2020-10-04

Cavernas de luxo

Uma vida decente para todos não tem que custar-nos a Terra

Um novo estudo revela que poderiam ser fornecidos padrões de vida decentes a toda a população global de 10 mil milhões que se espera atingir até 2050, gastando menos de 40% da energia global atual. Trata-se de cerca de 25% da previsão da Agência Internacional de Energia, se as tendências atuais continuarem. Este nível de consumo global de energia seria aproximadamente o mesmo que durante a década de 1960, quando a população era de apenas três mil milhões.

Tradução do artigo de Decent living for all does not have to cost the Earth de Science Dayly

O consumo global de energia em 2050 poderia ser reduzido aos níveis da década de 1960 e ainda fornecer um padrão de vida decente para uma população três vezes maior, de acordo com um novo estudo.

2020-10-01

Igreja Católica portuguesa e Covid-19: Demissão?

(Ponto prévio: Como sabem, sou ateu, mas este texto não é contra a Igreja Católica. Como ateu, sou defensor feroz da liberdade religiosa, até porque nela se inclui a minha liberdade de não ter religião, bem como a liberdade de pensamento e de culto dos católicos e de todos os outros. O que me preocupa é, como cidadão, a contribuição que a Igreja Católica poderia dar, com o seu peso político e influência moral, nesta nossa crise pandémica, para melhorar a nossa resposta coletiva.)

[Fonte: Observador]

Tenho tendência a, por vezes, notar o que não foi dito. De repente, comecei a pensar: Espera lá, não me lembro de grandes tomadas de posição da Igreja Católica sobre a Covid-19! Fui perguntar ao meu amigo Google.

2020-09-23

Primeiro veio o furacão, depois o terror

Sonia Shah – 22 de setembro de 2020

Tradução de um artigo publicado em Pulitzer Center

A ilha de Abaco, vista de cima, parece um banco de areia submerso, quase nada terrestre. É uma das ilhas mais ao norte do arquipélago das Bahamas, no topo de uma ampla plataforma de calcário só poucas dezenas de metros abaixo do nível do mar. Do espaço, as suas areias puras e brancas e águas fluorescentes brilham como um colar de esmeraldas, visualmente notáveis contra os tons de castanho e verde do resto do planeta. Vistas da janela oval do meu voo, cortando um céu sem nuvens, as águas brilhavam em tons deslumbrantes de lápis-lazúli.

No terreno, a cena mais parece um filme de Mad Max. Quando cheguei, este ano, vários meses se haviam passado desde o furacão Dorian, a tempestade monstruosa de categoria 5 que atingiu o norte das Bahamas em setembro de 2019. A estrada que saía do pequeno aeroporto da ilha estava limpa, mas ladeada de montes de entulho, pontuados por caules de aparência estranha, restos de pinheiros sem folhas e galhos arrancados pelo vendaval. As construções estavam pulverizadas em pilhas de entulho de tamanhos variados, anulando as pistas visuais – sinais, cores, formas de edifícios – que marcam as distinções entre bairros, zonas comerciais e áreas abertas. Teve um efeito desconcertante. De vez em quando, um qualquer de veículo pesado passava em alta velocidade, disparado pelas estradas desertas.

2020-09-22

China: desinformação sobre os uigures

Quinta-feira, 17 de setembro de 2020, por Vanessa Frangville

Tradução de um artigo publicado no Europe Solidaire sans Frontières e no Le Monde em 17/9/2020

Vanessa Frangville é professora de estudos chineses e diretora do centro de pesquisa EASt da Universidade Livre de Bruxelas

Questionado sobre a questão uigur durante a sua visita relâmpago à Europa, no final de agosto, o ministro chinês das Relações Exteriores, Wang Yi, iludiu a questão sob uma enxurrada de estatísticas enigmáticas. Pequim persiste na desinformação sobre o assunto, desde que a ONU divulgou um relatório contundente, em agosto de 2018, sobre a situação na região de Xinjiang, nas fronteiras da China e da Ásia Central. Há mais de dois anos já, portanto, que as evidências se acumulam, que os depoimentos circulam e que as análises se sucedem.

2020-09-06

Em memória amorosa de nosso amigo, camarada e mentor, David Graeber

Andrej Grubačić compartilha alguns pensamentos sobre seu o falecimento repentino
Tradução de um artigo de Europe Solidaire Sans Frontières

David Graeber

David Graeber foi o meu mentor e o meu amigo mais próximo nos últimos vinte anos. Participámos em dezenas de projetos políticos e escrevemos várias coisas juntos. Foi, de longe, a pessoa mais brilhante que já conheci. Todos nós temos uma ou duas boas ideias, mas o David sempre foi capaz de apresentar muitas, às vezes na mesma frase. Não tenho dúvidas de que foi o pensador anarquista mais significativo da minha geração.

2020-07-06

É assim que uma sociedade morre

Umair Haque é um consultor económico baseado em Londres. Fez parte da sua carreira como consultor de sucesso, mas, no seguimento de uma crise de saúde grave, viu a luz. Não viu qualquer divindade, mas percebeu que o capitalismo que tinha andado a promover era um sistema predador e insustentável. De então para cá, continuou a ser um consultor de sucesso, explicando como o capitalismo é um sistema predador e insustentável. O conceito chave do seu pensamento é a eudaemonia, que se pode traduzir por felicidade, bem-estar ou, no significado literal dos gregos, ser influenciado por um bom espírito, ou daemon. Uma organização social não serve para maximizar o lucro ou o crescimento do PIB, mas para incremento do bem-estar social, a eudaemonia. Possivelmente, essa ênfase corresponde aos modernos conceitos de índice de desenvolvimento humano que pretendem exprimir de forma mais coerente os fins da sociedade. O seu site é Eudaemonia & Co.

2020-07-04

Cooperação & Agressão: é complicado...

Há uma discussão entre estudiosos da evolução, sobre se os fatores que decidem a adaptação são puramente genéticos ou também culturais; se o gene é puramente egoísta ou se o altruísmo conta, e de que forma, na sobrevivência das espécies ou das sociedades humanas. O Evolution Institute é um think tank fundado pelo biológo evolucionário David Sloan Wilson para defender as perspetivas que valorizam o altruísmo em evolução. O artigo Cooperação através da seleção de grupos culturais vem do Evolution Institute

2020-06-26

18 argumentos carnívoros destruídos

Por mais desagradável que possa ser para os que produzem e comem carne, as evidências ambientais e de saúde para uma dieta baseada em vegetais são claras

Tradução do artigo Why you should go animal-free: 18 arguments for eating meat debunked, por Damian Carrington, editor de Ambiente, no Guardian, 13 jun 2020

2020-06-20

Olfato, Covid-19 e mais coisas

A anosmia (perda de olfato e de sabor) apareceu ligada à pandemia de Covid-19, mas trouxe curiosidade sobre o nosso olfato. Este artigo na Horizon, site de divulgação científica da União Europeia, intrigou-me, porque descreve comportamentos humanos ligados ao olfato, mas — a não ser que o meu olfato seja terrível (não é excecional, mas funciona) — muitas, senão a maioria, das nossas perceções olfativas são inconscientes. Seria o velho caso das feromonas...

De muito interesse é também a menção de um instrumento online para avaliação do nosso próprio sabor, com a utilização de ingredientes comuns existentes em qualquer casa. Brevemente vou experimentar.

Porque é que o coronavírus ataca o sentido do olfato?

No início, eram apenas relatos anedóticos. Especialistas em ORL (Otorrinolaringologia) de todo o mundo estavam a compartilhar as suas experiências em quadros de mensagens online — todos estavam a ver um pico em pacientes com anosmia, perda de olfato.

O vínculo com o coronavírus foi levado ao conhecimento público por especialistas no Reino Unido no final de março e, desde então, as organizações de saúde foram adicionando gradualmente a anosmia à lista de sintomas do Covid-19. De acordo com um estudo recente, cerca de dois terços das pessoas com Covid-19 sofrem uma súbita perda de cheiro ou sabor.

The Room Where It Happened

John Bolton, antigo conselheiro de Segurança Nacional de Trump, depois de romper com ele, acaba de escrever um livro cheio de revelações sobre a Borbulha Laranja.

John Bolton, um conservador superagressivo em política externa, não é exatamente flor que se cheire. Diz-se dele que nunca encontrou uma proposta de guerra de que não gostasse. Enquanto ocupou o cargo na Casa Branca, pressionou incansavelmente a favor da agressão ao Irão. O ponto de rotura com Trump surgiu quando este reteve verbas de ajuda militar à Ucrânia, a braços com a agressão russa no Donbass, procurando pressionar o país a abrir uma investigação ao filho de Joe Biden. John Bolton insurgiu-se, chamando ao caso "um negócio de tráfico de drogas" e a Ruddy Guiliani, o advogado de Trump que tratava do assunto, "uma granada de mão prestes a explodir". Foi daqui que partiu o processo de destituição de Trump. Bolton recusou-se a ser ouvido como testemunha pelo Congresso.

2020-06-16

A invenção de Cristóvão Colombo, herói americano

As fortunas do Colombo mito nos EUA são descritas neste curioso artigo de The Nation. A ascenção do navegador a grande descobridor das Américas, aqui descrita, faz-me desconfiar da proeminência que tem em Portugal. Será efeito da influência cultural dos EUA ou de Espanha? Curiosa questão a investigar...

Como os fundadores dos EUA transformaram Cristóvão Colombo, um medíocre marinheiro italiano e assassino em massa, num ícone histórico.

Por Edward Burmila

Em 1892, The Youth's Companion —uma revista nacional para crianças editada por Francis Bellamy (o ministro socialista mais conhecido por escrever o Pledge of Allegiance) — ofereceu aos leitores um programa para comemorar o 400º aniversário da chegada de Cristóvão Colombo ao Novo Mundo. Todas as escolas do país, entoou a revista solenemente, deveriam segui-lo à risca.

2020-06-07

Leão Tolstói, o santo ímpio

2000 anos de descrença: Leão Tolstoi

18 de maio de 2020

Por James A. Haught

Este é o décimo quarto segmento de uma série de renomados céticos ao longo da história. Esses perfis foram extraídos de “2000 Years of Disbelief: Famous People With the Courage to Doubt” (2000 Anos de Descrença: Pessoas Famosas com a Coragem de Duvidar), Prometheus Books, 1996, publicado em inglês em Daylight Atheism (Patheos)

Muitas pessoas que rejeitam o cristianismo sobrenatural abraçam, no entanto, a mensagem de compaixão de Cristo. Leão Tolstoi (1828-1910) levou esse padrão ao extremo.

Renunciou à religião organizada e foi excomungado pela Igreja Ortodoxa Russa ‒ mas tornou-se quase um monge, vivendo ao serviço dos outros.

2020-05-17

Riscos: conheça-os e evite-os

Traduzi este artigo (quase) todo porque o achei muito útil. Ajuda-nos a pensar na forma de navegar os próximos tempos com a segurança possível, evitando os perigos mais evidentes. O autor, Erin Bromage, é um cientista respeitado que começou a dar conselhos nas redes sociais, até ser solicitado pelos leitores a publicar num blogue, para todos terem acesso. Desde então este artigo tem tido imensa difusão. Explica de forma muito clara quais são os lugares e comportamentos mais perigosos e porquê. É centrado na análise sobre fluxos aéreos e contágio pela respiração, defendendo o uso de máscaras, mas não invalida as outras precauções como a lavagem das mãos, não mexer na cara e desinfetar superfícies e objetos.

De notar a cuidadosa citação de referências, entre artigos científicos e jornais de grande circulação.

 

2020-05-16

Afinal a Rússia era a favor da Hillary

...de acordo com notícias de última hora que Trump encontrou no rabo

Um site sério/cómico que visito muita vez sobre política dos EUA é a Wonkette (mais ou menos Sabichona). Adoro a linguagem de carroceiro. Note-se que a linguagem em uso em muitas partes dos EUA, mesmo a escrita e falada na comunicação social é, no que toca a palavrões, ao nível do nosso Porto ou Beira Ialta. A orientação do site é claramente de esquerda e intransigentemente feminista.

PAREM AS ROTATIVAS! Há nova informação que está a aparecer agora, mesmo do tipo "OBAMAGATE!"1, está a vir ao de cima agora e toda a gente sabe o que é, porque é tão má!

2020-05-04

Recuperação, mas verde

Em tempos de pandemia, põe-se o problema da intervenção do estado na economia, para tentar mitigar a crise económica, o desemprego e a miséria que vieram no seu rasto. Mas há sempre a velha discussão com os neoliberais, que acham que todo o dispêndio de fundos do estado tem que ser compensado por uma austeridade brutal. Acabo de publicar um texto sobre uma nova teoria económica que afirma que isto não se passa assim, a Nova Teoria Monetária.

O artigo que se seque foi publicado no Huffington Post em 2018, na discussão à volta do Green New Deal, um projeto de alguns membros do Partido Democrata dos EUA para o gasto massivo de recursos do estado com o fim de fazer frente ao Aquecimento Global e assegurar a transição da economia dos EUA para energias e procedimentos sustentáveis, à semelhança do New Deal de Roosevelt, que proporcionou a saída da crise de 1930. A discussão de então é válida para o que se passa hoje. Hoje, praticamente ninguém objeta a uma intervenção massiva do estado na economia. Aliás, brevemente teremos que responder à questão: já que temos que gastar o dinheiro do estado para recuperar a economia, vamos usá-lo para reconstruir a porcaria que estava de pé ou aproveitar para construir uma economia sustentável?

2020-05-02

Teoria Monetária Moderna: o que é?

Anda por aí uma nova teoria económica, a Teoria Monetária Moderna (TMM). Nova, não exatamente. Os seus precursores vêm do início do século XX. Mas tem merecido a atenção de cada vez mais economistas, em especial dos que procuram um pensamento económico anti-neoliberal. Não sou o mais sabido neste tipo de coisas, e talvez por isso só soube dela recentemente, através de uma ligação de um artigo no blogue Ladrões de Bicicletas. A ideia essencial, muito bem-vinda nesta conjuntura, é que o estado, desde que seja soberano na emissão de moeda, não se tem que sujeitar à disciplina férrea da austeridade neoliberal e pode investir (quase) livremente na criação de emprego e em infraestruturas de betão e sociais. Mas será possível?

2020-04-16

Os chineses comem realmente morcegos?

Guia para principiantes sobre a sobrevivência à praga, parte 5 — Osten Cramer

O verdadeiro comércio de animais silvestres não é o que se pensa e podemos fazer parte dele sem perceber. Tradução da opinião do antropólogo Osten Cramer, que tem estudado o comércio de animais selvagens na China e arredores, no seu mural do Facebook.

Olá, gente. Ainda estou a recuperar, mas acontece que tenho que ir com calma. Esperava fazer um post por dia, mas ainda parece um pouco fora do meu alcance. Mas a dinâmica social dessa pandemia ainda é fascinante, ainda estou em quarentena e ainda estou a pensar em como os antropólogos podem contribuir para entender a pandemia e, já que a minha pesquisa é sobre o comércio da vida selvagem, muitos me têm me pedindo para criar este post. Aqui vamos nós! É hora de falar sobre o comércio real de vida selvagem na Ásia e alhures. Não se trata exatamente da doença, mas de muitos dos preconceitos que as pessoas têm sobre a origem do vírus.

2020-04-14

Porque se tornou a religião conservadora um vetor de doença?

Valerie Tarico

Valerie Tarico

13 de abril de 2020 — Valerie Tarico (tradução)

Os crentes religiosos estão a espalhar o coronavírus através dos mesmos mecanismos que espalham a própria religião.

Que se passa com a religião e o COVID-19? Nos EUA, líderes cristãos conservadores lutaram para ser isentados dos limites de saúde pública nas reuniões sociais. Estado após estado, os governadores confrontados com acusações de violação da liberdade constitucional de expressão, cederam, redefinindo a religião como "atividade essencial".

2020-04-13

América Latina: a pandemia soma-se a outras crises

Quarta-feira, 8 de abril de 2020 — Tradução de uma entrevista de Vittorio de Filippis a Pierre Salama no site Europe Solidaire sans Frontières.

Para o economista e pesquisador do Centre National de Recherches Scientifiques (CNRS) Pierre Salama, a epidemia do novo coronavírus vai enfraquecer economias já vulneráveis ​​devido às novas formas adotadas pela globalização, a saber, o rompimento internacional da cadeia de valor da produção. Acredita que a pandemia, além dos seus efeitos na saúde e na vulnerabilidade dos mais fracos, multiplicará as muitas crises que já afetavam a maioria dos países do continente.

2020-04-12

A crise do coronavírus pode terminar de uma destas quatro maneiras

Tradução de um artigo em The Guardian, 8 de abril de 2020

Cooperação global, quarentenas intermitentes e rastreio de contactos podem desempenhar um papel na corrida para parar a pandemia

Por Devi Sridhar — catedrático de Saúde Pública Global da Universidade de Edimburgo

Num universo alternativo, um novo vírus emerge na China. O país identifica rapidamente o agente patogénico, fecha suas fronteiras, lança uma campanha sem precedentes para erradicar o vírus e consegue garantir que pouquíssimos casos deixem o país. Os outros países que relatam casos — como a Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Singapura — identificam rapidamente aqueles que estão infetados, rastreiam as pessoas com quem entraram em contato, isolam os portadores do vírus e contêm a sua propagação. Através desta estratégia tripla — teste, rastreio, isolamento — a erradicação é bem-sucedida. A humanidade é salva.

2020-04-10

Que surpresa, Bernie Sanders afinal tinha razão!

Andrew Mitrovica

Escritor, colaborador da Al Jazeera em Toronto.

Traduzo e publico o artigo de opinião para informação; não me comprometo com o pensamento político do autor. (Nota de Carlos Cabanita)

Artigo publicado na Al Jazeera English

Um aparato político e económico preparado para enriquecer uns poucos, às custas dos muitos, estivera sempre destinado ao colapso.

Oh que ironia!

Confrontado com uma pandemia que mata a economia, é notável que um monte de políticos alarmados do Ocidente tenha encontrado muito dinheiro para tentar ressuscitar as suas folhas de balanço sustentadas no mercado, subitamente internadas nos cuidados intensivos.

2020-04-07

Um exército secreto

Hoje, para variar, vou divulgar um assunto diferente da presente epidemia.

A newsletter Tom Dispatch, de Tom Engelhardt, é uma fonte preciosa dentro da imprensa dissidente nos EUA. Tem os melhores artigos sobre os vapores venenosos nas tripas do Império. Traduzo aqui um artigo de Nick Turse sobre a proliferação de tropas especiais. Introdução de Tom Engelhardt:

Nick Turse começou a cobrir o que se pode considerar a história secreta da guerra norte-americana neste século ‒ a ascensão e a disseminação das forças de operações especiais ‒ para o TomDispatch em 2011. Esse foi o ano em que revelou pela primeira vez que as colocações de operações especiais haviam duplicado de 60 países anualmente (já um número bastante impressionante) no final do governo Bush ‒ os anos das invasões e ocupações do Afeganistão e Iraque ‒ para cerca de 120 países ou 60% das nações deste nosso mundo.

2020-04-06

O boomerangue bateu-nos na cara

Tradução do artigo Pandémies : Le coronavirus, «un boomerang qui nous revient dans la figure» de Jade Lingaard e Amélie Poinssot em Europe Solidaire sans Frontières, domingo, 22 de março de 2020.

A pandemia do Covid-19 está ligada à desflorestação e destruição do ecossistema? As ligações existem, embora às vezes sejam indiretas, de acordo com os pesquisadores. A extensão das monoculturas está a ajudar a moldar um mundo propício à disseminação deste tipo de vírus.

Que vínculos podem existir entre um vírus infinitamente pequeno e o imenso caos do mundo? A epidemia atual (mais de 11.200 pessoas mortas e 270.000 casos registados em todo o mundo, domingo, 22 de março de manhã) é causada por um vírus identificado em 2019, daí o nome "Covid-19" para designar o a patologia que o vírus causa ("d" para doença). O próprio agente patogénico é constituído por um longo RNA, o seu código genético, cercado por proteínas. Quando visto sob um microscópio eletrónico, tem forma de coroa, daí a escolha de nomear essa família "corona", vírus da coroa ‒ existem muitas espécies. Só pode viver se se agarrar a uma célula viva antes de entrar nela, por exemplo, na garganta, nariz ou pulmões de um ser humano.

2020-03-26

EUA: chumbo por incompetência

No site Foreign Policy, dedicado a política externa do ponto de vista dos EUA, apareceu este artigo, The Death of American Competence, a declarar que um dos fatores decisivos de decadência desse país é o seu falhanço espetacular ao nível da competência. Não contesto a afirmação do autor, mas discuto as consequências disso para o resto do mundo. Estará a China pronta para agarrar o testemunho?

O artigo é interessante. Não tenho quaisquer dúvidas de que os EUA se afundaram definitivamente na ambição da supremacia mundial. Foi durante as crises, ao saber responder a elas, que subiram ao topo, é na crise e na forma como respondem que se afundam. Nada a fazer, o mundo é um juiz implacável. Desse ponto de vista, a China sem dúvida ocupou agora o seu lugar de potência mundial, precisamente ao saber responder, de forma minimamente competente, ao problema. Mas a China tem uma quantidade de problemas terríveis a resolver até poder assumir plenamente esse papel. O seu sistema político é um anacronismo, é insustentável.

2020-03-15

Nada de quarentenas com a família

Rachel Maddow, famosa repórter da cadeia norte-americana MSNBC, entrevista o jornalista de ciência e saúde Donald McNeal, do New York Times, a propósito do testemunho dos cuidados com o Covid-19 na China. A entrevista mostra uma medicina anti-epidemiológica bem mais avançada, creio eu, que a praticada na Europa e nos EUA. Provavelmente pagaremos bem caro a diferença.

O homem é um bocado difícil de entender. Por isso, resolvi transcrever e traduzir toda a entrevista, a título de serviço público. Veja a transcrição a seguir ao vídeo.

2020-02-19

Lave as mãos!

Se está ansioso com o surto do novo coronavírus (COVID-19) ou simplesmente se preocupa com a disseminação usual da gripe sazonal, há uma maneira simples e fácil de reduzir o risco de contrair doenças transmissíveis: lavar as mãos. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, EUA) consideram a lavagem das mãos “um dos passos mais importantes que podemos tomar para evitar adoecer e espalhar germes” e afirmam que a higiene básica pode reduzir a transmissão tanto das infecções respiratórias superiores — constipação ou gripe — como de doenças diarreicas — por exemplo o norovírus.

2020-02-07

Lágrimas brancas

Artigo do Atlanta Black Star. (Lágrimas brancas é um conceito trocista entre os ativistas anti-racistas. Refere-se à extrema sensibilidade de muitos brancos, perante qualquer crítica ao seu racismo ou ao seu privilégio.)

Um académico britânico negro pôs os cabelos em pé a alguns quando considerou a brancura "uma psicose" e responsabilizou a Grã-Bretanha por ter que levar a sério a sua história opressiva.

2020-02-02

Do lado dos que lutam pela liberdade

No Reino Unido, por estranho que pareça, funcionam tribunais islâmicos da Xaria. O seu objetivo não é decidir questões criminais ou do direito geral do país, mas aplicar o costume e a tradição nas vastas comunidades islâmicas inglesas. Coisas como heranças e afins. Mas a Xaria foi concebida como a lei para todos e os seus tribunais têm tendência a invadir e atacar direitos de mulheres, de LGBT+, de outras persuasões religiosas, e o próprio estado secular.

2020-01-31

Joacine e o racismo

Aconteceu recentemente no nosso país que foi eleita uma deputada sob a bandeira do anti-racismo. Ainda por cima, mulher e gaga. Ainda por cima, ergue com audácia bandeiras que fizeram estremecer os baluartes tanto do racismo como do machismo, como ainda do capacitismo1. Desde o princípio, a sua posição não foi passar entre os pingos da chuva ou não fazer ondas. Não sei se por temperamento pessoal ou estratégia política, a posição de Joacine foi mostrar-se em desafio, para que toda a canzoada ladrasse ferozmente. E a canzoada, previsivelmente, não falhou.

Não serei eu o juiz do seu estilo de comunicação nem vou armar-me em estratego político e dizer que deveria ter feito assim ou assado, em vez do que fez. Nem sequer votei nela, por isso o seu cargo não me leva a escrutinar se está ou não a cumprir o mandato que lhe dei. Nem levo, com franqueza, o nosso Parlamento assim tão a sério.

É uma personalidade colorida, possivelmente sem o calo político que lhe permitiria não dizer imediatamente o que pensa e não irritar os frágeis egos da gente com que irá ter que trabalhar.

2020-01-14

Auschwitz: o reset

Num blogue chamado Skeptics Vocabulary, onde cheguei à procura do termo dissonância cognitiva, que, embora use frequentemente, é raro lembrar-me como se chama, encontrei um artigo sobre um assunto totalmente diferente, mas fascinante.

O autor, indiano (a página assume-se como parte do movimento céptico da Índia), depois de uma visita a Auschwitz, tece algumas considerações interessantes sobre a forma como tal excesso da barbárie forçou uma reavaliação das ideias da consciência mundial com respeito aos direitos humanos. Diz ele que, mais do que o Renascimento, um tal reset se deveu ao horror dos campos de extremínio nazis. É capaz de ter razão.

Como indiano, não pode também fugir a comparar a atrocidade nazi às atrocidades coloniais.

O autor descreve, em primeiro lugar, a visita:

2020-01-13

Angola, 1975 a 1980: O Jogo de Póker das Grandes Potências

William Blum

A informação a que temos acesso é formatada pela assimetria das fontes, bem como pelos nossos próprios preconceitos. Por isso é importante, para conhecer uma realidade, ter acesso a outras fontes, outras narrativas. Nenhuma informação pode ser engolida sem crítica.

A ideia que os portugueses têm da Guerra Colonial em Angola e da Guerra Civil que se seguiu é fortemente influenciada por grandes mitos: do ponto de vista dos saudosos do colonialismo, a traição dos dirigentes portugueses; do ponto de vista da esquerda, a santificação dos movimentos de libertação — ou a santificação de uns e a demonização de outros. Mais subtil ainda é a deformação nacionalista, em que preferimos insconscientemente as narrativas em que a nação (ou a parte da nação que mais amamos) fica melhor na fotografia.