2020-09-23

Primeiro veio o furacão, depois o terror

Sonia Shah – 22 de setembro de 2020

Tradução de um artigo publicado em Pulitzer Center

A ilha de Abaco, vista de cima, parece um banco de areia submerso, quase nada terrestre. É uma das ilhas mais ao norte do arquipélago das Bahamas, no topo de uma ampla plataforma de calcário só poucas dezenas de metros abaixo do nível do mar. Do espaço, as suas areias puras e brancas e águas fluorescentes brilham como um colar de esmeraldas, visualmente notáveis contra os tons de castanho e verde do resto do planeta. Vistas da janela oval do meu voo, cortando um céu sem nuvens, as águas brilhavam em tons deslumbrantes de lápis-lazúli.

No terreno, a cena mais parece um filme de Mad Max. Quando cheguei, este ano, vários meses se haviam passado desde o furacão Dorian, a tempestade monstruosa de categoria 5 que atingiu o norte das Bahamas em setembro de 2019. A estrada que saía do pequeno aeroporto da ilha estava limpa, mas ladeada de montes de entulho, pontuados por caules de aparência estranha, restos de pinheiros sem folhas e galhos arrancados pelo vendaval. As construções estavam pulverizadas em pilhas de entulho de tamanhos variados, anulando as pistas visuais – sinais, cores, formas de edifícios – que marcam as distinções entre bairros, zonas comerciais e áreas abertas. Teve um efeito desconcertante. De vez em quando, um qualquer de veículo pesado passava em alta velocidade, disparado pelas estradas desertas.

Abaco depois do Dorian

Abaco depois da passagem do furacão Dorian, em setembro de 2019 [Fonte: Público]

Antes da tempestade, as ilhas do norte das Bahamas abrigavam uma população poliglota que consistia em: ricos americanos transplantados; descendentes de língua inglesa de colonos britânicos, plantadores do sul dos EUA e africanos escravizados; e uma população considerável, mas mal documentada, de falantes do crioulo do Haiti, que foram atraídos pelos empregos outrora abundantes nas ilhas, na indústria do turismo, bem como pela sua proximidade atraente da Florida e das suas prósperas comunidades haitianas. As pessoas do Haiti são o maior grupo minoritário nas Bahamas, respondendo por até um quinto da população, de acordo com algumas estimativas, incluindo milhares em Abaco. Muitos deles moravam em favelas.

Mas esses povoamentos informais, que antes se espalhavam por Abaco, já não existem. Frankie Fleuridor, um DJ afável e pai de três filhos que me serviu de intérprete, morava num dos maiores, chamado Mudd, porque ficava no que um dia foi um pântano. Ele descreveu um lugar, visível em imagens de vídeo pré-dorianas, onde crianças sem camisa corriam por caminhos entre pequenas casas pintadas de cores vivas com números desenhados à mão nas paredes, as portas fechadas com pedaços de lençóis em vez de portas. Lá dentro, as mulheres tratavam dos cabelos umas das outras, enquanto os rapazes, vestindo camisolas rasgadas, se espreguiçavam nos telhados baixos ao sol. À noite, homens idosos reuniam-se para jogos de dominó, ao lado do terreno bravio que as crianças usavam como campo de futebol improvisado.

Quando cheguei, nem mesmo um pedaço de escombros restava do Mudd – ou de qualquer das outras favelas haitianas que havia em Abaco antes da tempestade. Graças a uma combinação de negligência histórica, desalojamento forçado e uma falha coletiva por parte da comunidade internacional em atender às necessidades das pessoas vulneráveis ​​a desastres climáticos, essas comunidades foram apagadas da paisagem.

As pessoas que viviam nas favelas de Abaco não evacuaram a ilha antes da tempestade, muitas vezes porque não podiam. Milhares delas morreram em resultado disso, de acordo com estimativas do epidemiologista Vincent Degennaro. Os sobreviventes traumatizados foram impedidos pelo governo de reconstruir e foram alvo de ataques intensos do departamento de imigração. Muitos foram deportados para o Haiti. Outros, privados de abrigo e ajuda, esconderam-se na ilha. Quando guiei até aos locais dos seus antigos bairros, encontrei extensões nuas de terra cercadas por cercas recém-erguidas. Bulldozers amarelos rosnavam perto.

Em parte, a devastação das comunidades haitianas de Abaco foi moldada por circunstâncias específicas. Os residentes ficaram presos, nas partes mais expostas da ilha, por profundas forças históricas postas em movimento séculos antes. O seu apagamento foi também o resultado de uma falha mais recente, que envolve muitos mais de nós à volta do planeta – e pode cair sobre milhões de pessoas nos próximos anos.

Em todo o mundo, formuladores de políticas e governos reconhecem que, à medida que a crise climática se aprofunda, as comunidades marginalizadas de nações insulares de baixa altitude suportarão os fardos mais pesados. Graças ao estilo de vida alimentado a hidrocarbonetos dos ricos do mundo, cerca de 200 milhões de pessoas terão de deixar as suas casas enquanto os mares sobem, os desertos se espalham e as tempestades cada vez mais fortes atacam, de acordo com a Organização Internacional das Nações Unidas para as Migrações. A sobrevivência dessas pessoas depende de acordos bilaterais e regionais que lhes permitam mover-se legalmente através das fronteiras, para chegar a uma terra mais seguro, antes ou depois dos desastres. Mas, mesmo com o aumento do risco de desastres climáticos catastróficos, os esforços para construir uma infraestrutura que facilite esses movimentos fracassaram.

O resultado é que as populações marginalizadas em todo o mundo foram deixadas presas e expostas a desastres climáticos, proporcionando oportunidades para funcionários governamentais indiferentes, com poucos recursos ou claramente sectários realizarem objetivos políticos brutais, impossíveis de alcançar em tempos normais.

Foi isso que aconteceu aos residentes haitianos das Bahamas. Sujeitos à devastação do furacão e à campanha contra eles que se seguiu, enfrentaram a atual temporada de fúria climática e a propagação do novo coronavírus em posições vulneráveis. As suas casas foram destruídas e as suas redes sociais destroçadas pelas deportações. Pouco os protege, além das camadas translúcidas de tendas de polipropileno, doadas clandestinamente e amarradas em cantos escondidos das ilhas.

Haiti e Bahamas

Desde os tempos pré-colombianos, as pessoas viajavam entre as nações insulares do Haiti e das Bahamas, separadas por menos de 130 quilómetros de águas de cor turquesa. Mas, à medida que as suas trajetórias políticas e económicas pós-coloniais divergiram, os laços entre as duas nações enfraqueceram e a sua relação, outrora recíproca, deteriorou-se. No Haiti, uma revolução liderada pela população escravizada da ilha derrubou o domínio colonial francês, em 1804, tornando-se "a revolução mais revolucionária numa época delas", como o historiador Edward E. Baptist a a descreveu. Muitos dos franceses fugiram, inclusive para as Bahamas, onde se juntaram aos fazendeiros do sul dos EUA que se estabeleceram lá após fugirem da Revolução Americana. Temerosos de uma insurreição semelhante, seguiram uma política constante de dividir para reinar, exortando os negros das Bahamas que governavam a ver os negros haitianos como inerentemente perigosos e sedentos de sangue. Ofereciam recompensas para espiar os haitianos e relatar a sua má conduta às autoridades, escreveu o historiador Keith Tinker.

Abaco depois do Dorian

Vista aérea de Abaco depois da passagem do furacão Dorian, em setembro de 2019 [Fonte: Globo]

Em meados do século 20, as Bahamas começaram a capitalizar a sua proximidade com os Estados Unidos, refazendo-se como um destino conveniente para o turismo de massas. O Haiti, por sua vez, estava num caminho diferente, desestabilizado por “reparações” punitivas impostas pela França, décadas de ocupação e intervenção dos EUA e uma sucessão de ditaduras brutais apoiadas por este país. No início da década de 1970, haitianos fluíam do país em busca de refúgio.

Pouco refúgio encontraram no seu vizinho imediato do norte. Quando a minoria branca nas Bahamas finalmente cedeu o poder político, em 1973, a imprensa noticiosa retratava rotineiramente os haitianos como bárbaros, atrasados e uma ameaça à estabilidade e prosperidade. Alguns anos antes, o governo embarcou num programa de “bahamização”, que visava refazer as Bahamas para os bahamenses, em parte excluindo os haitianos indesejados, escreveu Tinker. Uma nova ordem racial e uma economia de plantação emergiram, com brancos e afro-bahamenses no topo e os haitianos a ocupar o degrau mais baixo. Os líderes políticos promulgaram uma série de leis bizantinas de cidadania, para atingir as pessoas de ascendência haitiana, limitando a cidadania de nascença de tal forma que deixou gerações de filhos nascidos de pais haitianos apátridas e impedindo muitos de entrar em universidades e escolas profissionais. Os centros de detenção das Bahamas estão cheios de migrantes haitianos que aguardam deportação.

Como a principal massa de terra entre os Estados Unidos e o Haiti, as Bahamas também se mostraram essenciais nos esforços dos Estados Unidos para evitar que os haitianos chegassem às suas costas. Imersos no seu preconceito anti-haitiano de longa data, os legisladores dos EUA foram "extremos" a impedir que os haitianos viessem para este país, como afirmou o Instituto de Política de Migração, enviado mesmo barcos da Guarda Costeira a patrulhar o mar à procura de desesperados em busca de asilo e forçando-los a voltar ao Haiti. Em 1993, o Supremo Tribunal manteve essa política e, em 2004, os Estados Unidos assinaram um acordo com as Bahamas para policiar as águas das Bahamas e repelir migrantes indesejados, muitos deles do Haiti. Os EUA injetam regularmente nas Bahamas ajuda de segurança e, a certa altura, enviaram informadores pagos para investigar secretamente a corrupção nos serviços de imigração das Bahamas, que poderiam estar a permitir que haitianos entrassem ilicitamente no país.

Mesmo assim, os haitianos continuavam a chegar às Bahamas e, em 2019, a comunidade haitiana tinha crescido de modo a representar um quinto da população. Eram rotineiramente culpados por “todos os males sociais e médicos imagináveis”, relatou um estudo financiado pela Organização Internacional para as Migrações. Em Abaco, as comunidades recusaram-se a permitir que os haitianos se instalassem nos seus bairros, forçando-os a abrigar-se em barracas ou à beira de campos agrícolas, em povoamentos ad hoc que acabaram por se transformar em favelas como o Mudd. De lá, os residentes saíam todos os dias para trabalhar em empregos de baixo rendimento, a cuidar de jardins, a limpar os luxuosos resorts de Abaco e as mansões privadas à beira-mar.

Os políticos das Bahamas ameaçaram repetidamente arrasar essas comunidades. Donos de propriedades vizinhas posicionaram contentores cheios de lixo a arder à beira do Mudd, enchendo as suas ruas com gases nocivos. Mas os proprietários foram impedidos de realizar os seus objetivos por ativistas de direitos humanos que puseram ações judiciais contra o governo. Os empregadores exerceram pressão política para proteger as favelas da destruição, porque dependiam da mão-de-obra barata dos haitianos. Era comum, disse o antropólogo Bertin Louis, que os bahamenses se referissem às pessoas haitianas que trabalhavam para eles em termos que lembram épocas anteriores, mais brutais, quase como se fossem uma propriedade. Chamavam um haitiano que empregassem, não pelo seu nome ou profissão, mas simplesmente como "meu haitiano".

Dorian chegou

Às 10h do dia em que Dorian atingiu o norte das Bahamas, o céu parecia meia-noite, a chuva tinha gosto de água salgada e as favelas fervilhavam. Nessa altura, os residentes ricos das ilhas já tinham partido. Contrataram trabalhadores locais para preparar as suas mansões para a tempestade e partiram nos seus helicópteros, jatos particulares ou barcos fretados. Mas a maioria dos trabalhadores haitianos que limpavam os resorts e cuidavam dos seus jardins ficaram onde estavam, apesar da ordem de evacuação de emergência do governo. Mesmo os que tinham empregos relativamente bem pagos não tinham os fundos necessários para os voos ou ferries caros para sair da ilha, nem mesmo para a capital vizinha, Nassau. Outros preferiram "enfrentar um furacão de categoria 5", observou o advogado de direitos humanos Fred Smith, em vez de se sujeitarem aos abrigos contra furacões administrados pelo governo, onde teriam de "confiar a sua segurança a funcionários que repetidamente os prejudicavam ilegalmente".

À medida que a tempestade se aproximava, os moradores das favelas abrigavam-se onde podiam – em centros comunitários, igrejas, sob máquinas abandonadas. A maioria das estruturas desabou. Os ventos de 185 km/h do furacão Dorian arrancaram crianças dos braços das suas mães, levantaram telhados, catapultaram veículos e varreram a vegetação das florestas. Celia, de 27 anos, ficou em casa com a mãe e o primo bebé para cozinhar alguma comida para levar para uma igreja onde planeavam enfrentar a tempestade. Mas, antes que pudessem chegar lá, um destroço voador matou a sua mãe e a igreja desabou, matando quase todos lá dentro, incluindo o irmão de Celia. Claudia Brave, uma azougada jovem de 18 anos, tinha-se acoitado em terras agrícolas, aninhada num autocarro escolar abandonado; os seus vizinhos esconderam-se sob um velho trator.

Atrás do vento veio uma maré ciclónica de mais de seis metros de altura, inundando Abaco. Mesmo uma pequena maré teria inundado as favelas, que ficavam a poucos metros acima do nível do mar. As águas que cercam a ilha têm subido continuamente há anos, em parte graças ao carbono libertado pelos turistas, em barcos a motor dos Estados Unidos e da Europa, que alimentaram a economia das Bahamas. Numa igrejinha pintada de cor-de-rosa, a água subiu tão alto que os que ali se refugiaram tiveram que subir até as vigas, onde se equilibravam precariamente em estreitas barras de madeira acima da água turbulenta. Do lado de fora, o dilúvio empurrou um navio ferrugento, famoso por contrabandear pessoas do Haiti, para o centro da cidade. Menos sorte tiveram os que foram arrastados. Os que se agarraram aos destroços que passavam para os usar como salva-vidas – como fez um homem, que descreveu como flutuou com os filhos pequenos em cima de um colchão – viram os corpos dos seus vizinhos a passarem na torrente, 40 a 50 de cada vez.

Para os habitantes locais, muitos dos quais sobreviveram a mais de um furacão antes, parecia algo totalmente novo. Dorian tinha sido alimentado por mares um grau centígrado mais quentes do que no passado e, graças ao colapso dos ventos atmosféricos nos subtrópicos, estagnou nas Bahamas por cerca de 40 horas. "Aquilo não foi um furacão!", disse Celia. “Esse foi o nome que lhe deram… para nos enganar, aos humanos. Mas não foi um furacão."

Abaco depois do Dorian

Vista aérea de Abaco depois da passagem do furacão Dorian, em setembro de 2019 [Fonte: Globo]

É impossível saber quantas pessoas poderiam ter alcançado uma terra mais segura antes da chegada de Dorian – ou noutras partes das Bahamas, nos Estados Unidos ou noutro lugar das Caraíbas – se não tivessem sido restringidas por uma infraestrutura legal que as prendia no lugar. Outros países da região usaram políticas rígidas de imigração para considerar os haitianos indesejáveis. Os Estados Unidos impediram-nos de procurar asilo. E nenhum país no mundo reconheceu o direito de pessoas como eles, expostas ao desalojamento climático, de cruzar fronteiras internacionais. Para muitos, mudar para um local seguro teria exigido uma perigosa jornada ilícita e aceitar a seguir uma vida nas sombras.

A discussão internacional

Cientistas e formuladores de políticas sabem há muito tempo que os caminhos legais para a migração podem permitir que as pessoas deixem áreas vulneráveis aos efeitos da mudança climática antes que ocorra um desastre. Embora a média de furacões aumente os fluxos de migração em 6%, as tempestades mais prejudiciais, do tipo que se espera que atingem o Atlântico à medida que a mudança climática avança, levam a picos de mais de 30%. As nações insulares, onde movimentos de curto prazo para terreno seguro não são viáveis, são especialmente vulneráveis – e as populações marginalizadas nessas ilhas ainda mais.

A objeção convencional à abertura de vias legais para migrantes considera a sua chegada intrinsecamente perturbadora. No entanto, o oposto é verdade: se tiverem permissão para mudar-se, os migrantes podem salvar as suas vidas e melhorar a resiliência das sociedades nas quais ingressam, bem como daquelas que deixam para trás. Apesar dos melhores esforços dos formuladores de políticas dos EUA para manter os migrantes haitianos longe das costas dos Estados Unidos, os que conseguiram chegar ao país prosperaram, criando filhos que obtêm diplomas de ensino superior numa taxa superior aos locais. Os imigrantes compartilham a prosperidade económica duramente conquistada com os seus parentes no Haiti, enviando de volta mais de três mil milhões de dólares por ano.

Reconhecendo essas realidades, vários esforços para construir a infraestrutura legal necessária foram lançados nos últimos anos. Em 2015, um grupo ad hoc de negociadores da ONU e organizações não-governamentais internacionais propôs que a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas fosse emendada para incluir um “mecanismo de coordenação de desalojamento por mudanças climáticas” que fomentaria tratados regionais e bilaterais para gerir a migração impulsionada pelo clima. O mecanismo teria feito parte de um arcabouço jurídico maior denominado Mecanismo Internacional de Varsóvia para Perdas e Danos, sob o qual os países mais pobres, que suportam o impacto da crise climática, teriam recebido apoio técnico e financeiro.

Também em 2015, autoridades da Suíça e da Noruega propuseram que os tratados da ONU sobre migração e refugiados incorporassem a Agenda para Proteção Nansen, que descreve novas salvaguardas para pessoas deslocadas pelo clima. E em 2019, nos Estados Unidos, a legislação solicitando a criação de um programa federal para aceitar dezenas de milhares de migrantes climáticos todos os anos foi apresentada no Congresso pela representante Nydia Velázquez, de Nova Iorque, e pelo senador Ed Markey, do Massachusetts.

A subida da xenofobia

Mas esses esforços rapidamente se desfizeram no meio ao aumento global de movimentos políticos antimigrantes. Começando à volta de 2015, uma série de líderes populistas de direita subiu ao poder nos Estados Unidos, no Reino Unido e noutros lugares da Europa, proclamando que iriam repelir um tsunami de estranhos indesejados. Se não o fizessem, disse o redator de um site nacionalista branco dos Estados Unidos, "a migração desencadeada pela mudança climática iria esmagar-nos". Na sua retórica, a migração impulsionada pelo clima era enquadrada como uma espécie de “narrativa de degradação”, como disse a escritora Betsy Hartmann, relembrando velhos tropos coloniais sobre pessoas de pele escura miseráveis e destrutivas a sobrepujar as mais brancas e prósperas.

À medida que o populismo antimigrante ressurgia em todo o Ocidente, os países ricos resistiam a assumir qualquer responsabilidade por meio do Mecanismo de Varsóvia, sob o qual teriam de compensar os mais pobres e mais afetados. As nações mais ricas também se opuseram à proposta de um mecanismo de coordenação de desalojamentos para a mudança climática, forçando os formuladores de políticas a retirá-lo do Acordo de Paris de 2016 – um “resultado deplorável para os afetados pelo desalojamento climático”, escreveu um observador.

Entretanto, a Agenda Nansen tornou-se um ponto chave contencioso durante as negociações dos acordos da ONU sobre refugiados e migração, que começaram em 2016, disseram o ativista humanitário Arjun Claire e o especialista em desalojamento forçado Jérôme Élie. “Vários estados”, escreveram eles, “alertaram contra o que entendem como uma potencial ampliação da definição de refugiado”. No final, a Agenda Nansen foi retirada do acordo da ONU de 2018, conhecido como Pacto Global sobre Refugiados, e substituída por um “reconhecimento simbólico” das necessidades das pessoas deslocadas pelo clima, disse o advogado internacional de direitos humanos Walter Kälin. Mesmo assim, protestos antimigrantes seguiram-se em países cujos líderes concordaram com o pacto. Na Bélgica, a polícia usou canhões de água para dispersar milhares de manifestantes que se reuniram para censurar o primeiro-ministro belga por ter assinado, precipitando a sua demissão.

Limpeza étnica

No período que se seguiu, os líderes políticos exploraram o vácuo nas proteções legais, negligenciando as populações expostas e usando o seu desalojamento para iniciar planos imobiliários. Populações inteiras de algumas ilhas de Antígua e Barbuda e das Bahamas foram desalojadas por furacões. Em Barbuda, as pessoas que perderam as suas casas devido ao furacão Irma, em 2017, foram destituídas dos seus direitos à terra enquanto ainda estavam em estado de choque e moravam em abrigos. Autoridades governamentais decretaram que as suas terras, que tradicionalmente eram mantidas comunalmente, seriam vendidas a investidores famosos para construir resorts de luxo. Em Kiribati, um novo presidente anunciou planos de construir resorts luxuosos nas suas ilhas que se afundam, negando que a atividade humana tenha algo a ver com as mudanças climáticas e prendendo comentadores que ousem dizer o contrário.

Nas Bahamas pós-Dorian, aconteceu o que os ativistas de direitos humanos chamaram uma campanha de limpeza étnica de facto.

Depois de Dorian retroceder, sobreviventes traumatizados fugiram das ilhas devastadas. Alguns foram para a Florida a bordo de navios de cruzeiro e encontraram refúgio temporário entre amigos e familiares. Mas o presidente Trump afirmou, sem provas, que havia “pessoas muito más” entre os sobreviventes, e a passagem segura para os Estados Unidos foi rapidamente rescindida. Os Estados Unidos recusaram-se a oferecer-lhes um estatuto legal, mesmo temporário. Dezenas de sobreviventes do furacão que tentaram entrar num barco com destino a Fort Lauderdale foram impedidos de partir, com as autoridades americanas a alegar, inesperadamente, que os que tinham passaportes das Bahamas precisavam de vistos.

Muitos sobreviventes haitianos do furacão acabaram em abrigos em Nassau. Em poucas semanas, vídeos pedindo que fossem mortos a tiro ou morressem de fome nos abrigos circularam nas redes sociais. Manifestantes anti-haitianos reuniram-se em frente aos abrigos, a segurar bandeiras das Bahamas e a troçar dos evacuados quando eles entravam. “Queremos vocês fora do nosso país!” gritaram eles. "Repatriamento!"

No início de outubro, enquanto Abaco caía em ruínas, o primeiro-ministro Hubert Minnis fez um discurso no parlamento sobre a ilha. “Vamos erradicar as favelas e devolver a lei ao nosso país”, proclamou. Autoridades governamentais proibiram reconstruções nas favelas. Declararam as autorizações de trabalho inválidas se os sobreviventes tivessem perdido os seus empregos por causa da tempestade, como aconteceu a muitos. Ameaçaram os que se aventuraram a sair dos abrigos com deportação se os seus papéis não estivessem em ordem. Intensificaram os ataques noturnos às favelas de Nassau, prendendo sobreviventes traumatizados do furacão que ali buscaram refúgio. Centenas foram atirados para centros de detenção, onde ficaram semanas e depois foram embarcados em voos fretados para o Haiti.

Em Abaco, empreiteiros contratados pelo governo demoliram as ruínas das favelas e cercaram os locais arrasados. Um número incontável de restos mortais desapareceu com os destroços. Nenhum dos contratados tentou extrair restos mortais para identificação e sepultamento. “Eles estão apenas a intimidar essas comunidades e a despojar pessoas à força”, algumas das quais “estão à procura dos corpos dos seus filhos”, disse o ativista de direitos humanos das Bahamas Paco Nunez.

Observadores da ONU, ONGs e diplomatas opuseram-se à campanha anti-haitiana do governo, mas sem resultados. Uma líder de uma ONG, que facilitou uma visita de observadores de direitos humanos da ONU a Abaco, em outubro, e dezembro, disse que foi advertida por autoridades locais para se concentrar nos sobreviventes do furacão bahamenses e não no haitianos. Ela disse que, num caso, as autoridades locais impediram fisicamente as ONGs de fornecer ajuda aos sobreviventes haitianos na ilha. “No minuto em que dissermos alguma coisa” sobre os seus direitos e necessidades, disse outro, “o governo expulsa-nos”.

Quando os visitei, os sobreviventes haitianos do furacão que permaneceram em Abaco viviam entre os escombros como fugitivos, sobrevivendo de doações ilícitas de grupos de caridade. Dormiam em carros avariados e tendas doadas armadas à sombra das igrejas das quais os pastores tinham fugido. Relataram-me invasões noturnas de funcionários da imigração e terem sido perseguidos, espancados e extorquidos dos poucos objetos de valor que lhes restavam. Um homem levou tanta pancada, fui informada, que teve de ser hospitalizado e e acabou por morrer.

Entretanto, residentes não haitianos de Abaco disseram que estavam felizes com a partida dos seus vizinhos haitianos. “É uma bênção disfarçada”, disse-me um empresário. Os haitianos eram em sua maioria criminosos, disse outro, um pastor com um pingente que dizia "100% bahamense" numa corrente de ouro ao pescoço. Circulavam rumores de que parte das terras em que viveram poderia ser transformada num shopping center ou desenvolvida para o turismo. Os promotores já começaram a farejar.

Em março, a Covid-19 chegou às Bahamas. Poucos dias após o primeiro caso relatado, um confinamento nacional parcial e toque de recolher entraram em vigor. Em Abaco, disseram residentes e trabalhadores humanitários, soldados das Bahamas cercaram as tendas em que sobreviventes do furacão haitiano viviam e disseram-lhes para se irem embora, prendendo alguns para deportação e justificando as suas ações como um esforço de saúde pública. Onde foram parar essas pessoas permanece obscuro. Os que conseguiram escapar embrenharam-se ainda mais profundamente nas sombras, para lá das praias de Abaco. Lá, em abrigos improvisados em terras agrícolas abandonadas, enfrentam a temporada de furacões deste ano ainda mais expostos do que antes.

Pode parecer que a situação difícil da comunidade haitiana nas Bahamas é a de uma pequena população que habita uma pequena e distante ilha. Mas o nosso fracasso coletivo em proteger os povos marginalizados que vivem nos cantos do planeta vai ter ramificações muito maiores para todos nós. Ao bloquear os caminhos para as pessoas se moverem, deixamos mais de nós vulneráveis aos choques climáticos e aos caprichos das estruturas de poder locais, ao mesmo tempo que aumentamos a probabilidade de movimentos de massa perturbadores e impulsionados pela crise.

Em 2019, o número de pessoas desalojadas por desastres naturais excedeu o número daqueles desabrigados por conflitos e violência por um fator de três, com tempestades tropicais, cheias de monções e outras calamidades climáticas a empurrar mais de 24 milhões de pessoas em todo o mundo para fora de suas casas . Esse número continuará a aumentar nos próximos anos. Os seus movimentos não precisam ocorrer como sequência de calamidades. Dada a nossa compreensão de como os choques climáticos influenciam a migração, podemos prever as necessidades e gerir a migração de maneiras que a tornem segura, ordenada e humana. As vias legais para migrar podem permitir que as pessoas deixem áreas vulneráveis lentamente, antes que os desastres ocorram. Recursos para aumentar a resiliência podem reduzir a vulnerabilidade de algumas pessoas e o risco de deslocamento, moderando o ritmo de migração.

“Pode ser tarde demais para evitar uma crise climática”, disse a especialista em migração climática Jane McAdam, que dirige o Centro Kaldor para Legislação Internacional sobre Refugiados na Universidade de New South Wales. “Mas podemos evitar uma crise de desalojamento se começarmos a agir agora.”

No nosso tempo de crises que se multiplicam, a vontade política para isto pode parecer distante. Mas pode mudar, à medida que o caos climático se instala e muitos mais de nós nos encontrarmos expostos e mesmo assim presos, como os das favelas de Abaco, na escuridão de uma tempestade que se aproxima.

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