23 de dezembro de 2009

O Verdadeiro Espírito de Natal

Nesta quadra, é habitual ler lamentos de pessoas católicas ou tradicionalistas, queixando−se de que se perdeu o verdadeiro espírito de Natal. Que o materialismo e o consumismo imperam, que os cidadãos só pensam nas compras e nas prendas e esqueceram o aspecto espiritual do Natal.
O aspecto espiritual do Natal talvez seja ter um presépio em vez duma árvore decorada, contar às crianças a história do Menino Jesus em vez da do Pai Natal, pôr os sapatinhos na chaminé em vez de perto da árvore, sair a meio da noite de 24 para 25 de Dezembro, enfrentando frio, chuva a se calhar neve, com crianças de colo e tudo, para ir à missa do Galo ouvir um padre debitar uns lugares−comuns requentados numa igreja gelada, com saudades dos lençóis caseiros. (Se calhar as igrejas agora já têm aquecimento; não vou lá muito, não sei.)

12 de dezembro de 2009

Óscar Lobão


Meio caniche, meio cão de água, o Óscar Lobão pertence a Luís Lobão, o meu patrão. Daí o apelido. Mas passa pouco tempo em casa do dono, pois prefere ser um trabalhador não assalariado e não produtivo da Tipografia Lobão.

Entra ao serviço logo de manhã, percorrendo todas as secções. Acaba por se dirigir ao seu caixote, ao lado da minha secretária. Não sei o que faz de noite, mas vem quase sempre estafado, sujo e cheio de sono. A primeira tarefa do dia para mim é fazer lhe uma sessão intensiva de massagens nas orelhas. Depois enrosca-se e dorme, só interrompido pelos visitantes que lhe fazem festas. Perto da hora do almoço, começa a interessar-se pelo mundo. Entra na casa de banho e ladra a chamar alguém que lhe abra a torneira do bidé, ou então vai à recepção e exige um copo de água mineral da fonte. Procura então saber qual o carro que vai seguir em direcção ao restaurante.

27 de setembro de 2009

As administradoras da vida

Estava eu a dormir no quarto de hóspedes duns amigos meus quando fui despertado pela rotina matinal de uma mãe a despachar as suas duas filhas para a escola. Lavar, vestir, tomar o pequeno-almoço, lavar os dentinhos, as mochilas, o carro, as horas. Suplicava, ameaçava, tentava vários tons de voz, repetia-se constantemente. As crianças, aparentemente, estavam noutra. Pareciam apostadas em torpedear, através da resistência passiva, o horário apertado da mãe. A voz dela denunciava um stress crescente.

24 de setembro de 2009

Ruínas da memória

Fui ver ruínas históricas e ruínas pessoais.

Quanto às históricas, visitei o castelo de Paderne. Como o dinheiro e a pedra não abundavam, os Mouros construíram o castelo em taipa1, pintando nas paredes uma alvenaria fingida para enganar os inimigos cristãos. Oito séculos mais tarde, se calhar pelas mesmas razões, falta de fundos e pedra, o meu avô materno, no início do século vinte, usou a mesma técnica construtiva para erguer um casebre para a sua numerosa família, antes de se finar de forma muito temporã. Não fingiu alvenaria, antes pintou tudo com singela cal.

21 de setembro de 2009

Globalização no Portugal profundo

Praia do Alfamar, 18/09/09

Praia do Alfamar, 18/09/09

Finalmente estou a trabalhar para o bronze. Já tenho até umas queimaduras, sem as quais não me atreveria a voltar à Grande Lisboa. Já não tenho família em Portimão, onde cresci, pelo que desta vez vim parar a Boliqueime, terra dos meus pais.

O Algarve que eu conheci em garoto já não existe (felizmente!). Saí de cá cedo, sem ter acompanhado as grandes mudanças que o tempo e o turismo operaram. As pessoas falam-me de  uma nova toponímia com nomes de empreendimentos turísticos (Quinta do Lago) ou praias outrora ignoradas que se tornaram famosas por causa de gente famosa (do Alemão, dos Tomates, do Ancão). Não conheço nada disso.

Boliqueime, pelo contrário, está cheia de imagens da minha infância. Houve muita construção, é claro, mas nada da avalanche de betão que soterrou os Olhos de Água, por exemplo. Apesar do mar se ver no horizonte, a distância da costa salvou o sítio. Ando pelas ruas sonolentas esmagadas pelo sol, vejo casas que reconheço, os habitantes parecem tão apostados em ignorar o presente como há quarenta anos, só que agora muito mais velhos.

Boliqueime

Boliqueime

 

Boliqueime é um sítio hostil para mim. Foi onde decidi virar costas às amêndoas e às alfarrobas, romper com a beatice familiar, com a fé dos fatos suados de domingo sob uma abóbada rachada. Trocar tudo isso pelas ideias novas que circulavam na juventude da Casa Inglesa, em Portimão, deixar crescer os cabelos, ouvir Zeca Afonso e os Beatles, conversar com os turistas, finalmente ir para Lisboa.

Boliqueime mudou pouco. A Via do Infante passa perto, foi construído um cemitério gigante, há um grande lar para idosos. Muita gente parece ter enriquecido com terrenos. Poucos parecem ter enriquecido com ideias novas. A poeira branca de caliça continua a querer cobrir tudo. As mulheres já não usam véus pretos nem os homens chapéus de abas. Talvez os usem por dentro.

Vejo de longe as pessoas a sair da missa de domingo. Juntam-se à porta da igreja, mancha escura contra o branco ofuscante das paredes, em grupo compacto, cumprimentando-se e tagarelando. Estarão a pensar no que vão fazer a seguir? Estarão a acostumar os olhos ao sol do meio dia?

À noite, vou tomar um café e um meio whisky a um bar sem nome que já era taberna quando eu era garoto. No balcão central uma adolescente ucraniana repõe as minis, de tempos a tempos, à frente de três zombies alcoólicos que a despem com olhos mortiços. Devem estar ali há horas. Outro zombie, no canto oposto, insurge-se contra os ordenados das estrelas de futebol. Dois homens mais novos gracejam em russo com a empregada. Um deles, alto, louro, de olhos azuis e com um penteado à Elvis, parece cair nas boas graças dela, a julgar pelo seu body talk. No bilhar, uma ex-beldade inglesa exibe um decote demasiado grande para a qualidade da carne exposta. Sabe duas ou três palavras de português, portanto deve morar cá há anos. A amiga dela, talvez portuguesa, não larga os óculos escuros nem de noite. Os dois acompanhantes aparentam ser jovens de mais para elas. Um deles, não percebi bem, parece pertencer ao grupo dos ucranianos.

No meio desta variedade, não devo destoar. Será que pareço de cá ou de fora? Tenho medo de parecer de cá…

O boom do turismo dura há quarenta anos. O bloco de leste desmoronou-se há quase vinte. Portugal, entretanto, também fez umas piruetas. Vidas que o mundo soprou para aqui encontram-se num café ignoto, no lado pasmado do Algarve.

A globalização chegou a Boliqueime.

19 de setembro de 2009

Biostase

Vamos imaginar que é necessário salvar o mundo. Mesmo a sério? Que ferramentas são necessárias? Tenho uma cabeça de designer e, uma vez posto o problema, não pude largá-lo. Levei umas boas seis semanas a escrever este artigo, o que não é muito, se considerarmos a importância do assunto. O resultado pode levar-me a ser apedrejado de vários quadrantes, o que também é normal para quem tente salvar o mundo.

Leiam e critiquem, por favor.

O artigo é um pouco grande para o blog, portanto foi para o meu site:

 


Biostase — artigo em www.carloscabanita.eu


13 de setembro de 2009

Sushi

Sushi

Consegui viver 57 anos sem ter provado sushi. Essa privação finalmente acabou. Foi uma revelação.

Sabores suaves e ricos, em especial os peixes. O estranho arroz japonês. As algas. Uma massa picante estranhamente suave mas poderosa. Os pratos também são uma festa para os olhos. Não vejo a hora de voltar a experimentar.

9 de setembro de 2009

Acabou a festa (comentário)

O post  anterior, Acabou a festa!, incomodou os meus amigos comunistas, como era de esperar. Houve quem me chamasse anticomunista primário (nunca vi ninguém ser chamado anticomunista secundário, é um daqueles chavões), mas a maioria escolheu pegar na descrição que fiz do meu stress psicológico na festa e dos incidentes de distracção e ignorar os considerandos políticos iniciais.

“Esqueceste-te da EP e tiveste problemas com o telemóvel, e que culpa têm os comunistas disso?” Nenhuma, claro. Eu tenho as minhas maluquices, mas não sou doido varrido. Mas o stress precipitou a conclusão de uma reflexão de há anos, a de que, pessoalmente eu, Carlos Cabanita, não tenho nada a fazer lá. Foi o que eu disse:

“Os contratempos e o desconforto são apenas indicadores de uma decisão política, estética e ética que tem de ser tomada. Conheço os sinais. Um tera ou dois de informação mudam de sítio na minha cabeça. Pronto, já está. Não volto cá mais.”

Jerónimo

Falo português, ou quê?

Um amigo escolheu defender a herança histórica do comunismo. Que agora os russos estão pior. Bem os russos, embora sujeitos ao regime autoritário de um ex-KGB, têm mesmo assim muito mais liberdade. E todas as desintoxicações são penosas. Mas se não se tivessem metido com Lenine e Estaline, os russos, que já tinham corrido com o czar e criado um regime parlamentar na Revolução de Fevereiro de 1917, provavelmente seriam hoje uma grande nação europeia e asiática, rica e democrática. Com mais ou menos guerras e pazes, mais ou menos autoritarismo, que parece ser uma sina russa, ninguém o sabe.

E, acrescenta o meu amigo, as conquistas operárias na Europa Ocidental? Quem as teria conseguido senão os comunistas? Com franqueza! Os comunistas não são o movimento operário. Outras bandeiras teriam sido usadas. E foram, nos lugares onde os partidos comunistas eram fracos. As conquistas operárias em Inglaterra, das melhores do mundo, foram obra dos trabalhistas. As da Alemanha Ocidental foram obra do SPD e dos seus fortíssimos sindicatos. Na Escandinávia, o paraíso social-democrata foi obra dos… social-democratas!

Os três grandes partidos comunistas da Europa que tiveram melhor desempenho como partidos operários foram os da França, Itália e Espanha. Hoje quase nada resta deles, mas todos os três se tornaram, depois de condenarem a invasão da Checoslováquia em 1968, desobedientes a Moscovo.

O PCP retardou a sua decadência proibindo toda a discussão e expulsando todos os infiéis. Mas a sua sobrevivência é uma anomalia, tão estranha e improvável no mundo como os maoístas do Sendero Luminoso na Bolívia ou os do Partido Comunista Unificado (Maoísta) do Nepal. O PCP é um fóssil vivo.

Se o PCP tivesse vencido a seguir ao 25 de Abril, em Portugal teria acontecido a última das revoluções comunistas.

Mas o 25 de Abril tinha já outro enquadramento histórico: era uma das primeiras da vaga de revoluções democráticas que abalou o mundo no fim do século XX, em que dezenas de ditaduras ruíram na Europa, na América Latina, na Ásia e até em África. Essas revoluções criaram o mundo aberto em que vivemos hoje, com todas as suas vantagens e problemas.

Muitas dessas revoluções foram anticomunistas. Todas criaram regimes de maior ou menor “democracia burguesa”. E todas eram pró-capitalistas. Azar.

Incapazes de compreender a História, temerosos de discutir o seu próprio passado, esperançados de que a última das suas ditaduras queridas, a de Cuba, afinal não desapareça um destes dias, os comunistas estão à espera que caia o outro sapato.

O “outro sapato” será a implosão do PCP, quando a discussão não puder mais ser contida.

E isso é também uma questão de meses.

 
Não prevejo voltar a escrever sobre marxismo e comunismo. Escrevi este tipo de textos em parte para limpar a minha própria cabeça, em parte devido a discutir frequentemente com amigos comunistas. Quando voltar a escrever sobre política será para discutir como, hoje, se deve e pode lutar por um mundo melhor. Mas para isso tenho primeiro que terminar um artigo sobre questões filosóficas e morais, e esse está-me a dar água pela barba.

6 de setembro de 2009

Acabou a festa!

Há muitos anos que frequento a Festa do Avante!, ano sim, ano não, nunca mais que um dia por sessão. Não concordo com praticamente nada do que lá se diz e aquelas imagens de mobilização de amplas massas comunistas, tudo cheio de foices e martelos e bandeiras vermelhas, trabalhadores de 50 anos de punho no ar e jovens a dançar a Carvalhesa, têm o seu quê de inquietante.

Encarei aquilo como uma espécie de universo paralelo. Um faz-de-conta gigante. 1989 não aconteceu. A União Soviética ainda existe e Brejnev ainda manda nela. O “socialismo” ainda é “real”. Os gulags são ainda negáveis. A maioria dos intelectuais ainda acredita no marxismo. A queda do último dos manos Castro em Cuba não é questão de meses. O marxismo não faliu. O PCP não está isolado no mundo. Ainda é um grande partido de massas e não foi ultrapassado pelo Bloco de Esquerda.

Ano após ano a ilusão vai-se desvanecendo. A Cidade Internacional, outrora povoada de poderosos “partidos irmãos” da Europa de Leste, cheios de ranchos folclóricos e exposições dos sucessos do socialismo nos seus países, está povoada de grupúsculos remanescentes da implosão dos grandes partidos comunistas de Espanha, França, etc. Até o sinistro pavilhão da Coreia do Norte deixou este ano de aparecer. Provavelmente dava demasiadas chatices aos militantes para justificar o convite. Os traficantes de droga e terroristas da FARC também. O que dá mais importância à Venezuela do Chavez, se bem que o entusiasmo não seja demasiado, de parte a parte.

As manifestações políticas foram diminuindo cada vez mais, para não aborrecer as amplas massas consumidoras de cerveja, bifanas, fado e rock.

Festa do Avante

Tenho ido lá mais pelos meus amigos, pela companhia. Ali, como em todas as iniciativas de animação, funciona o princípio da sopa de pedra. A pedra é a desculpa para realizar o evento, a que depois se juntam todos os ingredientes habituais: comes e bebes com fartura, música e convívio. Pão e circo. A pedra, neste caso a glorificação da política do PCP, enfraquece cada vez mais ou é cada vez mais intolerável e os ingredientes habituais tornam-se, como direi, mais banais, comezinhos, enfim, chatos.

2009, o fim da festa

Este ano dispus-me a lá ir mais uma vez, comprei a EP com antecedência e tudo. O que mais me interessava era um recital de ópera na sexta, mas nesse dia saí do trabalho às oito e já não me apeteceu lá ir. Também sei que as condições acústicas lá são totalmente inadequadas para música clássica e o público é ainda mais inadequado, só bom para concertos de rock. Yá, curte-me esta cena, meu, brutal!

Sábado depois do almoço, com a certeza de amigos no recinto, lá vou eu. Consigo estacionar o carro no meio da Amora, a quilómetro e meio da entrada. O melhor é marcar o ponto no GPS, senão nunca mais encontro o carro. O caminho é simples, basta seguir as filas de jovens vestidos de hippies. Chegado à entrada, grande desilusão: a EP tinha ficado nos outros calções! Lá vou à bilheteira e pago 25 euros pelo dia, quando a EP de três dias me tinha custado 19.

Lá dentro o calor é intolerável. Ao fundo, no palco principal, um grupo de rock qualquer faz um basqueiro terrível. Suponho que são os Peste & Sida, mas não compreendo nem reconheço nada do que tocam. Preciso de uma imperial. Vou ao pavilhão de Coimbra. Coimbra, Porto, Faro, Setúbal, não interessa, é tudo igual: são apenas tascas.

Sou interceptado pelo meu amigo Ricardo, que vem acompanhado por uns tipos que conheceu nas férias. O Ricardo é comunista, eu sei. Os outros também, que outra desculpa existe para virem de Côja ao Seixal num dia de calor? Todos felizes por parecerem muitos.

Lá bebemos umas imperiais, à sombra, o que foi realmente um alívio. A minha amiga não atende. Verifico horrorizado que, ao trocar de telemóvel, perdi todos os contactos que não estavam no cartão. Quer dizer que não posso contactar mais ninguém dos que sei que estão aqui.

Entretanto o concerto de rock acabou e o nível sonoro aproxima-se do tolerável. Desço a avenida principal, no meio de multidões de garotas cheias de saúde, suadas e de unhas pintadas nos pés cheios de pó. Moços entusiasmados com as bebedeiras que já apanharam ou vão apanhar. Tipos da minha idade, com as suas barrigas e bonés do Che. Bebés infelizes com o calor.

Começo a ter um forte ataque de agorafobia. Bem, eu não sou realmente agorafóbico, o que me dá é para pensar com muita convicção: “Mas que diabo estou eu aqui a fazer?” Subitamente, mulheres lindas e desejáveis parecem animais estranhos, moços pacatos nos seus habituais gritos alcoólicos tornam-se inquietantes, todo aquele espectáculo adquire um tom grotesco.

Vou até junto do rio, para me acalmar e apanhar um pouco de fresco. Grupos de jovens descansam na relva. O odor a passa é intenso. A minha amiga continua a não atender.

Os contratempos e o desconforto são apenas indicadores de uma decisão política, estética e ética que tem de ser tomada. Conheço os sinais. Um tera ou dois de informação mudam de sítio na minha cabeça.

Pronto, já está. Não volto cá mais.

Subo a avenida, saio, nem aceito o carimbo para poder voltar.

Contando a EP e o bilhete do dia, 44 euros por uma hora de confusão.

Já cá fora, a minha amiga liga-me finalmente.

Tarde de mais.

5 de setembro de 2009

Terroristas

Não gosto de terroristas, e não é de agora. Mesmo quando eu era um marxista radical, nos anos setenta e oitenta do século vinte, nunca aceitei o terrorismo como via política fosse para onde fosse, ao contrário de muitos que tendiam a vê-lo com romantismo. Que desprezo supremo pelo povo é preciso para contemplar a possibilidade de assustá-lo como gado, com actos sortidos de violência, para levá-lo a aceitar os objectivos de uma minoria!

O povo não gosta disso. Sempre que pode reage de forma brutal, ou apoiando medidas brutais, contra os terroristas.

Não se confunda com luta armada contra regimes opressivos, que pode tomar aspectos de guerrilha ou incluir atentados contra alvos militares ou policiais. Pode-se discutir se a luta armada é ou não uma via política eficiente (eu penso que geralmente não é, mas depende das circunstâncias). Os regimes opressores têm vantagem em acusar os seus opositores mais violentos de terrorismo. Mas o terrorismo que me interessa é o que se vira contra civis indefesos, procurando coagir a sociedade pela violência, sobretudo quando acontece em sociedades em que existem meios pacíficos de expressão das ideias políticas.

O terrorista promove ideias políticas de tal modo impopulares que não pode esperar ter a adesão de praticamente ninguém. A violência é o modo como ele espera conseguir influenciar o povo, já que não o consegue pela razão. Mas quem com ferro mata…

Por outro lado, estas coisas não saem baratas. Quase sempre, por detrás de uma organização terrorista, há um serviço secreto — ou dois. Outras coisas são ainda mais difíceis de conseguir que dinheiro: armas, explosivos, documentos falsos, um lugar de refúgio fora do alcance da polícia.

O terrorismo de hoje é totalmente maléfico. Quer se veja do lado operacional, com o mais completo desprezo pela vida humana e uma indiferença genocida pelas suas vítimas intencionais ou “colaterais”, quer do lado político, com a defesa das mais reaccionárias ideias e dos mais desumanos fundamentalismos religiosos, o terrorismo é uma daquelas doenças sociais que desafiam o liberalismo sempre tolerante do moderno democrata.

Os teóricos militares falam de guerra assimétrica. Os terroristas não têm bombardeiros de biliões de dólares e por isso recorrem aos bombistas suicidas. Há verdade nisto. Sempre houve uma componente terrorista na guerra “normal”. Atacar populações com explosivos a cair do céu é, evidentemente, um acto terrorista. Mesmo na nossa era de munições inteligentes guiadas com precisão, há sempre uma munição ou duas que se tornam subitamente “burras” e atingem um mercado cheio de gente. Essas munições não erram, asseguram simplesmente a dimensão terrorista da guerra.

Procurados

O grupo Baader-Meinhof num cartaz da polícia alemã ocidental. Ulrike Meinhof é a primeira, Andreas Baader o segundo, Gudrun Ensslin a terceira, Holger Meins o quarto e Jan-Carl Raspe o quinto. Irmgard Möller é a segunda da terceira fila. [fonte: Wikipedia]

Mas as pessoas que podem dispor de bombardeiros de biliões de dólares encontram-se quase sempre sujeitas a complexos mecanismos políticos, em democracias liberais. Cedo ou tarde podem ser chamados a contas pelos seus cidadãos. Às vezes, efectivamente até são.

Quanto aos outros terroristas, não sujeitos a esses mecanismos de controle e vivendo fora da lei, devem ser simplesmente exterminados, com a mesma falta de piedade que demonstram pelas suas vítimas. Um bom terrorista é um terrorista morto.

Muitos estados modernos que aceitam o valor da vida humana, incluindo Portugal, têm leis que proíbem deportar condenados para países onde exista pena de morte. Os terroristas, pelo contrário, só deviam ser deportados para esses países. O contrário é um desperdício de humanismo.

Mas processar um terrorista através do sistema jurídico-legal de uma democracia é também um desperdício. Melhor é matá-lo na captura, enquanto resiste ou quando, capturado, tenta “fugir”. Um tiro no peito, um tiro na nuca. Nada proíbe uma democracia ocidental de ser também assimétrica…

As zonas cinzentas, onde nada se sabe, existem. Umas são prejudiciais à democracia, outras são essenciais para a sua sobrevivência.

O Outono alemão

Lembro-me do caso do grupo Baader-Meinhof, também chamado RAF, de Rote Armee Fraktion (Fracção do Exército Vermelho), na Alemanha dos anos 70. Apesar do título pomposo, não passavam de um punhado de estudantes radicais que procuravam no terrorismo a saída para o seu isolamento político. Praticaram o fogo posto, os atentados bombistas e os assassínios “exemplares” de patrões e políticos de direita.

Nessa altura estava na moda o terrorismo “de esquerda”, com as Brigadas Vermelhas em Itália, a ETA no País Basco, o IRA na Irlanda e, claro, a Organização de Libertação da Palestina, de Arafat, e a Frente Popular de Libertação da Palestina, de George Habash.

Os seus opositores no outro extremo do espectro político também praticavam a ignóbil arte, muitas vezes discretamente ligados aos estados ou aos serviços secretos, como a loja P2 e o Gládio em Itália, os Unionistas na Irlanda do Norte, os GAL, uma cumplicidade das espionagens portuguesa e espanhola contra a ETA. Os israelitas também usavam quase abertamente o terrorismo contra os seus inimigos.

Os estados comunistas opunham-se oficialmente ao terrorismo, mas apoiavam discretamente os terroristas com passaportes falsos, santuário, armas, explosivos e dinheiro, em particular a antiga RDA.

Mas o grupo Baader-Meinhof era especialmente radical, sedento de sangue e isolado de qualquer cobertura política. Depois de um estágio de instrução militar na Jordânia, com a OLP e a FPLP, voltaram para a Alemanha e iniciaram uma campanha de atentados. Cedo os seus elementos começaram a ser presos, denunciados à polícia pela própria população por cuja libertação diziam lutar. Andreas Baader, Gudrun Ensslin, Ulrike Meinhof, Holger Meins e Jan-Carl Raspe foram encerrados numa prisão de segurança máxima e condenados. Os seus camaradas passaram ao sequestro com exigência da libertação dos presos.

Em vez de conseguirem tal, os presos começaram a morrer. Em Novembro de 1974 Holger Meins morre em greve de fome. Parece que as autoridades prisionais recusaram-se a transferi-lo para os cuidados intensivos. Em Maio de 1975, Ulrike Meinhof aparece morta na sua cela de segurança máxima, onde terá usado toalhas atadas para se enforcar.

Os atentados culminam em Julho de 1977 no rapto de Hans Martin Schleyer, ex-nazi e chefe do patronato alemão. O seu motorista travou bruscamente ao deparar-se com um carrinho de bebé no caminho e foi abalroado pelo carro de escolta. Cinco terroristas cercaram os dois carros e mataram a tiro os polícias e o motorista, mas levaram Schleyer vivo.

Procurados

Cena do filme Der Baader Meinhof Komplex (2008). A actriz Sandra Borgmann faz o papel da terrorista Sieglinda Hoffmann. Cerca de metade dos membros do RAF eram mulheres. [Fonte: Wikipedia]

O governo alemão ocidental recusou-se a negociar, mas procurou ganhar tempo, lançando uma gigantesca operação policial para localizar os raptores e Schleyer. Ao mesmo tempo, isolou completamente os presos, na prisão de Stammheim.

Elementos da FPLP, aliados árabes dos terroristas alemães, desviaram um avião da Lufthansa para a Somália, assassinando o piloto, em Outubro do mesmo ano, com a exigência da libertação dos presos de Stammheim, além da de presos palestinianos na Turquia e da entrega de 15 milhões de dólares.

Depois de conseguirem a permissão do então ditador da Somália, Siad Barre, os alemães lançaram um assalto ao avião com a unidade de polícia de elite GSG9 e mataram os quatro terroristas árabes sem perda de vidas dos reféns, a 18 de Outubro de 1977.

Os presos souberam da notícia nessa mesma noite, via rádio. Antes do sol nascer, Andreas Baader foi encontrado morto com um tiro na nuca. Gudrun Ensslin apareceu enforcada. Jan-Carl Raspe morreu no dia seguinte, em resultado de um tiro de caçadeira na cabeça. Irmgard Möller, apesar de ferida com quatro facadas no peito, sobreviveu e acusou o estado alemão ocidental de execução extrajudicial.

Hans Martin Schleyer já não servia para moeda de troca, apenas para a vingança: foi encontrado morto no dia seguinte, em França.

O inquérito oficial concluiu que as mortes dos presos se deveram a um suicídio colectivo.

Assim acabou o que foi chamado o Outono Alemão (Deutsche Herbst).

Eventos semelhantes, noutros pontos da Europa, como o sequestro e assassínio de Aldo Moro, ditaram o declínio do terrorismo de esquerda. A queda da União Soviética e dos satélites, com o seu apoio logístico, ajudou também muito, uns anos mais tarde.

Mas eu admiro os alemães. Não procuraram legalizar o que não podia ser legalizado, pondo em perigo a sua preciosa constituição. A mensagem é simples, brutal e subtil ao mesmo tempo: o que aconteceu tinha de acontecer, mas não pode ser legal. Portanto, nunca aconteceu.

Trinta anos mais tarde, os americanos podiam ter aprendido com eles…

Os terroristas portugueses

Sobre os terroristas portugueses, podia escrever outro artigo, mas não me apetece. Como a maior parte do que se copia cá, eram uma versão rasca.

Só um exemplo: num atentado à Herdade de São Mansos, as Forças Populares 25 de Abril mataram um bebé de quatro meses. Depois, num comunicado à população, pediram desculpa.

Como é que se pede desculpa por matar um bebé de quatro meses?

Depois de uma justiça vergonhosa, em que os “arrependidos” foram assassinados ou condenados e os criminosos se safaram impunes, os brandos costumes retomaram o seu curso e toda a gente esqueceu. Isso tem as suas vantagens, é claro. Preserva-se a paz social.

Mas paga-se um preço terrível, um preço moral.

15 de agosto de 2009

Haikai, haiku

Lua na estrada,
Luz amarelada.
Finda a noite…

 

Forma de poesia tradicional japonesa, haikai, plural haiku. Ligada à filosofia Zen.

O que quer que se queira dizer tem que ser dito em poucas e estritas palavras, dentro de uma métrica rígida e respeitando ainda outras regras.

Muitos dos cultores ocidentais do estilo adoptam o formato em três versos, com cinco-sete-cinco sílabas, 17 ao todo (a métrica japonesa não se mede em sílabas, dizem). Outros usam seis-sete-seis. Mas a forma costuma ser m-n-m.

O poema deverá na tradição japonesa ter uma menção meteorológica ou sazonal (kigo). No Ocidente muitas vezes omite-se isso — usa-se experiência pessoal e não as imagens estritamente contemplativas da forma tradicional.

Importante é o corte (kireji). O sentido da frase deverá ser cortado, no fim de um dos versos, e uma nova ideia expressa depois. Noutros casos, o corte aparece no fim, dando ao poema um aspecto conclusivo.

A rima não é relevante.

O haikai do começo foi composto enquanto eu regressava de uma noite muito bem passada. Tem uma vaga referência atmosférica (a Lua) e tem corte. Não sei se tem qualidade, não esperem isso de mim. Mas em tempos escrevi slogans publicitários e esse processo de podar as palavras até ao limite fascina-me.

 

Um exercício
muito espiritual.
Um toque de Zen.

 

Experimentem.

 

Tomem lá mais um:

 

Vou na corrente.
Nas mentes dos outros sou
O imprevisível.

 

E um haikai de José A. Martins, que tem o blog Mundo Haiku:

 

Um aperitivo
Tequilha, sumo de lima,
Bela margarita!

 

E este, de Millôr Fernandes (citado do blog Dias com Árvores):

 

Nada tem nexo.
Tudo é apenas
um reflexo.

7 de agosto de 2009

O galo

Ando a ser convidado para os mais diversos convívios — e gosto. Por este andar, tenho que pôr-me a pau com a linha, o castrol e todas essas coisas.

O projecto galo de cabidela andava a ser “cozinhado” há tempo, mas o bicho sobrevivia sempre, pelas mais diversas razões. Ou o criador, o Januário, não tinha tempo, ou o Oliveira, promotor do evento, tinha obrigações familiares, enfim, a esperança de vida do animal parecia boa.

4 de agosto de 2009

Mulheres realmente interessantes

As mulheres realmente interessantes são muito raras. Devem ser tratadas como um recurso escasso. A sua existência, por si só, é um milagre. Devem ser amadas, mimadas, apaparicadas, admiradas, acarinhadas, tudo menos deixá-las fugir. Uma vez que as deixemos fugir (e podem sempre fugir, mesmo que façamos tudo isto), são terrivelmente difíceis de substituir.

Se eu fosse mulher, provavelmente diria o mesmo dos homens realmente interessantes.

Amigo ou amiga, se amas, namoras ou és simplesmente amigo/a de uma pessoa realmente interessante, agarra-te a ela. Sabes a sorte que tens.

Se não sabes a sorte que tens, esquece esta mensagem. Não era para ti.

 

[Não há mais nada para ver]

28 de julho de 2009

Come-se muito bem no Charnequeiro

Nem sequer é um restaurante, mas um snack-bar, nas Quintinhas, Charneca de Caparica, onde moro. Mas a direcção culinária, a cargo da D. Elvira, coadjuvada pela D. Odete e pela D. Ana, é soberba.

É cozinha portuguesa tradicional nada pretensiosa, mas com um belo equilíbrio de sabores. A massinha de peixe, de entrecosto ou de bacalhau, o frango do campo, o arroz de cabidela, o fricassé, o arroz de pato, o bacalhau à Charnequeiro, atraem aos almoços clientes de cada vez mais longe.

Os anos do presidente

Eduardo Reis

Eduardo Reis é presidente do Vitória Clube das Quintinhas. Um daqueles presidentes que o são porque eles é que fizeram tudo aquilo acontecer, quer trabalhando quer motivando outros para trabalhar. Desde que fundou o clube há uma data de anos até hoje, continua a dar a vida por ele. Não no sentido de morrer pelo clube, mas no sentido de viver para ele.

É assim. Há os que morrem por um ideal e chamamos-lhes heróis. Há outros que dão por um ideal a sua vida vivida ao longo de muitos anos. Como chamamos a esses?

O Reis fez anos, a direcção fez-lhe um almoço, ao qual não fui porque não sou da direcção, sou apenas sócio.

Mas acabei por ir lá parar.

7 de julho de 2009

Teoria da Mente

Encontrei menções à Teoria da Mente por acaso, enquanto pesquisava outros assuntos. Mas pareceu-me um grupo de ideias tão fértil que acabei por interessar-me. A Teoria da Mente não é nenhuma teoria. É o estudo de um conjunto de habilidades, aparentemente inatas ou activadas muito cedo na infância, que permitem a cada indivíduo elaborar uma teoria de como funcionam a sua mente e as mentes dos outros, estabelecer analogias e divergências com a sua própria mente e criar estratégias de relacionamento social.

Bonecas

Os estudos da Teoria da Mente estão inseridos na Neurologia Cognitiva e remotamente relacionam-se com o trabalho de Jean Piaget.

Estes estudos têm uma base científica muito séria, quase sempre ancorada em experiências devidamente controladas e em imagética cerebral, com zonas cerebrais precisas referenciadas como locais de processamento das várias instâncias da Teoria da Mente.

Outra Neurologia relacionada, a Neurobiologia Evolucionária, concebe o cérebro humano não como uma tabula rasa mas como o resultado de um processo evolutivo em que a sua configuração resulta de uma sucessão de adaptações vantajosas do ponto de vista da sobrevivência da espécie.

O cérebro humano é uma aposta arriscada. Torna o parto doloroso e perigoso. É um electrodoméstico caríssimo: consome 20% dos recursos do corpo. Não existiria se não fosse essencial à nossa sobrevivência.

Pelo menos desde que o Homo Sapiens existe e provavelmente muito antes, os problemas mais complexos que cada membro da espécie tinha de resolver eram sociais: ocupar um lugar nas complexas relações dentro de cada grupo que lhe permitisse prosperar e reproduzir-se.

Foi neste meio que o cérebro evoluiu e dentro dele as capacidades da Teoria da Mente, com as suas perguntas anedóticas mas mesmo assim essenciais: O que é que tu pensas? O que é que tu pensas que eu penso? O que é que eu penso que tu pensas que eu penso? E por aí fora…

Há zonas do cérebro especializadas em analisar caras e dentro destas outras ainda mais especializadas em analisar as emoções expressas pelos olhos.

Sasha Baron-Cohen, o neurologista irmão do Borat, analisou a capacidade de destrinça de emoções a partir da análise do olhar e contou 212 estados emocionais, só de olhar para os olhos!

Noutras zonas são geridas imagens dessas outras mentes com que nos relacionamos. Jogamos com essas imagens para nos relacionarmos com os outros, ou podemos até imaginar relações que não existem. O que elucida como é difícil relacionarmo-nos com a morte: a outra pessoa morreu mas a imagem dela está viva dentro de nós.

Há muitos processos da Teoria da Mente a ser estudados, incluindo a empatia, o investimento afectivo, a autoridade, etc. Está a ser criada uma imagem do funcionamento cognitivo do cérebro muito mais complexa e, até certo ponto, menos “racional” do que se supunha anteriormente.

A TEORIA DA MENTE E AS CRIANÇAS

As capacidades da Teoria da Mente estão a ser estudadas no quadro da Psicologia do Desenvolvimento, nas crianças. A primeira das capacidades a ser estudada, nas crianças recém-nascidas, é a capacidade de apontar. Quer dizer, dirigir a atenção própria para um determinado objecto e conseguir que outra pessoa também preste atenção a esse objecto. O acto de apontar é extremamente social e bebés com pouco tempo são capazes disso.

Há uma experiência para avaliar uma etapa fundamental no desenvolvimento das capacidades cognitivas da Teoria da Mente, que se dá por volta dos 4-5 anos, a capacidade de atribuir uma falsa crença ao outro. Num pequeno teatro, duas bonecas, a Mimi e a Sissi, digamos, “brincam” com uma bola em frente de uma criança. A Mimi guarda a bola numa caixa azul e vai-se embora. A Sissi vai buscar a bola à caixa azul, brinca um pouco mais com ela e depois guarda-a numa caixa vermelha e vai-se embora. A Mimi volta e pergunta-se à criança: A Mimi vai procurar a bola a qual caixa, à caixa vermelha ou à caixa azul? A criança que atingiu a fase da atribuição de falsas crenças dirá que a Mimi vai procurar a bola à caixa azul porque pensa que ela ainda lá está e não sabe que a Sissi a guardou na caixa vermelha. Uma criança que não atingiu esta fase dirá que a Mimi vai à caixa vermelha porque sabe que a bola está lá.

(É curioso pensar na importância da “comédia de enganos” que elabora sobre este tipo de coisas no teatro)

Tudo isto se passa, é claro, num quadro em que a criança colabora numa fantasia de outras mentes, as bonecas, que sabe não serem autênticas mentes, mas sim uma brincadeira. Isto, por si só, é já bastante sofisticado.

Um teste mais simples da atribuição de crença falsa é o teste dos Smarties. Mostra-se a uma criança uma embalagem de Smarties e pede-se-lhe para adivinhar o que está lá dentro. A criança dirá, evidentemente, que são Smarties. E embalagem é aberta e lá dentro estão lápis. Volta-se a fechar a embalagem e afirma-se que esta vai ser mostrada a outra pessoa. Pede-se à criança para adivinhar o que essa pessoa dirá que contém a caixa. Se ela disser Smarties, terá sido capaz de atribuir uma falsa crença a outrém.

Uma outra experiência demonstra a concepção da mente fora do corpo, em crianças, penso, das mesmas idades. Num espectáculo de fantoches, um crocodilo come um macaco. Pergunta-se às crianças: o macaco agora ainda tem fome? As crianças respondem não. O macaco ainda gosta da mãe dele? As crianças respondem sim. Quer dizer, as crianças sabem que o macaco morreu, mas gostam de pensar que a sua mente persiste.

A TEORIA DA MENTE E OS AUTISTAS

Como era de esperar, os autistas, tanto os profundos como os funcionais, foram investigados e revelaram-se dificuldades no processamento da Teoria da Mente. Nas crianças tendem a observar-se atrasos no aparecimento das diversas capacidades relacionadas. Em termos de imagiologia cerebral, observaram-se zonas activadas mais difusas por comparação com os neurotípicos para as mesmas operações cognitivas, não activação de todo o leque de zonas cerebrais, etc. Investiga-se se poderá haver défices de neurotransmissores, proteínas, vitaminas, hormonas, etc., implicados nessas divergências. Esta procissão, é claro, ainda vai no adro.

24 de junho de 2009

Porque acreditamos em deuses

Transcrição em português

Este vídeo tem dado muito que falar ultimamente. Filmado na Convenção American Atheists'09 em Atlanta, Georgia, EUA, em Maio deste ano, e publicado, entre outros lugares, no site de Richard Dawkins e no nosso português Portal Ateu, nele o psiquiatra dr. Andy Thomson explica as bases de uma Neurologia do pensamento religioso.

Trata-se da explicitação dos mecanismos cognitivos criados durante a nossa evolução e de que o pensamento religioso se apodera. Aqui se mostra porque tantas ideias contra-intuitivas (para não dizer disparatadas) da religião são fáceis de aceitar para o comum das pessoas e porque o pensamento céptico exige quase sempre mais esforço.

Como eu sei que muitos dos meus amigos portugas, embora saibam algum inglês, não têm a fluência suficiente para acompanhar esta conferência, resolvi transcrever todos estes 50 minutos de ideias fascinantes em Português. Qualquer erro, já sabem, fui eu. Isto deu-me montes de trabalho, portanto correspondam e façam o favor de ler.

Link para a transcrição (O melhor é ver o vídeo e ler o texto ao mesmo tempo).

 

10 de junho de 2009

Vera

Conheci hoje a Vera, que vai ocupar um lugar importante no meu coração.

18 de maio de 2009

Teologia portátil

O encontro de ídolos católicos no Tejo de 16 e 17 de Maio, com todo o cortejo de cenas desprestigiantes para a imagem do nosso país que se seguiu, irritou-me.

Por causa disso, decidi comemorar o deslustroso evento à minha maneira e fui buscar um dos primeiros anticlericais, que viveu ainda no tempo do Ancien Régime francês e teve de assinar sob nomes falsos e publicar no estrangeiro para proteger o seu pescoço.

Trata-se do barão de Holbach (1723-1789), Paul-Henri Thiri de seu nome. Encontrei um livro delicioso que se apresenta como "Teologia Portátil, ou Dicionário Abreviado da Religião Cristã" que finge ser um livro católico, editado por um pretenso Abade Bernier, "Licenciado em Teologia", mas é tudo menos isso.

O barão de Holbach, retrato de Alexander Roslin. Fonte: Wikipedia Frontespício da "Teologia Portátil" do barão d'Holbach. Fonte: Google Books

Convém notar que o texto se refere a um tempo em que não existiam as liberdades de que gozamos hoje, começando pela liberdade religiosa.

Vejamos algumas entradas do dicionário (traduzidas do francês por mim; se virem asneira, já sabem de quem é a culpa):

Abraão. É o pai dos crentes. Mentiu, foi encornado, cortou o próprio prepúcio e mostrou tanta fé que, se não fosse um anjo meter a mão, cortaria a jugular ao seu filho, que o bom Deus, na brincadeira, lhe ordenara que imolasse: em consequência, Deus fez uma aliança eterna com ele e a sua posteridade, mas o filho de Deus anulou depois este tratado, por bons motivos que o seu Papá não pressentira.

Absurdos. Não podem existir na Religião; ela é obra do Verbo ou da razão divina que, como se sabe, nada tem de comum com a razão humana. É devido à falta de fé que os incrédulos crêem encontrar absurdos no Cristianismo; ou, ter falta de fé é, sem dúvida, o cúmulo do absurdo. Para fazer desaparecer do Cristianismo todos os absurdos basta estar habituado, desde a infância, a jamais examiná-los. Quanto mais uma coisa é absurda aos olhos da razão humana, mais é conveniente para a razão divina ou para a religião.

Adão. O primeiro homem. Deus fez dele um brutamontes que, para agradar à mulher, fez a asneira de morder uma maçã que os seus descendentes não conseguiram ainda digerir.

Alianças. Deus, que é imutável, fez duas Alianças com os homens; a primeira que ele jurara ser eterna, já não subsiste há muito tempo; a segunda durará aparentemente enquanto convier a Deus, aos Padres ou à Corte.

Alma. Substância desconhecida, que age de forma desconhecida sobre o nosso corpo que desconhecemos de todo; devemos concluir daí que a alma é espiritual. Ninguém ignora o quer dizer ser espiritual. A alma é a parte mais nobre do homem, tendo em conta que é ela que menos conhecemos. Os animais não têm almas, ou têm-nas tão-só materiais; os Padres e os Monges têm almas espirituais, mas alguns de entre eles têm a malícia de não as mostrar, o que fazem, sem dúvida, por pura humildade.

Amor. Paixão maldita que a natureza inspira a um sexo pelo outro, desde que se corrompeu. O Deus dos Cristãos não é nada galante e não quer ouvir falar em amor; sem o pecado original os homens multiplicar-se-iam sem amor e as mulheres paririam pela orelha.

Amor divino. É a ligação sincera que todo o bom cristão, sob pena de danação, deve ter com um ser desconhecido, que os Teólogos tornaram o mais malvado possível, para exercer a fé. O amor a Deus é uma dívida que devemos acima de tudo por nos ter dado Teologia.

Amor-próprio. Disposição fatal pela qual o homem corrompido tem a loucura de se amar a si próprio, de querer subsistir, de desejar o seu bem-estar. Sem a queda de Adão teríamos a vantagem de nos detestarmos a nós próprios, de odiar o prazer, de não sonhar com a nossa sobrevivência.

Apóstolos, página original "Apóstolos", texto original. Fonte: Google Books

Apóstolos. São doze inúteis, ignorantes e miseráveis como ratos de Igreja, que compunham a corte do filho de Deus na terra e que ele encarregou da missão de instruir todo o universo. Os seus sucessores fizeram depois uma fortuna brilhantíssima com a ajuda da Teologia, que os seus antecessores, os Apóstolos, não tinham estudado de todo. De resto o Clero, como a Nobreza, é feito para adquirir mais lustro à medida que se afasta da primeira origem, ou que se parece menos com os seus antecessores.

Atributos divinos. Qualidades inconcebíveis que, à força de sonharem com isso, os Teólogos decidiram que pertencem necessariamente a um ser de que não fazem ideia nenhuma. Essas qualidades parecem incompatíveis aos que não têm fé, mas são fáceis de reconciliar quando não se pensa nisso. Os atributos negativos com que a Teologia gratifica a Divindade ensinam-nos que ela não é nada que possamos conhecer, o que é bom para fixar ideias.

Altares. São as mesas de Deus que, farto de todas as iguarias que lhe traziam antigamente, quer hoje que os Sacrificantes lhe sirvam o seu próprio filho, o qual eles próprios comem e dão a comer a outros. À vista deste repasto guloso, a cólera do Pai eterno fica desarmada e torna-se amigo do peito de todos os que vêm dar uma dentadinha no seu filho.

Bastardos. Desgraçados cujos pais não pagaram à Igreja para adquirir o direito de dormir juntos. Em consequência da sábia jurisprudência introduzida pelo pecado original, os bastardos devem ser punidos pelo erro de seus pais; são privados das vantagens de que gozam as crianças dos que pagaram para se deitarem juntos.[Nota: Hoje, ao fim de dois séculos de combates políticos, o casamento religioso já não é obrigatório e a bastardia foi abolida pela nossa Constituição, há só 30 anos. Mas a guerrilha sobre o casamento continua, como pode ver aqui...]

Cristianismo. Sistema religioso atribuido a Jesus Cristo mas realmente inventado por Platão e São Paulo, aperfeiçoado pelos Pais, pelos Concílios, pelos intérpretes e, de acordo com as ocasiões, corrigido pela Igreja para salvação dos homens. Desde a fundação desta religião sublime, os povos tornaram-se mais sábios, mais esclarecidos, mais felizes que dantes; desde essa feliz época não se viram mais dissensões, perturbações, massacres, desordens, ou vícios; o que prova que o Cristianismo é divino e que é preciso ter o diabo no corpo para ousar combatê-lo e é preciso ser louco para ousar duvidar dele.

Céu. Região bem longínqua onde reside o Deus que enche o universo da sua imensidade. É de lá que os nossos padres mandam vir, por pouco dinheiro, os dogmas, os argumentos e outros bens espirituais e aéreos que debitam aos cristãos; é lá que, sentada sobre nuvens, a divindade difunde nos nossos climas as geadas ou os dilúvios, as chuvas suaves ou as tempestades, as calamidades ou as prosperidades e, sobretudo, as querelas religiosas tão úteis à manutenção da fé. Há três céus, parece; São Paulo viu o terceiro, mas não nos deu o mapa da região, o que embaraça muito os Geógrafos da Academia.

Condenação. Devemos acreditar, sob pena de ser condenados, que o Deus misericordioso, para ensinar os vivos a viver depois da sua morte, e para corrigir os vivos que não podem ver nada depois dela, condena eternamente o maior número de homens por faltas passageiras; por um milagre espantoso da bondade divina fá-los-á durar para sempre, a fim de ter o prazer de queimá-los para sempre. A Igreja tem, como Deus, o direito de condenar; há mesmo quem acredite que, sem ela, Deus não condenaria ninguém, só o faz para agradar à sua mulher [a Igreja].

Cruzadas. Expedições santas ordenadas pelos Papas, para livrar a Europa de uma multidão de imprestáveis devotos que, para obter do céu a remissão dos crimes que haviam cometido nos seus países, iam corajosamente cometer novos crimes no estrangeiro.

Culto. Sequência de movimentos do corpo e dos lábios que são uma necessidade absoluta para agradar ao soberano do universo; ele não precisa de ninguém, mas levaria a mal se se negligenciasse a etiqueta imaginada pelos seus e se omitisse os cumprimentos que gabam a sua vaidade ou a dos padres. O verdadeiro culto é sempre o que é regulado por quem tem o direito de nos mandar grelhar se nos recusarmos a cumprir.

Deus. Palavra sinónima de Padres; ou, se se quiser, é o factotum dos Teólogos, o primeiro agente do Clero; o encarregado de negócios, o produtor, o intendente do exército divino. A palavra de Deus é a palavra dos Padres; a glória de Deus é a arrogância dos Padres; a vontade de Deus é a vontade dos Padres. Ofender Deus é ofender os Padres. Crer em Deus é crer no que dizem os Padres. Quando se diz que Deus está colérico, isso significa que os Padres estão de mau humor. Substituindo a palavra Padres à palavra Deus, a Teologia torna-se a mais simples das ciências. Posto isto, deve-se concluir que não existem verdadeiros Ateus, visto que, a menos que se seja imbecil, não se pode negar a existência do Clero, que se faz sentir bastante. Poderia haver um outro Deus, mas os padres não querem saber; é ao seu que temos de agarrar-nos, se não queremos ser grelhados.

Trindade. Mistério inefável adoptado pelos Cristãos que o recebaram do divino Platão; trata-se de um artigo fundamental da nossa santa religião. Com a ajuda deste mistério um Deus faz três, e três Deuses só fazem um Deus único. O dogma da Trindade só parece absurdo aos que não entendem Platão. Este Pai da Igreja imaginou três maneiras de conceber a Divindade; do poder os nossos santos Doutores fizeram um Pai de barba venerável; da razão fizeram um Filho emanado desse Pai e sacrificado para o acalmar; e da bondade fizeram um Espírito Santo, transformado em pomba. Eis todo o mistério.

Os ídolos e a Constituição

Este fim-de-semana as forças do passado invadem Lisboa e Almada. A imagem da alucinação colectiva ou vigarice de Fátima (ou sábia mistura das duas, cuidadosamente alimentada pelo Vaticano) que desde 1917 persiste até ao século XXI, vem a Lisboa e a Almada saudar o meio século do mamarracho monumental que homenageia o Cristo autoritário e cúmplice das ditaduras, que perturba e inquina o skyline de Lisboa e Almada. Um encontro de ídolos.

Buda em Lisboa

Constituição da República Portuguesa
Artigo 41.º

(Liberdade de consciência, de religião e de culto)

4. As igrejas e outras comunidades religiosas estão separadas do Estado e são livres na sua organização e no exercício das suas funções e do culto.

Artigo 275.º

Forças Armadas

3. As Forças Armadas obedecem aos órgãos de soberania competentes, nos termos da Constituição e da lei.

4. As Forças Armadas estão ao serviço do povo português, são rigorosamente apartidárias e os seus elementos não podem aproveitar-se da sua arma, do seu posto ou da sua função para qualquer intervenção política.

Fonte: Assembleia da República

O cardeal, ou bispo, ou lá o que é, de Lisboa, "Dom" José Policarpo (porquê o dom, sentem-se mal na República?), apelou a que o povo não considerasse o Cristo Rei um "simples miradouro", defendendo que a infeliz intrusão monumental faz com que toda a cidade "se transforme num templo".

Pois. É exactamente isso que eu detesto. Sou ateu, mas não tenho nada contra os templos. Quando contêm boa arte, visito-os sempre que posso. Quando são bons miradouros, mesmo sendo feios como o Cristo Rei, também os visito. Quando não têm nenhum interesse, nem artístico nem paisagístico, ignoro-os, a não ser que tenha que lá ir cumprir alguma obrigação social, tipo funeral ou baptizado.

Mas os templos são edifícios particulares, como decorre da nossa Constituição. Numa sociedade moderna não podem invadir ou querer subordinar toda uma paisagem urbana. O resultado é opressivo. Um horizonte dominado por cruzes ou Cristos, como noutros lugares dominado por símbolos islâmicos, como noutros ainda dominado por foices e martelos ou estrelas vermelhas, grita ao pobre diabo que não partilha da religião ou política dominante: estás aqui a mais!

As nossas sociedades tendem a não usar símbolos nenhuns ou a tê-los tão abrangentes que não chateiam ninguém. Veja-se os obeliscos de Washington, de Paris ou dos Restauradores, em Lisboa. São símbolos fálicos, simbolizam poder. Mas como o poder é do povo...

Os nossos valores modernos são outros: tolerância e apreço pela diversidade, respeito (exigindo respeito recíproco, claro) pelos valores dos outros. Portanto, este Cristo Rei abusa. Ainda por cima, os valores normalmente associados a Jesus Cristo na mitologia cristã, que estiveram na base dos nossos valores humanistas actuais (embora a Igreja Católica os tenha combatido ferozmente) são negados por este monumento. Não vejo aqui nenhum amor, nem tolerância, nem caridade. Vejo 80 metros fálicos de homenagem ao poder de Salazar. Não acho que deva ser dinamitado, em primeiro lugar porque é realmente um excelente miradouro, em segundo porque a História é como é e destruir património é um mau princípio.

Mas que é feio, é. E representa também uma imagem de que a Igreja católica tem saudades: a igreja do império, a aliança do sabre e do hissope*.

Dragão

Neste fim-de-semana de 16 e 17 de Maio, a lancha Dragão não tinha patrulhas para fazer, contrabandistas, pescadores clandestinos e traficantes para perseguir? Nem sequer folgas para gozar? E a Sagres, não tinha portos estrangeiros para impressionar, regatas onde participar?
Fonte: www.marinha.pt
 

Sagres

Nunca resignada a ter deixado de ser a religião de estado (e nunca tendo deixado de sê-lo, de facto), a igreja católica volta à carga. Procura-se recriar as representações religiosas de antes do liberalismo ou do tempo do salazarismo, com a aliança simbólica dos aparatos da igreja e do estado a tentar mostrar uma frente unida de beatice supersticiosa. Para se ser reaccionário, deve-se sê-lo em grande! Para quê voltar atrás só 50 anos, ao tempo do Cerejeira? Volte-se ao tempo do D. Miguel ou da Inquisição...

E o governo de Sócrates, com falta de argumentos para vencer as próximas eleições, embarca alegremente nesta rusga, violando sem vergonha a Constituição ao ceder uma lancha da Marinha e respectiva tripulação, para transportar o ídolo popular para a outra margem, mais a Sagres, símbolo do amor-próprio nacional, para saudar o ídolo com uns tiros de homenagem (ou a Creoula, ouvi versões contraditórias). Uns calam-se por causa dos votos, outros procuram beneficiar politicamente. Lamentável!

Durante uns dias dizia-se que o veículo a usar para fazer o transporte de uns escassos três quilómetros seria uma fragata, o mais caro brinquedo do estado português. Mas o bom senso de algum almirante, dificuldades logísticas, sentido da dignidade das Forças Armadas ou falta de verba devem ter prevalecido e por fim foi a modesta lancha Dragão que serviu de andor. Do mal o menos!

Os organizadores podiam ter alugado um cacilheiro. É mais bonito que a lancha e cabiam lá muito mais VIPs. Mas o que eles queriam mesmo era marcar um ponto contra a Constituição, levando políticos venais a forçar as Forças Armadas a participar nesta encenação. E ninguém diz nada, para além dos suspeitos do costume...

Consola-me saber que isto não serve para nada. Apesar do povo se dizer católico — e de muitos embarcarem alegremente nestas trapalhadas, direito que não contesto e é garantido pela Constituição — liga cada vez menos à religião na sua vida prática, para além de certas cerimónias formais. Como a igreja católica bem ficou a saber com o resultado do referendo do aborto.

Chato. Até os católicos gostam de pensar pela sua própria cabeça. Qualquer dia lá vão ter que casar os padres, autorizar os preservativos e as pílulas, deixar entrar as mulheres no sacerdócio... mas quanto mais tarde melhor, claro!

Nota: Não vi na TV mas alguns testemunhos de almadenses com quem falei e vídeos na Web (aqui, aqui, aqui e aqui) levam-me a pensar que a a adesão popular não foi grande, nada que se pareça com as multidões de Fátima. Ainda bem.


* Hissope é um instrumento usado pelo padre para aspergir água benta e assim purificar ou benzer qualquer coisa. Sem dúvida a lancha Dragão terá sido devidamente benzida, não vá a imagem torcer o nariz... [voltar ao texto]

10 de maio de 2009

Cabeças de borrego

No alpendre da oficina de um amigo, pude provar enfim uma famosa iguaria alentejana, cabeças de borrego no forno. Comidas à mão e ao ar livre, em boa companhia.
Bravo, sr. José Bentes!

2 de maio de 2009

All time favourites

Eis as minhas canções favoritas de sempre. Não digo que sejam as melhores, mas são as que, por uma razão ou por outra, me passam na cabeça mais vezes e fazem assim parte da banda sonora do filme que eu vivo.

Don't think twice, it's all right

Bob Dylan, "The Freewheeling Bob Dylan", 1963, (a minha canção de separação)

Venham mais cinco

Zeca Afonso, 1973, "Venham mais cinco", (a minha canção de separação política)

Ária da Rainha da Noite

W.A. Mozart, 1791, "A Flauta Mágica (Die Zauberflöte)"
Cena do filme "Amadeus" com June Anderson

"A Truta"

"Die Forelle", Lied/canção Op.32 (D.550) Schubert, 1817 (Interpretação de Ian Bostridge) Interpretação de Elizabeth Schwartzkopf

Too much love will kill you

Brian May/Queen, "Made in Heaven", 1996

Romeo and Juliet

Mark Knopfler/Dire Straits, "Making Movies", 1980
Cover por The Killers (2007)


Don't think twice it's all right

Bob Dylan, "The Freewheeling Bob Dylan", 1963
(a minha canção de separação)

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Venham Mais Cinco

Zeca Afonso, 1973, "Venham mais cinco"
(a minha canção de separação política)

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Ária da Rainha da Noite

"Der Hölle Rache kocht in meinem Herzen" ("A vingança do Inferno ferve no meu coração"), W.A. Mozart, 1791, "A Flauta Mágica" ("Die Zauberflöte", interpretação de Diana Damrau, prod. Royal Opera House, dir. Colin Davies, 2007
Cena do filme "Amadeus", de Milos Forman, 1984, com June Anderson
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"A Truta"

"Die Forelle", Lied/canção Op.32 (D.550) Schubert, 1817
(Interpretação de Ian Bostridge)


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Interpretação de Elizabeth Schwartzkopf

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Too much love will kill you

Brian May/Queen, "Made in Heaven", 1996


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Romeo and Juliet

Mark Knopfler/Dire Straits, "Making Movies", 1980

Romeo and Juliet — Cover por The Killers (2007)

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Don't think twice it's all right

Bob Dylan

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It ain't no use to sit and wonder why, babe
It don't matter, anyhow
An' it ain't no use to sit and wonder why, babe
If you don't know by now
When your rooster crows at the break of dawn
Look out your window and I'll be gone
You're the reason I'm trav'lin' on
Don't think twice, it's all right

It ain't no use in turnin' on your light, babe
That light I never knowed
An' it ain't no use in turnin' on your light, babe
I'm on the dark side of the road
Still I wish there was somethin' you would do or say
To try and make me change my mind and stay
We never did too much talkin' anyway
So don't think twice, it's all right

It ain't no use in callin' out my name, gal
Like you never did before
It ain't no use in callin' out my name, gal
I can't hear you any more
I'm a-thinkin' and a-wond'rin' all the way down the road
I once loved a woman, a child I'm told
I give her my heart but she wanted my soul
But don't think twice, it's all right

I'm walkin' down that long, lonesome road, babe
Where I'm bound, I can't tell
But goodbye's too good a word, gal
So I'll just say fare thee well
I ain't sayin' you treated me unkind
You could have done better but I don't mind
You just kinda wasted my precious time
But don't think twice, it's all right

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Venham Mais Cinco

Zeca Afonso

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Venham mais cinco, duma assentada que eu pago já
Do branco ou tinto, se o velho estica eu fico por cá
Se tem má pinta, dá-lhe um apito e põe-no a andar
De espada à cinta, já crê que é rei d'aquém e além-mar

Não me obriguem a vir para a rua
Gritar
Que é já tempo d' embalar a trouxa
E zarpar

Tiriririri buririririri, Tiriririri paraburibaie, 2X
Tiiiiiiiiiiiiii paraburibaie...
Tiriririri buririririri, Tiriririri paraburibaie, 2X

A gente ajuda, havemos de ser mais
Eu bem sei
Mas há quem queira, deitar abaixo
O que eu levantei

A bucha é dura, mais dura é a razão
Que a sustem só nesta rusga
Não há lugar prós filhos da mãe

Não me obriguem a vir para a rua
Gritar
Que é já tempo d' embalar a trouxa
E zarpar

Bem me diziam, bem me avisavam
Como era a lei
Na minha terra, quem trepa
No coqueiro é o rei

A bucha é dura, mais dura é a razão
Que a sustem só nesta rusga
Não há lugar prós filhos da mãe

Não me obriguem a vir para a rua
Gritar
Que é já tempo d'embalar a trouxa
E zarpar

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Too much love will kill you

Brian Mae/Queen

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I'm just the pieces of the man I used to be
Too many bitter tears are raining down on me
I'm far away from home
And I've been facing this alone
For much too long

I feel like no-one ever told the truth to me
About growing up and what a struggle it would be
In my tangled state of mind
I've been looking back to find
Where I went wrong

Too much love will kill you
If you can't make up your mind
Torn between the lover
And the love you leave behind

You're headed for disaster
'cos you never read the signs
Too much love will kill you
Every time

I'm just the shadow of the man I used to be
And it seems like there's no way out of this for me
I used to bring you sunshine
Now all I ever do is bring you down

How would it be if you were standing in my shoes
Can't you see that it's impossible to choose
No there's no making sense of it
Every way I go I'm bound to lose

Too much love will kill you
Just as sure as none at all
It'll drain the power that's in you
Make you plead and scream and crawl

And the pain will make you crazy
You're the victim of your crime
Too much love will kill you
Every time

Too much love will kill you
It'll make your life a lie
Yes, too much love will kill you
And you won't understand why

You'd give your life, you'd sell your soul
But here it comes again
Too much love will kill you
In the end...
In the end.
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Romeo and Juliet

Dire Straits

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A lovestruck romeo sings a streetsus serenade
Laying everybody low with a lovesong that he made
Finds a convenient streetlight steps out of the shade
Says something like you and me babe how about it?

Juliet says hey its romeo you nearly gimme a heart attack
Hes underneath the window shes singing hey la my boyfriends back
You shouldnt come around here singing up at people like that
Anyway what you gonna do about it ?

Juliet the dice were loaded from the start
And I bet and you exploded in my heart
And I forget the movie song
When you wanna realise it was just that the time was wrong juliet ?

Come up on differents streets they both were streets of shame
Both dirty both mean yes and the dream was just the same
And I dreamed your dream for you and your dream is real
How can you look at me as if I was just another one of your deals?

Where you can fall for chains of silver you can fall for chains of gold
You can fall for pretty strangers and the promises they hold
You promised me everything you promised me think and thin
Now you just says oh romeo yeah you know I used to have a scene with him

Juliet when we made love you used to cry
You said I love you like the stars above Ill love you till I die
Theres a place for us you know the movie song
When you gonna realise it was just that the time was wrong juliet?

I cant do the talk like they talk on tv
And I cant do a love song like the way its meant to be
I cant do everything but Id do anything for you
I cant do anything except be in love with you

And all I do is miss you and the way we used to be
All do is keep the beat and bad company
All I do is kiss you through the bars of a rhyme
Julie Id do the stars with you any time

Juliet when we made love you used to cry
You said I love you like the stars above Ill love you till I die
Theres a place for us you know the movie song
When you gonna realise it was just that the time was wrong juliet?

A lovestruck romeo sings a streetsus serenade
Laying everybody low with me a lovesong that he made
Finds a convenient streetlight steps out of the shade
Says something like you and me babe how about it?

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23 de março de 2009

Para o Joomla!, rapidamente e em força!

Já sabia do Joomla!, desde o tempo em que se chamava Mambo. Sabia que era um Content Management System (Sistema de Gestão de Conteúdos, CMS), mas nunca me interessei o suficiente. Porém, nos últimos tempos a Web 2.0 tem andado a pressionar-me. As páginas Web pedem cada vez mais conteúdos ricos e a minha forma de trabalhar está cada vez mais desadequada, com a mania de escrever quase todo o texto e código à mão, num editor de código. Cada página requer tempos infindos para codificar e para matar a bicharada. Manter o menu e os links de um site complexo é uma dor de cabeça.

Ao mesmo tempo, escrever no meu blog mostra-se muito mais divertido, com acessórios complexos como os comentários, os RSS ou as galerias de imagens disponíveis sem esforço, quando, se os tivesse que escrever, teria que ir tirar um curso aprofundado de PHP e de Javascript. Foi então que...

...na zona Del.icio.us da minha página personalizada do Google aparece uma entrada a dizer "I'm sorry but Dreamweaver is dying..."

Como? Um software leader no seu mercado está a morrer? Porquê? A Adobe iria repetir o crime do Freehand, que matou, embora fosse usado por milhares de designers gráficos, para defender o seu Illustrator? Mas para substituí-lo por quê?

Tudo isto cruzou o meu espírito enquanto o link abria. Mas não, não se tratava da Adobe. O autor achava o Dreamweaver perfeito para editar páginas HTML estáticas, mas dizia que os tempos mudaram e que agora, para criar sites de conteúdo rico, era indispensável usar um CMS como o Joomla! ou o Drupal, para incluir no site facilmente blogs, Fórums, chats, wikis, inquéritos, lojas, galerias, autenticação de múltiplos utilizadores com privilégios diferenciados, todas as coisas boas...

Sem mencionar que o site pode reconfigurar-se automaticamente quando o administrador (ou mesmo o utilizador!) muda de template... E que há milhares de malucos por toda a Web a escrever plugins que incluem menus em Javascript e Flash ou janelas de Twitter. Tudo grátis.

Muito mais importante: tal como num blog, múltiplos utilizadores que não são necessariamente web designers nem developpers podem acrescentar conteúdo e os menus são dinamicamente reconfigurados para incorporar o novo conteúdo, que pode ser apresentado e indexado de várias maneiras!

Trato de instalar o Joomla! (é Open Source, tal como o Drupal). O bicho é exigente. Tem que se ter um servidor Web que dê acesso a PHP e MySQL. Eu tenho (os que usam páginas gratuitas tipo Sapo não têm), mas preferi instalá-lo para teste no meu computador doméstico, com um servidor Apache com PHP e MySQL no pacote Wamp a correr em Vista.

Instalar o Wamp no Vista é que foi um sarilho, porque havia um conflito com a porta 80 que me fez perder duas noites. São sempre as coisas mais idiotas!

Mas o Joomla! instalou muito bem e depois tem sido uma exploração muito interessante. Fazer coisas simples é difícil, a besta perece sempre interessada em mostrar muito mais coisas difíceis e interessantes, mas que não foram pedidas. Na verdade começa como um site complexo, que pode ser configurado naturalmente como blog, como FAQ ou como lista de títulos. O que há a fazer, depois de compreender o que se passa, é "despublicar" aquilo tudo e começar a publicar uma coisa de cada vez.

É um paradigma novo. Saber HTML, Javascript, CSS é menos importante. Importante é conseguir conjugar todos aqueles objectos complexos e caprichosos. Mas há milhares de páginas de ajuda, com vídeos e tudo, mesmo em português. Uma das mais activas e evangélicas comunidades de Open Source!

Eu sabia que isto me ia acontecer. No início da minha carreira de designer gráfico, tive de recorrer ao código PostScript para resolver problemas que os programas de desktop publishing da altura não contemplavam; mas assim que apareceu o Corel Draw! (versão 2.0, em 1990), deixei-me disso, porque escrever código não é uma forma eficaz de produzir. Sou melhor a escrever textos e a fazer bonecos, a desenhar uma comunicação.

Embora, de tempos a tempos, o código me fascine...