23 de março de 2017

Entrevista a David Fitzgerald

Na edição em português de Nailed: Dez Mitos Cristãos que Mostram que Jesus Nunca Sequer Existiu

David Fitzgerald é um autor irlandês-americano, um investigador histórico e um ativista ateu de São Francisco, Califórnia. Foi diretor e co-fundador do primeiro Festival de Cinema Ateu do mundo e Evolutionpalooza!, a celebração mais antiga do Dia de Darwin de São Francisco. Escreveu vários livros de esclarecimento e entretenimento sobre a religião a partir de uma perspetiva ateia, incluindo a série The Complete Heretic's Guide to Western Religion e Nailed, o seu exame da evidência histórica para Cristo - que acaba de ser lançado em português.

Em primeiro lugar, parabéns pela nova tradução portuguesa do seu livro Nailed: Dez Mitos Cristãos que Mostram que Jesus Nunca Sequer Existiu. É uma boa notícia para os muitos leitores da língua portuguesa. Tenho a certeza de que a ideia de que Jesus da Galileia não foi um personagem histórico, mas um mito religioso surpreenderá a maior parte do público, ainda mais entre os falantes lusófonos, uma vez que se baseia principalmente no trabalho de estudiosos nos EUA. Para os religiosos, a ideia de que Jesus não foi uma pessoa real é naturalmente chocante, mas mesmo ateus e agnósticos, educados dentro de uma cultura cristã, resistem muito a considerar a possibilidade. Como é que começou a encarar essa ideia?

6 de março de 2017

Alt-right - o fascismo que renasce

Uma das caraterísticas fundamentais do fascismo é a criação de bandos violentos que atacam as organizações de esquerda. O nazismo tem esta caraterística, o fascismo italiano também. Uma das razões porque alguns historiadores recusam a classificação de fascismo ao regime de Salazar é que faltam esses bandos.

No caso do regime trumpiano também não há bandos de camisas coloridas, pelo menos de forma generalizada.

Mas há um fenómeno curioso, que é a existência de bandos de arruaceiros online, hoje conotados com a alt-right, sinónimo dos simpatizantes modernos do nazismo e da supremacia branca.

Desde há uns cinco anos, figuras proeminentes do feminismo começaram a ser vítimas de ataques coordenados de grande número de homens sexistas, os quais, através de ameaças, calúnias grosseiras e insultos tentavam expulsá-las dos vários fóruns da Web. Começou com uma ativista ateia e feminista, Rebecca Watson, que contou numa reunião uma abordagem inquietante por um homem, num elevador de um hotel de madrugada. Desencadearam-se ataques furiosos de literalmente milhares de trolls, com as acusações mais irreais, contra ela e contra quem a defendeu. Esse episódio ficou conhecido como o Elevatorgate (#ElevatorGate).

21 de fevereiro de 2017

Trump e a crise do Estado Profundo

Como o regime Trump foi fabricado por uma guerra dentro do Deep State
Uma crise sistémica no Sistema Profundo global levou à radicalização violenta de uma fação do Estado Profundo

Por Nafeez Ahmed

Relatório especial publicado pela INSURGE INTELLIGENCE, um projeto de jornalismo investigativo "crowdfunded" (financiado pelo público) para pessoas e para o planeta. Apoie-nos para continuar cavando onde outros temem ir.

11 de fevereiro de 2017

Agnosticismo ideológico

(Mas vale a pena lutar pelo que é justo!)

Uma das minhas características é meta-pensar, ou seja, pensar no que penso. Sempre que tive uma convicção política (tive e tenho), lá estava um observador cético dentro do meu espírito a perguntar se tal convicção era razoável, se era lúcida ou justa ou se estava simplesmente a pensar o mesmo que o resto do rebanho.

23 de dezembro de 2016

Já mataste alguém?

A questão era retórica e a resposta evidente: claro que não!

Mas...

Hoje, por acaso, estive em Lisboa a tratar de uns assuntos. Precisei de almoçar e entrei num snack-bar. Fui lavar as mãos. Quando abri a torneira, fiz com que lá longe, nem sei bem onde, uma estação de captação de água da rede de Lisboa sorvesse a pouca água que usei.

Sentei-me e pedi um bitoque de porco.

Eu não matei aquele porco. Já estava morto muito antes de eu decidir que ia almoçar ali. Mas matei o seguinte. A febra que comi ficou a faltar no frigorífico e não tarda nada telefonam para o talho a pedir mais. Esses telefonam para o matadouro e ditam a sentença de morte dos bichos seguintes. Essa foi a consequência da minha decisão económica.

Do mesmo modo, evidentemente, se passou com as batatas, o arroz, as alfaces, o pão e o vinho, até com o guardanapo. A minha ação influenciou os seus circuitos de distribuição e produção.

26 de novembro de 2016

Jésus, le dieu fait homme, de Pierre-Louis Couchoud

A criação do Cristo – Um esboço dos começos do Cristianismo, de Pierre-Louis Couchoud, de 1937, é um clássico entre os miticistas, ou seja os que defendem que Jesus não foi um personagem histórico, mas uma divindade para a qual foi criada uma história entre os homens. A sua tradução inglesa foi finalmente disponibilizada por Frank Zindler, diretor do American Atheist Magazine e posta online, Volume 1 (PDF, 1,2 Mb, 229 págs.) e Volume 2 (PDF, 1,7  Mb, 241 págs., por René Salm, no seu blogue Mythicist Papers, e também em versão comentada por por Neil Goffrey, no blogue Vridar.

Eu preferia ler a edição original francesa, mas já estou muito contente por poder ler este livro. Dado tratar-se de uma obra de 1937, é possível que alguns aspetos estejam desatualizados face à pesquisa contemporânea. Depois de ler o livro, vou sem dúvida consultar os comentários de Neil Geoffrey, pois este blogger australiano é uma das melhores fontes eruditas e cientificamente honestas neste campo, e ao mesmo tempo o mais disposto a divulgar as mais diversas avenidas de pesquisa que estão em curso – e nos últimos anos têm sido muitíssimas.

15 de outubro de 2016

10 segredos sobre a pesca ao clique (click-bait) - o terceiro vai deixar-te espantado!

A pesca ao clique ou iscar ao clique (click-baiting) é uma atividade muito vulgar na Net, mas poucos sabem do que se trata. Dito de outro modo, poucos são os pescadores, mas quase todos já viemos à rede, conscientemente ou não. Sendo assim, resolvi escrever este texto com a estrutura e a linguagem típicas de um artigo de click-baiting.

A estrutura em pontos é típica, bem como o exagero dos títulos. É dessa forma que vou escrever.

29 de setembro de 2016

O verdadeiro Jesus que se levante, por favor...

Não tenho quaisquer problemas com o facto de Jesus ter tido existência histórica ou não. Os meus problemas com Jesus foram resolvidos aos 15-16 anos, quando me tornei ateu. O chamado Jesus da fé, o filho de uma virgem e de Deus que fez milagres, foi crucificado e ressuscitou – não é de todo real. É uma fantasia religiosa.
As únicas hipóteses viáveis, face à inexistência de vestígios históricos, são 1) Jesus ter sido um curandeiro ou profeta quase completamente desconhecido sobre o qual se construiu todo este fantástico edifício mítico que é o cristianismo; ou então 2) trata-se de um personagem divino tão imaginário como outro deus qualquer, ao qual se inventou, a dado momento, uma vinda à terra salvadora.

Mas o puzzle de investigação histórica sobre Jesus é um caso que há anos me interessa muito. Investigadores históricos têm vindo a morder nas sacrossantas escrituras (não confundir com os adeptos de teorias loucas, que também os há), uma dentadinha de cada vez, desde há séculos. Isso é verdade para o Novo Testamento, mas também para a Bíblia judaica. Hoje sabe-se que Abraão e Moisés eram personagens lendários, que o famoso Êxodo do Egito nunca aconteceu e mesmo o esplendor de Salomão está sob grave ameaça do ceticismo, pois caso tenha existido foi certamente um obscuro reino tribal1. A história de Maomé e da escrita do Corão começou muito mais tarde a ser investigada, mas não perde pela demora. Recentemente, foi descoberto um exemplar do Corão que o carbono 14 diz ser anterior a Maomé… Estranho.

David Fitzgerald é formado em História e um dos grandes divulgadores da teoria de Jesus mito, meu amigo no Facebook há anos, e sigo a sua atividade com muito interesse. Traduzi este artigo, publicado no blogue "What Would JT Do", de JT Eberhard, porque é um resumo muito bom do estado da teoria do Jesus Mito neste momento.

28 de abril de 2016

Mentirias aos teus filhos?


"Mentirias deliberadamente aos teus filhos?"pergunta o rabi Adam Chalom, doutorado em Humanismo Hebraico pela Universidade de Yale, EUA. – "Dirias que foi isto que aconteceu quando sabes que não foi isto o que aconteceu? Há uma questão ética aqui".

O rabi Chalom refere-se à crença popular de que a a narrativa da Bíblia judaica corresponde a eventos históricos. De facto, é sabido entre os arqueólogos bíblicos há quase três gerações que os Cinco Livros de Moisés (a Torah) e a História Deuteronomística dos Nevi'im (incluindo os livros de Josué, Juízes e Samuel) correspondem tanto a uma descrição da história antiga do povo judeu como como O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien, é uma descrição literal da Primeira Guerra Mundial.

16 de abril de 2016

Politicamente correto

O Bloco de Esquerda parece tar dado um faux pas ao propor um nome sem indicação de género para o Cartão de Cidadão. Não porque a proposta seja incorreta, na minha opinião, mas porque é muito à frente para a maioria.

As lutas políticas à volta da gramática tiveram um curso muito limitado ainda no nosso país, mas é inevitável que cá cheguem. Entre os falantes de inglês já duram há muitos anos e não mostram sinais de abrandar.

A língua que falamos exprime naturalmente as relações de poder das sociedades que a criaram. O facto do masculino ser o género padrão, usado por defeito, exprime o passado e o presente patriarcal das nossas sociedades. Não é uma caraterística só da língua portuguesa, mas foi herdada há muitos séculos das línguas suas antecessoras.

Abundam nas redes as demonstrações de indignação contra o politicamente correto. Muitos sentem-se ameaçados no conforto dos seus hábitos mentais, até quiçá das suas identidades, pelas propostas de inovação linguística, irritantes e estultas.

Se formos olhar para a história da nossa língua (e nisto eu sou um perfeito amador, sem formação superior no assunto) encontramos fascinantes evoluções precisamente nos pontos relacionados com a expressão do poder. Havia, na Idade Média e pelo menos até às revoluções liberais, uma forma de tratar os poderosos na terceira pessoa plural ("Vós sois...") e outra forma sem cerimónia, para os poderosos se dirigiram aos da ralé ou para a ralé se tratar entre si ("Tu és").

Com a democratização progressiva da sociedade o uso da segunda pessoa plural caiu em desuso e surgiu uma forma intermédia, o uso da terceira pessoa singular, correspondente ao respeitável burguês ("Você é"), mantendo-se o tu para as formas não respeitosas de diálogo. Imagino que alguns dos literatos conservadores tenham protestado, indignados com a inovação e clamando contra a falta de respeito que se instalava.

Do mesmo modo, o uso de patronímicos pejorativos (mouros, ciganos, pretos) caiu em desuso ou foi censurado, à medida que a sociedade se tornava um pouco mais aberta e inclusiva.

É caraterístico de quem está numa posição privilegiada não sentir a opressão. Assim, sempre que alguma destas inovações teve lugar, houve quem protestasse, alegasse tratar-se de um preciosismo sem interesse, mas sempre incomodado com o esforço de cuidar da forma de tratar os outros. Assim, um branco não se sentia em geral ofendido por falar em mouros, ciganos e pretos. Quanto às pessoas referidas dessas formas desrespeitosas, já é uma outra questão.

Muitos dos conceitos usados nestas discussões correm em paralelo entre feministas e anti-racistas.

Quanto ao género, há já alguns anos que quem defende a igualdade de direitos da mulher levanta estes problemas linguísticos, sobretudo entre os falantes de língua inglesa. Entre as mentes mais progressivas, tornou-se hábito, por exemplo, referir uma pessoa indeterminada como she em vez de he, usar o pronome hesh em vez de he ou she, ou mesmo o plural they como singular de género indeterminado. Isto porque entretanto a questão complicou-se com uma discussão inclusiva dos géneros não binários ou fluidos.

A discussão será mais acesa entre nós, porque nas línguas descendentes do latim vulgar, como o português, nem sequer há o género neutro nas palavras. Tudo é completamente binário.

Sendo eu parte do grupo privilegiado, sinto que não me compete opinar de forma paternalista sobre o que é ou não ofensa para os grupos oprimidos. Neste caso do género por defeito, é claro que, à partida, me sinto confortável por esse género padrão ser o meu. Cabe-me sim, como possuidor de uma consciência progressiva, ouvir com atenção e considerar com respeito o que as mulheres têm a dizer sobre o assunto.

Se mudar a gramática for condição necessária para haver mais respeito e mais justiça, pois que se mude a gramática!