22 de maio de 2008

Alguns aitemes para discutir

Não sou nacionalista, mas gosto das nossas coisas. Uma das coisas que temos e eu gosto é a língua. Na verdade fui programado para gostar dela, tal qual fui programado para gostar da minha mãe e do meu pai. Nunca tive escolha...

Portanto nasci dentro do português, cresci lá dentro e penso em português. Nada de especial, milhões de pessoas fazem isso!

Gostar de ser o que se é e de amar o que se foi programado para amar, a isso os psicólogos chamam estar integrado. Eu estou.

Lucidamente, sei que o português é uma língua como muitas outras. Mas é a minha!

Também não sou purista em relação à língua. A língua é um código vivo, sempre criado e recriado por todos os que a usam para falar, pensar e escrever.

Novas ideias expressas por palavras vindas de outras línguas? Venham elas!

Esperar que um linguista encartado aprove novas palavras e as autorize a circular? Ridículo!

Liberta da prisão académica dos literatos oitocentistas, a língua evolui de novo com rapidez, propulsionada pela oralidade e pela escrita rápida dos novos media. Como no tempo de Gil Vicente ou Fernão Lopes. Acudom asinha ca matom o meestre!

Mas atenção, asneira continua a ser asneira!

© Carlos Cabanita. Copy and diffusion permited with mention of author, no change allowed

Se tivermos que ser provincianos, sejamo-lo à portuguesa. O pior provinciano é o que tenta ser cosmopolita imitando provincianos doutros lados.

Como toda a gente sabe, o português descende do latim. Entre as duas línguas existem sonoridades comuns. Pessoalmente, eu adoro o latim. Praticamente a única coisa boa de ser obrigado a ir à missa em garoto era que a missa era dita em latim. Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, miserere nobis.

É característico do falante português esforçar-se, quando fala outra língua, por imitar o sotaque original. Claro que não consegue, mas tenta. Outros povos não se esforçam muito ou nada: casos dos espanhóis, franceses e ingleses.

Ora o inglês é uma língua germânica na sua estrutura, mas fortemente aculturada pelo contacto com as línguas latinas, nomeadamente o francês antigo. Na corte de Inglaterra falava-se francês. Mas entre os séculos XII e XVI o inglês sofreu um processo chamado great vowel shift, ou grande deslocamento das vogais. Foi aí que os ingleses ficaram a dizer ai em vez de i, ei em vez de a, i em vez de e e uma data de outras coisas.

Sendo ingleses, portanto nada dados a esforçar-se muito no domínio do sotaque, os eruditos de Oxford e Cambridge começaram a pronunciar à inglesa o latim que estudavam — foi assim que surgiu o macarrónico latim de Oxford e era aí que eu queria chegar.

Os portugueses que se dedicam aos negócios ou à informática entraram em contacto com alguns neologismos de origem norte-americana e, saloiamente, decidiram pronunciá-los à inglesa — sem saberem que estavam a assassinar o latim. Assim dizem aitem em vez de item, mídia em vez de média. E deita em vez de data, mas na verdade deveriam dizer dados.

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Um amigo meu dos tempos do liceu conseguia falar inglês de praia com sotaque algarvio...
 

A nossa língua tem uma grande proximidade com o latim, que falta ao inglês. Para eles, um dado é um datum (e lêem deitam) e para o plural usam o latim data (deita) porque tratam a palavra como um corpo estranho ao inglês.

Nós não. Não usamos datum, data porque há séculos que se tornou na nossa palavra dado, dados. A palavra significa exactamente o mesmo, por isso devemos manter o português. Idem com medium, media. Nós temos meio, meios, e funciona perfeitamente.

Mas se temos de dizer multimedia, não caiamos no ridículo de dizer mâltaimidia! Multi é latim, media também: multimédia, pois claro!

Item, caso não saibam, é uma palavra portuguesa. Vem no dicionário. Por favorzinho, pronunciem-no correctamente (como idem). Quem diz aitem pode saber muito de informática ou negócios mas é ignorante em português!

Quanto aos bites e baites, nada a fazer, são palavras inglesas, mais os spredes e as praime reites. Mas os megas e os gigas são grego.

Mais uma nota, sobre o inglês como língua franca. Em tempos tentei falar inglês como os ingleses, mas desisti. Em primeiro lugar, é extremamente difícil. Estrangeiros que vivem em Portugal há muitos anos, nós portugueses apanhamo-los logo que abrem a boca. Para os ingleses, claro, é o mesmo. Em segundo lugar é um pouco ridículo a gente esforçar-se tanto por falar com perfeição a língua das pessoas (ingleses a norte-americanos) menos dispostas no mundo a aprender a(s) nossa(s).

Portanto, dediquei-me a falar inglês com fluência mas com um sotaque atroz. Que é exactamente o que fazem todos os que usam o inglês como língua franca. E com sotaques igualmente atrozes falo desembaraçadamente francês e portunhol!

E se querem a minha opinião sincera, o sotaque inglês mais atroz é precisamente o dos ingleses.

Amen, assim seja, então. (E não ei-men!)

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