward, a trilogia Baroque Cycle, de Neil Stephenson, O Codex 632, de José Ribeiro dos Santos, Bilhete de Identidade, de Maria Filomena Mónica, e Baudolino, de Umberto Eco.

Esperam oportunidade de ganhar notas de leitura The Rule of Four, de Ian Caldwell e Dustin Thomason, Freakonomics, de Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner, mais uma nota conjunta para Diplomacy, de Henry Kissinger, e Estratégia III e V, do gen. Loureiro dos Santos.

Seguem−se os textos, artigos de opinião sobre um assunto ou outro. Para já apenas quatro, mas espero que brevemente haja mais. Uma noite com os lutadores fala de um espectáculo de full contact e é um dos textos mais estranhos que já escrevi. Ainda estou para saber se estava então na plena posse das minhas faculdades...

O Povo é que tem a culpa, é uma espécie de manifesto político muito pouco ortodoxo (como devem ser os bons manifestos políticos).

Marxistas de todo o mundo... é um ajuste de contas com a ideologia em que desperdicei muito esforço durante a minha juventude, bem como uma reflexão sobre as perspectivas históricas da esquerda.

Os ilhéus de Quemoy e Matsu alinhava umas ideias sobre comunicação social.

Há uma reportagem sobre um passeio às casas onde vivi a minha infância, cheia de fotos e texto.

Não pinto a óleo há muito tempo. Tenho algumas pinturas em Arte.

Por fim as fotos. Eu não sou um fotógrafo profissional, portanto não espere obras−primas. Há uma zona pública com poucas fotos, e uma zona privada com fotos de família, em particular dos meus netos Hugo e Rita. Para lá entrar precisa da senha. Contacte−me e eu dou−lha (se achar que devo, claro).

Espero que goste.