2 de maio de 2008

Donos e deuses (2)

Nesta mensagem continuo o assunto da anterior, desta vez tratando da semelhança entre o processo de domesticação dos animais e o processo de civilização da humanidade, incluindo o facto de que, a maior parte do tempo (e ainda agora, para alguns), a própria humanidade concebeu a civilização como uma domesticação levada a cabo por seres superiores.

© Carlos Cabanita 2008. Free to copy & publish but must indicate author, modification not allowed. [ESTE TEXTO NÃO EXISTE NA MINHA PÁGINA PESSOAL]

[ESTE TEXTO CONCLUI A MENSAGEM ANTERIOR]

A noção de progresso é historicamente recente. Os humanistas do Renascimento começaram com a ideia de recuperar a sabedoria e a arte dos antigos, mas cedo tiveram de concluir que os tinham ultrapassado largamente. A partir da Revolução Industrial, com a grande ruptura tecnológica, tornou-se una ideia corrente, incluindo as suas contestações pós-modernas.

Para os antigos, porém, a ideia de progresso não existe. A concepção mais generalizada é a da queda ou decadência, tal como é apresentada, por exemplo, na Bíblia. No início havia uma espécie de paraíso, de onde a humanidade foi expulsa por ter desobedecido ao deus (e a culpa é da mulher, desde o início).

Toda a história subsequente é apresentada como a luta do homem para voltar às boas graças do deus (liderada pelos santos e pelos justos, negada pelos ímpios). Eventualmente a divindade porá fim à luta inglória do homem, fazendo os justos ingressar no paraíso e excluindo os outros.

Esta relação dos humanos com a divindade é extremamente curiosa. Um deus autoritário mas esclarecido exige dos homens obediência absoluta. Os homens, coitados, são criaturas fracas e tontas e quase nunca conseguem corresponder ao que o deus espera deles, portanto vivem constantemente no terror do castigo.

As opiniões aqui expressas são pessoais. Não tenho nem a formação nem o tempo para pesquisá-las, documentá-las ou argumentá-las exaustivamente. A minha esperança é que, como bons memes, prossigam a sua vida viral com sucesso.

Sobre que incidem as exigências da divindade? Que quer dos homens? Muitas coisas, começando por uma lealdade total no culto. A relação afectiva com o deus deve ser forte, exclusiva e obsessiva. Dependente do deus, o homem deve bajulá-lo de forma obsessiva, para não ser esquecido.

A ideia do deus precisar dos elogios do homem é evidentemente ridícula. Se precisasse seria um ser extremamente inseguro. O que predomina é a necessidade desesperada do homem captar a atenção do deus. Essa necessidade deu de comer a muitas gerações de padres, imãs, xamanes e evangelistas e encorajou muitas cruzadas, jiades, autos de fé e progromes, em que os homens tentam provar a sua lealdade ao deus chacinando os infiéis.

É uma relação canina? Claro.

O cão saúda a chegada do dono com uma alegria extrema. Procura constantemente a sua atenção, sobretudo quando precisa de alguma coisa. Vive na expectativa constante da recompensa, também sempre no temor do castigo. E sempre pronto a atacar alguém, à mínima incitação do dono, ou mesmo sem ela, se imaginar que defende os interesses dele ou demonstra a sua lealdade.

O homens usam com a divindade as formas de deferência mais altas possíveis na sua hierarquia social. Quero eu dizer, sem modos de relacionamento eficazes para tratar com uma entidade qualitativamente superior, tratam-na como o melhor dos da sua espécie. Tal como os cães usam para com os humanos comportamentos de submissão e homenagem próprios da antiga linguagem da alcateia.

Dir-me-ão que esta é uma ideia blasfema. Claro que é, quanto a isso nada a fazer. Estou a discutir coisas que um crente não pode discutir. Mas não sou crente, por isso posso discuti-las. Dirão que a relação entre o deus e o homem é mais como tem sido apresentada, uma relação pai-filho. Deus criou o homem e portanto vigia-o sempre, preocupado com o seu bem-estar, reprimindo os seus erros, encorajando os seus progressos.

Eu respondo, a relação pai-filho é muito mais descontraída. Mesmo com um pai autoritário à moda antiga, nunca existe essa obsessão do castigo (só nos casos de pais abusadores, mas a comparação com esse tipo de relação não abona nada a favor da relação divina). E os filhos sabem que a sua vida se encaminha para a independência dos pais, coisa impensável na relação homem-deus.

Transpondo isto para a psicanálise, teríamos a fantasia religiosa como uma extensão do mecanismo da criação do superego e prolongado depois como uma formação ligada ao complexo de Édipo. Mas a fantasia religiosa é sobretudo uma criação social e não encontro no complexo de Édipo energia suficiente (e universalidade suficiente) para propulsionar o terror e o êxtase religiosos.

A relação pai-filho é entre seres do mesmo nível hierárquico. Mesmo se a criança tem menores capacidades e autonomia, não há essa grande diferença de nível mental. Entre o cão e o homem, o desnível é enorme. Entre o homem e deus também, mesmo que um deles seja imaginário.

Que mais exige o deus do homem, para além de ser bajulado? Exige que o homem deixe de ser selvagem e aceite as muitas, variadas e incompreensíveis regras da civilização. Em suma, que seja domesticado. Os dez mandamentos vêm logo à ideia, mas noutros lugares da Bíblia existem muitas outras obrigações e proibições, incluindo sobre o modo como no deserto se deve usar o cajado para enterrar excrementos. Toda a domesticação começa com a higiene, como sabe todo aquele que teve um cão... ou uma criança!

Derivadas da primazia da higiene, surgem as ideias de pureza, essenciais em todos os cultos antigos, mas quase todas, inicialmente sensatas, se tornam disparatadas. Consideradas impuras, as mulheres são marginalizadas nos cultos. Algures na Bíblia são proibidas de executar certas manobras culinárias quando estão menstruadas. Hoje em dia, os fiéis católicos só podem comungar depois de se terem purificado através da confissão. Se em tempos os fiéis foram encorajados a lavar as mãos ao entrar no templo, o que parece uma boa ideia e diminui o contágio de uma séria de doenças, hoje, numa igreja católica, apenas tocam com os dedos na pia da água benta e se persignam: o acto tornou-se apenas simbólico e a higiene piorou, pois a pia de água benta é um viveiro de germes1.

Mas estes são os aspectos anedóticos. Muito mais a sério, o deus impõe o código ético. A moral humana não é baseada na sua utilidade para as comunidades humanas, mas na vontade divina. Como diria Freud, o tabu só pode ser imposto pelo totem.

Evidentemente que os códigos morais variaram loucamente de comunidade para comunidade, mesmo se baseados aparentemente no mesmo texto divino. No antigo templo de Jerusalém praticava-se a prostituição sagrada, coisa que não se faz hoje em nenhuma corrente judaica, creio eu. Mas o livro é o mesmo.

Aparentemente, para impor o extraordinário nível de obediência necessário às complexas sociedades urbanas do Médio Oriente, e das muitas que se seguiriam, o homem teve que ser domesticado, e para isso teve que usar um dono imaginário.

Analisando este processo, não estou a condená-lo. Se aconteceu assim em tantos lugares, provavelmente era necessário e inevitável (talvez na China, uma cultura muito sofisticada e complexa muito antes da ocidental, as coisas se tivessem passado de modo diverso, não sei).

Sem deuses nem donos

A questão interessante é esta: precisamos de donos ainda hoje?

Parece-me que estamos a deixar de precisar. Cada vez mais pessoas estão a deixar de necessitar da religião nas suas vidas pessoais. A percentagem de crentes entre as pessoas de mais educação é muito inferior à maioria da população. As democracias ocidentais parecem ter sido governadas há muitos anos por uma maioria de ateus, agnósticos ou indiferentes (independentemente das preces que fazem durante as campanhas eleitorais).

A recente ressurreição do fundamentalismo religioso não me parece um fenómeno durável. No caso do Islão, parece-me mais um movimento defensivo, tendente a defender as organizações mais retrógradas de países socialmente atrasados das ameaças da liberdade individual a que chamam ocidentalização. Não creio que pudesse ter lugar com tanta força sem o apoio dos Estados Unidos aos Talibãs e a Bin Laden contra os soviéticos no Afeganistão e sem o dilúvio de dinheiro da Arábia Saudita (e do Irão) a favor do fundamentalismo em todo o lado. E não poderia também acontecer sem a política antiárabe de Bush II, nem sem a revolta apaixonada que gerou nos povos do Próximo Oriente e nos de cultura islâmica.

Nos antigos países comunistas a religião beneficiou da nova liberdade e em certos lugares como a Rússia recuperou uma posição oficial num estado regido pelo sabre e pelo hissope (hoje acrescenta-se a TV). Mas não recuperou a maioria da população. Na Polónia, por exemplo, a Igreja Católica teve uma breve onda de popularidade devido à associação a Lech Valesa e ao Solidariedade, mas na nova sociedade cedo se viu em oposição à vida laica e independente da maioria da população.

Nos Estados Unidos, os evangelistas da TV conseguiram usar um (relativamente) novo meio para conseguir temporariamente uma grande audiência e aproveitaram a sua popularidade para tentar subverter o sistema político pela extrema direita. Penso que essa onda perdeu força e está politicamente liquidada. Não penso que tenham conseguir destruir a constituição e não conseguiram atingir a maioria da população, que continuou a evoluir paulatinamente para a indiferença religiosa. Vai ser interessante ver o refluxo.

E os pensadores humanistas e ateus como Richard Dawkins e Salman Rushdie têm ganho audiência e sucesso.

Nunca na história da humanidade tantas pessoas puderam confessar que não acreditam em nenhum deus sem serem perseguidas. Nunca a maioria da população se preocupou tão pouco com a religião, para além de algumas cerimónias socialmente simbólicas como casamentos ou funerais. Nunca os crentes se importaram tão pouco com a opinião dos auto-intitulados ministros do deus.

E se pensam que as mulheres muçulmanas vão ficar mais uma geração sem se vestirem com beleza e elegância, pensam mal. Nem acredito que os homens de lá se resignem ao papel de beduínos atrasados muito mais tempo. As mulheres ocidentais são muito mais interessantes e sexy, embora eles tenham medo delas (os homens ocidentais também, mas não se deixam vencer por ele).

A humanidade está a prescindir da ilusão de ter um dono. Mas é um processo longo, cheio de hesitações e de reversos. É melhor esperar sentado, ou deitado.

Para cada crente, é sempre um acto de coragem imaginar: "E se não existisse deus?" Imediatamente surge o receio: "Vou ser castigado. Não devia pensar isto!" Mas do céu não surge nenhum raio a fulminá-lo e o pensamento rebelde volta, mais seguro.

Eventualmente, um número suficiente de pessoas terá abandonado a religião para se dar um processo de reequilíbrio, durante o qual a maioria se tornará rapidamente explicitamente laica. Quando sucederá isso, não sei.

E sobre a moral? A falta da divindade levará a um descalabro moral, a uma catástrofe da civilização?

Creio que há um par de séculos que não precisamos de nenhum deus a dizer-nos o que está bem ou mal. O problema é que muitos de nós ainda não aceitaram isso.

Deuses e donos, cada vez precisamos menos deles.


1 Na história do catolicismo, quantos milhões de pessoas terão sido mortas pela pia da água benta, ao servir-se, junto com a bênção, de uma dose de patogénios contagiosos deixados pelos clientes anteriores? Voltar ao texto

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