9 de setembro de 2009

Acabou a festa (comentário)

O post  anterior, Acabou a festa!, incomodou os meus amigos comunistas, como era de esperar. Houve quem me chamasse anticomunista primário (nunca vi ninguém ser chamado anticomunista secundário, é um daqueles chavões), mas a maioria escolheu pegar na descrição que fiz do meu stress psicológico na festa e dos incidentes de distracção e ignorar os considerandos políticos iniciais.

“Esqueceste-te da EP e tiveste problemas com o telemóvel, e que culpa têm os comunistas disso?” Nenhuma, claro. Eu tenho as minhas maluquices, mas não sou doido varrido. Mas o stress precipitou a conclusão de uma reflexão de há anos, a de que, pessoalmente eu, Carlos Cabanita, não tenho nada a fazer lá. Foi o que eu disse:

“Os contratempos e o desconforto são apenas indicadores de uma decisão política, estética e ética que tem de ser tomada. Conheço os sinais. Um tera ou dois de informação mudam de sítio na minha cabeça. Pronto, já está. Não volto cá mais.”

Jerónimo

Falo português, ou quê?

Um amigo escolheu defender a herança histórica do comunismo. Que agora os russos estão pior. Bem os russos, embora sujeitos ao regime autoritário de um ex-KGB, têm mesmo assim muito mais liberdade. E todas as desintoxicações são penosas. Mas se não se tivessem metido com Lenine e Estaline, os russos, que já tinham corrido com o czar e criado um regime parlamentar na Revolução de Fevereiro de 1917, provavelmente seriam hoje uma grande nação europeia e asiática, rica e democrática. Com mais ou menos guerras e pazes, mais ou menos autoritarismo, que parece ser uma sina russa, ninguém o sabe.

E, acrescenta o meu amigo, as conquistas operárias na Europa Ocidental? Quem as teria conseguido senão os comunistas? Com franqueza! Os comunistas não são o movimento operário. Outras bandeiras teriam sido usadas. E foram, nos lugares onde os partidos comunistas eram fracos. As conquistas operárias em Inglaterra, das melhores do mundo, foram obra dos trabalhistas. As da Alemanha Ocidental foram obra do SPD e dos seus fortíssimos sindicatos. Na Escandinávia, o paraíso social-democrata foi obra dos… social-democratas!

Os três grandes partidos comunistas da Europa que tiveram melhor desempenho como partidos operários foram os da França, Itália e Espanha. Hoje quase nada resta deles, mas todos os três se tornaram, depois de condenarem a invasão da Checoslováquia em 1968, desobedientes a Moscovo.

O PCP retardou a sua decadência proibindo toda a discussão e expulsando todos os infiéis. Mas a sua sobrevivência é uma anomalia, tão estranha e improvável no mundo como os maoístas do Sendero Luminoso na Bolívia ou os do Partido Comunista Unificado (Maoísta) do Nepal. O PCP é um fóssil vivo.

Se o PCP tivesse vencido a seguir ao 25 de Abril, em Portugal teria acontecido a última das revoluções comunistas.

Mas o 25 de Abril tinha já outro enquadramento histórico: era uma das primeiras da vaga de revoluções democráticas que abalou o mundo no fim do século XX, em que dezenas de ditaduras ruíram na Europa, na América Latina, na Ásia e até em África. Essas revoluções criaram o mundo aberto em que vivemos hoje, com todas as suas vantagens e problemas.

Muitas dessas revoluções foram anticomunistas. Todas criaram regimes de maior ou menor “democracia burguesa”. E todas eram pró-capitalistas. Azar.

Incapazes de compreender a História, temerosos de discutir o seu próprio passado, esperançados de que a última das suas ditaduras queridas, a de Cuba, afinal não desapareça um destes dias, os comunistas estão à espera que caia o outro sapato.

O “outro sapato” será a implosão do PCP, quando a discussão não puder mais ser contida.

E isso é também uma questão de meses.

 
Não prevejo voltar a escrever sobre marxismo e comunismo. Escrevi este tipo de textos em parte para limpar a minha própria cabeça, em parte devido a discutir frequentemente com amigos comunistas. Quando voltar a escrever sobre política será para discutir como, hoje, se deve e pode lutar por um mundo melhor. Mas para isso tenho primeiro que terminar um artigo sobre questões filosóficas e morais, e esse está-me a dar água pela barba.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Comente, mesmo que não concorde. Gosto de palmadas nas costas, mas gosto mais ainda de polémica. Comentários ofensivos ou indiscretos podem vir a ter de ser apagados, mas só em casos extremos.