28 de janeiro de 2010

A medalha

Sábado passado, fui pela primeira vez ao Charneca da Caparica Futebol Clube, vulgo os Canários. Festejava 22 anos e o meu colega Luís Rodrigues tinha insistido para que eu fosse.

Garotos a jogar futebol, algumas pessoas conhecidas, o presidente da Junta, gente da Câmara, discursos, e pimba: pespegam-me uma medalha! Ia caindo da cadeira…

Da primeira vez que vou à colectividade, sou logo medalhado. E esta?

Medalha

Era conspiração do Rodrigues, que logo me chamou publicamente grande amigo, professor, colaborador da colectividade e coisas que tais — e me deixou francamente embaraçado.

Tudo isto era por causa de um blogue. O Rodrigues é impressor. Tem três filhos varões e informa os colegas com regularidade sobre os seus feitos desportivos. Todos os três estão no Charneca e o pai extremoso preocupa-se muito com o seu sucesso. Se jogam ou estão no banco, se vão aos treinos, se marcam golos, se são injustiçados pelos árbitros, é um feed constante. Recentemente recobrou uma paixão de escrever antiga e dedicou-se às crónicas.

Comecei a vê-lo aproveitar qualquer bocadinho livre para vir à minha sala, sentar-se num computador que estivesse livre e escrever. Escrevia crónicas desportivas com paixão e humor, sempre a defender os da casa, sempre a motivar os jovens futebolistas, no site do clube. Até tinha um pseudónimo, Repórter de Ocasião.

Tinha que aproveitar os momentos no trabalho (com alguma condescendência dos patrões) porque os rebentos lá em casa monopolizavam o computador para as suas necessidades escolares. Pior ainda, o site do clube era muito sumário e obrigava-o a escrever as crónicas no livro de visitas, só texto sem formatação, sem poder editar o que escrevesse.

Uma vez repórter, sempre repórter

Ó pá, tens que arranjar um blogue! — dizia-lhe eu. O Rodrigues estava focado nas suas capacidades recentemente adquiridas e não tinha pressa de complicá-las ainda mais. Eu sabia que com um blogue a tarefa ia simplificar-se, mas ele não. Fui deixando andar até que, uma noite, há um mês, criei-lhe o blogue completo, o Repórter de Ocasião,  e na manhã seguinte pu-lo perante o facto consumado. Foi uma espécie de prenda de Natal.

Daí para cá tem sido um sucesso. Depois de alguma formação e dicas (uns minutozecos entre tarefas), o Rodrigues levantou voo, adaptou-se rapidamente à sua nova plataforma e quase não passa dia que não publique um novo texto.

Não é nenhum milagre. O Rodrigues sempre se interessou por jornalismo e escrita e escreveu mesmo, há anos, contos policiários para jornais. A vida foi um pouco madrasta e não lhe deu oportunidade para prosseguir essa via. Eu, que sei como é rara, hoje em dia, a capacidade de escrever (aturo muitos licenciados incapazes de alinhar duas ideias seguidas), sempre procurei puxá-lo para a Internet, essa grande oportunidade de expressão pessoal.

Foi o entusiasmo pelas proezas desportivas dos seus moços que lhe deu finalmente a motivação para escrever online. Claro que, entretanto, também beneficiou o seu clube, de que é presidente da Mesa da Assembleia Geral.

O Rodrigues não é o meu único afilhado. Há mais pessoas com talento mas impreparadas para estes conceitos cujo acesso à Internet estou a tentar facilitar. Mas ele foi o caso de mais rápido progresso.

Porque faço isto? Porque não custa nada e tem piada. Escusavam de me dar a medalha!

3 comentários:

  1. Que as tuas iniciativas são de sucesso, já se sabia por estas bandas: já contabilizamos ajudas em teses de mestrado, plantas de bibliotecas, plantas de quintal melhor irrigadas, segredos de processamento de texto e uso de ferramentas virtuais ( e analógicas)! Enfim, também me associo à atribuição de medalha!

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  2. Ganda lata! E o asilo oferecido a um pobre algarvio sem Algarve, mais umas dezenas de lautas refeições, cama e roupa lavada, isso não conta? Eu não tenho nenhum poder institucional para dar medalhas, mas se tivesse...

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  3. Gosto de ler este Carlos Cabanita... pena é que não trabalhemos juntos, com comunhão de patrões, para eu ir aprendendo umas coisas das letras, que os números já me cansaram... quem me dera!! Parabéns, Carlos, que eu também dava medalha! Parabéns Luis Rodrigues, deus deu nozes a quem tinha dentes! Cláudia Loureiro

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