27 de setembro de 2009

As administradoras da vida

Estava eu a dormir no quarto de hóspedes duns amigos meus quando fui despertado pela rotina matinal de uma mãe a despachar as suas duas filhas para a escola. Lavar, vestir, tomar o pequeno-almoço, lavar os dentinhos, as mochilas, o carro, as horas. Suplicava, ameaçava, tentava vários tons de voz, repetia-se constantemente. As crianças, aparentemente, estavam noutra. Pareciam apostadas em torpedear, através da resistência passiva, o horário apertado da mãe. A voz dela denunciava um stress crescente.

Não quero que pensem nada deste caso particular. Não pensem mal do marido dela, que estava fora por razões profissionais, não pensem mal de mim que, se me tivesse levantado, não ia ajudar nada. Eu estava ali de férias e a minha rotina era levantar-me tarde e ir para a praia. Não pensem mal da mãe, que, se exercesse mais autoridade, talvez tivesse a vida marginalmente facilitada, mas continuaria a ter que levar todos os dias à escola as duas garotas e aparecer a horas no emprego. E não pensem mal das garotas, que são encantadoras.

Cariátide caída carregando a sua pedra

"Cariátide caída carregando a sua pedra", escultura de Auguste Rodin, Museu Rodin, Paris. As Cariátides eram figuras femininas que serviam de colunas no Erecteion, na Acrópole de Atenas. Rodin imaginou esta, caída sob o peso esmagador das suas responsabilidades, mas incapaz de desistir. Robert Heinlein chamou-me a atenção para o significado desta estátua, no romance de ficção científica "O Número da Besta"

Não, esta reflexão é sobre as mulheres em geral e a carga extraordinária que levam sobre os fracos ombros— e sobre o pouco caso que a nossa sociedade faz do seu esforço.

Imaginem só: esta minha amiga, quando chegar ao trabalho, já carrega o peso de todo este stress, enquanto outros colegas seus estão a começar o dia, frescos que nem alfaces.

Qualquer problema com as crianças, nas suas duas escolas, desde um alerta de gripe até à falta de água, pode obrigá-la a abandonar o emprego a correr.

Qualquer oportunidade de melhoria profissional, como cursos, estágios, reuniões de trabalho, tudo isso representa um desafio logístico, porque exige mais tempo que ela não tem. A simples disponibilidade para fazer trabalho extra, que em todo o lado é um indicador seguro para promoção, não está ao seu alcance.

Esta minha amiga tem uma inteligência brilhante, uma grande capacidade de trabalho e de organização. Mas confessou-me que, enquanto as filhas forem pequenas, vai ter de pôr a sua carreira em lume brando.

À tarde, repete-se o stress. Ir buscar as garotas, os trabalhos de casa, o banho, o jantar, o lavar os dentes, o deitar. Mais uma vez, as meninas usam todas as tácticas de diversão que conhecem para sabotar a rotina. Finalmente amalhadas, puxo de um ou dois temas de conversa. Não dá. A minha amiga está esgotada. Ainda tem que ir para o computador  tratar de assuntos do trabalho. Saio, vou dar uma volta, mas ainda a oiço no seu quarto a repreender as filhas que saíram da cama.

Na competição no lugar de trabalho, muitas mulheres concorrem de pés atados. Por um lado, atam-lhes os pés, por outro o júri não lhes reconhece nenhuma classe especial; elas são consideradas concorrentes como os demais. Até os benefícios a que têm direito como as tolerâncias de ponto, os períodos de gravidez ou de aleitação ou a assistência à família, viram-se contra elas. Mesmo que ninguém o confesse, são sinais claros de falta de comprometimento e de desinteresse pelos objectivos partilhados pela cultura da empresa. Como qualquer cultura em que a pressão dos pares é importante, na empresa tende a escamotear-se a vida externa das pessoas, os valores externos e os amores externos. Qualquer pessoa que, ostensivamente, cultiva outros amores e tem as suas prioridades tão claramente subordinadas ao exterior, perde pontos na hierarquia geral.

Tendo tudo isso em conta, é ainda mais extraordinário o recente sucesso que as mulheres têm tido na esfera profissional. Como grupo social, as mulheres têm demonstrado uma grande mobilidade ascendente, estão em maioria no Ensino Superior, têm melhor aproveitamento em todo o ensino, têm tido sucesso na ascensão nas suas profissões, mesmo onde uma conspiração surda lhes veda o acesso.

A loba no meio dos carneiros

A única teoria que me ocorre para justificar isso é a do endurecimento pessoal. Escolas de tropas especiais como os Comandos usam o conceito com sucesso há muitos anos. Peguem num jovem e coloquem-no perante provas cada vez mais difíceis, que ele terá de superar para corresponder às expectativas que foi levado a criar sobre si próprio; criem as mais adversas condições de vida, para ele se habituar a superar o sofrimento e a dor; façam-lhe guerra psicológica para lhe endurecer as defesas e a vontade; por fim terão criado um soldado muito superior, capaz de se mover entre os guerreiros comuns como um lobo no meio dos carneiros.

É curioso eu estar a aplicar este conceito às mulheres, não é? Mas reparem: estas mamãs gerem uma agenda mais complexa que a de muitos administradores, em que, para além da rotina diária inflexível, há toda a espécie de eventos: reuniões de pais, excursões com problemas logísticos próprios, férias, doenças, consultas; a administração da logística geral, que inclui a alimentação, roupa, material escolar e livros; avaliação pedagógica e educativa das crianças, uma lista sem fim.

Desistir não é opção. O seu instinto maternal não lho permite. A batalha não tem recuo possível. É preciso dar tudo por tudo e continuar a dar durante anos.

Mesmo quando os maridos e outros membros da família alargada colaboram nestas tarefas, cabe quase sempre à mulher ser o pivô deste bailado. É ela que se consciencializa de todos os problemas a resolver, das datas em que é preciso fazer isto e aquilo, apela à colaboração de cada um. Isso obriga, claro, à diplomacia necessária para, por exemplo, manter os sogros ou os pais colaborantes mas sem interferir, fazer o marido colaborar mas dar-lhe as aberturas necessárias para o manter mais ou menos feliz, manter amizades com os amigos dos filhos e respectivos pais. Isso exige uma complexa teia de cumplicidades, alianças, favores feitos e cobrados. Tudo tarefas que, dentro de uma empresa, a poriam à altura de um administrador ou de um técnico de nível superior — e exigem a determinação e a motivação de um atleta de competição.

Portanto, a dama chega ao emprego stressada e com a a cabeça a 200 à hora. Que faz ela? Não desacelera a cabeça e continua a resolver tudo com o mesmo despacho. Os outros ainda estão meio a dormir, a espreguiçar-se mentalmente. Mas ela sabe que não pode permitir que o trabalho se prolongue para lá da hora de saída e qualquer forma de engonhar ou perder tempo é sentida como uma ameaça. A sua criatividade centra-se naturalmente nessas ameaças e em procurar eliminá-las, em simplificar e desbloquear processos. Mesmo que não o faça de propósito, torna-se um factor de aumento da produtividade.

Havendo alguma justiça, é natural que o seu contributo seja recompensado.

O preço pessoal a pagar é pesado, claro. É pago sobretudo em ausência de tempo para si próprias, em anulação dos seus egos. É possível que algumas, em vidas mais complicadas, cheguem a exibir sinais de stress pós-traumático. Não é só na guerra que se apanha isso.

Libertação da mulher?

Tudo isto se passa num pano de fundo em que as tarefas em que, durante a nossa evolução, as mulheres se especializaram são hoje decisivas nas empresas. A força bruta importa pouco, há máquinas para tudo. Importa muito mais conseguir compromissos para que tarefas muito complexas sejam levadas a cabo por pessoas muito diversas e gerir os seus egos e as suas motivações, e nisso as mulheres estão quase sempre à vontade.

Haverá sempre lugar para os homens e para a sua tenacidade, para a sua dedicação sem limites a uma tarefa, para sua atenção concentrada sobre um problema isolado. E para a sua agressividade, claro. Não estejamos preocupados.

Os homens nunca terão problemas em fazer valer os seus talentos. O problema das mulheres é que muitas vezes oferecem o seu trabalho gratuitamente, sem sequer pedir reconhecimento.

Lembro-me de uma sogra que tive que, uma vez em que almoçava comigo num restaurante, tentou dar-me dinheiro por baixo da mesa para eu pagar a refeição. Quero dizer, ela queria pagar-me o almoço, mas achou que eu podia sentir-me humilhado por ser uma mulher a pagar publicamente. Isto é anedótico, mas repete-se ainda todos os dias das mais diversas formas. Os egos mais frágeis que as mulheres têm de gerir são os dos homens e, para os manter felizes, são levadas muitas vezes a deixar-lhes a ribalta.

Um caso particular de trabalho oferecido desinteressadamente pelas mulheres e que a sociedade finge que não vê são precisamente essas horas antes e depois do emprego.

Voltando à minha amiga, ela trabalha as horas devidas no seu ofício e recebe o seu ordenado. Mas outras tantas horas por dia fabrica, laboriosamente e com paixão, dois novos seres humanos para a nossa colecção. Quanto valem? Quanto vale esse seu trabalho?

Não têm preço? Lembra-me o caso do Museu Gulbenkian, quando abriu nos anos 70. Estava avaliado, simbolicamente, em cem escudos, mas tinha um seguro de duzentos mil contos.

É claro que fabricar novos seres humanos é uma tarefa essencial, que exige o melhor de cada um, em tempo, recursos, criatividade, inteligência afectiva. A sociedade é que faz de conta que esse trabalho não existe. Possivelmente porque não o quer pagar…

Mesmo que não o pagasse em dinheiro, se a sociedade desse o devido apreço a esse trabalho, com palmadas nas costas, felicitações, discursos de homenagem,  salvas de palmas e coisas que tais, possivelmente as acções das mulheres iriam subir ainda mais na bolsa

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3 comentários:

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