11 de abril de 2010

Aprender é fixe

Estive com um casal de amigos meus, o Vasco e a Teresa, preocupados com o rendimento escolar do seu filho no segundo ciclo. Um moço simpático, o Gonçalo, sem qualquer problema aparente, mas subitamente baixou as notas de forma drástica.

Na altura não me ocorreu nada de inteligente para dizer, mas mais tarde pensei no assunto e resolvi escrever, publicando aqui no meu blogue para que possa ser visto por mais pessoas e criticado.

Sei que já passaram muitos anos desde que estive no liceu (ainda se chamava liceu, vejam bem!) e também bastantes anos desde que tive uma breve experiência como professor no Secundário, ou desde que a minha filha foi aluna. Mas tenho este hábito, pensar nas minhas experiências anos e anos a fio, de cada vez que um problema novo se põe, que tenha a ver com elas. O Secundário hoje é muito diferente do que eu conheci, mas certas coisas nunca mudam.

Os meus amigos, bem intencionados, tentavam impressionar o Gonçalo com a necessidade de ser bom aluno, prestar atenção nas aulas, fazer os trabalhos. Prometiam-lhe uma Playstation se ele tivesse três nas disciplinas fundamentais.

E eu a pensar: porque é que esta atitude está errada?

Disse ao Vasco, que é treinador de desporto infantil em part-time: “Tu devias saber como resolver isto. Tens problemas assim com os teus miúdos.”

“Pois é, mas com o Gonçalo não consigo”, respondeu ele frustrado.

“Com os teus miúdos, como sabes, o problema fundamental é a motivação, não é?”

“Claro, eu com eles consigo transmitir isso, mas com o meu filho não.” “Se calhar é por ele ter uma namorada pela primeira vez, não sei”, acrescentou a Teresa.

pre-ad Acabaram-se-me as ideias interessantes, mas fiquei a pensar naquilo. Uma namorada, bem, provavelmente pensa nela all the time, é isso o amor. Mas não projectemos a visão dos adultos sobre a vida das crianças. Uma namorada é excitante, mas não será naquela idade uma experiência de abalar o mundo. Deve ser outra coisa.

Imaginei o rapaz, depois de ouvir os sermões parentais e disposto, como bom filho, a cumpri-los, a chegar à escola. Claro, assim que chega à escola, está numa sociedade diferente em que tem que cumprir uma agenda social própria. Tem de agradar às figuras proeminentes do seu grupo, aprender os jogos que estão em voga no momento, participar nas partidas que estão a ser preparadas e evitar ser vítima delas, gerir uma rede complexa de amizades e inimizades, tudo isso complicado por esse fenómeno novo de ter uma namorada, que traz obrigações sociais novas (e novos e doces prazeres) que vai descobrindo à medida que se lhe deparam, e que põe em causa todo o resto da rede (e pensa na namorada todo o tempo, claro).

É muito complicado. Aquilo que prometeu aos pais não chega a entrar na sua agenda.

Conversa sobre disciplina, motivação, não dá. O Gonçalo tem uma vida complicada e faz o melhor que pode — mas o melhor que pode não é suficiente.

A Teresa e o Vasco, na forma como tentavam encorajar o Gonçalo a ser bom aluno, estavam, sem querer, a transmitir a ideia de que a escola é uma seca, as aulas uma espécie de punição que é preciso sofrer para vencer. Não creio que o Vasco diga aos seus jovens atletas que a preparação é uma pílula amarga que é preciso tomar para chegar à vitória.

Nem um nem outro foram bons alunos no secundário. O que sentiram perante os estudos, quando eram crianças, está a ser passado aos seus descendentes. Como evitar que isso aconteça?

Lembrei-me do meu secundário. Durante todo o secundário não estudei absolutamente peva, no entanto sempre tive notas excelentes. Fui dois anos o melhor aluno do liceu. Era considerado um rapaz muito inteligente (e também era feio, baixinho e gordo, de óculos de fundo de garrafa e totalmente desprezado pelas garotas — um perfeito nerd).

Teria dado alegremente cinco pontos de média (na escala de vinte, que se usava na altura) por um pouco de atenção e um beijo de uma das deusas do meu sétimo ano. Fat chance! (Por acaso a minha primeira mulher foi uma delas, alguns anos depois e já numa galáxia distante.)

Quanto à inteligência, já repararam que todos temos a cabeça mais ou menos do mesmo tamanho? Não é o cérebro maior que faz alguém inteligente. A inteligência tem a ver com a forma como o cérebro está organizado. Decerto há componentes hereditários que determinam a estrutura do cérebro, não digo que não, mas as capacidades mentais estruturam-se durante o desenvolvimento da criança, de acordo com as tarefas que desempenha e os seus interesses.

Os interesses são decisivos, porque quando uma criança se interessa por qualquer coisa, repete, repete, repete, repete…

Cria assim um sulco no seu cérebro. Um caminho de erva pisada no meio do mato. Uma acção conhecida, que é fácil repetir. Então, a criança nota que essa acção lhe dá uma vantagem competitiva, porque pode fazê-la melhor que outros, que não praticaram tanto. É assim que se passa também no desporto, não é, Vasco?

Li há tempos na Internet onde um tipo chamava a atenção para o facto de que as capacidades das pessoas, para além de certas aptidões gerais, são adquiridas e não natas, e quem começa o curso primeiro tem vantagem.

A minha vantagem no liceu era que eu achava interessante o que era dado nas aulas. Prestava atenção ao que os professores diziam, discutia com eles, ia aos livros ver pormenores sobre o assunto. Em casa fingia que estudava, com uma banda desenhada do Cavaleiro Andante ou Major Alvega por baixo dos livros de estudo. Tinha sempre melhores notas que os coitados que marravam horas e horas todos os dias.

O que é que isso tem a ver com os problemas do Gonçalo, do Vasco e da Teresa? Meus amigos, têm de apagar essa atitude derrotista perante o estudo, para não a transmitirem ao vosso filho. Têm de interessar-se pelo que ele anda a aprender.

Têm de interessar-se pelos livros dele, lê-los na diagonal, o suficiente para fazer perguntas interessadas e interessantes sobre a matéria. Vão ver que acham piada, ao fim destes anos todos.

Mas não é com a ideia nas notas. São os assuntos mesmos que são interessantes, não interessam as notas. As notas aparecem depois.

É pá, ó Gonçalo, já viste o que era um Tyranossaurus Rex aqui na nossa rua? Bem… Não era nada bom para a saúde, encontrar um bicho daqueles… Ainda bem que desapareceram todos antes do nosso tempo! Há quantos milhões de anos é que dizes que desapareceram? Mas houve várias eras antes, não foi, com bichos diferentes… Vai lá ver ao livro, mostra lá. E por aí fora.

Podia-se arranjar uma pantomina ainda mais engraçada. Suponhamos que um de vocês afirma que tem de fazer um exame para promoção na profissão, ou uma formação contínua, que exige fazer uma revisão às matérias, precisamente as mesmas que o vosso filho anda a dar? Então pedem-lhe ajuda.

Estão a imaginar uma discussão ao jantar sobre como resolver uma equação ou sobre o significado de um texto de português?

Isto daria uns serões familiares engraçadíssimos. Pelo que eu conheço do garoto, muito amigo de ajudar e de participar, ganharia uma motivação fortíssima, aprender para ensinar aos pais! Prestaria muito mais atenção às aulas, já que se estariam a referir a problemas discutidos lá em casa. E ao mesmo tempo, entenderia que o que anda a aprender não é uma coisa sem interesse, mas um factor importante na vida adulta.

Quanto a vocês, a Teresa perderia umas telenovelas e o Vasco deixaria de ver uns desafios de futebol na TV. Mas tenho quase a certeza que se iriam divertir mais!

O estado esforçou-se e conseguiu oferecer educação para todos. Isso é bom. Mas as escolas que o estado conseguiu fazer chegam só até um certo ponto. Os professores não são grande coisa, salvo honrosas excepções, os pais, temos de admiti-lo, não se esforçam muito, salvo, mais uma vez, honrosas excepções, o ambiente não é o mais propício ao desenvolvimento pessoal dos miúdos.

Continuam a ter de ser as pessoas a criar o seu próprio caminho. Quem quer o melhor para os seus filhos, acima da mediocridade geral, tem que esforçar-se um pouco mais e ser  um pouco mais criativo.

Espero ter ajudado.


Nota: Os nomes das pessoas não são estes, alguns pormenores pessoais desnecessários foram omitidos, a parte científica relativa ao desenvolvimento infantil foi grosseiramente simplificada. Mas nada disso interessa a esta discussão. Se acham que estou errado nos meus pontos de vista, digam-me.

5 comentários:

  1. É verdade, aprender é fixe. Por isso é bom aprender durante o resto da vida. Os pais não deviam fazer só uma pantomina sobre o pseudo-interesse de certos assuntos dos filhos. Eles próprios deviam aprender sobre os seus próprios assuntos. Assim trnsmitem uma ideia honesta e verdadeira sobre aprender. As farças descobrem-se rapidamente.

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  2. Ola amigo,claro que aprender e fixe contigo então... mais uma vez consegui ler um texto que até nao e muito extenso porque o meu amigo escreve muito bem sobre qualquer assunto e quem lê algo seu aprende sempre mais qualquer coisa obrigado por seres meu amigo abraço, ainda mantenho aquele desafio aberto para quando um artigo aqui sobre esta terra....(angola claro), abraço continua assim amigo

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  3. Grande problema o focado neste teu "Aprender é fixe". os pais descartam-se, cada vez mais da tarefa de educar, acham que tudo acontece na escola...mentira, tudo começa em casa. Se não somos nós, pais, a dar o exemplo esqueçam...o sucesso jamais será alcançado, salvo raras excepções em que as crianças se auto-educam e auto-motivam. Por isso aconselho, como mãe de uma criança que está no 2º ciclo neste momento, dediquem algum do vosso tempo aos vossos filhos, vão aprender ou reaprender muito!!!

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  4. Talvez a pantomina não seja boa ideia, mas eu também não queria assustar aqueles meus amigos. É claro que seria descoberta rapidamente, mas eu só queria uma desculpa para começar a coisa. Novas ideias aceitam-se.

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  5. Amiga anónima, acho bem os seus sentimentos, mas deixe-me sublinhar uma ideia, que possivelmente partilha comigo: é preciso que a coisa tenha piada!
    Forçar a criança a empinar assuntos pelos quais ninguém se interessa e ninguém discute (nem os pais, nem os amigos, nem os colegas) é tornar a sua tarefa dez vezes mais difícil, é praticamente garantir o falhanço.
    A minha ideia é fazer com que o programa escolar seja um assunto tão normal de discutir à mesa da cozinha como os sucessos do Benfica ou as peripécias da telenovela. O programa, não os resultados escolares.
    Este casal de amigos meus tem dificuldades acrescidas, pois se trata de trabalhadores (ele fabril, ela dos serviços) que perderam há muito o hábito de discutir estes assuntos.
    Mas são inteligentes e muito interessados no sucesso do seu filho e eu acredito que vão conseguir -- e como bónus ainda vão divertir-se!

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