16 de dezembro de 2008

Esquerda e moral

Liberdade nas barricadas, Delacroix, pormenor

Há tempos escrevi uma espécie de ajuste de contas pessoal com o marxismo, que republico aqui. Era um balanço das ideias marxistas radicais que professei na minha juventude - e talvez uma tentativa de encontrar uma saída do niilismo centrista em que me mantive desde que as abandonei, há 29 anos.

Mas bater no marxismo é fácil, dada a sua completa falência histórica. O que não é nada fácil é imaginar o que se lhe segue, como filosofia do pensamento e da acção progressista.

Era nesse ponto que o meu artigo me deixou insatisfeito. Pensar no futuro, pois.

Deverá haver uma continuidade do pensamento progressista? Sem dúvida, pelo menos para manter o equilíbrio político. Com tantos problemas difíceis a exigir soluções, da situação ambiental à crise económica, das desigualdades no mundo às opções morais individuais, da concepção do estado e do cidadão à visão do mundo, tem que haver um renascimento do pensamento progressista gerador de políticas mais criativas, de opções mais interessantes, de melhores esperanças.

Vou criar esse pensamento novo aqui, de uma penada? Claro que não, mas dou a minha contribuição para o debate.

O que vou tentar fazer é rever as bases para um pensamento progressista fora das fundações carcomidas da ruína marxista.

Tal pensamento deverá ser radical ou moderado? Gostava que fosse um largo espectro, dos moderados aos intransigentes, tal como aconteceu com as correntes progressistas do passado, incluindo os marxistas. Uma coisa não será: dogmático.

Vou enunciar à cabeça as principais afirmações que me parecem importantes:

  1. A luta de classes deve deixar de ser o fundamento ideológico das proposições políticas que, se forem realmente válidas, devem ser benéficas para todos. Mesmo que se oponham aos interesses imediatos de uma parte, serão válidas se contribuírem para o bem-estar geral, beneficiando mesmo os que podem sentir-se lesados a curto prazo. Nenhum grupo social, etário, classe, etnia, ou género deverá a priori ser excluído ou considerado inimigo.
  2. A miragem anticapitalista deve ser abandonada. Nunca surgiu qualquer indicação da emergência do mítico modo de produção socialista, que deveria suceder ao capitalismo. O capitalismo burocrático de estado que oficialmente foi chamado socialismo durante algum tempo não tinha lugar marcado na história. Era mais ineficiente, mais desumano e mais opressivo que o capitalismo e reverteu facilmente para o capitalismo assim que as condições da opressão brutal em que se baseava enfraqueceram. As alternativas que muitos encontram nas cooperativas, na autogestão ou na democracia industrial não substituem o capitalismo mas podem ser consideradas tentativas de encontrar modos mais humanos de praticá-lo.
  3. Se não há alternativa ao capitalismo, tentar usar os confrontos sociais para provocar o colapso do "capitalismo" é uma opção idiota ou, pior, criminosa. O único resultado possível de tal colapso é piorar as condições de vida de todos. Isso não significa que os empresários e as empresas devam ser considerados sagrados ou intocáveis nem que os confrontos sociais devam ser evitados a todo o custo, mas que as lutas políticas devem ser conduzidas com objectivos reais e não míticos.
  4. Excluída a luta de classes e a motivação anticapitalista, que resta como motor da actividade política? Aquilo que sempre motivou a adesão pessoal e colectiva a qualquer programa, independentemente da mitologia inventada em cada ocasião, ou seja a convicção moral. O pensamento progressista sempre se baseou num conjunto de valores básicos (humanismo, solidariedade, liberdade individual, tolerância, a convicção de que a sociedade podia ser melhorada, irreverência perante a tradição, imaginação) que estiveram na base da adesão aos programas políticos.
  5. Durante muitos anos os marxistas desvalorizaram a questão moral, falando de uma moral de classe ou subordinando a moral aos interesses do partido (o que justificava as piores patifarias), e por fim reivindicando fortes valores morais só válidos dentro do partido e que não partilhavam com o resto dos cidadãos. A moral tem que ser reafirmada para todos. Tem que ser levada a sério. Pode e deve ser abertamente discutida, como convicção social partilhada e assumida, independentemente de motivações religiosas. Não deverá ser monolítica ou dogmática, mas construída contantemente num processo de diálogo: o que é justo, o que é censurável, o que aceitamos, o que rejeitamos. Potencialmente, uma regra moral aplica-se a toda sociedade; na prática, a parte que se aplica deve ser claramente controlada por consenso social.
  6. Muitos dos problemas políticos actuais têm raízes morais e integram-se mal nas construções ideológicas passadas: o ambiente e o aquecimento global, a globalização, a distribuição da riqueza, a extensão da cidadania às minorias excluídas, enfim... Na verdade não é necessária nenhuma construção ideológica, pode-se e deve-se partir directamente da moral para a política.
  7. Não vou entrar aqui na discussão esotérica da filosofia da moral. Não tenho paciência nem competência para tal. Para mim, a moral é sempre social e política: o que os cidadãos, numa dada época, acham comportamentos certos ou errados para si e para os outros. Quem lhes disse o que é certo ou errado? Os deuses? A sua consciência imanente, parte da sua alma imortal? A experiência histórica partilhada pelo povo? Adiante...
  8. O uso do poder, o uso da oposição e os métodos de acção política devem ser reavaliados em funçao desta metodologia. As actuais sociedades democráticas são na prática aristocracias em que uma elite controla o voto através das máquinas partidárias e do acesso aos media e, através do controlo do voto, controla o estado. Habilitar os cidadãos a controlar o estado através do controlo do seu voto é sem dúvida um bom objectivo, moral e político, e também subversivo. Já escrevi sobre isto e escreverei mais no futuro.

O objectivo deste texto não é criar um programa, mas simplesmente reflectir sobre as condições para criá-lo. Hei-de expandir um pouco estes tópicos. Espero ter alimentado um pouco a discussão.

Marxistas de todo o mundo…

Estátua de Marx e Engels em Berlim

Uni-vos? Ná! Bem, a verdade é que se tu, leitor, ainda és marxista, o único conselho que tenho para ti é teres juízo.

No entanto, há questões relacionadas com o marxismo que enchem de perplexidade qualquer um, em especial um ex-marxista como eu. A principal delas é: qual é o lugar histórico do marxismo? A segunda é saber onde é que esta ideologia estava errada. Ou dito de outro modo, onde é que eu errei ao aderir àquilo?

Isto são perguntas relacionadas com o passado, com o rescaldo dos nossos erros, ou, já que escolhi não fugir com o rabo à seringa, com um exame de consciência pessoal.

A última questão, porventura a mais importante, tem a ver com o futuro. E agora? Depois do marxismo, o quê?

Posso deixar correr para o oblívio as minhas memórias, dizer apenas, quando elas me importunam um pouco, "oh, que idiota eu fui, que idealista inocente", e ficar-me por aí. Mas fica a questão do lugar do marxismo na História. Aquilo foi um sonho lindo que não resultou? Ou antes um pesadelo de que felizmente acordámos?

Isto leva à pergunta do milhão de euros: qual é o caminho da luta por um mundo melhor, agora que o marxismo morreu?

Será que, o marxismo foi uma perversão da aspiração de rebeldia de milhões de pessoas, ou uma etapa necessária, talvez amarga, mas mesmo assim necessária, na evolução das ideias da esquerda?

Um silêncio ensurdecedor

O silêncio sobre esta questão é ensurdecedor. Não digo que não haja um ou dois teóricos a elucubrar sobre isto, e eu, da minha parte, peco seguramente por ignorância, porque não me tenho interessado por lê-los. Mas ao nível prático, quer dizer, ao nível político concreto, anda toda a esquerda a fingir que não aconteceu nada.

Mas aconteceu mesmo. Não há volta a dar-lhe.

1989 foi um cataclismo político, histórico imenso, inacreditável. Para muitos, o mundo virou-se de cabeça para baixo. Milhões de cidadãos sujeitos a regimes políticos marxistas rejeitaram-nos de forma imediata, assim que tiveram a mais pequena hipótese. Os regimes marxistas que sobreviveram, foi apenas devido a uma repressão brutal, já nua e crua sem a sua cobertura ideológica.

Estátua de Marx e Engels em Berlim

Num bronze duas vezes o tamanho real, em Berlim Oriental, Karl Marx e Friedrich Engels parecem contemplar com ar fúnebre o fim do comunismo no seu país natal. Mas não acredito que os dois velhos revolucionários do século XIX pudessem ter suportado a feroz ditadura a que as suas estátuas presidiram. Sobre os homens, o bronze tem a grande vantagem de estar calado... (foto do autor)

Em 1989 eu já deixara de ser marxista há dez anos, mas quando o era, fui trotskista. Quer dizer, acreditava no comunismo, mas que, para ele ser possível, os cidadãos dos países socialistas tinham de fazer uma nova revolução para impor um regime político de acordo com as velhas promessas de Marx e Lenine. Mas já se tinha tornado claro para mim nos anos 80, com Lech Valesa e o Solidariedade, que essa revolução política não estava nas cartas.

A seguir a 1989, a situação tornou-se caricata. Durante um tempo, parecia que a iniciativa política e ideológica estava nas mãos da direita. Imperavam os neoliberais, com Milton Friedman à cabeça. Duzentos e tal anos depois, Adam Smith triunfava enfim sobre todos os filósofos sociais, de Proudhon a Marx. Passado algum tempo, as ideias diluíram-se. Já ninguém era completamente neoliberal, mas ninguém deixava de o ser. Dos socialistas aos do bloco de esquerda, já toda a gente era a favor da iniciativa privada e ninguém já propunha as ideias colectivistas do socialismo, que haviam imperado em toda a esquerda durante mais de um século.

Esta vitória total do neoliberalismo só era perturbada pelos movimentos antiglobalização. Desprovidos de um programa consequente, formados por alianças de forças incompatíveis, a certa altura pareciam apenas um resto de revolta de militantes sem causa e sem perspectivas.

Os amanhãs não cantam

Mas a situação mudou. Se os amanhãs não cantaram para os marxistas, calaram-se também rapidamente para os neoliberais. Ao fim de um tempo, com o desvanecer das esperanças de rápido enriquecimento para todos através da iniciativa privada e do laissez faire, o programa neoliberal retoma a sua velha aparência de prática política de direita tradicional: aumento do poder e da riqueza de uns poucos à custa do sacrifício da maioria.

Primeiro a estrela marxista colapsou subitamente num completo buraco negro. Na sua ausência, a estrela neoliberal dominou o firmamento das ideias com uma luz ofuscante mas breve, a que rapidamente se seguiu um gradual esmorecimento. O que temos agora é um imenso lusco-fusco ideológico.

Há quem diga que acabou o tempo dos sistemas abrangentes de ideias ou de concepções do mundo, prevendo que o marxismo terá sido o último desses grandes sistemas. O extremo desse tipo de pensamento é aquele neocon americano que profetizava o fim da História. Mas isso, claro, foi antes da guerra da Bósnia, do 11 de Setembro, do Afeganistão e do Iraque. A História não acabou, disso podemos pelo menos estar certos!

Quanto aos sistemas de pensamento, vulgo ideologias, não creio que vão acabar. As ideologias são necessárias, a nível social, para desenvolver e transmitir ideias. Sem o tempero valorativo da ideologia, os factos não têm sentido. Não passam de uma sopa sem sabor que talvez alimente, mas não satisfaz nem desperta o apetite.

Apesar da libertação dos milhões submetidos às ditaduras comunistas, do impacto da globalização e da revolução nas comunicações, não creio que algo de tão fundamental na essência das nossas sociedades tenha mudado, para permitir-nos passar sem um instrumento de pensamento social indispensável durante séculos.

A questão é, que nova ideologia vai dominar a esquerda, na sequência do colapso do marxismo?

Quando me refiro a esquerda, falo do movimento contínuo, há pelo menos dois mil anos, das forças que lutam por mais dignidade humana, mais liberdade política, mais criatividade social, nas sociedades ocidentais (pelo menos nessas). Penso que há uma continuidade histórica desde, sei lá, os primitivos cristãos, os escravos rebeldes de Spartacus, as seitas heréticas da Idade Média, os pensadores iconoclastas da Renascença, os protestantes, os cabeças redondas ingleses, os revolucionários franceses, os rebeldes americanos, os democratas revolucionários do século XIX, os socialistas e marxistas (os rebeldes, não os burocratas) do século XX.

Não preciso de afirmar, de tão evidente que é, que esse movimento vai continuar no futuro. De que forma e com que objectivos, não sei. É isso que me intriga mais.

Orfandade ideológica

Quanto à esquerda concreta que temos hoje, isso é outra questão.

Toda a esquerda continua órfã ideológica do marxismo. As referências explícitas à sociedade sem classes, à luta de classes ou mesmo ao socialismo foram devidamente expurgadas do discurso dos partidos de esquerda, mesmo quando ficaram uns restos esquecidos nos programas; em seu lugar entraram uns lugares-comuns neoliberais, papagueados sem muita convicção. Nada liga entre si estas sequências desconjuntadas de frases, nenhum pensamento político de conjunto orienta os discursos.

Dir-se-á que o marketing político substituiu a ideologia. Não tenho nada contra o bom marketing político (só contra o mau); mas é uma ferramenta de curto prazo. O marketing político só produz táctica, não estratégia. Para criar uma estratégia é preciso um pensamento político com um domínio histórico. Se procura pensamento político no discurso da nossa esquerda actual, esqueça. Pura e simplesmente não existe.

Na verdade não é bem assim. Ele existe, mas oculto, nunca deliberadamente expresso. O pensamento político da esquerda actual, por defeito e sem coerência, continua marxista. O que significa que está completamente obsoleto.

Quem só abriu os olhos depois de 1989 tem dificuldade em avaliar a importância do marxismo. Parece apenas mais uma língua morta como o latim, ainda usada só em cerimónias esotéricas pelos patriarcas de uma religião decadente. Não sabe reconhecer as ideias-chave que perpassam nos discursos, como pontas de icegergs.

No entanto, durante todo o século XX, o marxismo orientou todo o discurso da esquerda. Havia o núcleo duro marxista-leninista, claro e intolerante, com todo um corpus de doutrina abrangente, desde a análise histórica à crítica de cinema, desde a economia à teoria da organização partidária. Essa doutrina mostrava um desfasamento cada vez maior em relação à realidade, mas tinha uma enorme coerência interna.

Depois, havia as margens soft, constituídas pelos que, embora atraídos pela perspectiva histórica da libertação dos trabalhadores, recuavam horrorizados perante os aspectos mais desumanos da prática comunista. Mário Soares sintetizou essa posição de forma admirável em 1975 quando afirmou: "Somos socialistas, mas democráticos!"

Os mas eram muitos. Socialistas mas com democracia, comunistas mas sem Estaline, marxistas revolucionários sem Lenine, maoistas com Estaline mas sem Brejnev, comunistas sem ditadura do proletariado, comunistas a favor da democratização do partido, etc. O mas, no entanto, implicava uma gravitação, uma relação de amor-ódio com o pensamento marxista.

Na verdade, durante a maior parte do século XX, teria sido quase impossível um pensamento político de esquerda sem o recurso às ideias marxistas. Fora da obediência estrita ao marxismo-leninismo, ia-se ao grande supermercado das ideias marxistas, levava-se umas coisas, deixava-se outras, mas não se podia deixar de lá ir.

Toda a geração de políticos da esquerda actual foi cliente desse supermercado. O supermercado essencialmente fechou no fim dos anos 80, mas no seu lugar ficou um grande vazio. As mesmas ideias gastas são remendadas e usadas de novo, à falta de melhor. Às vezes tenta-se usar uns fragmentos da loja neoliberal, mas a essência do neoliberalismo é conservadora, portanto não ajuda quase nada ao sucesso de um político de esquerda.

Desprovida de um pensamento político próprio, a esquerda aparece em todas as batalhas de ideias com falta delas, ou com ideias totalmente desadequadas do nosso tempo.

Pontos de um não programa

  1. A esquerda não sabe o que fazer com o estado. Ora defende as indústrias do estado, na lógica arcaica de um pensamento marxista de colectivização dos meios de produção, ora aceita soluções neoliberais e procura ignorar as suas consequências.
  2. A esquerda também não sabe o que fazer com a iniciativa privada. Ora lhe põe pesados entraves burocráticos e fiscais, ora entra em acordos de protecção de interesses elitistas que envergonhariam até o político mais conservador.
  3. Também não sabe o que fazer com a globalização, propondo às vezes desastrosas soluções nacionalistas sem futuro, outras mergulhando de olhos fechados na vertigem neoliberal da abertura total e sem condições.
  4. Idem em relação à Europa. Os europeístas não conseguem distinguir-se em nada dos políticos conservadores também europeístas; as correntes mais radicais comportam-se como se fosse viável uma defesa do nacionalismo contra a ameaça europeia. A posição mais caricata é a do Partido Comunista, que se comporta em tudo como se a União Soviética ainda existisse e fosse necessário defendê-la da Europa capitalista, mesmo em prejuízo dos interesses dos portugueses.
  5. Idem sobre educação. Grande parte das ideias sobre educação que foram institucionalizadas durante o século XX são de raiz marxista, muitas vezes centradas em revisões sucessivas do modelo napoleónico da école normale francesa. O modelo está totalmente desactualizado e quando deixa de poder ser defensável, pronto, recorre-se a soluções neoliberais, com efeitos sociais e qualitativos ainda mais devastadores.
  6. Na política de emprego a oscilação repete-se, entre defender o emprego existente, contribuindo para preservar o atraso tecnológico das empresas e apenas adiar o seu colapso, e o deixar ir tudo por água abaixo num pânico neoliberal, quando a bolsa aperta.
  7. Idem, no planeamento do território. Depois de anos a tentar impedir a desertificação do interior com medidas de intervenção estatal, de repente fecha-se infra-estruturas regionais a eito, com base num critério puramente numérico e economicista: escolas, postos de polícia, hospitais.
  8. Idem, na implantação social da esquerda. Tradicionalmente ligada aos sindicatos, a esquerda é sujeita a inúmeras pressões para defender os interesses dessas organizações. Mas os trabalhadores já não são o que eram e apenas uma ínfima minoria está sindicalizada. Financiados directa ou indirectamente pelo estado, os sindicatos defendem o status quo da concertação social e representam, ora os interesses da própria burocracia sindical, ora os interesses de grupos muito restritos de trabalhadores. Quando falam para estas organizações, os dirigentes de esquerda sacam da cartilha marxista; quando pretendem dirigir-se aos outros, não sabem que dizer-lhes!

Eu podia continuar esta iteração por aí fora, mas a essência da questão está clara: a esquerda oscila entre políticas marxistas obsoletas e medidas neoliberais de direita.

Criticar é fácil

Criticar é fácil. Dirás tu, leitor: será que este tipo tem uma política melhor na algibeira?

Na verdade não. Os políticos de esquerda não são uma cambada de idiotas nem são todos corruptos. Nas condições actuais, eles não podem escapar a este tipo de dilemas. Nem eu, se fosse ministro.

Os coitados não têm um sistema de ideias que os oriente. Não há uma ideologia de esquerda viável neste momento. A esquerda mantém-se porque pertence a uma tradição milenar de luta política progressista, mas na fase actual não tem política própria.

Demagogia operária

Os velhos chavões já não querem dizer muito. Defender os interesses dos trabalhadores, por exemplo. Isso remete para a noção de luta de classes, em que o bom do proletariado, imbuído da missão histórica de derrotar o capitalismo, iria criar a sociedade sem classes.

Mesmo quando era uma classe relativamente homogénea, nos séculos XIX e XX (não vou aqui discutir a teoria das classes sociais, é um tema bastante estéril e chato) o proletariado não teve nunca a possibilidade de fazer tal coisa. Era a classe mais ignorante e desprovida de meios da sociedade, não tinha os saberes necessários nem cultura, nem sequer liberdade de movimentos para tomar o poder e mantê-lo.

Mesmo quando supostamente tomou o poder, na revolução russa de 1917, o proletariado nunca lhe viu a cor. Os revolucionários tomaram o poder em seu nome e, desde a primeira hora, criaram um aparelho político feroz para mantê-lo nas suas mãos. Sempre que as massas populares se tentaram meter com o poder político, nos regimes comunistas, foram literalmente corridas a tiro, chacinadas, torturadas, escravizadas em campos de concentração…

E não pensem que isso só sucedeu no tempo de Estaline. Já em 1921, apenas cinco anos depois da revolução russa, uma insurreição de trabalhadores e marinheiros na base naval de Kronstadt, nos arredores de S. Petersburgo, foi abafada a tiro de canhão. E a Cheka de Feliks Djerzinsky foi criada ainda no tempo de Lenine, penso que em 1919.

Hoje o proletariado já não é o que era. As condições de vida dos trabalhadores são muitíssimo diferentes do que eram, digamos, no princípio do século XX. Marx dizia que os trabalhadores não têm nada a perder senão as suas cadeias. Hoje, embora continuem a não ter grande coisa de seu, os trabalhadores dos países minimamente desenvolvidos têm tudo a perder caso se rompa a paz social: o andar onde vivem, o carro, o cartão de crédito, o centro comercial, a televisão por cabo, a creche dos filhos, enfim. A vida das amplas massas nas sociedades desenvolvidas de hoje é demasiado complexa e sofisticada para se falar seriamente nesse tipo de brincadeiras.

Basta uma perturbação no abastecimento do petróleo para lançar o pânico nos bairros populares…

Hoje, pode-se perguntar a quem diz defender os interesses dos trabalhadores: que trabalhadores? Os que estão sindicalizados, na maioria pertencentes ao sector público ou a empresas com uma situação privilegiada no mercado de trabalho? A maioria dos trabalhadores por conta de outrem, que não deu qualquer mandato ao movimento sindical e é completamente exterior a ele? Os contratados a prazo? Os imigrantes? Os trabalhadores da China? Sem uma teoria política, estes chavões não fazem qualquer sentido.

Capitalismo ou barbárie

A teoria básica do marxismo era a de que o capitalismo tinha historicamente esgotado as suas capacidades de desenvolvimento, iria entrar em crises cada vez mais destruidoras e só o socialismo, com o planeamento central de toda a economia, seria capaz de satisfazer no futuro as necessidades dos cidadãos.

Até, digamos, à II Guerra Mundial, poderia sustentar-se esta análise. A crise de 1929 foi devastadora, a progressão do nazismo e do fascismo podia levar-nos a imaginar que eram estas as formas do capitalismo no seu estertor final. Dizia Trotsky no seu Programa de Transição, em 1938, que "as forças produtivas pararam de crescer".

Era fácil um marxista acreditar nisso, até 1945. O chavão do tempo era: socialismo ou barbárie. Mas o capitalismo não se conformou à análise. Após a II Guerra Mundial assistiu-se a um desenvolvimento assombroso da ciência e da técnica, as condições de vida de toda a população mundial melhoraram de forma espectacular.

A melhoria das condições de vida nos países mais desenvolvidos resulta de uma pilhagem dos países do Terceiro Mundo? Em parte sim, mas creio que a riqueza do primeiro mundo foi quase toda criada em casa e que as populações dos países menos desenvolvidos têm conseguido, apesar de tudo, melhorias importantes nas suas condições de vida. As desigualdades cresceram e os problemas são terríveis, sem dúvida. Mas a imagem do imperialismo a destruir e escravizar países como condição da sua sobrevivência parece-me uma persistente ficção social.

O capitalismo não tinha, de forma nenhuma, esgotado as suas possibilidades. Do outro lado, os regimes socialistas nunca conseguiram, com a sua planificação central, competir favoravelmente com o mercado e no fim dos anos 70 estavam todos técnica e socialmente falidos.

E como eram todos ditaduras, não tinham a mínima hipótese de competir na sociedade global da informação. Uma ditadura não pode permitir a livre circulação de ideias; uma sociedade moderna não pode passar sem ela.

Quando Portugal era uma ditadura, as empresas precisavam de uma licença especial para possuir uma fotocopiadora. Nos países da Europa de leste, a simples posse de uma máquina de escrever era sujeita a licença, como se fosse uma arma perigosa (e era, para a ditadura…). Tudo isto, hoje, é completamente ridículo.

Um sistema obsoleto

Se o capitalismo não esgotou as suas possibilidades, o socialismo não é uma necessidade histórica, isto para usar as velhas categorias marxistas do processo histórico.

Na verdade o socialismo procurou resolver um problema que já não existe. No período a que Alvin Toffler chamou Segunda Vaga, a produção era massificada. Os recursos físicos eram escassos, os transportes ainda relativamente lentos, a organização da produção exigia o trabalho parcelar por grandes massas de trabalhadores, em fábricas enormes. Os trabalhadores eram importantes para o processo de produção, amarrados às suas gigantescas cadeias de produção que podiam parar quando quisessem, através das suas formas de luta colectivas, como a greve.

Na falta dos instrumentos informáticos de hoje, criaram-se grandes burocracias industriais e estatais para controlar o processo de produção e distribuição. Nos próprios países capitalistas, o estado intervinha cada vez mais nas empresas e no mercado, procurando defender os enormes investimentos fixos dos efeitos de possíveis crises, substituindo, em certa medida, o jogo da oferta e da procura por medidas autoritárias e burocráticas.

O socialismo representa, afinal, apenas um conjunto de situações em que esta tendência foi levada ao extremo. Nos anos sessenta do século XX, era vulgar encontrar pensadores políticos que profetizavam a convergência das sociedades capitalistas e socialistas para formas semelhantes, com o aumento da planificação central naquelas e o aumento da democracia política nestas. Claro que não aconteceu nada disso.

Com a revolução informática, a globalização e a sociedade da informação, o que Alvin Toffler chama a Terceira Vaga, a palavra de ordem foi desmontar as pesadas burocracias, deixar as empresas reconfigurar-se livremente, usar o poder do mercado e não restringi-lo. Nos países mais desenvolvidos as grandes burocracias são dissolvidas, as fábricas deslocalizadas. Nos países socialistas, a catástrofe é total. Implosão é o único termo que faz justiça ao que aconteceu.

Politicamente, o velho ideal da democracia ganhou novo alento. Democracia e desenvolvimento tornaram-se sinónimos. Todas, mas mesmo todas as ditaduras vacilaram. Muitas caíram. O que foi muito bom, claro.

Portanto eu quero afirmar aqui, de forma peremptória, uma coisa que é evidente mas que quase ninguém na esquerda se atreve a dizer:

NÃO HÁ QUALQUER FUTURO NO SOCIALISMO.

O socialismo é como o automóvel com motor a dois tempos. Nos anos 50 do século XX, muitos dos modelos de automóvel económico da Europa e do Japão em reconstrução eram a dois tempos: os NSU (hoje Audi), os Borgward, os Panhard, os primeiros Honda. Eram económicos, mas barulhentos e poluentes. Pareciam uma boa ideia na altura, mas hoje desapareceram totalmente (com excepção do Trabant, que durou até ao fim do comunismo na defunta RDA). Quero eu dizer, os problemas que esses veículos procuravam resolver já não existem e os inconvenientes que causavam seriam hoje totalmente inaceitáveis.

O socialismo, o comunismo, o marxismo faliram totalmente, não só em termos históricos, sociais e políticos, como em termos filosóficos e ideológicos. Nada do que o marxismo propôs tem interesse. O único interesse do marxismo é como uma colecção de erros a não repetir.

Toda a gente sabe disso. Mas quase todos se comportam, no seu discurso e nas suas práticas, como se houvesse uma alternativa ao capitalismo. Não há. Quer dizer que a luta da esquerda terminou?

Renovar a esquerda

Só entre o meio do século XIX, com a radicalização das revoluções europeias de 1848 e a publicação do Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx, e o último quartel do século XX, com a queda do Muro de Berlim, em 1989, portanto num período de mais ou menos 140 anos, é que esquerda e socialismo se confundiram.

A esquerda já participa na História há muitos séculos. Na Roma do fim da República, cerca de 100 anos antes de Cristo, a luta política era entre Optimates e Popularis, os primeiros ligados à tradição e aos latifundiários tribais, os segundos aos comerciantes e às camadas urbanas e populares. As opções sobre que se digladiavam são apenas curiosidades históricas para nós, mas o combate, já então como agora, era entre direita e esquerda.

Pode-se conceber a continuação da História das nossas sociedades de hoje sem o confronto político entre conservadores e progressistas? Claro que não.

O que há a fazer, então? Limpar a mesa de restos do passado, preparar o caminho para a reconstituição de um pensamento de esquerda moderno.

Paradoxalmente, para fazer isso, penso eu, se calhar temos que voltar ao passado pré-marxista da esquerda e recuperar os seus valores centrais e históricos. Valores democráticos, claro. Valores humanistas. Valores universalistas.

Os valores da esquerda

Partamos, por exemplo, da Declaração Universal dos Direitos do Homem. É uma base bem sólida, com 200 anos de prestígio na luta pela liberdade, desde a Revolução Americana até à Revolução Laranja da Ucrânia.

Dirás tu, leitor, que é talvez demasiado abrangente. Na verdade hoje em dia ninguém se atreve a pronunciar-se contra ela!

Tanto melhor. Mas experimenta aplicá-la num tópico de luta política a vais ver como, na prática, surgem os velhos confrontos entre direita e esquerda.

Queres combater a xenofobia que hoje aparece como bandeira de alguns movimentos de direita e extrema direita? Apoia-te na Declaração.

Queres tomar parte na discussão da questão da interrupção voluntária da gravidez? Apoia-te na Declaração e terás a tua vida facilitada.

Queres intervir na questão da globalização? De acordo com a Declaração, não podes defender o direito ao trabalho dos trabalhadores portugueses ou europeus, à custa de vedar o acesso ao mercado mundial por parte dos trabalhadores chineses ou indonésios. Mas também não podes prescindir dos direitos dos trabalhadores portugueses ou europeus, permitindo que entrem todos numa competição para ver quem trabalha mais barato e mais próximo da escravatura. O que deves fazer é lutar, a nível internacional, para que os países que querem entrar no mercado mundial tenham de dar aos seus trabalhadores condições mínimas de dignidade, regalias e direitos.

A Decaração faz parte da constituição americana, tal como da portuguesa. Mas George Bush II anda a violar a sua própria constituição todos os dias, em Guantanamo e nas câmaras de tortura de aluguer que mantém em vários países!

Não estou a dizer que a Declaração Universal dos Direitos do Homem é uma base suficiente, ou uma plataforma viável para o futuro. Provavelmente não. Mas para já permite recentrar os valores da esquerda na sua base humanista, limpar a ganga marxista do discurso, esclarecer ideias que têm estado muito embrulhadas.

Fins e meios

É provável que não volte a haver um sistema de ideias rígido, uma concepção total do mundo, monolítica e abrangente, como o marxismo. Isso é bom. Um universo de ideias caótico e contraditório, mas dinâmico e criativo, corresponde muito mais ao nosso modo de pensar actual.

O marxismo, em grande medida, perverteu a esquerda. Impôs aos militantes uma amoralidade utilitária. Tudo o que fosse a favor do partido, era bom, tudo o que fosse contra, era mau. E quem decidia o que era bom para o partido? O secretário−geral, ou o seu bonecreiro, em Moscovo. Era bom mentir, trair, enganar, difamar e até reprimir quem se opusesse ao partido. Os fins justificavam sempre os meios.

Nunca se pensava que o uso de certos meios reprováveis ou perversos comprometia os fins.

Pequenos partidos e seitas imitavam o modelo moscovita, muitas vezes de forma mais extrema e intolerável. Mesmo entre os partidos mais abertos e democráticos, as práticas do suposto centralismo democrático marxista infiltraram-se.

Os meios não justificam os fins. Numa luta política, os meios fazem parte da metodologia para alcançar os fins. Porque a luta política deve ser centrada em valores e não na imposição de um modelo, ao usar métodos incompatíveis com os nossos valores, somos automaticamente penalizados; pelo contrário, quando os nossos métodos e valores são coerentes, somos beneficiados.

Vamos deixar de usar golpes baixos na política? Não me parece. Mas quando os usarmos, saberemos que os golpes são baixos e que pagaremos um preço se formos apanhados.

Quando comecei a escrever este texto nunca pensei que saísse tão comprido. E não disse nem metade do que me apetece dizer. Mas vou ficar por aqui.

Recuperemos os valores da esquerda, então. Humanismo. Os direitos do Homem. Liberdade, Igualdade, Fraternidade.

Firmamo-nos nessa sólida base e seguimos em frente. Depois logo se vê.

Allons enfants de la Patrie, le jour de gloire est arrivé, contre nous de la tiranie, l'étandard sanglant est levé…

30 de novembro de 2008

Susan e Janis

Esta noite saí e bebi uma quantidade apreciável de gin-tonics. Portanto vou falar de coisas de que normalmente não falaria.

Leonard Cohen é o meu grande herói cantor. Nem sequer canta grande coisa, mas exprime coisas profundas e simples que mais de uma vez me deixaram à beira das lágrimas (o que para mim não é nada fácil).

No meio dos anos 60, a canção que fez o sucesso de Leonard Cohen foi "Susan". Aqui está uma interpretação em duo com Judy Collins (que foi a primeira intérprete) em 1976.

Suzanne takes you down
To her place near the river
You can hear the boats go by
You can spend the night beside her
And you know that shes half crazy
But thats why you want to be there
And she feeds you tea and oranges
That come all the way from china
And just when you mean to tell her
That you have no love to give her
Then she gets you on her wavelength
And she lets the river answer
That youve always been her lover
And you want to travel with her
And you want to travel blind
And you know that she will trust you
For you've touched her perfect body
With your mind.

And Jesus was a sailor
When he walked upon the water
And he spent a long time watching
From his lonely wooden tower
And when he knew for certain
Only drowning men could see him
He said all men will be sailors then
Until the sea shall free them
But he himself was broken
Long before the sky would open
Forsaken, almost human
He sank beneath your wisdom like a stone
And you want to travel with him
And you want to travel blind
And you think maybe youll trust him
For hes touched your perfect body with his mind.

Now Suzanne takes your hand
And she leads you to the river
She is wearing rags and feathers
From Salvation Army counters
And the sun pours down like honey
On Our Lady of the Harbour
And she shows you where to look
Among the garbage and the flowers
There are heroes in the seaweed
There are children in the morning
They are leaning out for love
And they will lean that way forever
While suzanne holds the mirror
And you want to travel with her
And you want to travel blind
And you know that she will trust you
For shes touched your perfect body
With her mind.

A Susana leva-te para
A sua casa perto do rio
Podes ouvir os barcos passar
Podes passar a noite com ela
E sabes, ela é meio louca
Mas é por isso que queres lá estar
Ela dá-te chá e laranjas
Vindas desde a China
E quando tentas dizer-lhe
Que não tens amor para dar-lhe
Ela faz-te entrar na sua onda
E deixa o rio responder
Que sempre foste seu amante
E queres ir com ela
E queres ir às cegas
E sabes que ela confia em ti
Porque tocaste o seu corpo perfeito
Com a tua mente

E Jesus era um marinheiro
Quando caminhava sobre a água
E passou muito tempo a vigiar
Da sua solitária torre de madeira
E quando teve a certeza
Que só os afogados o viam
Disse todos os homens serão marinheiros
Até que o mar os liberte
Mas ele próprio estava falido
Muito antes que o céu se abrisse
Abandonado, quase humano
Afundou-se sob a tua sabedoria como uma pedra
E tu queres ir com ele
Queres ir às cegas
E pensas que confias nele
Porque ele tocou o teu corpo perfeito
Com a sua mente.

Bem, a Sunana pega-te na mão
E leva-te para o rio
Ela usa trapos e penas
Do Exército da Salvação
E o sol corre como mel
Na Nossa Senhora do Porto
E ela mostra-te o que ver
Entre o lixo e as flores
Há heróis no sargaço
Há crianças na manhã
Em busca de amor
E buscarão para sempre
Enquanto Susana segura no espelho
E tu queres ir com ela
E tu queres ir às cegas
E sabes que ela confiará em ti
Porque tocou o teu corpo perfeito
Com a sua mente.

Conheci a canção quando foi editada, nos anos 70, muito antes que o céu se abrisse e eu fosse amante de alguém, muito antes que algém tocasse o meu corpo perfeito com a sua mente, ou vice-versa. Mas é próprio da poesia partilhar coisas que nem sabemos que a vida tem. Hoje esta canção ressoa estranhamente com a minha vida, mas já quando a conheci sentia, sem o saber, que assim seria.

Mas sobre a canção, isto passava-se em Montreal. Nossa Senhora do Porto (Nôtre Dame du Bon Secours) tinha uma torre com uma estátua de madeira de Jesus, que, imaginava o poeta, contemplava os afogados. E Susan existia, era uma pessoa real. Mais tarde Leonard Cohen afirmou que nunca dormiu com ela, apenas imaginou coisas que pôs em poesia. Mas enquanto Cohen é um poeta e bardo celebrado, Suzanne Verdal, a última vez que soube dela, era uma sem-abrigo alcoólica na Califórnia. Há alguma justiça nisto? Na verdade, Susan nunca escreveu poesia nem foi uma estrela pop. A vida não está boa para as musas...

Outra musa na vida de Cohen, outra grande canção, outro problema moral. Esta musa foi realmente uma estrela pop, mas foi também infeliz. Chelsea Hotel.

Na TVE em 1988, com legendas e tudo, Leonard Cohen, então com 56 anos, diz que compôs a canção "há mil anos" para Janis Joplin.

I remember you well in the Chelsea Hotel,
You were talking so brave and so sweet,
Giving me head on the unmade bed,
While the limousines wait in the street.

Those were the reasons and that was New York,
We were running for the money and the flesh.
And that was called love for the workers in song
Probably still is for those of them left.

Ah but you got away, didn't you babe,
You just turned your back on the crowd,
You got away, i never once heard you say,
I need you, i don't need you,
I need you, i don't need you
And all of that jiving around.

I remember you well in the Chelsea Hotel
You were famous, your heart was a legend.
You told me again you preferred handsome men
But for me you would make an exception.
And clenching your fist for the ones like us
Who are oppressed by the figures of beauty,
You fixed yourself, you said, "well never mind,
We are ugly but we have the music."

And then you got away, didn't you babe...

I don't mean to suggest that i loved you the best,
I can't keep track of each fallen robin.
I remember you well in the Chelsea Hotel,
That's all, i don't even think of you that often.

Lembro-me bem de ti, no Chelsea Hotel
Falavas tão rebelde e tão doce
Fazendo-me um broche na cama desfeita
Enquanto as limusines esperavam na rua

As razões eram essas, era Nova Iorque
Corríamos pelo dinheiro e pela carne
E para os trabalhadores da canção chamava-se amor
E se calhar ainda chama para os que lá ficaram.

Ah, mas tu safaste-te, não foi querida
Viraste as costas à multidão
Safaste-te e nunca te ouvi dizer
Preciso de ti, não preciso de ti
Preciso de ti, não preciso de ti
E toda essa treta

Lembro-me bem de ti no Chelsea Hotel
Eras famosa, o teu coração uma lenda
Disseste que preferias homens bonitos
Mas no meu caso abrias uma excepção

E fechavas o punho, para aqueles como nós
Somos oprimidos pelas imagens da beleza
Arranjaste-te e disseste, “bem, não interessa
Somos feios mas temos a música”.

E então safaste-te, não foi querida...

Não quero sugerir que fui quem te amou melhor
Não faço colecção de tordos caídos
Lembro-me bem de ti no Chelsea Hotel
É tudo, e nem sequer penso muito nisso.

Morta há muito Janis Joplin de overdose, há qualquer coisa de mórbido na indiscrição poética de Cohen. Mas também, na doçura do tom, uma gentil evocação. Os meus amores estão todos vivos, felizmente, mas muito longe, vivendo outras vidas. E as imagens que me vêm à memória têm às vezes essa doçura improvável. O amor morto motor da saudade, como diria Caetano Veloso.

19 de outubro de 2008

A Guerra de Três Biliões de Dólares

Joseph Stiglitz ganhou o Nobel de Economia em 2001 com um estudo sobre os "mercados com informação assimétrica" e demonstrou que as transacções favorecem sempre os que dispõem de mais informação, pregando com isso o último prego no caixão do liberalismo económico. Diz ele que a razão porque a mão invisível de Adam Smith é invisível é porque "ou está paralítica ou não existe".

Stiglitz escreveu recentemente um livro, "The Three Trillion Dollar War", estimando os custos reais da guerra do Iraque (3 triliões de dólares para um americano são 3 biliões de dólares para um europeu, ou US$ 3 000 000 000, ou ainda US$ 3,0E+12. De notar que o Produto Mundial Bruto são 65 biliões de dólares, ou US$ 65E+12 — ver post anterior).

Já há uns tempos que ando a matutar sobre os custos das guerras nos tempos modernos. Em todos ou quase todos os casos, nas últimas décadas, creio que os custos foram ruinosos, quer para agressores quer para agredidos. Até, digamos, talvez o fim do século XIX, as guerras representavam um benefício económico para o vencedor, ou pelo menos uma vantagem estratégica comprada por um preço muito alto, mas aceitável, atendendo ao valor dessa vantagem. Não creio que seja esse o caso hoje. Quem desencadeia uma guerra paga a gracinha com a sua própria ruína económica.

Isto é capaz de ser muito bom para a causa da paz...

Stiglitz na Colbert Nation (Comedy Central) (ing.)

Animação com o conceito dos custos da guerra (ing.)

Artigo na Vanity Fair com excertos do livro (ing.)

Página pessoal de Joseph Stiglitz (ing.)

Blog sobre o custo da guerra (ing.)

Artigo de Stiglitz sobre este assunto no Diário Económico (port.)

30 de setembro de 2008

O que são 1,2 biliões de dólares?

Só num dia, na Wall Street, foi destruído todo o produto nacional bruto da Rússia ou da Coreia do Sul. Isto sem contar com descidas dramáticas nas outras bolsas mundiais. Pior ainda, as descidas (ou melhor, quedas) vão continuar...

Em 29 de Setembro de 2008, na sequência da falência do voto no Congresso dos EUA sobre a proposta de George W. Bush do fundo de 700 mil milhões de dólares (700 biliões, na denominação americana) para impedir a derrocada da bolsa de Nova Iorque, esta entrou em pânico.

Ao saber-se do fracasso na Câmara de Representantes, o índice industrial DOW desceu abruptamente 770 pontos, o que corresponde a 1,2 biliões de dólares (ou 1,2 triliões americanos) em perdas no valor dos títulos.

Para se perceber a escala da catástrofe, pode-se dizer que num dia foram destruídos 2% do produto mundial bruto, ou seja, todo o produto nacional bruto da Coreia do Sul ou da Rússia!

Ou ainda, quase 55 vezes o produto nacional bruto português (230.500 milhões de dólares PPP em 2007).

Fonte: List of countries by GDP (PPP) (Wikipedia em inglês). Usei a coluna relativa ao "CIA World Fact Book". Ao usar dólares correntes nas perdas de Wall Street e dólares corrigidos PPP nos produtos nacionais brutos, poderá resultar alguma imprecisão, mas não creio que seja importante.

Aqui está um gráfico em forma de "queijo" para visualizar as quantidades de que estou a falar:

PNB em dólares corrigidos
em paridade de poder de compra
(PPP)

País/Região GDP
(M$ PPP)
US$
(PPP)
Mundo   65.610.000   65,6E+12
UE 14.380.000 14,4E+12
EUA 13.840.000 13,8E+12
China 6.991.000 7,0E+12
Japão 4.290.000 4,3E+12
Índia 2.989.000 3,0E+12
Brasil 1.836.000 1,8E+12
Resto do Mundo 21.284.000 21,3E+12
Perdas
de Wall Street
29/09/08
1.200.000 1,2E+12

A coluna da direita está em
notação científica. 1,2E+12 significa
1,2 vezes 10 elevado a 12, ou seja, 1,2 biliões.

Produtos nacionais brutos do mundo
e o pânico da Wall Sreet em 29/9/08

 

27 de setembro de 2008

Esbjörn Svensson ao vivo

Esbjörn Svensson Trio interpreta "Serenade for the Renegade" live no festival Jazz à Juan Les Pins festival em França em 19 de Julho de 2003.

24 de setembro de 2008

Três híbridos em série impressionantes

Eis três veículos impressionantes que mostram o futuro das novas tecnologias automóveis. Os três são híbridos plug-in em série (gerador-bateria-motor) com motores eléctricos inseridos nas rodas, logo sem qualquer espécie de transmissão mecânica.

Plug-in quer dizer que podem ser carregados por uma tomada de corrente doméstica. O gerador é um pequeno motor de combustão interna que só é chamado a trabalhar se a viagem for muito longa ou o condutor for muito tipo fórmula um. Todas as baterias são de iões de lítio, como baterias de telemóvel gigantes. É de notar que só um deles saiu dos esforços da grande indústria (Mitsubishi).

Mini QED

De fotos_do_Blog

O Mini QED é um veículo de demonstração de alta performance criado pela PML Flightlink (empresa inglesa que também fabrica micromotores para electrónica, joysticks, etc.), pioneira da roda-motor, para chamar atenção para esta tecnologia por parte da indústria automóvel e do público. A tracção às quatro rodas é controlada por um computador com inteligência artificial.

Segmentos no YouTube:

http://www.youtube.com/watch?v=XdRS7eVVZbU

http://www.youtube.com/watch?v=pd_L7aEotGM

http://www.youtube.com/watch?v=NfpOxSqGgjY

Notícia em Autoblog.com:

http://www.autoblog.com/2006/07/21/pml-s-mini-qed-boasts-640-in-wheel-electric-horsepower/

Website da PML Flightlink

http://www.pmlflightlink.com/archive/news_mini.html

VentureOne

De fotos_do_Blog

O VentureOne é um triciclo híbrido em série com rodas-motores traseiras, sobre uma outra plataforma já de si revolucionária: o triciclo oscilante holandês Carver. A empresa Venture Vehicles, de Los Angeles, promete ter carros prontos para experiência no fim deste ano, embora pareça difícil que consiga cumprir.

Mas a promessa é e-s-p-e-c-t-a-c-u-l-a-r !

http://www.flytheroad.com/ – Para além de fotos e características do VentureOne, a página de vídeos tem uma série de avaliações do Carver, pelo Top Gear da BBC e outros. O Carver ainda tinha uma tracção tradicional, com um motor a gasolina de 600 cc turbo.

Mitsubishi Evo MIEV

De fotos_do_Blog

A Mitsubishi é a única major a dedicar-se a esta tecnologia e apostou em criar um Mitsubishi Evolution com as mesmas performances mas com rodas-motores eléctricas, e parece que conseguiu!

Mitsubishi Evo MIEV (Mitsubishi In-wheel Electric Vehicle)

Rodas-Motores

As rodas-motores (in-wheel motors) são uma tecnologia antiga que renasceu recentemente mas há já várias aplicações, inclusive autocarros de transportes colectivos a circular na Suécia. A Bridgestone estuda como configurar os motores dentro das rodas para serem mais leves e servirem de amortecedores (os problemas desta tecnologia são aumentar o peso e inércia das rodas, bem como não isolar os motores da vibração da estrada). Como é óbvio, o motor eléctrico tem de estar numa caixa estanque e os seus contactos têm que ser protegidos da água...

Os factores positivos são decisivos: os motores nas rodas tornam obsoletos todos os mecanismos de transmissão e um pesado motor central de combustão interna ou eléctrico, minorando o peso do veículo, reduzindo drasticamente o atrito mecânico e aumentando o espaço disponível para os passageiros; permitem recuperar a maior parte da energia cinética durante as travagens com os próprios motores a servirem de geradores e ao mesmo tempo fornecendo travagem eléctrica eficiente; permitem o controlo electrónico de toda a tracção/travagem, simplesmente com o uso de software e prescindindo de mecanismos electromecânicos complexos e caros (ABS, Traction Control, etc.).

Fora do sector automóvel, muitos combóios modernos usam rodas-motores, bem como muitas máquinas industriais e accionadores comandados por computador.

História

Ferdinand Porsche (ele mesmo) criou este híbrido em série em 1900 e bateu o recorde de velocidade com 37 km/h!

As vantagens dos motores nas rodas atraíram alguns inventores que registaram patentes ainda no séc. XIX. Por volta de 1900, Ferdinand Porsche arranjou o primeiro emprego na firma Lohner, na Boémia do Norte, hoje República Checa e criou o seu primeiro carro. Como pode ver na foto, era um híbrido em série, com motores nas rodas da frente. O carro foi um sucesso, a Mercedes foi buscar o jovem prometedor e o resto, como se costuma dizer, é História!

Porsche abandonou os carros eléctricos porque a gasolina na altura era muito barata e os motores eléctricos muito caros. As baterias eram os pesadelos que se sabe. Mas só um génio consegue que um design seu acabe por obter sucesso mais de 100 anos depois!

Este carro de Porsche e algumas patentes do século XIX foram estudados pelos engenheiros da NASA quando nos anos 70 criaram o Lunar Rover, também com rodas-motores, para andar na Lua nas missões Apolo.

18 de junho de 2008

Estudo de pés

Terei de fazer estudos de vários pormenores da composição. Sempre fui preguiçoso a desenhar pés e mãos, portanto este aspecto é importante. O principal problema, mais tarde, vai ser a cara. Criar a expressão dramática certa e a posição correcta (mas dinâmica) da cabeça e dos ombros vai ser uma empreitada. Todo esse processo vai ser documentado aqui.

Usei o programa Art Rage2, que vinha com a mesa Wacom Bamboo. Menos sofisticado que o Photoshop ou o Gimp, mas muito intuitivo e com ferramentas muito giras!

14 de junho de 2008

A minha Pietà

Tinha pensado fazer disto um óleo, mas vou começar por uma ilustração digital. Há muito que este tema anda na minha cabeça: a velha Pietà de Miguel Ângelo, mas sem o filho ser deus e a mãe ser santa. A velha tragédia num olhar mais humanizado, servida pelos meus parcos recursos.


Primeiro esboço. Visualizar no tamanho real

Vou publicando os esboços e continuar pelas diversas fases de acabamento. Por fim, eventualmente farei o óleo. Este é o primeiro esboço.

Gosto da mãe, está dinâmica e expressiva. O filho terá de ser redesenhado, pois não há forma de a cabeça dele estar amparada pelo braço dela. Tenho de fazê-lo semi-reclinado.

O cenário que surgiu na minha cabeça é este. Poderá ser Colômbia, Bolívia, Brasil, não interessa. Não é uma afirmação política. Se o fizesse no mundo árabe ou em África, teria tendência a ser visto como um tomar de partido em conflitos locais. Fugi daí porque quero dizer: qualquer mãe, qualquer filho, em qualquer parte do mundo.

2 de junho de 2008

Investigação a uma padeira

[Aparte sobre o pintor Rafael mencionado na mensagem anterior]

As obras de Rafael são uma delícia para os olhos. Ainda mais para alguém como eu, militante de base que paga de vez em quando as quotas do partido da arte, olhando com humildade para o que faz um dirigente histórico. Mais do que o público, o praticante compreende os problemas técnicos e artísticos resolvidos de forma genial nas obras dos grandes mestres.

 

Rafael, La Fornarina (A Padeira), Palácio Barberini, Roma.
Fonte: Wikipedia.
Passe o rato sobre a imagem para ver a correcção do tamanho da cabeça.
Pode ver ver aqui, na Wikipedia, o quadro ampliado.

Mas o praticante vê-se também confrontado com insidiosas questões: as imperfeições que saltam aos olhos. Que fazer? Quem sou eu para criticar Rafael?

E serão mesmo imperfeições? A forma de olhar para o corpo humano evoluiu. Hoje somos assaltados constantemente por fotos que nos demonstram de forma mecânica, quais são as suas proporções.

Eis aqui Rafael a representar uma mulher, diz-se que a sua amante, Margherita Luti, cujo corpo conhecia de cor e salteado, talvez melhor que ela própria. Múltiplas indicações, a começar pelos nossos próprios olhos, dizem-nos que Rafael era, além de pintor, um desenhador genial.

No entanto, não há forma nenhuma de aqueles ombros descaídos e fracos, de senhora nobre e indolente, sustentarem os fortes braços de camponesa. E a cabecinha, não está pequena de mais?

Olhando com mais atenção, parece haver aqui duas obras. Da altura dos seios para baixo, o traço é vigoroso, o tom da pele é mais cor de terra. Dos seios para cima, o tom de pele é mais amarelado, o traço mais discreto, usa-se mais o sfumato.

Meti a gravura no Gimp e fui investigar. Inicialmente pensava que eram os ombros que deveriam ser mais fortes (ou os braços mais fracos). Mas logo percebi que era a cabeça. Aumentei-a (com um pouco de exagero, para efeitos de polémica) e subitamente fiquei a contemplar uma mulher muito mais real, mas também muito mais comum e popular, uma romana de Quinhentos.

Rafael podia tê-la desenhado e pintado assim, se quisesse. Mas deixaria de parecer uma deusa do Olimpo, o que possivelmente era a sua intenção.

Rafael era um homem do Renascimento e ambicionava, acima de tudo, cumprir os cânones. E as dimensões da cabeça em relação ao corpo estavam nos cânones. De um modo geral, os homens da Renascença não se interessavam pela realidade comum, apenas a usavam para representar realidades idealizadas, como a vida dos santos ou os deuses no Olimpo. E deformavam-na com esse fim.

Outra hipótese: Maria e não Margherita?

A Fornarina é de 1519 e está no Palácio Barberini, em Roma. Três anos antes, em 1516, Rafael pintou a mesma pessoa, a Mulher de Véu (La Velata), desta vez com proporções perfeitas. Está no Palácio Pitti, em Florença. A minha intuição diz-me que este é um Rafael completo, genial de uma ponta à outra.

Rafael, A Mulher do Véu

Rafael, A Mulher do Véu (La Velata), Palácio Pitti, Florença. Fonte: Wikipedia.
Pode ver ver aqui, na Wikipedia, o quadro ampliado.

Diz se que La Fornarina estava no atelier de Rafael quando este morreu em 1520 e foi modificado e vendido pelo seu assistente, Giulio Romano, que viria a iniciar o Maneirismo e está na origem da gravura erótica classicista.

Diz-se também que Rafael se casou secretamente com Margherita, uma plebeia muito abaixo da condição do artista, e resistiu durante anos a uma noiva que lhe era imposta, Maria Bibbiena, sobrinha de um cardeal Medici. Os seus discípulos parecem ter tentado afastar Margherita depois da morte de Rafael, fazendo crer que o casamento com Maria teria tido lugar in extremis.

Diz que tanto La Fornarina como La Velata retratam a mesma mulher, Margherita Luti. Claro que é a mesma mulher. Mas eu digo que é mais provável que se trate de Maria Bibbiena. Isso explica o facto da parte de cima da Fornarina não me provocar a sensação de ser de Rafael, mas a parte de baixo sim. A Velata seria um retrato de Maria Bibbiena, feito todo ele por Rafael; a Fornarina seria um retrato de Margherita também por Rafael, mas repintado parcialmente por Giulio Romano para representar também Maria, promover a ideia do casamento no leito de morte e esconder ainda mais o seu casamento secreto com a padeira.

No túmulo de Rafael está escrito: Ille hic est Raffael, timuit quo sospite vinci, rerum magna parens et moriente mori (Aqui jaz o famoso Rafael, por quem, enquanto viveu, a Natureza temia ser vencida, e quando ele morreu, ela temeu morrer também).

1 de junho de 2008

Viagens na Web

Decidi aprofundar as razões porque gosto do Barroco e da arte barroca.

Escrever sobre um assunto leva muitas vezes a uma mudança de perspectiva, porque ideias simplistas são postas em causa, conhecimento acriticamente recebido exige prova e, invariavelmente, fico espantado com o pouco que sabia.

Toca de pesquisar o barroco então, como preparação de uma mensagem (ou série delas) sobre o assunto. Eu já sabia que a primeira ideia a cair seria a noção, promovida pelos historiadores de arte alemães do séc. XIX, neoclássicos, que o vêem como uma degenerescência da pureza clássica1 da Renascença.

É sina de cada período de arte ser crismado pelos seus detractores. Já os da Renascença, admiradores da Antiguidade Clássica, desprezavam a arte da Idade Média, arte de bárbaros, de Godos. Gótica, portanto. Pela qual mais tarde os Românticos, que desprezavam o racionalismo clássico, se apaixonaram. Onde começa o Barroco e onde termina? Para conhecer o Barroco tem que se partir da Renascença, que aquele continuou e contra o qual reagiu. E ainda há aquele outro estranho movimento no meio, o Maneirismo, que segundo alguns autores durou 50 anos em Itália e 200 em Portugal.

La Fornarina, Rafael
Rafael, La Fornarina (A Padeira),
Margherita Luti,
amante do artista (Wikipedia).

A pesquisa começos pela Renascença, portanto. Dos três grandes desse período, Leonardo, Miguelângelo e Rafael, eu conhecia menos Rafael. Comecei por aí. A Wikipédia tem boas galerias que ajudam a apreciar esta pintura fabulosa, com páginas para muitos dos quadros e frescos, três graus de zoom e muita informação auxiliar, ajudada pela Web Gallery of Art. Mas o Barroco não é só arte. Revisitei Galileu (para a Renascença), Espinoza e Liebnitz.

Pelo meio experimentei a Last.fm e voltei a ouvir chillout, downtempo, trip-hop, em jejum desde o fecho da XFM/Voxx, há uns anos. Desde essa época tenho vivido confinado à música clássica. Por 2,5 € por mês teria direito à minha rádio na Web, com as minhas preferêncas, podendo recomendá-la aos meus amigos e mais algumas coisas no domínio do social networking. Mas eu limitei-me a escrever o nome de um artista e a Last.fm vai tocando artistas que considera parecidos com aquele, suponho que obtidos pela análise das contiguidades na sua base de dados de utilizadores e artistas. O que resulta numa audição muito agradável para mim.

Uma notícia no Google levou-me a uma reportagem no Washington Post que ganhou o Prémio Pulitzer, sobre os mercenários no Iraque: Private Armies, de Steve Fainunu. A arrogância brutal de empresas como Blackwater é extraordinária. Quando querem passar a escoltar algum Gauleiter americano numa rotunda apinhada de trânsito, correm toda a gente a tiro. Se alguém se aproxima, matam-no. E estão acima da lei, tanto no Iraque como nos EUA.

Um detalhe sobre veículos usados pelos mercenários levou-me a um site sobre tecnologias militares Defensetech.org, onde descobri Future Combat Systems uma iniciativa do Exército dos EUA (onde estão a gastar mais de mil milhões de dólares) para criar a guerra de infantaria do século XXI, com blindados de tracção híbrida, drones robots e sensores/câmaras em rede espalhados pelo campo de batalha.

Uma observação da minha prima sobre a possível obsolescência do Purgatório levou-me a ler uma encíclica de Bento XVI, Spe Salvi, onde soube que os pecadores católicos já não terão que passar tempo no churrasco à espera de eventualmente serem salvos, mas sofrerão uma dor curativa, talvez como a de Santa Teresa de Ávila, cujo sofrimento (ou prazer), retratado por Bernini, é uma das obras-primas do Barroco.

O Êxtase de Sta. Teresa de Ávila, Bernini, 1652, Igreja de Sta. Maria da Vitória, Roma

O Êxtase de Sta. Teresa de Ávila, Bernini, 1652, Igreja de Sta. Maria da Vitória, Roma


1 — A designação de clássico não é também neutra. Clássico é aquilo que se deve ensinar na classe. O fundamento perfeito do conhecimento. Só depois de se conhecer e compreender esse núcleo se deveria estudar as outras coisas menos perfeitas. [Voltar ao texto]

22 de maio de 2008

Alguns aitemes para discutir

Não sou nacionalista, mas gosto das nossas coisas. Uma das coisas que temos e eu gosto é a língua. Na verdade fui programado para gostar dela, tal qual fui programado para gostar da minha mãe e do meu pai. Nunca tive escolha...

Portanto nasci dentro do português, cresci lá dentro e penso em português. Nada de especial, milhões de pessoas fazem isso!

Gostar de ser o que se é e de amar o que se foi programado para amar, a isso os psicólogos chamam estar integrado. Eu estou.

Lucidamente, sei que o português é uma língua como muitas outras. Mas é a minha!

Também não sou purista em relação à língua. A língua é um código vivo, sempre criado e recriado por todos os que a usam para falar, pensar e escrever.

Novas ideias expressas por palavras vindas de outras línguas? Venham elas!

Esperar que um linguista encartado aprove novas palavras e as autorize a circular? Ridículo!

Liberta da prisão académica dos literatos oitocentistas, a língua evolui de novo com rapidez, propulsionada pela oralidade e pela escrita rápida dos novos media. Como no tempo de Gil Vicente ou Fernão Lopes. Acudom asinha ca matom o meestre!

Mas atenção, asneira continua a ser asneira!

© Carlos Cabanita. Copy and diffusion permited with mention of author, no change allowed

Se tivermos que ser provincianos, sejamo-lo à portuguesa. O pior provinciano é o que tenta ser cosmopolita imitando provincianos doutros lados.

Como toda a gente sabe, o português descende do latim. Entre as duas línguas existem sonoridades comuns. Pessoalmente, eu adoro o latim. Praticamente a única coisa boa de ser obrigado a ir à missa em garoto era que a missa era dita em latim. Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, miserere nobis.

É característico do falante português esforçar-se, quando fala outra língua, por imitar o sotaque original. Claro que não consegue, mas tenta. Outros povos não se esforçam muito ou nada: casos dos espanhóis, franceses e ingleses.

Ora o inglês é uma língua germânica na sua estrutura, mas fortemente aculturada pelo contacto com as línguas latinas, nomeadamente o francês antigo. Na corte de Inglaterra falava-se francês. Mas entre os séculos XII e XVI o inglês sofreu um processo chamado great vowel shift, ou grande deslocamento das vogais. Foi aí que os ingleses ficaram a dizer ai em vez de i, ei em vez de a, i em vez de e e uma data de outras coisas.

Sendo ingleses, portanto nada dados a esforçar-se muito no domínio do sotaque, os eruditos de Oxford e Cambridge começaram a pronunciar à inglesa o latim que estudavam — foi assim que surgiu o macarrónico latim de Oxford e era aí que eu queria chegar.

Os portugueses que se dedicam aos negócios ou à informática entraram em contacto com alguns neologismos de origem norte-americana e, saloiamente, decidiram pronunciá-los à inglesa — sem saberem que estavam a assassinar o latim. Assim dizem aitem em vez de item, mídia em vez de média. E deita em vez de data, mas na verdade deveriam dizer dados.

© Carlos Cabanita. Copy and diffusion permited with mention of author, no change allowed

Um amigo meu dos tempos do liceu conseguia falar inglês de praia com sotaque algarvio...
 

A nossa língua tem uma grande proximidade com o latim, que falta ao inglês. Para eles, um dado é um datum (e lêem deitam) e para o plural usam o latim data (deita) porque tratam a palavra como um corpo estranho ao inglês.

Nós não. Não usamos datum, data porque há séculos que se tornou na nossa palavra dado, dados. A palavra significa exactamente o mesmo, por isso devemos manter o português. Idem com medium, media. Nós temos meio, meios, e funciona perfeitamente.

Mas se temos de dizer multimedia, não caiamos no ridículo de dizer mâltaimidia! Multi é latim, media também: multimédia, pois claro!

Item, caso não saibam, é uma palavra portuguesa. Vem no dicionário. Por favorzinho, pronunciem-no correctamente (como idem). Quem diz aitem pode saber muito de informática ou negócios mas é ignorante em português!

Quanto aos bites e baites, nada a fazer, são palavras inglesas, mais os spredes e as praime reites. Mas os megas e os gigas são grego.

Mais uma nota, sobre o inglês como língua franca. Em tempos tentei falar inglês como os ingleses, mas desisti. Em primeiro lugar, é extremamente difícil. Estrangeiros que vivem em Portugal há muitos anos, nós portugueses apanhamo-los logo que abrem a boca. Para os ingleses, claro, é o mesmo. Em segundo lugar é um pouco ridículo a gente esforçar-se tanto por falar com perfeição a língua das pessoas (ingleses a norte-americanos) menos dispostas no mundo a aprender a(s) nossa(s).

Portanto, dediquei-me a falar inglês com fluência mas com um sotaque atroz. Que é exactamente o que fazem todos os que usam o inglês como língua franca. E com sotaques igualmente atrozes falo desembaraçadamente francês e portunhol!

E se querem a minha opinião sincera, o sotaque inglês mais atroz é precisamente o dos ingleses.

Amen, assim seja, então. (E não ei-men!)

Resolver o nosso problema demográfico é fácil

Num aparte sobre o assunto da mensagem anterior, lembrei-me da recente preocupação nacional com a taxa de natalidade. Íamos ser um país de velhos, a Segurança Social iria falir, etc.

Urgia que o governo pusesse cobro a este estado de coisas, subsidiasse os nascimentos, apoiasse os casais com muitos filhos...

Não se disse que os velhos que seremos (ou já somos) terão uma vida activa mais longa, e produtiva, por por terem maior esperança de vida e gozarem de melhores condições de saúde. Não se disse que as pessoas têm menos filhos não por falta de dinheiro, mas porque têm um pouquinho dele (ou crédito) e algumas condições de vida que querem melhorar, tanto para elas próprias como para os seus descendentes.

Numa sociedade dominada pela informação (enfim, um bocadinho...) a interrupção de uma carreira laboral é perigosa, porque pode isolar o trabalhador das últimas novidades e comprometer a sua capacidade de competir. Por outro lado, a mesma sociedade da informação leva-nos a investir cada vez mais recursos na educação de cada criança, para que ela tenha melhores condições de sucesso.

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Ter muitos filhos é uma proposta desvantajosa para um casal moderno. Para além de ficar arruinado (e de dar a cada criança menos condições do que desejaria) faltam-lhe os recursos humanos para cuidar de mais que um ou dois garotos.

Portanto, mesmo que o governo gaste mais dinheiro a subsidiar a maternidade e a paternidade, esses recursos continuarão a ser empregues pelos pais num número reduzido de garotos. O governo nunca poderá, de resto, aproximar-se das somas que cada progenitor (médio) gasta do próprio bolso com cada um dos seus filhos. Nem sequer na Suécia...

Porquê tanto sururu?

Como em qualquer boa discussão social, os verdadeiros argumentos raramente são ditos em voz alta, pois não se trata de razões mas sim de preconceitos.

Detrás desta cortina de argumentos pseudo-razoáveis, perfila-se a velha paranóia nacionalista e xenófoba. Outras nações, outros grupos, enfim, os outros vão reproduzir-se mais do que nós e vão ameaçar-nos! Vão disputar o nosso espaço vital e não teremos bravos soldados em número suficiente para nos defendermos! Mães portuguesas, toca a parir já! A Pátria exige!

No entanto, resolver o défice populacional, para um país europeu como Portugal, onde milhões de habitantes de outras partes do mundo não se importavam mesmo nada de morar, é muito simples: basta facilitar um pouco a imigração!

— Estás maluco! E a nossa identidade? Essa gente não fala nada que se entenda, não tem a pele da mesma cor da nossa, não vai à mesma igreja, se calhar nem sequer gosta de bacalhau e de fado!

Pois é. A nossa frágil cultura não aguentaria decerto uma tal infusão de gente nova e ideias novas. Somos um país definhado e provinciano, uma sombra do que fomos em Quinhentos...

Então mais vale deixar estar tudo como está, não é?


Nota: Deliberadamente, não discuti o desemprego, grande argumento da xenofobia. É uma variável de curto-médio prazo. A longo prazo, um país ou região beneficia com o aporte de recursos humanos. Vejam o caso de Portugal, que viu a sua população aumentar quase 10% em situação de grande crise económica (e política), com a vinda dos retornados, em 1975. As previsões catastróficas eram então muitas e os comportamentos xenófobos existiram, apesar de se tratar na verdade de portugueses; porém todas essas pessoas se integraram e creio que contribuiram muito para o crescimento económico do nosso país, até à crise recente. É mesmo possível que tenham trazido com eles um dinamismo que nos faltava...

9 de maio de 2008

O fim dos tempos

No texto Donos e Deuses 2, referi-me de forma optimista ao fenómeno do fundamentalismo religioso, crendo que era uma tendência passageira que se iria esbater e que a secularização das sociedades iria continuar.

Mas continuei a pensar sobre o assunto e entrei por vistas mais sombrias.

Não parti de ideias religiosas que, na verdade, seriam a explicação mais simples para o aumento do fundamentalismo: todos os deuses decidiram de repente espevitar os seus fiéis, talvez depois de declararem uns aos outros uma guerra de marketing.

Para um romance, era um bom cenário, com um grande problema: qualquer deus que ganhasse o conflito, os adeptos dos outros queimariam o livro (e/ou ou autor). Se todos ganhassem ou perdessem, não teria piada, e mesmo assim os fiéis quereriam queimar o livro.

Não, agora a sério, o problema tem a ver com o petróleo e com a comida.

Com a sua falta, mais exactamente. O petróleo vai continuar a subir, devido a que a sua procura aumentou. Cada vez mais pessoas precisam dele, ou por terem saído da pobreza abjecta, ou simplesmente por terem nascido. Especulação, instabilidade política e militar são factores, mas dependem da escassez: quanto maior a escassez, maior a especulação e a instabilidade política e militar.

Idem com a comida. Os preços agrícolas começaram a subir, porquê? Porque o petróleo subiu, por causa do etanol, porque há 6600 milhões de pessoas que precisam de comer qualquer coisa todos os dias, porque há especulação, etc. — e isso representa a fome para uma percentagem da humanidade.

Estávamos muito preocupados com o futuro do planeta, com o aquecimento global, com a globalização, quando um outro problema muito mais grave e urgente nos ameaça.

Provavelmente, estamos a bater no muro.

© Carlos Cabanita 2008. Free to copy & publish but must indicate author, modification not allowed.

Vou dizer o nome da coisa, que estamos a querer ignorar há décadas: superpopulação*.

Nos anos 60 do século XX, as pessoas estavam preocupadas. As projecções demográficas mostravam números disparatados. Impossível alimentar tanta gente!

Começou-se a pensar em controlo de natalidade, forçado em certos países. Começou aí a guerra de certas igrejas contra a contracepção.

Então descobriu-se a curva em S. Se o bem-estar das populações aumentasse, a natalidade decrescia rapidamente. Com o aumento da qualidade de vida, as populações da Europa e dos Estados Unidos estabilizaram. Ok, problema resolvido. Agora, pelo contrário, os países europeus preocupam-se em estimular a natalidade, quem diria...**

Não estamos a esquecer-nos de nada?

A maioria dos 6,6 mil milhões de pessoas*** nossas vizinhas nesta região do espaço não está nada perto da curva do S: passa fomeca de rabo, sofre toda a espécie de doenças, sobrevive a massacres e genocídios. Portanto, tem filhos aos magotes.

Isto não augura nada de bom.

Possivelmente aproximamo-nos de uma zona excepcionalmente violenta da história, em que poderá estar em causa a sobrevivência da nossa espécie.

Muitos de nós esperávamos que medidas justas pudessem ser discutidas e implementadas com antecedência, para resolver os grandes problemas da humanidade e do planeta. A maioria, está visto, não acredita nisso.

É esse o significado do desenvolvimento de culturas políticas que se fecham às ideias de solidariedade global e insistem obsessivamente nas políticas identitárias de grupo e na exclusão do outro. Para essas correntes, o caminho da sobrevivência passa pela defesa do seu grupo contra todos os outros, incluindo a promoção da natalidade. Nessas circunstâncias, o genocídio em proporções cósmicas é o resultado inevitável, porque não haverá lugar para todos.

A consciência colectiva não é só feita de ideias claras e discutidas por todos. Dela fazem parte também os medos e as obsessões muitas vezes inconfessáveis. Problemas incontornáveis como o de saber se de futuro haverá lugar para a sobrevivência dos MEUS descendentes não podem deixar de influenciar gravemente a consciência de todos e de cada um de nós, mesmo se não são discutidos abertamente - ou talvez precisamente por isso.

Esses medos e obsessões exprimem-se de outras maneiras e o fundamentalismo religioso é uma delas, incluindo mesmo, em muitas correntes, a noção do fim dos tempos.

Não tenho muita vontade de elaborar exaustivamente este cenário deprimente e as suas consequências catastróficas. A tendência para a preparação da batalha final não é a única, é contrariada por outras tendências no sentido do bom senso e da cooperação. Qual ganhará, não é garantido.

População mundial 1750-2150

População mundial. Fonte: Wikipédia
1750 1800 1850 1900 1950 1999 2050 2150
Oceania 2 2 2 6 13 30 46 51
América do Norte* 2 7 26 82 172 307 392 398
Europa 163 203 276 408 547 729 628 517
América Latina e Caribe* 16 24 38 74 167 511 809 912
África 106 107 111 133 221 767 1766 2308
Ásia 502 635 809 947 1402 3634 5268 5561
Mundo 791 978 1262 1650 2521 5978 8909 9746
* O México é incluído na América Latina pela ONU. Unidade: milhões de habitantes. Fonte: Wikipédia

Mas se conseguirmos que a humanidade, no seu todo, um dia atravesse a sua curva em S, isso provavelmente não será um processo limpo, mas será atravessado por crises graves, muita violência e pânico. E, para que a humanidade se salve, teremos também de lutar por ela.

Os sinais dos tempos foram descritos por muitos alucinados, ao longo da história, desde o Apocalipse de S. João até aos modernos profetas da Internet. Segundo eles, estes sinais marcam a proximidade da batalha final. Porém, não conheço caso algum em que esses alucinados tenham descrito um sinal óbvio: a subida dos preços da comida e da energia.


* Discussão sobre a superpopulação mundial em português, na Wikipédia. [Voltar ao texto]

** Transição demográfica, ver na Wikipédia em português. As Nações Unidas prevêem que a população mundial estabilizará nos 10 000 milhões por volta de 2200. Mesmo aceitando estes números, eu penso que há o perigo da economia mundial se tornar instável num prazo muito mais curto, devido à escassez de recursos e à catástrofe climática. [Voltar ao texto]

*** Pode ver aqui uma estimativa do total da população mundial neste preciso momento, entre outros dados (em inglês). [Voltar ao texto]

5 de maio de 2008

Genes e memes

Tendo escrito e ilustrado o texto anterior, comecei-me a preocupar com a defesa das ideias que exprimi.
Não sou cientista nem filósofo e para manter este blog e a minha página pessoal só disponho de umas quantas horas à noite, roubadas ao sono.
Provar ou invalidar a ideia de que a socialização do homem é parecida com a domesticação do cão está fora das minhas capacidades. Seria precisa larga pesquisa em psicologia comparada.
Portanto, o meu texto é uma opinião amadora, baseada numa longa experiência como dono de animais e numa infância com muito contacto com a religião.
Possa quem ler o texto divertir-se tanto a lê-lo como eu a escrevê-lo.
Mas não se trata de uma paródia. Acredito seriamente que o que exponho tem mais que um grão de verdade e explica alguns aspectos do comportamento da nossa espécie, nomeadamente o lugar que a religião ocupa em todas as sociedades humanas.
Um cão não é capaz de sentimento religioso? O animal pensa e exprime um leque bastante variado de emoções. Isso é evidente para quem tenha tido um.
Interessante é o facto do cão pensar e exprimir-se com o corpo. Adivinhar a emoção do animal é facílimo, basta olhar para ele. Mas o cão usa também o seu corpo para comunicar com o dono. Se ele vem ter comigo, pede atenção tocando-me com a pata ou com o focinho e depois vai até à porta, repetindo o acto várias vezes para o caso de eu não ligar à primeira, traduzido em linguagem humana quer dizer: Leva-me à rua!
Acontece o mesmo connosco. No seu livro O Sentimento de Si1, António Damásio indica que todo o corpo participa no acto de pensar, que a matéria prima básica do pensamento são imagens do corpo, que incluem tudo o que sentimos com o corpo e com os sentidos, mais a nossa memória.
Disseram-me sempre que pensávamos por palavras e eu sempre achei estranho porque pareço pensar por imagens, convertendo-as em palavras uma fracção de segundo antes de falar ou de articulá-las no meu monólogo interno. Tinha atingido a dimensão visual das imagens, mas a sua dimensão corporal surpreendeu-me.
Pensei logo na minha cadela. Afinal não somos tão diferentes! Nem poderíamos ser, sendo produtos próximos da evolução.
Portanto a minha cadela adorava-me, venerava-me. Provavelmente essa é a grande razão para as pessoas terem animais de estimação.
É também esta a atitude das pessoas perante os deuses.
O pensamento humano aparece assim como a evolução das capacidades animais, organicamente ligado à nossa fisiologia e também à nossa vida social, pois era com o corpo que se comunicava (e ainda se comunica) antes da linguagem.
Nada bom para a ideia do pensamento puramente racional.
Mas este encontra-se sob ataque de outro ponto de vista. Richard Dawkins, ao formular a sua teoria do Gene Egoísta2, que postulava que os seres vivos eram meros veículos para os genes se reproduzirem e prosperarem, postulou também os memes, unidades de informação (ditos, ideias, anedotas, danças, canções...) que se propagam de pessoa para pessoa, são lembrados ou esquecidos e têm mutações no processo.
© Carlos Cabanita 2008. Free to copy & publish but must indicate author, modification not allowed. Portanto, os memes propagam-se como vírus. Hoje centenas de cientistas e estudiosos investigam as leis da sua propagação, incluindo os que se dedicam ao comportamento da Web.
De um lado pensamos com o corpo, como uns animais; de outro são as nossas ideias que nos colonizam. Nada bom para o pensamento racional.
Mas podemos desenvolver e desenvolvemos memes que controlem a coerência do nosso pensamento, como o método científico, considerado um memeplex.
A racionalidade parece-se com a liberdade. Há tantas constrições na nossa vida que parecemos não ter qualquer liberdade; mas quando a não temos a diferença é evidente. Do mesmo modo, há tantas limitações ao pensamento racional que parece não existir; de tal modo que temos de conhecer o mais possível a sua metodogia e requerimentos para o podermos exercer, nas preciosas poucas ocasiões em que podemos atingi-lo.
AVISO: Você acabou de ser exposto ao metameme, ou seja, o meme sobre os memes... e provavelmente foi infectado por ele.
1 António Damásio, O Sentimento de Si, Europa-América. Nota biográfica aqui. [Voltar ao texto]
2 Richard Dawkins, O Gene Egoísta, Gradiva. Na Wikipédia, em português, um artigo sobre os memes. [Voltar ao texto]