28 de agosto de 2015

Onde é que eu nasci?

Para todos os efeitos legais e prosaicos, eu estou certo de que nasci há 62 anos, dois meses e 16 dias, ou mais precisamente há 22.693 dias, em Faro, na Rua de São Brás do Alportel, Freguesia de São Pedro. Não é disso que eu tenho dúvidas, naturalmente.

Nas aventuras de ficção científica que incluem viagens no tempo, como a série de filmes Regresso ao Futuro ou o clássico da literatura A Máquina do Tempo, de H.G. Wells, presume-se ingenuamente que os viajantes se deslocam para uma data futura ou passada, mas ficam no mesmo ponto da Terra de onde partiram. Isso é conveniente para o enredo das aventuras, mas ingénuo, porque sabemos que o nosso planeta se desloca pelo espaço a uma velocidade vertiginosa. Mesmo que fosse possível mudar magicamente a variável da quarta dimensão, uma viagem no tempo implicaria sempre uma translação gigantesca no espaço.

13 de agosto de 2015

A Doutrina da Descoberta — um monstro que continua a fazer estragos

Li há pouco que um representante da Nação Onondaga de nativos norte-americanos tinha pedido ao Papa que revogasse uma bula do século XV, do Papa Nicolau V, em favor do rei de Portugal. C’os diabos, que raio de história!

Claro que fui investigar.

Não é certamente agradável para um português educado — ainda no tempo do fascismo — no orgulho nacional baseado na missão civilizadora e evangelizadora do país e no elogio desmedido dos Descobrimentos como feito heróico e altruísta, revisitar essas noções à luz de uma compreensão mais moderna e humanista da História. Mesmo fora do universo ideológico fascista, a noção romântica de que Portugal deu novos mundos ao mundo em vez de assaltar, saquear e escravizar povos por todo o lado ainda acolhe simpatias, escudada na ignorância ou na má fé saudosista do racismo e do colonialismo.

Não quero com isto acusar o Portugal de Quinhentos de ser particularmente vil entre os seus vizinhos, mas não era decerto melhor que eles.