24 de abril de 2010

O raio

Volta e meia leio, além dos artigos do Portal Ateu, os longos threads de comentários.

Aquilo é um campo de batalha feroz. O Portal Ateu rompeu consensos não escritos que vigoraram durante muito tempo na nossa Parvónia. O principal desses consensos pode ser enunciado desta forma: o crente pode afirmar bem alto a sua fé, emitir opiniões intrusivas e intolerantes sobre a vida e valores de toda a gente; o descrente deve essencialmente manter-se calado, porque as suas opiniões, só por serem expressas, perturbam e ofendem os crentes.

Para além de todas as garantias da livre expressão, há razões lógicas para isso.

Como as principais religiões que nos rodeiam são salvíficas (pretendem oferecer-nos a salvação de nós próprios), os seus crentes sentem-se obrigados, por motivos morais ou mesmo cívicos, a salvar os seus vizinhos, parentes, parceiros da mesa de café ou perfeitos estranhos.

Quando alguém se manifesta descrente, o crente sente-se ofendido e apreensivo, em primeiro lugar pela rejeição. Como se atreve um mero ser humano a rejeitar a salvação oferecida pelo seu deus?

Em segundo lugar, sente que o seu deus foi insultado. Imagina-se que, para um deus, alguém não acreditar na sua existência seja um insulto muito grave. Eu cá, se fosse deus, não ia gostar disso. Quem afirmasse que eu não existo, fulminava-o logo com um raio.

Mas como o incréu exprime a sua descrença com impunidade, o crente sente mais um motivo de angústia: porque não se defende o seu deus? Será possível que, afinal, não exista realmente? Tal pensamento é um delito. Deve ser repelido com vigor. Exprimindo as suas opiniões, o céptico ofendeu o deus e fez o crente pecar!

Voltando ao Portal Ateu, há um certo número de anticorpos que se congregam à volta do elemento perturbador, procurando anulá-lo. Ricardo Silvestre e amigos defendem-se e contra-atacam valentemente. Brilhantes ou requentados argumentos cosmofilosóficos são arremessados de parte a parte, junto com as falácias habituais e mais ou menos fairplay, também de parte a parte.

Aqueles duelos mentais divertem-me, mas para mim quase toda a argumentação me parece essencialmente irrelevante. Os motivos para alguém aderir a uma visão teísta ou ateísta não são, no fim de contas, racionais. Têm mais a ver com as razões que nos fazem aderir a um clube desportivo. Pode ser a influência, durante a infância ou juventude, de alguém com virtudes de role model. Pode ser, desde o início, a pertença a uma comunidade, aos seus valores e visão do mundo prevalentes. Pode ser também a necessidade pessoal de romper com essa comunidade. Pode ser a adesão a uma nova comunidade com valores e visão do mundo diferentes.

Reflectindo sobre o meu próprio processo de evolução religiosa, da tradição católica em que fui educado à convicção ateísta que abracei a meio da adolescência, valorizo hoje, sobretudo, esses factores de adesão.

passador

Sim, li o Bertrand Russell e tudo isso. Mas nunca o teria lido se não estivesse em revolta contra, por exemplo a atitude da igreja sobre o sexo. Não é nada de muito filosófico ou racional. São antes questões muito práticas.

Por exemplo, no fim da infância, princípio da adolescência, eu tinha que ir confessar-me no sábado à tarde para comungar no domingo de manhã. O sacana do padre fazia-me sempre, no fim da confissão, a pergunta a que eu não queria responder: “E pecados contra o teu corpo, meu filho?” Eu sabia perfeitamente a que é que ele se referia, à masturbação. Mas fingia ignorar. “Como, sr. Padre?” “Bem, deixa lá isso. Vai rezar X Padre-Nossos e Y Ave Marias.”

Saía de lá aliviado, porque tinha sobrevivido ao interrogatório sem confessar. Mas havia um problema: se eu não tinha sido sincero na confissão, esta seria inválida e os meus pecados não tinham sido perdoados. Na missa de domingo, eu teria de ir comungar. Uma comunhão em pecado, diziam os padres, era um pecado grave, um sacrilégio. Um bilhete simples de ida para o Inferno.

Mas eu não iria enfrentar a minha mãe, o meu pai, o padre, o primo prior e a opinião pública: “Desculpem mas não posso ir comungar. Não disse no sábado ao sr. Padre que cometia pecados contra o meu corpo e comungar assim seria um sacrilégio. Além disso, já voltei a pecar dessa maneira no sábado à noite. E também estive a olhar para essas mulheres na missa, a despi-las e a imaginar como será o que têm entre as pernas, que nunca vi!”

Comungava na mesma, cheio de culpa. Tinha grandes sonhos atormentados a cores, 3D e alta definição, quando não eram sobre sexo eram sobre o inferno. Imaginam um garoto de 11 ou 12 anos a ter sonhos sobre o inferno?

Num dos casos, lembro-me, a porta do inferno era uma máquina gigante de picar carne e eu estava prestes a entrar no seu funil para ser esmagado pela rosca. A minha mãe tinha nessa altura uma máquina dessas, que se fixava na borda da mesa como um torno e era movida a manivela. Picar carne era uma das tarefas que ela me atribuía. Outra era bater claras em castelo, com a recompensa de “limpar” as tigelas dos bolos. Mas isso não vem agora ao caso…

Portanto, tinha que romper com aquilo ou então dava em maluco. Eventualmente, encontrei a ficção científica. Nada era proibido, podia-se imaginar tudo. A mitologia católica tornou-se mais um conto, e de certeza nenhum dos melhores. Isaac Asimov era muito melhor que a Bíblia.

Uma visão do mundo de incríveis galáxias e de naves espaciais a ir à Lua and beyond  contrapôs-se a outra em que um deus mesquinho perseguia meninos para saber se se masturbavam ou não.

No meio disto tudo, os argumentos pseudo-lógicos e pseudo-filosóficos sobre a existência de deus não tiveram nenhum papel.

Um dia, falei comigo próprio e disse: Já não acredito nessa merda.

Fui à janela, olhei para o céu e pensei:

— Deus não existe!

Do céu não veio raio nenhum.

1 comentário:

  1. um padre católico irlandês e um rabi vão jogar golfe...
    primeira tacada e o padre enfia logo a bola no meio do arvoredo e exclama: "fock missed!" (com sotaque irlandês bem carregado). O rabi fica algo perturbado e comenta "I'm sure the lord doesn't approve of that kind of language". "piss off!" responde o padre.
    mais uma tacada que faz ricochete numa arvore e aterra num banco de areia e novo "fock missed!" ainda mais enraivecido. Diz o rabi "please father, you should not speak like that, god will surely punish you!". "ah shut up, there's no fockin god anyway!" responde o padre. Nisto aparece uma nuvem negra no meu de um céu até aí perfeitamente azul e BAM! um raio pulveriza o rabi. Ouve-se então um vozeirão portentoso: "FOCK MISSED!"

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