2020-06-16

A invenção de Cristóvão Colombo, herói americano

As fortunas do Colombo mito nos EUA são descritas neste curioso artigo de The Nation. A ascenção do navegador a grande descobridor das Américas, aqui descrita, faz-me desconfiar da proeminência que tem em Portugal. Será efeito da influência cultural dos EUA ou de Espanha? Curiosa questão a investigar...

Como os fundadores dos EUA transformaram Cristóvão Colombo, um medíocre marinheiro italiano e assassino em massa, num ícone histórico.

Por Edward Burmila

Em 1892, The Youth's Companion —uma revista nacional para crianças editada por Francis Bellamy (o ministro socialista mais conhecido por escrever o Pledge of Allegiance) — ofereceu aos leitores um programa para comemorar o 400º aniversário da chegada de Cristóvão Colombo ao Novo Mundo. Todas as escolas do país, entoou a revista solenemente, deveriam segui-lo à risca.

Alunos e veteranos de guerra deveriam reunir-se à volta do mastro da escola, às 9h30, e começar pela leitura da ode do presidente Benjamin Harrison a Colombo, seguindo-se o içar da bandeira, o canto de My Country ’Tis of Thee, uma leitura da Bíblia escolhida por dignitários religiosos locais e, finalmente, cantar um hino original do Dia de Colombo encomendado para a ocasião.

O quadricentenário de Colombo distava ainda cem anos, e levaria quase mais um século para que uma imagem mais crítica e historicamente precisa de Colombo chegasse à consciência dos EUA.

A Revolução Americana criou o Colombo que a maioria de nós, com mais de 30 anos, aprendeu na escola primária. Antes do final do século XVIII, ele era uma nota de rodapé histórica sem ligação às 13 Colónias. Italiano, navegou sob a bandeira espanhola e não desembarcou em parte nenhuma continental moderna dos Estados Unidos. No entanto, quando surgiu a necessidade de desenvolver uma história nacional sem ligação visível com a Grã-Bretanha, durante a Revolução, os primeiros americanos apoderaram-se dele. Era um quadro em branco sobre que podiam projetar as virtudes que queriam ver na sua nova nação. Então, como agora, o processo de escrever Colombo foi o de definir o que significa ser americano.

Estátua de Cristóvão Colombo no Columbus Circle, Nova Iorque

Em 1775, Phillis Wheatley, uma menina afro-americana livre de 14 anos, escreveu um poema a George Washington que comoveu tanto o general que o distribuiu amplamente. Nele, "Columbia" era usada como uma representação alegórica da nação americana, sem dúvida uma glosa da figura feminina da Britannia. Embora existam exemplos escritos de "Columbia" de 1761, a correspondência da jovem Wheatley com o homem mais popular das colónias fez com que, na linguagem de hoje, se tornasse viral.

Prontamente, Columbia e Colombo começaram a aparecer em canções, poemas e ensaios em jornais das colónias. A historiadora Claudia Bushman catalogou quase 100 das odes sobrevivas, a maioria das quais são terríveis. Colombo passou de figura menor na história da exploração europeia para herói americano quase da noite para o dia.

Porquê? Mesmo então, as pessoas sabiam que os europeus, incluindo os vikings e as frotas de pesca portuguesas, haviam visitado ou avistado a América do Norte antes de Colombo. E outros exploradores da época de Colombo têm melhores reivindicações de "descoberta" da terra que agora chamamos Estados Unidos. Mas a política da Revolução desqualificou os outros candidatos. Henry Hudson era britânico. Giovanni Caboto (anglicizado como "John Cabot") navegou por conta da Grã-Bretanha. Juan Ponce de Leon já estava em uso como herói na Espanha. Giovanni da Verrazzano encontrou um fim impróprio de um herói nacional como deve ser, tendo sido comido por índios caribenhos em 1526.

Colombo também tinha falhas. Até à sua morte, insistiu publicamente que, de facto, tinha desembarcado no leste da Ásia como pretendia originalmente. Não era um marinheiro especialmente talentoso nem teve sucesso em fundar uma colónia no Novo Mundo. Além de permitir que começasse a percorrer as Caraíbas, fazendo coisas caprichosas e cruéis aos seus habitantes, a sua famosa viagem teve pouco resultado.

No entanto, quase nada se sabia sobre Colombo nas colónias americanas no início da Revolução, e isso trabalhou a seu favor. Os poucos registos escritos das suas viagens, incluindo uma biografia do seu filho Fernando e uma história do século XVI, de Bartolomé de Las Casas, não estavam disponíveis no Novo Mundo e não foram traduzidos para o inglês até muito mais tarde. A única história detalhada de Colombo e das suas viagens, amplamente disponível nas bibliotecas coloniais, foi escrita por um escocês, William Robertson, em 1777. O autor adotou um tom racista e etnocêntrico, descrevendo Colombo como um explorador de intenções nobres que levara a civilização aos selvagens. É importante sublinhar também que Robertson historiou Colombo como um homem sufocado pelos modos rígidos do Velho Mundo e ansioso por seguir o seu próprio caminho. A metáfora não era subtil, e a América revolucionária abraçou-a.

A mania de Colombo varreu o país, a partir da Guerra da Independência, porque ele se tornou, com a ajuda da história de Robertson e o dilúvio de poemas e odes épicas, um símbolo do espírito pioneiro e aventureiro do povo americano. A adoção de "Columbia" como um nome informal para a nação emergente implicava que, como Colombo, as colónias estavam a derrubar o jugo do Velho Mundo. A precisão histórica era irrelevante.

Cidades e ruas sem conta, incluindo as capitais estaduais da Carolina do Sul (1786) e Ohio (1812), foram batizadas com o seu nome. Em 1784, o King's College, na cidade de Nova York, refundou-se como Columbia University. Muitas publicações — Columbus Review (1786), Columbian Museum (1791), Columbian Register, Columbian Weekly Register — apropriaram-se dele. A organização política que, eventualmente, se tornou na poderosa máquina política Tammany Hall, em Nova Iorque, foi fundada em 1786 como Columbian Order. Em 1791, o Território (mais tarde Distrito) de Columbia foi estabelecido como a capital nacional. Um ano depois, Robert Gray, navegando no navio Columbia, percorreu o noroeste do Pacífico, batizou o rio Columbia e nomeou toda a região Columbia (que hoje sobrevive ao norte da fronteira, como Columbia Britânica). E em 1798, Joseph Hopkinson escreveu o hino nacional original, Hail Columbia.

Dois eventos conspiraram para garantir que o carinho americano por Colombo não fosse uma moda passageira. Primeiro, os americanos transformaram o tricentenário da viagem de Colombo, em 1492, numa grande celebração. Estátuas e monumentos começaram a aparecer em todo o país. Nova Iorque, Boston e Filadélfia realizaram desfiles liderados por atores fantasiados de Columbia e Cristóvão Colombo. Quem melhor para liderar a primeira oportunidade do país de celebrar uma história desligada da Grã-Bretanha e sem ter acontecido na memória viva?

Em vez de desaparecer, a mitificação de Colombo só se intensificou. O poema épico (e quase ilegível) de Joel Barlow The Columbiad (1807), por exemplo, era narrado por um anjo. A julgar pela popularidade do poema, poucos na época pensavam que atribuir orientação divina a Colombo (leia-se: América) fosse um exagero.

O segundo ponto chave de viragem na inserção de Colombo no tecido da identidade americana foi a publicação, em 1828, de The Life and Voyages of Christopher Columbus, de Washington Irving. Este livro incrivelmente impreciso pretendia ser uma história e codificou a versão de Colombo que "navegou o azul oceano em mil e quatrocentos e noventa e dois" ensinada a gerações de crianças americanas. Foi exemplar, na criação de mitos de Irving, a distorção da motivação de Colombo para a viagem de 1492. O verdadeiro Colombo estudou os mapas de marinheiros portugueses, concluiu que o Sueste Asiático ficava além das bordas do mapa e partiu para o provar. O Colombo de Irving navegou para provar que o mundo era redondo, troçando das elites europeias que insistiam que era plano. Ao longo do livro, Colombo é valente, intrépido e ansioso por abandonar a Velha Europa — por acaso, exatamente as qualidades que os Estados Unidos viam em si próprios.

Mas, mesmo em comparação com o final do século XVIII, nada pode comparar-se com a Febre de Colombo atingida em 1892-1893, quando o país comemorou o 400º aniversário da sua viagem com a Feira Mundial de Chicago, a "Exposição Colombiana". Nenhum monumento era demasiado grande, nenhum discurso demasiado rebuscado ou obsequioso, nenhuma projeção do desejo da nação de se afirmar óbvia de mais, para a América de 1893. O programa escolar de Francis Bellamy foi até modesto, pelos padrões daquele ano.

Eventualmente, o tempo passou para este herói Colombo. As fábulas de Irving de 1828 permaneceram nos livros de história, tradições orais e currículos escolares ao longo do século XX. Mas a lenda começou a partilhar espaço com um crescente, ainda que insuficiente, reconhecimento das atrocidades que Colombo infligiu à população das Américas durante a chamada Era da Exploração. O seu desembarque em 1492 foi rebaixado (adequadamente) de "descoberta" para "encontro" ou "intercâmbio", mais prosaicos, pois os americanos admitiram lentamente que a palavra "descoberta" é uma má descrição de um homem que desembarca numa ilha onde outras pessoas já habitam.

Mais importante, à medida que mais americanos se sentem (um pouco) mais à vontade a enfrentar os aspetos mais sombrios da história, a discussão sobre a escravização, matança sumária e saque das populações que Colombo encontrou, cresceu acima de um sussurro pela primeira vez durante o muito discreto 500º aniversário, em 1992. Historiadores e críticos culturais afirmaram de forma convincente que a glorificação não convém a um homem que escreveu: "Vamos, em nome da Santíssima Trindade, continuar a enviar todos os escravos que possam ser vendidos", ao reunir 1500 habitantes arawak das Antilhas Menores para os vender em Espanha. Bartolomé de Las Casas, na sua narrativa de 1561, com base nos relatos da tripulação de Colombo, descreveu-o como um homem para quem a matança casual era uma atividade de lazer. Mais uma vez, Colombo era um substituto, desta vez para uma América que fazia um esforço desajeitado e atrasado para lidar com uma parte vergonhosa da história.

Os americanos coloniais adotaram Colombo como um ícone cultural devido à necessidade prática de construir uma identidade histórica nacional que excluisse a Grã-Bretanha. Celebrar Colombo, durante grande parte da história americana, foi um exercício de projetar nele as virtudes que gostaríamos de ver em nós próprios e no nosso país.

Hoje, nos Estados Unidos que aprendem a aceitar a lenda de Colombo como uma hagiografia, usar Colombo como uma metáfora nacional parece datado e ingénuo. Somente a ignorância voluntária do registo histórico o pode preservar como o viajante iluminado que descobriu e trouxe bênçãos a uma terra desconhecida.

Mas o verdadeiro Colombo — não o mito construído — deve ressoar na América contemporânea. Colombo partiu para encontrar a Ásia, desembarcou nas Caraíbas e, até à sua morte, insistiu contra provas esmagadoras que se tratava mesmo da Ásia. Em vez de comemorar o que conseguiu, admitir que a sorte tinha algo a ver com o seu sucesso ou reconhecer os horrores que causou, defendeu-se sem desculpas e culpou outros por qualquer sugestão de fracasso ou incompetência. Os americanos do século XVIII resgataram o então obscuro Colombo da história da conquista imperial europeia por razões políticas únicas para aquela época. Não sabiam que perfeita advertência o verdadeiro Colombo seria para os Estados Unidos de 2017.

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