24 de setembro de 2009

Ruínas da memória

Fui ver ruínas históricas e ruínas pessoais.

Quanto às históricas, visitei o castelo de Paderne. Como o dinheiro e a pedra não abundavam, os Mouros construíram o castelo em taipa1, pintando nas paredes uma alvenaria fingida para enganar os inimigos cristãos. Oito séculos mais tarde, se calhar pelas mesmas razões, falta de fundos e pedra, o meu avô materno, no início do século vinte, usou a mesma técnica construtiva para erguer um casebre para a sua numerosa família, antes de se finar de forma muito temporã. Não fingiu alvenaria, antes pintou tudo com singela cal.

Castelo de Paderne

Sob um viaduto da Via do Infante, as ruínas do castelo de Paderne recortam-se na colina

Outrora os cristãos seguiam uma política de terra queimada, com sortidas constantes destinadas a comprometer a actividade económica e a aterrorizar as populações. Os Mouros defenderam-se então construindo este castelo numa curva estratégica da Ribeira de Quarteira.

Hoje os invasores são bem vindos, a actividade económica depende deles e a Via do Infante é que é estratégica. A Ribeira de Quarteira, para além de agora desaguar em Vilamoura, é um barranco seco de Verão que quem passa na auto-estrada nem se dá conta de atravessar.

Nora em ruínas

Muito perto, uma nora em ruínas.

Voltando de Paderne, resolvi virar à esquerda e visitar o Ribeiro, alma mater da minha família. Pinheiros, Quatro Estradas, Ribeiro de Baixo. Velhos carreiros que eu fiz a pé ou de burro, em criança, estão agora alcatroados. Tudo encolheu imenso. Na rua de trás da casa da minha avó, que na minha memória era uma espécie de praceta, só cabem dois carros lado a lado e um só ao comprido.

Casa da minha avó, traseiras

Rua de trás da casa da minha avó. Aqui onde estamos havia uma enorme estrumeira, mesmo à porta de casa. Lá ao fundo, onde agora está um muro, era a pocilga

Casa da minha avó, cozinha velha

Cozinha antiga. Havia o fumeiro e a salgadeira. Por cima, o palheiro. Estranhamente, nunca ardeu.

Casa da minha avó, frente

Frente da casa

Esta é a casita que o meus avós maternos José Dias Mariano e Maria Lúcia Dias construíram e povoaram com sete filhos, antes dele se finar e deixá-los a cargo da viúva. A única maneira de sobreviverem era pôr os mais velhos a trabalhar assim que pudessem, os do meio a cuidar dos mais pequenos. Trabalharam nos seus campos e nos dos outros, tiveram leiras de regadio no Morgado de Quarteira (onde é hoje Vilamoura), houve aqui até uma escola de costura. Cedo descobriram que não era a trabalhar no campo que iam enganar a fome. O meu tio mais velho entrou para o Caminho de Ferro, duas irmãs casaram com ferroviários e tornaram-se guardas de passagem de nível, a minha mãe casou com um polícia, outra irmã tornou-se lojista na aldeia e depois casou com um guarda-fios. Agricultoras, ficaram só a viúva e a sua filha mais velha, que não casou. Falta mencionar o outro filho varão, que morreu jovem de meningite.

Casa da minha avó, panorâmica

Este campo, frente à casa, confina com um ribeiro que deu nome ao sítio. Com outras pequenas propriedades mais afastados, dava ervilhas, favas, trigo. A colheita das árvores chamava-se novidade: alfarrobas, amêndoas, azeitonas, figos. No tempo da minha avó não havia mangueiras no chão, é claro.

Toda esta gente vivia no casinhoto de telha vã. À frente há a casa de entrada e o quarto principal, atrás a cozinha velha, com porta a poente, uma divisão com porta a norte e um quarto. Mais tarde foi acrescentada uma “cozinha nova”. Separada, havia uma “cabana” (estábulo) para duas burras. Quem dormia onde, não faço ideia. Quando a filharada daqueles irmãos todos visitava, dormia tudo ao molho. Mas era preciso também muito espaço para guardar farinha, azeite, azeitonas, amêndoas, feno e favas para as bestas, milho para as galinhas, palma para fazer empreita…

A zona norte era para as actividades normais, a frente era mais de cerimónia. No terraço da frente secavam-se figos. Com duas enormes estrumeiras que serviam de vazadouro para todo o lixo doméstico e dos animais, uma pocilga e um galinheiro, tudo junto de casa, as moscas eram mais que muitas. Toda a água tinha que vir do poço em cântaros de barro, em cima das burras. Servia para a higiene, para a cozinha e ainda para regar uns pessegueiros e umas nespereiras. As minhas burricadas, durante as férias, eram quase todas a servir de aguadeiro. Para lavar a roupa, as mulheres iam ao poço.

A retrete, bem, era o campo atrás duma romãzeira, junto à pocilga. Ainda hoje recordo esses tempos passados de cócoras, debaixo da árvore, ouvindo as cigarras em fundo e as varejeiras voando de poita em poita… De noite usavam-se penicos debaixo da cama, ou num compartimento da mesa de cabeceira. De manhã, iam para o reciclador biológico, vulgo estrumeira. O papel higiénico foi novidade recente, lá para os anos 70. As fraldas dos bebés usavam também o moderno conceito da reciclagem — eram de pano. Não sei como as mulheres resolviam os seus problemas mensais, não era coisa de que se falasse.

Como higiene, havia a lavagem diária da cara, das mãos, dos pés e dos sovacos com sabão azul e branco, num daqueles lavatórios de esmalte que hoje se vê a servir de floreiras. Muito cuidado em gastar pouca água. O sarro mais grosso saía no banho semanal, num alguidar, domingo de manhã antes da missa. É claro que os narizes não eram muito finos nesse tempo.

Para cozinhar usava-se um fogareiro a petróleo, o fogão a lenha da cozinha velha ou o forno de cozer pão, para os jantares de festa. Para os garotos, o crime mais tentador era roubar um cubo de toucinho da salgadeira ou, supremo atrevimento, uma fatia do presunto pendurado no fumeiro. Ou umas azeitonas do pote. Eu visitei o sítio já como filho de pessoas que viviam na cidade, e as coisas já não eram como dantes. Mas a minha mãe contava-me que viveram à beira da fome várias vezes, em particular quando das secas ou durante e a seguir à Segunda Guerra Mundial, com o racionamento. A minha avó era dona do forno, o que lhe dava o privilégio de cozer pão ao sábado, o dia mais conveniente. As vizinhas coziam pão nos outros dias e não pagavam nada por isso. O pão durava uma semana, cada vez mais duro, mas sem se tornar quebradiço. Ficava tipo cortiça e não pedra, como o pão industrial de hoje.

Luz era a petróleo, dentro de casa com candeeiros de vidro, na rua com lanternas de folha. Como diversão havia um rádio a pilhas, tecnologia dos anos 60. Para ler, nada. Só pagelas de santos e um monte de Modas & Bordados com moldes para vestidos dos anos 30 e 40. O pouco papel impresso que aparecia acabava rapidamente reciclado junto da romãzeira. E havia uma Rolleyflex, da mana mais nova e cosmopolita, para registar ocasiões solenes a preto e branco. O Cinema Mariani, um barracão desmontável de zinco, promovia soarées aos domingos, perto da Fonte de Boliqueime, a uns dois quilómetros. Toda a tarde de domingo os altifalantes do cinema enchiam montes e vales de pasodobles e tangos, chamando o povo. Para lá ir as famílias seguiam em fila indiana, por carreiros pedregosos, absolutamente às escuras.

Forno

A romãzeira marcava a latrina. Talvez por ter sido adubada com tanta caca, está hoje ainda viçosa e cheia de romãs, ao passo que a obra humana se arruinou de todo. Debaixo da romãzeira, o que resta do forno da minha avó.

Pouca daquela actividade produzia ou consumia dinheiro. O trabalho era trocado entre vizinhos, quase tudo o que se plantava ou criava era comido. Dinheiro vinha da venda da amêndoa e da alfarroba, e ainda da empreita (alcofas e cestos de palma). Era para o petróleo, para a roupa, para o médico ou para mandar dizer umas missas. As azeitonas iam para o lagar e a paga era azeite, o trigo era pago com farinha.

Chamava-se a isto agricultura de subsistência. Só dava mesmo para subsistir, mais nada. Os meus pais, tios e tias teimaram, durante muitos anos, em consumir as férias, domingos e feriados a tentar tirar algum rendimento desta forma de vida em extinção. Não o faziam pelo dinheiro, mas por acharem que era uma obrigação moral, face ao privilégio que Deus lhes dera de serem donos da terra. Eu, mesmo em garoto, era contra. Tentei demonstrar-lhes como era pouco o que se apurava depois de tanto trabalho, em condições quase insuportáveis. E a praia ali tão perto!

As minhas contas estavam certas. Os campos de sequeiro algarvios estão hoje essencialmente abandonados. E eu, se não perceberam ainda, devo sublinhar que não sofro de nenhuma nostalgia por essa forma de vida miserável. Ao contrário de muitos ideólogos urbanos, sei do que falo.

Os cristãos acabaram por tomar o castelo de Paderne e as suas ruínas, hoje restauradas com respeito da taipa original e musealizadas2, dão um toque cultural ao turismo de que vive o Algarve e alegram o skyline. Até a casa da minha avó podia ser musealizada, como peça de informação cultural sobre o Algarve de antigamente. Mas algo me diz que as estrumeiras, por muito importantes que fossem para o adubo, teriam de ser escamoteadas…


1 A taipa foi uma técnica de construção muito usada no sul de Portugal e também no Brasil. Também era conhecida por pau a pique. Barro misturado com palha era usado como cimento, uma grade de madeira ou canas servia de armadura. Surpreendentemente, era bastante resistente, desde que fosse sempre caiada e se evitasse as infiltrações de água. Uma vez ao abandono, estas construções degradam-se muito rapidamente. Voltar ao texto.

2 Musealizar é configurar um sítio arqueológico como museu. Aquilo que só é perceptível aos arqueólogos passa a ser uma narrativa fácil de apreender pelas amplas massas. Musealizar é um caso particular de mediação. Só depois de mediadas (adaptadas aos seus media) as mensagens podem ser difundidas. Um dia destes vou fazer um post sobre este conceito fundamental na comunicação. Voltar ao texto.

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