18 de junho de 2008

Estudo de pés

Terei de fazer estudos de vários pormenores da composição. Sempre fui preguiçoso a desenhar pés e mãos, portanto este aspecto é importante. O principal problema, mais tarde, vai ser a cara. Criar a expressão dramática certa e a posição correcta (mas dinâmica) da cabeça e dos ombros vai ser uma empreitada. Todo esse processo vai ser documentado aqui.

Usei o programa Art Rage2, que vinha com a mesa Wacom Bamboo. Menos sofisticado que o Photoshop ou o Gimp, mas muito intuitivo e com ferramentas muito giras!

14 de junho de 2008

A minha Pietà

Tinha pensado fazer disto um óleo, mas vou começar por uma ilustração digital. Há muito que este tema anda na minha cabeça: a velha Pietà de Miguel Ângelo, mas sem o filho ser deus e a mãe ser santa. A velha tragédia num olhar mais humanizado, servida pelos meus parcos recursos.


Primeiro esboço. Visualizar no tamanho real

Vou publicando os esboços e continuar pelas diversas fases de acabamento. Por fim, eventualmente farei o óleo. Este é o primeiro esboço.

Gosto da mãe, está dinâmica e expressiva. O filho terá de ser redesenhado, pois não há forma de a cabeça dele estar amparada pelo braço dela. Tenho de fazê-lo semi-reclinado.

O cenário que surgiu na minha cabeça é este. Poderá ser Colômbia, Bolívia, Brasil, não interessa. Não é uma afirmação política. Se o fizesse no mundo árabe ou em África, teria tendência a ser visto como um tomar de partido em conflitos locais. Fugi daí porque quero dizer: qualquer mãe, qualquer filho, em qualquer parte do mundo.

2 de junho de 2008

Investigação a uma padeira

[Aparte sobre o pintor Rafael mencionado na mensagem anterior]

As obras de Rafael são uma delícia para os olhos. Ainda mais para alguém como eu, militante de base que paga de vez em quando as quotas do partido da arte, olhando com humildade para o que faz um dirigente histórico. Mais do que o público, o praticante compreende os problemas técnicos e artísticos resolvidos de forma genial nas obras dos grandes mestres.

 

Rafael, La Fornarina (A Padeira), Palácio Barberini, Roma.
Fonte: Wikipedia.
Passe o rato sobre a imagem para ver a correcção do tamanho da cabeça.
Pode ver ver aqui, na Wikipedia, o quadro ampliado.

Mas o praticante vê-se também confrontado com insidiosas questões: as imperfeições que saltam aos olhos. Que fazer? Quem sou eu para criticar Rafael?

E serão mesmo imperfeições? A forma de olhar para o corpo humano evoluiu. Hoje somos assaltados constantemente por fotos que nos demonstram de forma mecânica, quais são as suas proporções.

Eis aqui Rafael a representar uma mulher, diz-se que a sua amante, Margherita Luti, cujo corpo conhecia de cor e salteado, talvez melhor que ela própria. Múltiplas indicações, a começar pelos nossos próprios olhos, dizem-nos que Rafael era, além de pintor, um desenhador genial.

No entanto, não há forma nenhuma de aqueles ombros descaídos e fracos, de senhora nobre e indolente, sustentarem os fortes braços de camponesa. E a cabecinha, não está pequena de mais?

Olhando com mais atenção, parece haver aqui duas obras. Da altura dos seios para baixo, o traço é vigoroso, o tom da pele é mais cor de terra. Dos seios para cima, o tom de pele é mais amarelado, o traço mais discreto, usa-se mais o sfumato.

Meti a gravura no Gimp e fui investigar. Inicialmente pensava que eram os ombros que deveriam ser mais fortes (ou os braços mais fracos). Mas logo percebi que era a cabeça. Aumentei-a (com um pouco de exagero, para efeitos de polémica) e subitamente fiquei a contemplar uma mulher muito mais real, mas também muito mais comum e popular, uma romana de Quinhentos.

Rafael podia tê-la desenhado e pintado assim, se quisesse. Mas deixaria de parecer uma deusa do Olimpo, o que possivelmente era a sua intenção.

Rafael era um homem do Renascimento e ambicionava, acima de tudo, cumprir os cânones. E as dimensões da cabeça em relação ao corpo estavam nos cânones. De um modo geral, os homens da Renascença não se interessavam pela realidade comum, apenas a usavam para representar realidades idealizadas, como a vida dos santos ou os deuses no Olimpo. E deformavam-na com esse fim.

Outra hipótese: Maria e não Margherita?

A Fornarina é de 1519 e está no Palácio Barberini, em Roma. Três anos antes, em 1516, Rafael pintou a mesma pessoa, a Mulher de Véu (La Velata), desta vez com proporções perfeitas. Está no Palácio Pitti, em Florença. A minha intuição diz-me que este é um Rafael completo, genial de uma ponta à outra.

Rafael, A Mulher do Véu

Rafael, A Mulher do Véu (La Velata), Palácio Pitti, Florença. Fonte: Wikipedia.
Pode ver ver aqui, na Wikipedia, o quadro ampliado.

Diz se que La Fornarina estava no atelier de Rafael quando este morreu em 1520 e foi modificado e vendido pelo seu assistente, Giulio Romano, que viria a iniciar o Maneirismo e está na origem da gravura erótica classicista.

Diz-se também que Rafael se casou secretamente com Margherita, uma plebeia muito abaixo da condição do artista, e resistiu durante anos a uma noiva que lhe era imposta, Maria Bibbiena, sobrinha de um cardeal Medici. Os seus discípulos parecem ter tentado afastar Margherita depois da morte de Rafael, fazendo crer que o casamento com Maria teria tido lugar in extremis.

Diz que tanto La Fornarina como La Velata retratam a mesma mulher, Margherita Luti. Claro que é a mesma mulher. Mas eu digo que é mais provável que se trate de Maria Bibbiena. Isso explica o facto da parte de cima da Fornarina não me provocar a sensação de ser de Rafael, mas a parte de baixo sim. A Velata seria um retrato de Maria Bibbiena, feito todo ele por Rafael; a Fornarina seria um retrato de Margherita também por Rafael, mas repintado parcialmente por Giulio Romano para representar também Maria, promover a ideia do casamento no leito de morte e esconder ainda mais o seu casamento secreto com a padeira.

No túmulo de Rafael está escrito: Ille hic est Raffael, timuit quo sospite vinci, rerum magna parens et moriente mori (Aqui jaz o famoso Rafael, por quem, enquanto viveu, a Natureza temia ser vencida, e quando ele morreu, ela temeu morrer também).

1 de junho de 2008

Viagens na Web

Decidi aprofundar as razões porque gosto do Barroco e da arte barroca.

Escrever sobre um assunto leva muitas vezes a uma mudança de perspectiva, porque ideias simplistas são postas em causa, conhecimento acriticamente recebido exige prova e, invariavelmente, fico espantado com o pouco que sabia.

Toca de pesquisar o barroco então, como preparação de uma mensagem (ou série delas) sobre o assunto. Eu já sabia que a primeira ideia a cair seria a noção, promovida pelos historiadores de arte alemães do séc. XIX, neoclássicos, que o vêem como uma degenerescência da pureza clássica1 da Renascença.

É sina de cada período de arte ser crismado pelos seus detractores. Já os da Renascença, admiradores da Antiguidade Clássica, desprezavam a arte da Idade Média, arte de bárbaros, de Godos. Gótica, portanto. Pela qual mais tarde os Românticos, que desprezavam o racionalismo clássico, se apaixonaram. Onde começa o Barroco e onde termina? Para conhecer o Barroco tem que se partir da Renascença, que aquele continuou e contra o qual reagiu. E ainda há aquele outro estranho movimento no meio, o Maneirismo, que segundo alguns autores durou 50 anos em Itália e 200 em Portugal.

La Fornarina, Rafael
Rafael, La Fornarina (A Padeira),
Margherita Luti,
amante do artista (Wikipedia).

A pesquisa começos pela Renascença, portanto. Dos três grandes desse período, Leonardo, Miguelângelo e Rafael, eu conhecia menos Rafael. Comecei por aí. A Wikipédia tem boas galerias que ajudam a apreciar esta pintura fabulosa, com páginas para muitos dos quadros e frescos, três graus de zoom e muita informação auxiliar, ajudada pela Web Gallery of Art. Mas o Barroco não é só arte. Revisitei Galileu (para a Renascença), Espinoza e Liebnitz.

Pelo meio experimentei a Last.fm e voltei a ouvir chillout, downtempo, trip-hop, em jejum desde o fecho da XFM/Voxx, há uns anos. Desde essa época tenho vivido confinado à música clássica. Por 2,5 € por mês teria direito à minha rádio na Web, com as minhas preferêncas, podendo recomendá-la aos meus amigos e mais algumas coisas no domínio do social networking. Mas eu limitei-me a escrever o nome de um artista e a Last.fm vai tocando artistas que considera parecidos com aquele, suponho que obtidos pela análise das contiguidades na sua base de dados de utilizadores e artistas. O que resulta numa audição muito agradável para mim.

Uma notícia no Google levou-me a uma reportagem no Washington Post que ganhou o Prémio Pulitzer, sobre os mercenários no Iraque: Private Armies, de Steve Fainunu. A arrogância brutal de empresas como Blackwater é extraordinária. Quando querem passar a escoltar algum Gauleiter americano numa rotunda apinhada de trânsito, correm toda a gente a tiro. Se alguém se aproxima, matam-no. E estão acima da lei, tanto no Iraque como nos EUA.

Um detalhe sobre veículos usados pelos mercenários levou-me a um site sobre tecnologias militares Defensetech.org, onde descobri Future Combat Systems uma iniciativa do Exército dos EUA (onde estão a gastar mais de mil milhões de dólares) para criar a guerra de infantaria do século XXI, com blindados de tracção híbrida, drones robots e sensores/câmaras em rede espalhados pelo campo de batalha.

Uma observação da minha prima sobre a possível obsolescência do Purgatório levou-me a ler uma encíclica de Bento XVI, Spe Salvi, onde soube que os pecadores católicos já não terão que passar tempo no churrasco à espera de eventualmente serem salvos, mas sofrerão uma dor curativa, talvez como a de Santa Teresa de Ávila, cujo sofrimento (ou prazer), retratado por Bernini, é uma das obras-primas do Barroco.

O Êxtase de Sta. Teresa de Ávila, Bernini, 1652, Igreja de Sta. Maria da Vitória, Roma

O Êxtase de Sta. Teresa de Ávila, Bernini, 1652, Igreja de Sta. Maria da Vitória, Roma


1 — A designação de clássico não é também neutra. Clássico é aquilo que se deve ensinar na classe. O fundamento perfeito do conhecimento. Só depois de se conhecer e compreender esse núcleo se deveria estudar as outras coisas menos perfeitas. [Voltar ao texto]