22 de maio de 2008

Resolver o nosso problema demográfico é fácil

Num aparte sobre o assunto da mensagem anterior, lembrei-me da recente preocupação nacional com a taxa de natalidade. Íamos ser um país de velhos, a Segurança Social iria falir, etc.

Urgia que o governo pusesse cobro a este estado de coisas, subsidiasse os nascimentos, apoiasse os casais com muitos filhos...

Não se disse que os velhos que seremos (ou já somos) terão uma vida activa mais longa, e produtiva, por por terem maior esperança de vida e gozarem de melhores condições de saúde. Não se disse que as pessoas têm menos filhos não por falta de dinheiro, mas porque têm um pouquinho dele (ou crédito) e algumas condições de vida que querem melhorar, tanto para elas próprias como para os seus descendentes.

Numa sociedade dominada pela informação (enfim, um bocadinho...) a interrupção de uma carreira laboral é perigosa, porque pode isolar o trabalhador das últimas novidades e comprometer a sua capacidade de competir. Por outro lado, a mesma sociedade da informação leva-nos a investir cada vez mais recursos na educação de cada criança, para que ela tenha melhores condições de sucesso.

© Carlos Cabanita. Copy and diffusion permited with mention of author, no change allowed

Ter muitos filhos é uma proposta desvantajosa para um casal moderno. Para além de ficar arruinado (e de dar a cada criança menos condições do que desejaria) faltam-lhe os recursos humanos para cuidar de mais que um ou dois garotos.

Portanto, mesmo que o governo gaste mais dinheiro a subsidiar a maternidade e a paternidade, esses recursos continuarão a ser empregues pelos pais num número reduzido de garotos. O governo nunca poderá, de resto, aproximar-se das somas que cada progenitor (médio) gasta do próprio bolso com cada um dos seus filhos. Nem sequer na Suécia...

Porquê tanto sururu?

Como em qualquer boa discussão social, os verdadeiros argumentos raramente são ditos em voz alta, pois não se trata de razões mas sim de preconceitos.

Detrás desta cortina de argumentos pseudo-razoáveis, perfila-se a velha paranóia nacionalista e xenófoba. Outras nações, outros grupos, enfim, os outros vão reproduzir-se mais do que nós e vão ameaçar-nos! Vão disputar o nosso espaço vital e não teremos bravos soldados em número suficiente para nos defendermos! Mães portuguesas, toca a parir já! A Pátria exige!

No entanto, resolver o défice populacional, para um país europeu como Portugal, onde milhões de habitantes de outras partes do mundo não se importavam mesmo nada de morar, é muito simples: basta facilitar um pouco a imigração!

— Estás maluco! E a nossa identidade? Essa gente não fala nada que se entenda, não tem a pele da mesma cor da nossa, não vai à mesma igreja, se calhar nem sequer gosta de bacalhau e de fado!

Pois é. A nossa frágil cultura não aguentaria decerto uma tal infusão de gente nova e ideias novas. Somos um país definhado e provinciano, uma sombra do que fomos em Quinhentos...

Então mais vale deixar estar tudo como está, não é?


Nota: Deliberadamente, não discuti o desemprego, grande argumento da xenofobia. É uma variável de curto-médio prazo. A longo prazo, um país ou região beneficia com o aporte de recursos humanos. Vejam o caso de Portugal, que viu a sua população aumentar quase 10% em situação de grande crise económica (e política), com a vinda dos retornados, em 1975. As previsões catastróficas eram então muitas e os comportamentos xenófobos existiram, apesar de se tratar na verdade de portugueses; porém todas essas pessoas se integraram e creio que contribuiram muito para o crescimento económico do nosso país, até à crise recente. É mesmo possível que tenham trazido com eles um dinamismo que nos faltava...

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