18 de maio de 2009

Os ídolos e a Constituição

Este fim-de-semana as forças do passado invadem Lisboa e Almada. A imagem da alucinação colectiva ou vigarice de Fátima (ou sábia mistura das duas, cuidadosamente alimentada pelo Vaticano) que desde 1917 persiste até ao século XXI, vem a Lisboa e a Almada saudar o meio século do mamarracho monumental que homenageia o Cristo autoritário e cúmplice das ditaduras, que perturba e inquina o skyline de Lisboa e Almada. Um encontro de ídolos.

Buda em Lisboa

Constituição da República Portuguesa
Artigo 41.º

(Liberdade de consciência, de religião e de culto)

4. As igrejas e outras comunidades religiosas estão separadas do Estado e são livres na sua organização e no exercício das suas funções e do culto.

Artigo 275.º

Forças Armadas

3. As Forças Armadas obedecem aos órgãos de soberania competentes, nos termos da Constituição e da lei.

4. As Forças Armadas estão ao serviço do povo português, são rigorosamente apartidárias e os seus elementos não podem aproveitar-se da sua arma, do seu posto ou da sua função para qualquer intervenção política.

Fonte: Assembleia da República

O cardeal, ou bispo, ou lá o que é, de Lisboa, "Dom" José Policarpo (porquê o dom, sentem-se mal na República?), apelou a que o povo não considerasse o Cristo Rei um "simples miradouro", defendendo que a infeliz intrusão monumental faz com que toda a cidade "se transforme num templo".

Pois. É exactamente isso que eu detesto. Sou ateu, mas não tenho nada contra os templos. Quando contêm boa arte, visito-os sempre que posso. Quando são bons miradouros, mesmo sendo feios como o Cristo Rei, também os visito. Quando não têm nenhum interesse, nem artístico nem paisagístico, ignoro-os, a não ser que tenha que lá ir cumprir alguma obrigação social, tipo funeral ou baptizado.

Mas os templos são edifícios particulares, como decorre da nossa Constituição. Numa sociedade moderna não podem invadir ou querer subordinar toda uma paisagem urbana. O resultado é opressivo. Um horizonte dominado por cruzes ou Cristos, como noutros lugares dominado por símbolos islâmicos, como noutros ainda dominado por foices e martelos ou estrelas vermelhas, grita ao pobre diabo que não partilha da religião ou política dominante: estás aqui a mais!

As nossas sociedades tendem a não usar símbolos nenhuns ou a tê-los tão abrangentes que não chateiam ninguém. Veja-se os obeliscos de Washington, de Paris ou dos Restauradores, em Lisboa. São símbolos fálicos, simbolizam poder. Mas como o poder é do povo...

Os nossos valores modernos são outros: tolerância e apreço pela diversidade, respeito (exigindo respeito recíproco, claro) pelos valores dos outros. Portanto, este Cristo Rei abusa. Ainda por cima, os valores normalmente associados a Jesus Cristo na mitologia cristã, que estiveram na base dos nossos valores humanistas actuais (embora a Igreja Católica os tenha combatido ferozmente) são negados por este monumento. Não vejo aqui nenhum amor, nem tolerância, nem caridade. Vejo 80 metros fálicos de homenagem ao poder de Salazar. Não acho que deva ser dinamitado, em primeiro lugar porque é realmente um excelente miradouro, em segundo porque a História é como é e destruir património é um mau princípio.

Mas que é feio, é. E representa também uma imagem de que a Igreja católica tem saudades: a igreja do império, a aliança do sabre e do hissope*.

Dragão

Neste fim-de-semana de 16 e 17 de Maio, a lancha Dragão não tinha patrulhas para fazer, contrabandistas, pescadores clandestinos e traficantes para perseguir? Nem sequer folgas para gozar? E a Sagres, não tinha portos estrangeiros para impressionar, regatas onde participar?
Fonte: www.marinha.pt
 

Sagres

Nunca resignada a ter deixado de ser a religião de estado (e nunca tendo deixado de sê-lo, de facto), a igreja católica volta à carga. Procura-se recriar as representações religiosas de antes do liberalismo ou do tempo do salazarismo, com a aliança simbólica dos aparatos da igreja e do estado a tentar mostrar uma frente unida de beatice supersticiosa. Para se ser reaccionário, deve-se sê-lo em grande! Para quê voltar atrás só 50 anos, ao tempo do Cerejeira? Volte-se ao tempo do D. Miguel ou da Inquisição...

E o governo de Sócrates, com falta de argumentos para vencer as próximas eleições, embarca alegremente nesta rusga, violando sem vergonha a Constituição ao ceder uma lancha da Marinha e respectiva tripulação, para transportar o ídolo popular para a outra margem, mais a Sagres, símbolo do amor-próprio nacional, para saudar o ídolo com uns tiros de homenagem (ou a Creoula, ouvi versões contraditórias). Uns calam-se por causa dos votos, outros procuram beneficiar politicamente. Lamentável!

Durante uns dias dizia-se que o veículo a usar para fazer o transporte de uns escassos três quilómetros seria uma fragata, o mais caro brinquedo do estado português. Mas o bom senso de algum almirante, dificuldades logísticas, sentido da dignidade das Forças Armadas ou falta de verba devem ter prevalecido e por fim foi a modesta lancha Dragão que serviu de andor. Do mal o menos!

Os organizadores podiam ter alugado um cacilheiro. É mais bonito que a lancha e cabiam lá muito mais VIPs. Mas o que eles queriam mesmo era marcar um ponto contra a Constituição, levando políticos venais a forçar as Forças Armadas a participar nesta encenação. E ninguém diz nada, para além dos suspeitos do costume...

Consola-me saber que isto não serve para nada. Apesar do povo se dizer católico — e de muitos embarcarem alegremente nestas trapalhadas, direito que não contesto e é garantido pela Constituição — liga cada vez menos à religião na sua vida prática, para além de certas cerimónias formais. Como a igreja católica bem ficou a saber com o resultado do referendo do aborto.

Chato. Até os católicos gostam de pensar pela sua própria cabeça. Qualquer dia lá vão ter que casar os padres, autorizar os preservativos e as pílulas, deixar entrar as mulheres no sacerdócio... mas quanto mais tarde melhor, claro!

Nota: Não vi na TV mas alguns testemunhos de almadenses com quem falei e vídeos na Web (aqui, aqui, aqui e aqui) levam-me a pensar que a a adesão popular não foi grande, nada que se pareça com as multidões de Fátima. Ainda bem.


* Hissope é um instrumento usado pelo padre para aspergir água benta e assim purificar ou benzer qualquer coisa. Sem dúvida a lancha Dragão terá sido devidamente benzida, não vá a imagem torcer o nariz... [voltar ao texto]

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