5 de setembro de 2009

Terroristas

Não gosto de terroristas, e não é de agora. Mesmo quando eu era um marxista radical, nos anos setenta e oitenta do século vinte, nunca aceitei o terrorismo como via política fosse para onde fosse, ao contrário de muitos que tendiam a vê-lo com romantismo. Que desprezo supremo pelo povo é preciso para contemplar a possibilidade de assustá-lo como gado, com actos sortidos de violência, para levá-lo a aceitar os objectivos de uma minoria!

O povo não gosta disso. Sempre que pode reage de forma brutal, ou apoiando medidas brutais, contra os terroristas.

Não se confunda com luta armada contra regimes opressivos, que pode tomar aspectos de guerrilha ou incluir atentados contra alvos militares ou policiais. Pode-se discutir se a luta armada é ou não uma via política eficiente (eu penso que geralmente não é, mas depende das circunstâncias). Os regimes opressores têm vantagem em acusar os seus opositores mais violentos de terrorismo. Mas o terrorismo que me interessa é o que se vira contra civis indefesos, procurando coagir a sociedade pela violência, sobretudo quando acontece em sociedades em que existem meios pacíficos de expressão das ideias políticas.

O terrorista promove ideias políticas de tal modo impopulares que não pode esperar ter a adesão de praticamente ninguém. A violência é o modo como ele espera conseguir influenciar o povo, já que não o consegue pela razão. Mas quem com ferro mata…

Por outro lado, estas coisas não saem baratas. Quase sempre, por detrás de uma organização terrorista, há um serviço secreto — ou dois. Outras coisas são ainda mais difíceis de conseguir que dinheiro: armas, explosivos, documentos falsos, um lugar de refúgio fora do alcance da polícia.

O terrorismo de hoje é totalmente maléfico. Quer se veja do lado operacional, com o mais completo desprezo pela vida humana e uma indiferença genocida pelas suas vítimas intencionais ou “colaterais”, quer do lado político, com a defesa das mais reaccionárias ideias e dos mais desumanos fundamentalismos religiosos, o terrorismo é uma daquelas doenças sociais que desafiam o liberalismo sempre tolerante do moderno democrata.

Os teóricos militares falam de guerra assimétrica. Os terroristas não têm bombardeiros de biliões de dólares e por isso recorrem aos bombistas suicidas. Há verdade nisto. Sempre houve uma componente terrorista na guerra “normal”. Atacar populações com explosivos a cair do céu é, evidentemente, um acto terrorista. Mesmo na nossa era de munições inteligentes guiadas com precisão, há sempre uma munição ou duas que se tornam subitamente “burras” e atingem um mercado cheio de gente. Essas munições não erram, asseguram simplesmente a dimensão terrorista da guerra.

Procurados

O grupo Baader-Meinhof num cartaz da polícia alemã ocidental. Ulrike Meinhof é a primeira, Andreas Baader o segundo, Gudrun Ensslin a terceira, Holger Meins o quarto e Jan-Carl Raspe o quinto. Irmgard Möller é a segunda da terceira fila. [fonte: Wikipedia]

Mas as pessoas que podem dispor de bombardeiros de biliões de dólares encontram-se quase sempre sujeitas a complexos mecanismos políticos, em democracias liberais. Cedo ou tarde podem ser chamados a contas pelos seus cidadãos. Às vezes, efectivamente até são.

Quanto aos outros terroristas, não sujeitos a esses mecanismos de controle e vivendo fora da lei, devem ser simplesmente exterminados, com a mesma falta de piedade que demonstram pelas suas vítimas. Um bom terrorista é um terrorista morto.

Muitos estados modernos que aceitam o valor da vida humana, incluindo Portugal, têm leis que proíbem deportar condenados para países onde exista pena de morte. Os terroristas, pelo contrário, só deviam ser deportados para esses países. O contrário é um desperdício de humanismo.

Mas processar um terrorista através do sistema jurídico-legal de uma democracia é também um desperdício. Melhor é matá-lo na captura, enquanto resiste ou quando, capturado, tenta “fugir”. Um tiro no peito, um tiro na nuca. Nada proíbe uma democracia ocidental de ser também assimétrica…

As zonas cinzentas, onde nada se sabe, existem. Umas são prejudiciais à democracia, outras são essenciais para a sua sobrevivência.

O Outono alemão

Lembro-me do caso do grupo Baader-Meinhof, também chamado RAF, de Rote Armee Fraktion (Fracção do Exército Vermelho), na Alemanha dos anos 70. Apesar do título pomposo, não passavam de um punhado de estudantes radicais que procuravam no terrorismo a saída para o seu isolamento político. Praticaram o fogo posto, os atentados bombistas e os assassínios “exemplares” de patrões e políticos de direita.

Nessa altura estava na moda o terrorismo “de esquerda”, com as Brigadas Vermelhas em Itália, a ETA no País Basco, o IRA na Irlanda e, claro, a Organização de Libertação da Palestina, de Arafat, e a Frente Popular de Libertação da Palestina, de George Habash.

Os seus opositores no outro extremo do espectro político também praticavam a ignóbil arte, muitas vezes discretamente ligados aos estados ou aos serviços secretos, como a loja P2 e o Gládio em Itália, os Unionistas na Irlanda do Norte, os GAL, uma cumplicidade das espionagens portuguesa e espanhola contra a ETA. Os israelitas também usavam quase abertamente o terrorismo contra os seus inimigos.

Os estados comunistas opunham-se oficialmente ao terrorismo, mas apoiavam discretamente os terroristas com passaportes falsos, santuário, armas, explosivos e dinheiro, em particular a antiga RDA.

Mas o grupo Baader-Meinhof era especialmente radical, sedento de sangue e isolado de qualquer cobertura política. Depois de um estágio de instrução militar na Jordânia, com a OLP e a FPLP, voltaram para a Alemanha e iniciaram uma campanha de atentados. Cedo os seus elementos começaram a ser presos, denunciados à polícia pela própria população por cuja libertação diziam lutar. Andreas Baader, Gudrun Ensslin, Ulrike Meinhof, Holger Meins e Jan-Carl Raspe foram encerrados numa prisão de segurança máxima e condenados. Os seus camaradas passaram ao sequestro com exigência da libertação dos presos.

Em vez de conseguirem tal, os presos começaram a morrer. Em Novembro de 1974 Holger Meins morre em greve de fome. Parece que as autoridades prisionais recusaram-se a transferi-lo para os cuidados intensivos. Em Maio de 1975, Ulrike Meinhof aparece morta na sua cela de segurança máxima, onde terá usado toalhas atadas para se enforcar.

Os atentados culminam em Julho de 1977 no rapto de Hans Martin Schleyer, ex-nazi e chefe do patronato alemão. O seu motorista travou bruscamente ao deparar-se com um carrinho de bebé no caminho e foi abalroado pelo carro de escolta. Cinco terroristas cercaram os dois carros e mataram a tiro os polícias e o motorista, mas levaram Schleyer vivo.

Procurados

Cena do filme Der Baader Meinhof Komplex (2008). A actriz Sandra Borgmann faz o papel da terrorista Sieglinda Hoffmann. Cerca de metade dos membros do RAF eram mulheres. [Fonte: Wikipedia]

O governo alemão ocidental recusou-se a negociar, mas procurou ganhar tempo, lançando uma gigantesca operação policial para localizar os raptores e Schleyer. Ao mesmo tempo, isolou completamente os presos, na prisão de Stammheim.

Elementos da FPLP, aliados árabes dos terroristas alemães, desviaram um avião da Lufthansa para a Somália, assassinando o piloto, em Outubro do mesmo ano, com a exigência da libertação dos presos de Stammheim, além da de presos palestinianos na Turquia e da entrega de 15 milhões de dólares.

Depois de conseguirem a permissão do então ditador da Somália, Siad Barre, os alemães lançaram um assalto ao avião com a unidade de polícia de elite GSG9 e mataram os quatro terroristas árabes sem perda de vidas dos reféns, a 18 de Outubro de 1977.

Os presos souberam da notícia nessa mesma noite, via rádio. Antes do sol nascer, Andreas Baader foi encontrado morto com um tiro na nuca. Gudrun Ensslin apareceu enforcada. Jan-Carl Raspe morreu no dia seguinte, em resultado de um tiro de caçadeira na cabeça. Irmgard Möller, apesar de ferida com quatro facadas no peito, sobreviveu e acusou o estado alemão ocidental de execução extrajudicial.

Hans Martin Schleyer já não servia para moeda de troca, apenas para a vingança: foi encontrado morto no dia seguinte, em França.

O inquérito oficial concluiu que as mortes dos presos se deveram a um suicídio colectivo.

Assim acabou o que foi chamado o Outono Alemão (Deutsche Herbst).

Eventos semelhantes, noutros pontos da Europa, como o sequestro e assassínio de Aldo Moro, ditaram o declínio do terrorismo de esquerda. A queda da União Soviética e dos satélites, com o seu apoio logístico, ajudou também muito, uns anos mais tarde.

Mas eu admiro os alemães. Não procuraram legalizar o que não podia ser legalizado, pondo em perigo a sua preciosa constituição. A mensagem é simples, brutal e subtil ao mesmo tempo: o que aconteceu tinha de acontecer, mas não pode ser legal. Portanto, nunca aconteceu.

Trinta anos mais tarde, os americanos podiam ter aprendido com eles…

Os terroristas portugueses

Sobre os terroristas portugueses, podia escrever outro artigo, mas não me apetece. Como a maior parte do que se copia cá, eram uma versão rasca.

Só um exemplo: num atentado à Herdade de São Mansos, as Forças Populares 25 de Abril mataram um bebé de quatro meses. Depois, num comunicado à população, pediram desculpa.

Como é que se pede desculpa por matar um bebé de quatro meses?

Depois de uma justiça vergonhosa, em que os “arrependidos” foram assassinados ou condenados e os criminosos se safaram impunes, os brandos costumes retomaram o seu curso e toda a gente esqueceu. Isso tem as suas vantagens, é claro. Preserva-se a paz social.

Mas paga-se um preço terrível, um preço moral.

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