22 de maio de 2008

Alguns aitemes para discutir

Não sou nacionalista, mas gosto das nossas coisas. Uma das coisas que temos e eu gosto é a língua. Na verdade fui programado para gostar dela, tal qual fui programado para gostar da minha mãe e do meu pai. Nunca tive escolha...

Portanto nasci dentro do português, cresci lá dentro e penso em português. Nada de especial, milhões de pessoas fazem isso!

Gostar de ser o que se é e de amar o que se foi programado para amar, a isso os psicólogos chamam estar integrado. Eu estou.

Lucidamente, sei que o português é uma língua como muitas outras. Mas é a minha!

Também não sou purista em relação à língua. A língua é um código vivo, sempre criado e recriado por todos os que a usam para falar, pensar e escrever.

Novas ideias expressas por palavras vindas de outras línguas? Venham elas!

Esperar que um linguista encartado aprove novas palavras e as autorize a circular? Ridículo!

Liberta da prisão académica dos literatos oitocentistas, a língua evolui de novo com rapidez, propulsionada pela oralidade e pela escrita rápida dos novos media. Como no tempo de Gil Vicente ou Fernão Lopes. Acudom asinha ca matom o meestre!

Mas atenção, asneira continua a ser asneira!

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Se tivermos que ser provincianos, sejamo-lo à portuguesa. O pior provinciano é o que tenta ser cosmopolita imitando provincianos doutros lados.

Como toda a gente sabe, o português descende do latim. Entre as duas línguas existem sonoridades comuns. Pessoalmente, eu adoro o latim. Praticamente a única coisa boa de ser obrigado a ir à missa em garoto era que a missa era dita em latim. Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, miserere nobis.

É característico do falante português esforçar-se, quando fala outra língua, por imitar o sotaque original. Claro que não consegue, mas tenta. Outros povos não se esforçam muito ou nada: casos dos espanhóis, franceses e ingleses.

Ora o inglês é uma língua germânica na sua estrutura, mas fortemente aculturada pelo contacto com as línguas latinas, nomeadamente o francês antigo. Na corte de Inglaterra falava-se francês. Mas entre os séculos XII e XVI o inglês sofreu um processo chamado great vowel shift, ou grande deslocamento das vogais. Foi aí que os ingleses ficaram a dizer ai em vez de i, ei em vez de a, i em vez de e e uma data de outras coisas.

Sendo ingleses, portanto nada dados a esforçar-se muito no domínio do sotaque, os eruditos de Oxford e Cambridge começaram a pronunciar à inglesa o latim que estudavam — foi assim que surgiu o macarrónico latim de Oxford e era aí que eu queria chegar.

Os portugueses que se dedicam aos negócios ou à informática entraram em contacto com alguns neologismos de origem norte-americana e, saloiamente, decidiram pronunciá-los à inglesa — sem saberem que estavam a assassinar o latim. Assim dizem aitem em vez de item, mídia em vez de média. E deita em vez de data, mas na verdade deveriam dizer dados.

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Um amigo meu dos tempos do liceu conseguia falar inglês de praia com sotaque algarvio...
 

A nossa língua tem uma grande proximidade com o latim, que falta ao inglês. Para eles, um dado é um datum (e lêem deitam) e para o plural usam o latim data (deita) porque tratam a palavra como um corpo estranho ao inglês.

Nós não. Não usamos datum, data porque há séculos que se tornou na nossa palavra dado, dados. A palavra significa exactamente o mesmo, por isso devemos manter o português. Idem com medium, media. Nós temos meio, meios, e funciona perfeitamente.

Mas se temos de dizer multimedia, não caiamos no ridículo de dizer mâltaimidia! Multi é latim, media também: multimédia, pois claro!

Item, caso não saibam, é uma palavra portuguesa. Vem no dicionário. Por favorzinho, pronunciem-no correctamente (como idem). Quem diz aitem pode saber muito de informática ou negócios mas é ignorante em português!

Quanto aos bites e baites, nada a fazer, são palavras inglesas, mais os spredes e as praime reites. Mas os megas e os gigas são grego.

Mais uma nota, sobre o inglês como língua franca. Em tempos tentei falar inglês como os ingleses, mas desisti. Em primeiro lugar, é extremamente difícil. Estrangeiros que vivem em Portugal há muitos anos, nós portugueses apanhamo-los logo que abrem a boca. Para os ingleses, claro, é o mesmo. Em segundo lugar é um pouco ridículo a gente esforçar-se tanto por falar com perfeição a língua das pessoas (ingleses a norte-americanos) menos dispostas no mundo a aprender a(s) nossa(s).

Portanto, dediquei-me a falar inglês com fluência mas com um sotaque atroz. Que é exactamente o que fazem todos os que usam o inglês como língua franca. E com sotaques igualmente atrozes falo desembaraçadamente francês e portunhol!

E se querem a minha opinião sincera, o sotaque inglês mais atroz é precisamente o dos ingleses.

Amen, assim seja, então. (E não ei-men!)

Resolver o nosso problema demográfico é fácil

Num aparte sobre o assunto da mensagem anterior, lembrei-me da recente preocupação nacional com a taxa de natalidade. Íamos ser um país de velhos, a Segurança Social iria falir, etc.

Urgia que o governo pusesse cobro a este estado de coisas, subsidiasse os nascimentos, apoiasse os casais com muitos filhos...

Não se disse que os velhos que seremos (ou já somos) terão uma vida activa mais longa, e produtiva, por por terem maior esperança de vida e gozarem de melhores condições de saúde. Não se disse que as pessoas têm menos filhos não por falta de dinheiro, mas porque têm um pouquinho dele (ou crédito) e algumas condições de vida que querem melhorar, tanto para elas próprias como para os seus descendentes.

Numa sociedade dominada pela informação (enfim, um bocadinho...) a interrupção de uma carreira laboral é perigosa, porque pode isolar o trabalhador das últimas novidades e comprometer a sua capacidade de competir. Por outro lado, a mesma sociedade da informação leva-nos a investir cada vez mais recursos na educação de cada criança, para que ela tenha melhores condições de sucesso.

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Ter muitos filhos é uma proposta desvantajosa para um casal moderno. Para além de ficar arruinado (e de dar a cada criança menos condições do que desejaria) faltam-lhe os recursos humanos para cuidar de mais que um ou dois garotos.

Portanto, mesmo que o governo gaste mais dinheiro a subsidiar a maternidade e a paternidade, esses recursos continuarão a ser empregues pelos pais num número reduzido de garotos. O governo nunca poderá, de resto, aproximar-se das somas que cada progenitor (médio) gasta do próprio bolso com cada um dos seus filhos. Nem sequer na Suécia...

Porquê tanto sururu?

Como em qualquer boa discussão social, os verdadeiros argumentos raramente são ditos em voz alta, pois não se trata de razões mas sim de preconceitos.

Detrás desta cortina de argumentos pseudo-razoáveis, perfila-se a velha paranóia nacionalista e xenófoba. Outras nações, outros grupos, enfim, os outros vão reproduzir-se mais do que nós e vão ameaçar-nos! Vão disputar o nosso espaço vital e não teremos bravos soldados em número suficiente para nos defendermos! Mães portuguesas, toca a parir já! A Pátria exige!

No entanto, resolver o défice populacional, para um país europeu como Portugal, onde milhões de habitantes de outras partes do mundo não se importavam mesmo nada de morar, é muito simples: basta facilitar um pouco a imigração!

— Estás maluco! E a nossa identidade? Essa gente não fala nada que se entenda, não tem a pele da mesma cor da nossa, não vai à mesma igreja, se calhar nem sequer gosta de bacalhau e de fado!

Pois é. A nossa frágil cultura não aguentaria decerto uma tal infusão de gente nova e ideias novas. Somos um país definhado e provinciano, uma sombra do que fomos em Quinhentos...

Então mais vale deixar estar tudo como está, não é?


Nota: Deliberadamente, não discuti o desemprego, grande argumento da xenofobia. É uma variável de curto-médio prazo. A longo prazo, um país ou região beneficia com o aporte de recursos humanos. Vejam o caso de Portugal, que viu a sua população aumentar quase 10% em situação de grande crise económica (e política), com a vinda dos retornados, em 1975. As previsões catastróficas eram então muitas e os comportamentos xenófobos existiram, apesar de se tratar na verdade de portugueses; porém todas essas pessoas se integraram e creio que contribuiram muito para o crescimento económico do nosso país, até à crise recente. É mesmo possível que tenham trazido com eles um dinamismo que nos faltava...

9 de maio de 2008

O fim dos tempos

No texto Donos e Deuses 2, referi-me de forma optimista ao fenómeno do fundamentalismo religioso, crendo que era uma tendência passageira que se iria esbater e que a secularização das sociedades iria continuar.

Mas continuei a pensar sobre o assunto e entrei por vistas mais sombrias.

Não parti de ideias religiosas que, na verdade, seriam a explicação mais simples para o aumento do fundamentalismo: todos os deuses decidiram de repente espevitar os seus fiéis, talvez depois de declararem uns aos outros uma guerra de marketing.

Para um romance, era um bom cenário, com um grande problema: qualquer deus que ganhasse o conflito, os adeptos dos outros queimariam o livro (e/ou ou autor). Se todos ganhassem ou perdessem, não teria piada, e mesmo assim os fiéis quereriam queimar o livro.

Não, agora a sério, o problema tem a ver com o petróleo e com a comida.

Com a sua falta, mais exactamente. O petróleo vai continuar a subir, devido a que a sua procura aumentou. Cada vez mais pessoas precisam dele, ou por terem saído da pobreza abjecta, ou simplesmente por terem nascido. Especulação, instabilidade política e militar são factores, mas dependem da escassez: quanto maior a escassez, maior a especulação e a instabilidade política e militar.

Idem com a comida. Os preços agrícolas começaram a subir, porquê? Porque o petróleo subiu, por causa do etanol, porque há 6600 milhões de pessoas que precisam de comer qualquer coisa todos os dias, porque há especulação, etc. — e isso representa a fome para uma percentagem da humanidade.

Estávamos muito preocupados com o futuro do planeta, com o aquecimento global, com a globalização, quando um outro problema muito mais grave e urgente nos ameaça.

Provavelmente, estamos a bater no muro.

© Carlos Cabanita 2008. Free to copy & publish but must indicate author, modification not allowed.

Vou dizer o nome da coisa, que estamos a querer ignorar há décadas: superpopulação*.

Nos anos 60 do século XX, as pessoas estavam preocupadas. As projecções demográficas mostravam números disparatados. Impossível alimentar tanta gente!

Começou-se a pensar em controlo de natalidade, forçado em certos países. Começou aí a guerra de certas igrejas contra a contracepção.

Então descobriu-se a curva em S. Se o bem-estar das populações aumentasse, a natalidade decrescia rapidamente. Com o aumento da qualidade de vida, as populações da Europa e dos Estados Unidos estabilizaram. Ok, problema resolvido. Agora, pelo contrário, os países europeus preocupam-se em estimular a natalidade, quem diria...**

Não estamos a esquecer-nos de nada?

A maioria dos 6,6 mil milhões de pessoas*** nossas vizinhas nesta região do espaço não está nada perto da curva do S: passa fomeca de rabo, sofre toda a espécie de doenças, sobrevive a massacres e genocídios. Portanto, tem filhos aos magotes.

Isto não augura nada de bom.

Possivelmente aproximamo-nos de uma zona excepcionalmente violenta da história, em que poderá estar em causa a sobrevivência da nossa espécie.

Muitos de nós esperávamos que medidas justas pudessem ser discutidas e implementadas com antecedência, para resolver os grandes problemas da humanidade e do planeta. A maioria, está visto, não acredita nisso.

É esse o significado do desenvolvimento de culturas políticas que se fecham às ideias de solidariedade global e insistem obsessivamente nas políticas identitárias de grupo e na exclusão do outro. Para essas correntes, o caminho da sobrevivência passa pela defesa do seu grupo contra todos os outros, incluindo a promoção da natalidade. Nessas circunstâncias, o genocídio em proporções cósmicas é o resultado inevitável, porque não haverá lugar para todos.

A consciência colectiva não é só feita de ideias claras e discutidas por todos. Dela fazem parte também os medos e as obsessões muitas vezes inconfessáveis. Problemas incontornáveis como o de saber se de futuro haverá lugar para a sobrevivência dos MEUS descendentes não podem deixar de influenciar gravemente a consciência de todos e de cada um de nós, mesmo se não são discutidos abertamente - ou talvez precisamente por isso.

Esses medos e obsessões exprimem-se de outras maneiras e o fundamentalismo religioso é uma delas, incluindo mesmo, em muitas correntes, a noção do fim dos tempos.

Não tenho muita vontade de elaborar exaustivamente este cenário deprimente e as suas consequências catastróficas. A tendência para a preparação da batalha final não é a única, é contrariada por outras tendências no sentido do bom senso e da cooperação. Qual ganhará, não é garantido.

População mundial 1750-2150

População mundial. Fonte: Wikipédia
1750 1800 1850 1900 1950 1999 2050 2150
Oceania 2 2 2 6 13 30 46 51
América do Norte* 2 7 26 82 172 307 392 398
Europa 163 203 276 408 547 729 628 517
América Latina e Caribe* 16 24 38 74 167 511 809 912
África 106 107 111 133 221 767 1766 2308
Ásia 502 635 809 947 1402 3634 5268 5561
Mundo 791 978 1262 1650 2521 5978 8909 9746
* O México é incluído na América Latina pela ONU. Unidade: milhões de habitantes. Fonte: Wikipédia

Mas se conseguirmos que a humanidade, no seu todo, um dia atravesse a sua curva em S, isso provavelmente não será um processo limpo, mas será atravessado por crises graves, muita violência e pânico. E, para que a humanidade se salve, teremos também de lutar por ela.

Os sinais dos tempos foram descritos por muitos alucinados, ao longo da história, desde o Apocalipse de S. João até aos modernos profetas da Internet. Segundo eles, estes sinais marcam a proximidade da batalha final. Porém, não conheço caso algum em que esses alucinados tenham descrito um sinal óbvio: a subida dos preços da comida e da energia.


* Discussão sobre a superpopulação mundial em português, na Wikipédia. [Voltar ao texto]

** Transição demográfica, ver na Wikipédia em português. As Nações Unidas prevêem que a população mundial estabilizará nos 10 000 milhões por volta de 2200. Mesmo aceitando estes números, eu penso que há o perigo da economia mundial se tornar instável num prazo muito mais curto, devido à escassez de recursos e à catástrofe climática. [Voltar ao texto]

*** Pode ver aqui uma estimativa do total da população mundial neste preciso momento, entre outros dados (em inglês). [Voltar ao texto]

5 de maio de 2008

Genes e memes

Tendo escrito e ilustrado o texto anterior, comecei-me a preocupar com a defesa das ideias que exprimi.
Não sou cientista nem filósofo e para manter este blog e a minha página pessoal só disponho de umas quantas horas à noite, roubadas ao sono.
Provar ou invalidar a ideia de que a socialização do homem é parecida com a domesticação do cão está fora das minhas capacidades. Seria precisa larga pesquisa em psicologia comparada.
Portanto, o meu texto é uma opinião amadora, baseada numa longa experiência como dono de animais e numa infância com muito contacto com a religião.
Possa quem ler o texto divertir-se tanto a lê-lo como eu a escrevê-lo.
Mas não se trata de uma paródia. Acredito seriamente que o que exponho tem mais que um grão de verdade e explica alguns aspectos do comportamento da nossa espécie, nomeadamente o lugar que a religião ocupa em todas as sociedades humanas.
Um cão não é capaz de sentimento religioso? O animal pensa e exprime um leque bastante variado de emoções. Isso é evidente para quem tenha tido um.
Interessante é o facto do cão pensar e exprimir-se com o corpo. Adivinhar a emoção do animal é facílimo, basta olhar para ele. Mas o cão usa também o seu corpo para comunicar com o dono. Se ele vem ter comigo, pede atenção tocando-me com a pata ou com o focinho e depois vai até à porta, repetindo o acto várias vezes para o caso de eu não ligar à primeira, traduzido em linguagem humana quer dizer: Leva-me à rua!
Acontece o mesmo connosco. No seu livro O Sentimento de Si1, António Damásio indica que todo o corpo participa no acto de pensar, que a matéria prima básica do pensamento são imagens do corpo, que incluem tudo o que sentimos com o corpo e com os sentidos, mais a nossa memória.
Disseram-me sempre que pensávamos por palavras e eu sempre achei estranho porque pareço pensar por imagens, convertendo-as em palavras uma fracção de segundo antes de falar ou de articulá-las no meu monólogo interno. Tinha atingido a dimensão visual das imagens, mas a sua dimensão corporal surpreendeu-me.
Pensei logo na minha cadela. Afinal não somos tão diferentes! Nem poderíamos ser, sendo produtos próximos da evolução.
Portanto a minha cadela adorava-me, venerava-me. Provavelmente essa é a grande razão para as pessoas terem animais de estimação.
É também esta a atitude das pessoas perante os deuses.
O pensamento humano aparece assim como a evolução das capacidades animais, organicamente ligado à nossa fisiologia e também à nossa vida social, pois era com o corpo que se comunicava (e ainda se comunica) antes da linguagem.
Nada bom para a ideia do pensamento puramente racional.
Mas este encontra-se sob ataque de outro ponto de vista. Richard Dawkins, ao formular a sua teoria do Gene Egoísta2, que postulava que os seres vivos eram meros veículos para os genes se reproduzirem e prosperarem, postulou também os memes, unidades de informação (ditos, ideias, anedotas, danças, canções...) que se propagam de pessoa para pessoa, são lembrados ou esquecidos e têm mutações no processo.
© Carlos Cabanita 2008. Free to copy & publish but must indicate author, modification not allowed. Portanto, os memes propagam-se como vírus. Hoje centenas de cientistas e estudiosos investigam as leis da sua propagação, incluindo os que se dedicam ao comportamento da Web.
De um lado pensamos com o corpo, como uns animais; de outro são as nossas ideias que nos colonizam. Nada bom para o pensamento racional.
Mas podemos desenvolver e desenvolvemos memes que controlem a coerência do nosso pensamento, como o método científico, considerado um memeplex.
A racionalidade parece-se com a liberdade. Há tantas constrições na nossa vida que parecemos não ter qualquer liberdade; mas quando a não temos a diferença é evidente. Do mesmo modo, há tantas limitações ao pensamento racional que parece não existir; de tal modo que temos de conhecer o mais possível a sua metodogia e requerimentos para o podermos exercer, nas preciosas poucas ocasiões em que podemos atingi-lo.
AVISO: Você acabou de ser exposto ao metameme, ou seja, o meme sobre os memes... e provavelmente foi infectado por ele.
1 António Damásio, O Sentimento de Si, Europa-América. Nota biográfica aqui. [Voltar ao texto]
2 Richard Dawkins, O Gene Egoísta, Gradiva. Na Wikipédia, em português, um artigo sobre os memes. [Voltar ao texto]

2 de maio de 2008

Donos e deuses (2)

Nesta mensagem continuo o assunto da anterior, desta vez tratando da semelhança entre o processo de domesticação dos animais e o processo de civilização da humanidade, incluindo o facto de que, a maior parte do tempo (e ainda agora, para alguns), a própria humanidade concebeu a civilização como uma domesticação levada a cabo por seres superiores.

© Carlos Cabanita 2008. Free to copy & publish but must indicate author, modification not allowed. [ESTE TEXTO NÃO EXISTE NA MINHA PÁGINA PESSOAL]

[ESTE TEXTO CONCLUI A MENSAGEM ANTERIOR]

A noção de progresso é historicamente recente. Os humanistas do Renascimento começaram com a ideia de recuperar a sabedoria e a arte dos antigos, mas cedo tiveram de concluir que os tinham ultrapassado largamente. A partir da Revolução Industrial, com a grande ruptura tecnológica, tornou-se una ideia corrente, incluindo as suas contestações pós-modernas.

Para os antigos, porém, a ideia de progresso não existe. A concepção mais generalizada é a da queda ou decadência, tal como é apresentada, por exemplo, na Bíblia. No início havia uma espécie de paraíso, de onde a humanidade foi expulsa por ter desobedecido ao deus (e a culpa é da mulher, desde o início).

Toda a história subsequente é apresentada como a luta do homem para voltar às boas graças do deus (liderada pelos santos e pelos justos, negada pelos ímpios). Eventualmente a divindade porá fim à luta inglória do homem, fazendo os justos ingressar no paraíso e excluindo os outros.

Esta relação dos humanos com a divindade é extremamente curiosa. Um deus autoritário mas esclarecido exige dos homens obediência absoluta. Os homens, coitados, são criaturas fracas e tontas e quase nunca conseguem corresponder ao que o deus espera deles, portanto vivem constantemente no terror do castigo.

As opiniões aqui expressas são pessoais. Não tenho nem a formação nem o tempo para pesquisá-las, documentá-las ou argumentá-las exaustivamente. A minha esperança é que, como bons memes, prossigam a sua vida viral com sucesso.

Sobre que incidem as exigências da divindade? Que quer dos homens? Muitas coisas, começando por uma lealdade total no culto. A relação afectiva com o deus deve ser forte, exclusiva e obsessiva. Dependente do deus, o homem deve bajulá-lo de forma obsessiva, para não ser esquecido.

A ideia do deus precisar dos elogios do homem é evidentemente ridícula. Se precisasse seria um ser extremamente inseguro. O que predomina é a necessidade desesperada do homem captar a atenção do deus. Essa necessidade deu de comer a muitas gerações de padres, imãs, xamanes e evangelistas e encorajou muitas cruzadas, jiades, autos de fé e progromes, em que os homens tentam provar a sua lealdade ao deus chacinando os infiéis.

É uma relação canina? Claro.

O cão saúda a chegada do dono com uma alegria extrema. Procura constantemente a sua atenção, sobretudo quando precisa de alguma coisa. Vive na expectativa constante da recompensa, também sempre no temor do castigo. E sempre pronto a atacar alguém, à mínima incitação do dono, ou mesmo sem ela, se imaginar que defende os interesses dele ou demonstra a sua lealdade.

O homens usam com a divindade as formas de deferência mais altas possíveis na sua hierarquia social. Quero eu dizer, sem modos de relacionamento eficazes para tratar com uma entidade qualitativamente superior, tratam-na como o melhor dos da sua espécie. Tal como os cães usam para com os humanos comportamentos de submissão e homenagem próprios da antiga linguagem da alcateia.

Dir-me-ão que esta é uma ideia blasfema. Claro que é, quanto a isso nada a fazer. Estou a discutir coisas que um crente não pode discutir. Mas não sou crente, por isso posso discuti-las. Dirão que a relação entre o deus e o homem é mais como tem sido apresentada, uma relação pai-filho. Deus criou o homem e portanto vigia-o sempre, preocupado com o seu bem-estar, reprimindo os seus erros, encorajando os seus progressos.

Eu respondo, a relação pai-filho é muito mais descontraída. Mesmo com um pai autoritário à moda antiga, nunca existe essa obsessão do castigo (só nos casos de pais abusadores, mas a comparação com esse tipo de relação não abona nada a favor da relação divina). E os filhos sabem que a sua vida se encaminha para a independência dos pais, coisa impensável na relação homem-deus.

Transpondo isto para a psicanálise, teríamos a fantasia religiosa como uma extensão do mecanismo da criação do superego e prolongado depois como uma formação ligada ao complexo de Édipo. Mas a fantasia religiosa é sobretudo uma criação social e não encontro no complexo de Édipo energia suficiente (e universalidade suficiente) para propulsionar o terror e o êxtase religiosos.

A relação pai-filho é entre seres do mesmo nível hierárquico. Mesmo se a criança tem menores capacidades e autonomia, não há essa grande diferença de nível mental. Entre o cão e o homem, o desnível é enorme. Entre o homem e deus também, mesmo que um deles seja imaginário.

Que mais exige o deus do homem, para além de ser bajulado? Exige que o homem deixe de ser selvagem e aceite as muitas, variadas e incompreensíveis regras da civilização. Em suma, que seja domesticado. Os dez mandamentos vêm logo à ideia, mas noutros lugares da Bíblia existem muitas outras obrigações e proibições, incluindo sobre o modo como no deserto se deve usar o cajado para enterrar excrementos. Toda a domesticação começa com a higiene, como sabe todo aquele que teve um cão... ou uma criança!

Derivadas da primazia da higiene, surgem as ideias de pureza, essenciais em todos os cultos antigos, mas quase todas, inicialmente sensatas, se tornam disparatadas. Consideradas impuras, as mulheres são marginalizadas nos cultos. Algures na Bíblia são proibidas de executar certas manobras culinárias quando estão menstruadas. Hoje em dia, os fiéis católicos só podem comungar depois de se terem purificado através da confissão. Se em tempos os fiéis foram encorajados a lavar as mãos ao entrar no templo, o que parece uma boa ideia e diminui o contágio de uma séria de doenças, hoje, numa igreja católica, apenas tocam com os dedos na pia da água benta e se persignam: o acto tornou-se apenas simbólico e a higiene piorou, pois a pia de água benta é um viveiro de germes1.

Mas estes são os aspectos anedóticos. Muito mais a sério, o deus impõe o código ético. A moral humana não é baseada na sua utilidade para as comunidades humanas, mas na vontade divina. Como diria Freud, o tabu só pode ser imposto pelo totem.

Evidentemente que os códigos morais variaram loucamente de comunidade para comunidade, mesmo se baseados aparentemente no mesmo texto divino. No antigo templo de Jerusalém praticava-se a prostituição sagrada, coisa que não se faz hoje em nenhuma corrente judaica, creio eu. Mas o livro é o mesmo.

Aparentemente, para impor o extraordinário nível de obediência necessário às complexas sociedades urbanas do Médio Oriente, e das muitas que se seguiriam, o homem teve que ser domesticado, e para isso teve que usar um dono imaginário.

Analisando este processo, não estou a condená-lo. Se aconteceu assim em tantos lugares, provavelmente era necessário e inevitável (talvez na China, uma cultura muito sofisticada e complexa muito antes da ocidental, as coisas se tivessem passado de modo diverso, não sei).

Sem deuses nem donos

A questão interessante é esta: precisamos de donos ainda hoje?

Parece-me que estamos a deixar de precisar. Cada vez mais pessoas estão a deixar de necessitar da religião nas suas vidas pessoais. A percentagem de crentes entre as pessoas de mais educação é muito inferior à maioria da população. As democracias ocidentais parecem ter sido governadas há muitos anos por uma maioria de ateus, agnósticos ou indiferentes (independentemente das preces que fazem durante as campanhas eleitorais).

A recente ressurreição do fundamentalismo religioso não me parece um fenómeno durável. No caso do Islão, parece-me mais um movimento defensivo, tendente a defender as organizações mais retrógradas de países socialmente atrasados das ameaças da liberdade individual a que chamam ocidentalização. Não creio que pudesse ter lugar com tanta força sem o apoio dos Estados Unidos aos Talibãs e a Bin Laden contra os soviéticos no Afeganistão e sem o dilúvio de dinheiro da Arábia Saudita (e do Irão) a favor do fundamentalismo em todo o lado. E não poderia também acontecer sem a política antiárabe de Bush II, nem sem a revolta apaixonada que gerou nos povos do Próximo Oriente e nos de cultura islâmica.

Nos antigos países comunistas a religião beneficiou da nova liberdade e em certos lugares como a Rússia recuperou uma posição oficial num estado regido pelo sabre e pelo hissope (hoje acrescenta-se a TV). Mas não recuperou a maioria da população. Na Polónia, por exemplo, a Igreja Católica teve uma breve onda de popularidade devido à associação a Lech Valesa e ao Solidariedade, mas na nova sociedade cedo se viu em oposição à vida laica e independente da maioria da população.

Nos Estados Unidos, os evangelistas da TV conseguiram usar um (relativamente) novo meio para conseguir temporariamente uma grande audiência e aproveitaram a sua popularidade para tentar subverter o sistema político pela extrema direita. Penso que essa onda perdeu força e está politicamente liquidada. Não penso que tenham conseguir destruir a constituição e não conseguiram atingir a maioria da população, que continuou a evoluir paulatinamente para a indiferença religiosa. Vai ser interessante ver o refluxo.

E os pensadores humanistas e ateus como Richard Dawkins e Salman Rushdie têm ganho audiência e sucesso.

Nunca na história da humanidade tantas pessoas puderam confessar que não acreditam em nenhum deus sem serem perseguidas. Nunca a maioria da população se preocupou tão pouco com a religião, para além de algumas cerimónias socialmente simbólicas como casamentos ou funerais. Nunca os crentes se importaram tão pouco com a opinião dos auto-intitulados ministros do deus.

E se pensam que as mulheres muçulmanas vão ficar mais uma geração sem se vestirem com beleza e elegância, pensam mal. Nem acredito que os homens de lá se resignem ao papel de beduínos atrasados muito mais tempo. As mulheres ocidentais são muito mais interessantes e sexy, embora eles tenham medo delas (os homens ocidentais também, mas não se deixam vencer por ele).

A humanidade está a prescindir da ilusão de ter um dono. Mas é um processo longo, cheio de hesitações e de reversos. É melhor esperar sentado, ou deitado.

Para cada crente, é sempre um acto de coragem imaginar: "E se não existisse deus?" Imediatamente surge o receio: "Vou ser castigado. Não devia pensar isto!" Mas do céu não surge nenhum raio a fulminá-lo e o pensamento rebelde volta, mais seguro.

Eventualmente, um número suficiente de pessoas terá abandonado a religião para se dar um processo de reequilíbrio, durante o qual a maioria se tornará rapidamente explicitamente laica. Quando sucederá isso, não sei.

E sobre a moral? A falta da divindade levará a um descalabro moral, a uma catástrofe da civilização?

Creio que há um par de séculos que não precisamos de nenhum deus a dizer-nos o que está bem ou mal. O problema é que muitos de nós ainda não aceitaram isso.

Deuses e donos, cada vez precisamos menos deles.


1 Na história do catolicismo, quantos milhões de pessoas terão sido mortas pela pia da água benta, ao servir-se, junto com a bênção, de uma dose de patogénios contagiosos deixados pelos clientes anteriores? Voltar ao texto