23 de março de 2017

Entrevista a David Fitzgerald

Na edição em português de Nailed: Dez Mitos Cristãos que Mostram que Jesus Nunca Sequer Existiu

David Fitzgerald é um autor irlandês-americano, um investigador histórico e um ativista ateu de São Francisco, Califórnia. Foi diretor e co-fundador do primeiro Festival de Cinema Ateu do mundo e Evolutionpalooza!, a celebração mais antiga do Dia de Darwin de São Francisco. Escreveu vários livros de esclarecimento e entretenimento sobre a religião a partir de uma perspetiva ateia, incluindo a série The Complete Heretic's Guide to Western Religion e Nailed, o seu exame da evidência histórica para Cristo - que acaba de ser lançado em português.

Em primeiro lugar, parabéns pela nova tradução portuguesa do seu livro Nailed: Dez Mitos Cristãos que Mostram que Jesus Nunca Sequer Existiu. É uma boa notícia para os muitos leitores da língua portuguesa. Tenho a certeza de que a ideia de que Jesus da Galileia não foi um personagem histórico, mas um mito religioso surpreenderá a maior parte do público, ainda mais entre os falantes lusófonos, uma vez que se baseia principalmente no trabalho de estudiosos nos EUA. Para os religiosos, a ideia de que Jesus não foi uma pessoa real é naturalmente chocante, mas mesmo ateus e agnósticos, educados dentro de uma cultura cristã, resistem muito a considerar a possibilidade. Como é que começou a encarar essa ideia?


David Fitzgerald
David Fitzgerald

É engraçado: dezassete anos atrás, a ideia de que poderia não haver um Jesus verdadeiro nunca me tinha ocorrido. Ironicamente, foi quando tive a curiosidade de saber o que Jesus realmente terá dito e feito (e que partes dos Evangelhos eram apenas acrescentos lendários) que comecei a olhar seriamente para a evidência de Jesus. Resumindo, agora estou convencido, não de que os Evangelhos são apenas mitos sobre uma pessoa real – mas que o próprio Jesus é uma figura completamente mítica dos primeiros cristãos.

Qual foi a reação do público ao seu livro? Diga-nos qual foi o feedback, primeiro, dos cristãos, e depois, dos ateus.

David Fitzgerald
Capa da edição em português de "Nailed: Dez Mitos Cristãos que Mostram que Jesus Nunca Sequer Existiu"

Bem, não surpreende ninguém que o público religioso odeie Nailed! Estou principalmente feliz e grato que o livro tenha sido muito bem recebido pela comunidade secular. Mas fiquei bastante surpreso com a reação de alguns ateus. Não era que simplesmente discordassem ou pensassem que eu estava errado; isso é natural. Era a ferocidade com que insistiam que HAVIA um Jesus, e que era absurdo e louco pensar o contrário.

Por que acha que há tanta resistência entre os não-crentes à ideia de que Jesus era um mito religioso?

Penso que há várias razões, incluindo a reação que tive quando desenvolvi essa perceção crescente: Hmmm... Estou a começar a pensar que esse tipo nunca existiu... de forma nenhuma! Fiquei estupefacto. Não conseguia acomodar-me. Como poderíamos ter esse mundo cristão feudal gigantesco se nunca tivesse havido um Jesus? E suspeito que, para muitos ateus, essa noção espantosa dispara os mesmos alarmes que quando vêem malucos a falar sobre a Atlântida ou o Bigfoot, ou que a viagem à Lua foi uma encenação.

E, para ser justo, existem várias teorias de Jesus mitológico que são absurdas de todo (por exemplo, a ideia de que o cristianismo foi inventado pelos romanos como meio de controlo social). Mas, basicamente, muitos ateus, incluindo historiadores seculares, herdaram o presunçoso desprezo cristão de qualquer tipo de teoria de um Jesus mitológico.

E há um fenómeno sério de polarização nos estudos bíblicos modernos a que chamo a Analogia de Belfast. Discuto muito mais esta situação atual no meu novo livro que acompanha Nailed, intitulado Jesus: Mything in Action (que também será lançado em português, mas não para já).

Os falantes de português são na esmagadora maioria católicos, com uma recente e crescente minoria de evangélicos, principalmente no Brasil e em África, menos em Portugal. O estudo bíblico é muito menos importante entre os católicos do que entre os protestantes, pois para estes esse livro é a principal fonte de sua fé. A Igreja Católica prefere reivindicar o que chama continuidade apostólica – a ideia de que sua igreja é a mesma que Jesus fundou e que a sua autoridade se tem transmitido a toda a sucessão de papas. Mas eles também estão em apuros se o fundador não for real, não acha?

Absolutamente – e eu acho que sempre souberam muito bem como é precária esta alegação. Dito isto, pessoalmente eu não acho que valha a pena debater com os crentes a questão histórica de Jesus, precisamente porque mata o diálogo. Não precisamos que Jesus seja um mito. Se acontecer que estamos errados e um dia apareça uma boa evidência de um Jesus histórico, o cristianismo não começa de repente a fazer sentido. Ainda seremos bons ateus. Os cristãos, entretanto, não podem dizer isso. Eles não podem sequer desfrutar de agnosticismo descontraído sobre a mera possibilidade do miticismo. Precisam que Jesus NÃO seja um mito.

Infelizmente para eles, ele é um mito.

E isso é verdade, quer seja, em última instância, o campo do Jesus histórico ou o campo do Jesus mito a ganhar. O "Jesus da Fé" é desacreditado de qualquer maneira.

Como ateu, você acha que a existência ou inexistência de um Jesus histórico é importante?

Só se Jesus for importante; e honestamente, talvez já não seja muito importante.

O que é importante sobre esse argumento – e o que faz valer a pena discutir – é que ele mostra o que podemos e não podemos saber sobre quem ou o que Jesus realmente era.

Tudo o que aprendemos a partir deste argumento histórico – em ambos os lados – ajuda-nos a denunciar o bluff de quem diz que sabe como Jesus quer que você se comporte, pense ou vote.

E isso é uma coisa muito valiosa para todos os ateus!

O miticismo de Jesus parece pertencer a uma tendência de descrédito de mitos e de escrituras religiosos muito prezados. O Antigo Testamento viu a narrativa do êxodo do Egito e a do reino de Salomão deixarem de ser consideradas históricas (esquecendo os contos da criação e do dilúvio, que apenas os mais fanáticos religiosos levam a sério), e até mesmo a história da criação do Corão parece ser cada vez mais atacada por investigadores curiosos. Você acha que as principais religiões monoteístas estão sob o ataque dos historiadores?

Durante milénios, em todo o mundo, várias tribos religiosas foram informadas de que eram Povo Escolhido® do Único Deus Verdadeiro® sob o ataque do resto do mundo maléfico. É por isso que até hoje se opõem à ciência, à sátira, ao pensamento crítico, à arte, à história – qualquer tipo de pensamento livre que ameace as suas preciosas crenças. Querem que o universo seja minúsculo e simples e se sintam todos seguros sob o controlo de um pai autoritário. Essa visão do mundo desajeitada, primitiva, infantil é que está sob ataque. Essa ilusão confortável é que é posta em causa pelo peso absoluto do nosso incrível, belo, terrível, espantosamente vasto e maravilhoso universo.

Que diria aos nossos leitores para excitar a sua curiosidade de lerem o livro?

Nailed simplesmente mostra dez formas pelas quais a história que sempre foi contada sobre Jesus não passa no teste da realidade. É uma leitura fácil, divertida, informativa e uma boa introdução aos sérios argumentos da teoria do mito de Jesus. Se tem um amigo ou parente que acha que sabe o que Jesus pretende da sua vida, este livro vai dar-lhe algumas ferramentas úteis que o ajudarão a questionar essa certeza!

2 comentários:

  1. A DÚVIDA É A MAIOR DE TODAS AS FERRAMENTAS PARA SE QUESTIONAR O INDECIFRÁVEL. SOU CRISTÃO POR HERANÇA MAS SEMPRE ME POSICIONEI NO SENTIDO DA NÃO EXISTÊNCIA DESTE SER "IDEAL" E MARAVILHOSO CHAMADO JESUS CRISTO. SOU EXTREMAMENTE CÉTICO A RESPEITO DAS COISAS DO SER ENQUANTO SER.

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  2. Pesquisando sobre Jesus Cristo : Por que ele não é citado por qualquer historiador, pensador ou narrador dos séculos I e II ? Autores daquela época : Sêneca (nascido 4 anos antes da era comum – morto 65 anos depois da era comum), Plínio, o Velho (23 - 79), Quintiliano (39 – 96), Epitectus (55 – 135), Marcial (38 – 103), Juvenal (55 – 127), Plutarco (46 – 119), Plínio, o Jovem (61 – 113), Suetônio (69 – 122), Tácito (56 - 120), Philo-Jadaeus (15 aec – 50 dec), Flavius Josephus (37 – 103), Justus de Tiberíades (Século I).
    Nenhum deles cita um Jesus Cristo em seus textos. (As breves referências sobre ele feitas por Josephus, Suetônio e Tácito foram consideradas interpolações e não textos autênticos). Como a História Romana daquela época poderia ignorar um Personagem que se diz ter enfrentado aquele Império, mais as convulsões que ele teria provocado? Como poderia ele ser um nazareno se a aldeia de Nazaré só veio a surgir no século III-IV ?
    Por que ele só é citado nos Evangelhos, cujos autores, bem posteriores, não são judeus, já que eles desconhecem a geografia da Judeia-Palestina e divergem quanto aos costumes da região? Ele não é citado também nos Manuscritos do Mar Morto (descobertos nos anos 1940-1950), um conjunto de textos fragmentados de períodos anteriores e posteriores ao início da Era Comum. Assis Utsch

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