23 de janeiro de 2022

Anomalias

Há muitos anos, li um romance célebre de ficção científica de Isaac Asimov: a "Trilogia da Fundação". Tinha um enredo majestoso: um império galático decadente iria cair e arrastar a humanidade para milénios de barbárie. Um sábio fundador de uma ciência chamada Psico-História, capaz de prever os destinos da galáxia, concluiu que seria possível evitar essa idade das trevas se criasse duas fundação que preservassem a cultura… e tal e tal.

Bom, o bom do sábio lá criou a sua fundação e o esquema estava a resultar (com muitas peripécias pelo meio, evidentemente), quando surgiu uma anomalia a pôr em causa todo o devir histórico planeado por Seldon. Tratava-se de um mutante humano, com enormes poderes mentais, que pretende criar um império artificial, prematuro e espúrio. O resto do romance é a luta entre as fundações e esse mutante, o Mula.

Asimov confessou que se inspirou no livro de 1776 "História do Declínio e Queda do Império Romano", de Edward Gibbon. Esse tratado monumental é considerado o primeiro livro moderno de História. Nele se contém a ideia de que a queda do Império e a sequência de tempos de anarquia e regresso cultural da Idade Média eram processos profundos, tectónicos, inevitáveis no devir histórico.

Bom, mas há mais gente a prever o processo histórico… e a encontrar anomalias.

Escrevendo em 1930, Asimov não podia ignorar o elefante presente na sala, a ideologia marxista. No esquema de Marx, ao feudalismo sucedeu-se o capitalismo. Seguir-se-ia inevitavelmente o socialismo e o comunismo.

9 de janeiro de 2022

Jesus de Nazaré Desaparecido em Combate

David Madison, que colabora no site Debunking Christianity de John Loftus, debruça-se aqui sobre um ensaio de Earl Doherty “A Sacrifice in Heaven: The Son in the Epistle to the Hebrews” (Um Sacrifício no Céu: O Filho na Epístola aos Hebreus), na coletânea “Varieties of Jesus Mythicism: Did He Even Exist?” (Variedades no Miticismo Sobre Jesus: Será que Ele Sequer Existiu?), coordenada por David Madison e Robert Price.

O miticismo sobre Jesus, ou seja, a noção de que se trata de um personagem mítico em vez de histórico, tem vindo a ganhar adeptos entre os estudiosos das origens do cristianismo. Teve adeptos desde o século XIX na Alemanha e na Holanda, mas ressurgiu com grande força nos últimos anos do século XX e, sobretudo, já no nosso século XXI. Um dos principais e mais antigos promotores da ideia foi Earl Doherty, o outro Robert Price. Esta é uma tradução do artigo “Jesus of Nazareth Missing in Action” em Debunking Christianity, por David Madison em 1/07/2022

18 de dezembro de 2021

Woke de mais é mau

Um Excesso de Pensamento Woke pode prejudicar a Saúde Mental ou as Relações

Publicado em 15 de Dezembro de 2021 por Valerie Tarico

Valerie Tarico é psicóloga e escritora em Seattle, Washington. Ela é a autora de Trusting Doubt: A Former Evangelical Looks at Old Beliefs in a New Light e Deas and Other Imaginings. Os seus artigos sobre religião, saúde reprodutiva, e o papel das mulheres na sociedade têm sido apresentados em sites como The Huffington Post, Salon, The Independent, Quillette, Free Inquiry, The Humanist, AlterNet, Raw Story, Grist, Jezebel, e o Institute for Ethics and Emerging Technologies. Subscrever em ValerieTarico.com

18 de novembro de 2021

Alterações climáticas e pedofilia

Que tem um crime a ver com o outro? Eu já explico.

Em 2002, o nosso país foi abalado pelo escândalo da Casa Pia. Figuras públicas e mediáticas eram acusadas de abusar crianças do histórico orfanato. Entre o público, manifestou-se súbita indignação por esses crimes.

15 de novembro de 2021

A ciência romana estava em declínio?

Por Richard Carrier (excerto do seu novo livro)

Existe há muitos anos uma polémica em História, sobre o caráter progressivo ou decadente da Idade Média e sobre, por oposição, a presença ou não de espírito científico na Antiguidade Greco-Romana. São, em geral historiadores católicos quem doura a pílula da era medieval como época de progresso, e quem denigre a ciência da Antiguidade. Para esses autores, a Antiguidade não tinha noção dos instrumentos do progresso científico e foi o cristianismo o fator de desenvolvimento do pensamento científico, no fim da Idade Média. O que está ém jogo é considerar o cristianismo uma influência progressiva ou reacionária na História.

6 de novembro de 2021

História do Céu e do Inferno

Por Bart D. Ehrman

Os antigos Hebreus não acreditavam na vida depois da morte. Morria-se e pronto. Nada a fazer. Mas, por volta do século II AEC, inquietos sobre a injustiça da morte ser igual para todos, independentemente de serem justos ou maus, inventaram, no Livro de Daniel, a ideia do Apocalipse. O mundo era dominado por forças maléficas e por isso dominava a injustiça, Mas Deus viria em breve resolver a questão. Derrotaria as forças do mal, ressuscitaria os mortos e recompensaria os bons com o paraíso na Terra e castigaria os maus com a morte. Mas não se trata de almas, o paraíso seria na terra e as pessoas viveriam nos seus corpos, agora imortais. As ideias de Jesus são as mesmas: apocalipse, julgamento final, ressurreição dos mortos e reino de Deus na Terra.

Os gregos do tempo de Homero também não acreditavam na vida além da morte. Acreditavam no Hades, mas os habitantes do Hades eram sombras sem vida. Com Platão é que começou a ideia de que a alma era distinta do corpo e imortal. Com o tempo, essa ideia começou a evoluir para uma recompensa ou castigo das almas, nos Campos Elísios ou no Tártaro.

13 de outubro de 2021

Optimismo ou ruína

Conselhos de Jacques Ellul, Edward Snowden, Karl Popper e Noam Chomsky.

Tradução da publicação de Neil Godfrey Be Optimistic — Or Doomed, de 2021-10-05, no blogue Vridar.

Primeiro, mergulhe cada um no seu seu próprio mundo cibernético, onde o seu ambiente identifica os seus interesses e preconceitos.

Em segundo lugar, alimente-se cada pessoa com notícias e dados que reforcem os seus preconceitos. Massas e massas de dados que servem esse fim. Demasiados dados para poder analisar criticamente. Tantos dados que inundam cada pessoa com a confirmação dos seus sistemas de crenças sobre o mundo. Resultado? Muitas vezes, paralisia.

15 de setembro de 2021

As outras mulheres afegãs

No campo, a matança interminável de civis virou as mulheres contra os ocupantes que afirmavam estar a ajudá-las.

Por Anand Gopal — 6 de setembro de 2021

Anand Gopal tem aqui, neste artigo publicado em The New Yorker: The Other Afghan Women, um relato do que se passou no chão, entre as pessoas massacradas e bombardeadas. Um dos melhores e mais humanos relatos de guerra que já vi. Um relato também da mais extraordinária maldade, disfarçada aos olhos ocidentais com propaganda delicodoce. Mas lá no chão, é uma guerra como as outras, violência, horror e lágrimas. O artigo também serve como narrativa desta guerra, a “Guerra Americana”, como lhes chamam as suas vítimas, olhada de baixo e vista por mulheres, as outras mulheres.

31 de julho de 2021

A palavra proibida

Este país está de saída?

Por Tom Engelhardt (tradução do artigo The Forbiden Word, em Tom Dispatch

Foi há muito tempo, num mundo aparentemente sem desafios. Lembram-se de quando nós, americanos, vivíamos num planeta com uma Rússia abatida, uma China que mal se erguia e nenhum inimigo óbvio, exceto o que mais tarde veio a ser conhecido como um “eixo do mal”, três países incapazes então de pôr este em perigo? Ah, e, como se viu, um jovem e rico ex-aliado saudita, Osama bin Laden, e 19 sequestradores, a maioria deles também sauditas, de um pequeno grupo chamado Acaida que por breves instantes possuiu uma “força aérea” de quatro jactos comerciais. Não admira que este país fosse então apontado como a maior força, a superpotência de todos os tempos, ostentando uma força militar que deixava todos os outros na poeira.