23 de dezembro de 2009

O Verdadeiro Espírito de Natal

Nesta quadra, é habitual ler lamentos de pessoas católicas ou tradicionalistas, queixando−se de que se perdeu o verdadeiro espírito de Natal. Que o materialismo e o consumismo imperam, que os cidadãos só pensam nas compras e nas prendas e esqueceram o aspecto espiritual do Natal.
O aspecto espiritual do Natal talvez seja ter um presépio em vez duma árvore decorada, contar às crianças a história do Menino Jesus em vez da do Pai Natal, pôr os sapatinhos na chaminé em vez de perto da árvore, sair a meio da noite de 24 para 25 de Dezembro, enfrentando frio, chuva a se calhar neve, com crianças de colo e tudo, para ir à missa do Galo ouvir um padre debitar uns lugares−comuns requentados numa igreja gelada, com saudades dos lençóis caseiros. (Se calhar as igrejas agora já têm aquecimento; não vou lá muito, não sei.)

A mim não me incomoda quase nada o actual espírito do Natal. É uma grande festa de carinho pelas crianças. É uma ocasião em que se faz algum esforço por retomar os laços familiares. Pensa-se um pouco mais nos amigos, saúda-se de forma mais calorosa até os meros conhecidos. Exerce-se alguma solidariedade para com os mais desfavorecidos.
Menino Jesus e Pai Natal
Não sei de onde fotografaram este menino, de grandes patorras, desajeitado e com cara de cinco anos. Tinham séculos de boa arte sacra para usar. O Pai Natal dos anos 30, pelo contrário, é um bom exemplo do realismo comercial americano, antes de se tornar pop−art. Com uma cara daquelas, é para duvidar que esteja a beber Coca Cola…
[A foto do Menino Jesus veio do site dos promotores, Estandartes de Natal.
O Pai Natal veio de A Brief History of Advertising (Wiki)]

O Pai Natal e as árvores decoradas com luzinhas catrapiscantes oferecem grandes vantagens em relação ao Menino Jesus, porque são mitos abrangentes e na verdade nem sequer temos de acreditar neles. Ninguém no seu perfeito juízo e com mais de cinco anos acredita no Pai Natal e este não tem uma verdadeira teologia, portanto não há hereges no que respeita ao Pai Natal.
Um santo católico empresta o nome a entidades vindas de obscuras lendas nórdicas com múltiplas versões, até que, no início do século vinte, uma agência de publicidade a trabalhar para a Coca Cola lhe dá a imagem actual e globalizada. É uma imagem com força, virada mais para o aspecto poético, lúdico e festivo do Natal do que para o religioso e todos nós fingimos alegremente acreditar nessa lenda sintética.
Este Natal é materialista, consumista e comercial? Sem dúvida, mas essa é a natureza da sociedade em que vivemos. Pelo menos não é hipócrita, como o Natal tradicional que eu conheci em pequeno, em que o véu diáfano da piedade cristã encobria a nudez crua de  uma sociedade impiedosa e cruel.
Se querem condenar o materialismo e consumismo da sociedade moderna, condenem−no no resto do ano, e não neste bocadinho em que a competição se adoça um pouco e a solidariedade aumenta ligeiramente.
Não estou satisfeito com o nosso consumismo. Penso que nos faz falta um renascimento ético. Mas os valores desse renascimento terão de estar ligados ao presente e ao futuro e não ao passado. Terão que ser valores pós-consumistas e não industriais ou agrários. Mas isso é assunto para outra discussão.
Este ano um grupo de católicos promoveu uma ideia espanhola, um Menino Jesus ariano, gorducho e malfeitão em forma de poster para os fiéis pendurarem nas janelas, para tentar reintroduzir o seu culto neste nosso Natal pagão e secular. Tornou-se mais uma imagem, um gadget. Um pouco mais de ruído de fundo numa paisagem visual já saturada. Não poderá mudar nada.
O Natal moderno tem a vantagem de não excluir ninguém. Isso seria errado do ponto de vista do marketing, porque iria diminuir o mercado potencial. Por acaso, passa-se o mesmo do ponto de vista ético: não seria justo excluir ninguém do Natal. Auto-excluem-se apenas certas seitas fundamentalistas, como as Testemunhas de Jeová, que exigem que os seus filhos sejam proibidos, por exemplo no jardim infantil, de participar no divertimento geral. Coitaditos.
Os meus amigos ateus insistem em falar da comemoração do solstício. Sem dúvida, a origem do Natal é essa. Têm todo o direito de dizer Feliz Solstício em vez de Feliz Natal. Mas eu não acho que isso faça qualquer diferença.
Numa sociedade quase inteiramente urbana, de iluminação eléctrica e ar condicionado, em que muito poucos se dedicam à agricultura, quem quer já saber do solstício? Na verdade, ninguém leva o Pai Natal a sério e cada vez menos levam a sério — mesmo que não o confessem, mesmo que lá ponham o poster na janela — o Menino Jesus.
Importante é gozar o Natal, este nosso Natal moderno, abrangente, nada faccioso, humanista e — assumamos isso — desavergonhadamente materialista.
Sendo assim, divirtam-se, comam bom bacalhau e muitas rabanadas, dêem e recebam prendas com alegria, amor e amizade, gozem bem em companhia dos vossos entes queridos.
Feliz Natal, Boas Festas, Feliz Solstício, Feliz Chanuca, Feliz Yule,
Feliz Festivus, Feliz Saturnália, Feliz Sol Invictus, como quiserem*.
Sejam mas é felizes e deixem-se de coisas!


* Chanuca (Hanukkah) ou Festival das Luzes é a festa que corresponde ao solstício de Inverno entre os Judeus e comemora a restauração do templo de Jerusalém no séc. II AEC. Talvez tenha contribuído para a atenção dada às luzes nas modernas decorações da quadra.
Yule é a festa do solstício entre as tribos germânicas, e incluía rituais de fertilidade para o novo ano, grandes banquetes e bebedeiras em honra do deus Wotan (Odin). Ainda hoje se comemora na Escandinávia com uma ceia familiar farta e uma árvore de Yule que talvez seja a origem da nossa árvore de Natal.
Festivus é uma comemoração laica ou não-denominacional que surgiu, pasme-se, de um apelo feito num episódio da série de TV Seinfeld.
Saturnália, antes do Solstício, era a festa de do deus Saturno, entre os romanos. Incluía troca de posição social, com os amos a fazer de escravos e vice-versa, festas, banquetes, presentes e muita folia.
Sol Invictus era mesmo no dia do solstício, uma homenagem aos vários deuses solares adorados em Roma, incluindo Mithras e, a certa altura, Cristo. Crê-se que a sua data influenciou os cristãos a marcar a festa do nascimento de Jesus.
Não menciono aqui nenhuma festa islâmica porque o seu calendário é muito variável. Muitas outras festas, noutros povos e culturas, marcam o solstício de Inverno e vários deuses da Antiguidade têm tendência a nascer nessa data. Fonte: Solstício de Inverno na Wikipédia.

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