9 de maio de 2008

O fim dos tempos

No texto Donos e Deuses 2, referi-me de forma optimista ao fenómeno do fundamentalismo religioso, crendo que era uma tendência passageira que se iria esbater e que a secularização das sociedades iria continuar.

Mas continuei a pensar sobre o assunto e entrei por vistas mais sombrias.

Não parti de ideias religiosas que, na verdade, seriam a explicação mais simples para o aumento do fundamentalismo: todos os deuses decidiram de repente espevitar os seus fiéis, talvez depois de declararem uns aos outros uma guerra de marketing.

Para um romance, era um bom cenário, com um grande problema: qualquer deus que ganhasse o conflito, os adeptos dos outros queimariam o livro (e/ou ou autor). Se todos ganhassem ou perdessem, não teria piada, e mesmo assim os fiéis quereriam queimar o livro.

Não, agora a sério, o problema tem a ver com o petróleo e com a comida.

Com a sua falta, mais exactamente. O petróleo vai continuar a subir, devido a que a sua procura aumentou. Cada vez mais pessoas precisam dele, ou por terem saído da pobreza abjecta, ou simplesmente por terem nascido. Especulação, instabilidade política e militar são factores, mas dependem da escassez: quanto maior a escassez, maior a especulação e a instabilidade política e militar.

Idem com a comida. Os preços agrícolas começaram a subir, porquê? Porque o petróleo subiu, por causa do etanol, porque há 6600 milhões de pessoas que precisam de comer qualquer coisa todos os dias, porque há especulação, etc. — e isso representa a fome para uma percentagem da humanidade.

Estávamos muito preocupados com o futuro do planeta, com o aquecimento global, com a globalização, quando um outro problema muito mais grave e urgente nos ameaça.

Provavelmente, estamos a bater no muro.

© Carlos Cabanita 2008. Free to copy & publish but must indicate author, modification not allowed.

Vou dizer o nome da coisa, que estamos a querer ignorar há décadas: superpopulação*.

Nos anos 60 do século XX, as pessoas estavam preocupadas. As projecções demográficas mostravam números disparatados. Impossível alimentar tanta gente!

Começou-se a pensar em controlo de natalidade, forçado em certos países. Começou aí a guerra de certas igrejas contra a contracepção.

Então descobriu-se a curva em S. Se o bem-estar das populações aumentasse, a natalidade decrescia rapidamente. Com o aumento da qualidade de vida, as populações da Europa e dos Estados Unidos estabilizaram. Ok, problema resolvido. Agora, pelo contrário, os países europeus preocupam-se em estimular a natalidade, quem diria...**

Não estamos a esquecer-nos de nada?

A maioria dos 6,6 mil milhões de pessoas*** nossas vizinhas nesta região do espaço não está nada perto da curva do S: passa fomeca de rabo, sofre toda a espécie de doenças, sobrevive a massacres e genocídios. Portanto, tem filhos aos magotes.

Isto não augura nada de bom.

Possivelmente aproximamo-nos de uma zona excepcionalmente violenta da história, em que poderá estar em causa a sobrevivência da nossa espécie.

Muitos de nós esperávamos que medidas justas pudessem ser discutidas e implementadas com antecedência, para resolver os grandes problemas da humanidade e do planeta. A maioria, está visto, não acredita nisso.

É esse o significado do desenvolvimento de culturas políticas que se fecham às ideias de solidariedade global e insistem obsessivamente nas políticas identitárias de grupo e na exclusão do outro. Para essas correntes, o caminho da sobrevivência passa pela defesa do seu grupo contra todos os outros, incluindo a promoção da natalidade. Nessas circunstâncias, o genocídio em proporções cósmicas é o resultado inevitável, porque não haverá lugar para todos.

A consciência colectiva não é só feita de ideias claras e discutidas por todos. Dela fazem parte também os medos e as obsessões muitas vezes inconfessáveis. Problemas incontornáveis como o de saber se de futuro haverá lugar para a sobrevivência dos MEUS descendentes não podem deixar de influenciar gravemente a consciência de todos e de cada um de nós, mesmo se não são discutidos abertamente - ou talvez precisamente por isso.

Esses medos e obsessões exprimem-se de outras maneiras e o fundamentalismo religioso é uma delas, incluindo mesmo, em muitas correntes, a noção do fim dos tempos.

Não tenho muita vontade de elaborar exaustivamente este cenário deprimente e as suas consequências catastróficas. A tendência para a preparação da batalha final não é a única, é contrariada por outras tendências no sentido do bom senso e da cooperação. Qual ganhará, não é garantido.

População mundial 1750-2150

População mundial. Fonte: Wikipédia
1750 1800 1850 1900 1950 1999 2050 2150
Oceania 2 2 2 6 13 30 46 51
América do Norte* 2 7 26 82 172 307 392 398
Europa 163 203 276 408 547 729 628 517
América Latina e Caribe* 16 24 38 74 167 511 809 912
África 106 107 111 133 221 767 1766 2308
Ásia 502 635 809 947 1402 3634 5268 5561
Mundo 791 978 1262 1650 2521 5978 8909 9746
* O México é incluído na América Latina pela ONU. Unidade: milhões de habitantes. Fonte: Wikipédia

Mas se conseguirmos que a humanidade, no seu todo, um dia atravesse a sua curva em S, isso provavelmente não será um processo limpo, mas será atravessado por crises graves, muita violência e pânico. E, para que a humanidade se salve, teremos também de lutar por ela.

Os sinais dos tempos foram descritos por muitos alucinados, ao longo da história, desde o Apocalipse de S. João até aos modernos profetas da Internet. Segundo eles, estes sinais marcam a proximidade da batalha final. Porém, não conheço caso algum em que esses alucinados tenham descrito um sinal óbvio: a subida dos preços da comida e da energia.


* Discussão sobre a superpopulação mundial em português, na Wikipédia. [Voltar ao texto]

** Transição demográfica, ver na Wikipédia em português. As Nações Unidas prevêem que a população mundial estabilizará nos 10 000 milhões por volta de 2200. Mesmo aceitando estes números, eu penso que há o perigo da economia mundial se tornar instável num prazo muito mais curto, devido à escassez de recursos e à catástrofe climática. [Voltar ao texto]

*** Pode ver aqui uma estimativa do total da população mundial neste preciso momento, entre outros dados (em inglês). [Voltar ao texto]

1 comentário:

  1. LEIO COM AGRADO O SEU BLOG E «PASSEANDO» SOBRE O TEXTO SOMOS LEVADOS, PODE-SE ASSIM DIZER A UMA VIAGEM ÁEVOLUÇÃO DA CULTURA HUMANA, NAS VARIADAS VERTENTES SEJAM ELAS POSITIVAS OU NÃO.
    UM«PASSEIO» DURANTE O QUAL O TEMPO VOA.
    UM ABRAÇO:JOAO ALVES.

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