27 de abril de 2008

Donos e Deuses (1)

Tive duas cadelas, chamadas Pinta e Preta, uma gata chamada Mimosa e dois gatos, o Cigano e o Maltês1. Já morreram todos, mas quando convivia com eles pensava muitas vezes em como eles me viam.

© Carlos Cabanita 2008. Free to copy & publish but must indicate author, modification not allowed.

[ESTE TEXTO CONTINUA NA MENSAGEM SEGUINTE]

Nunca tive qualquer ilusão que eles me considerassem seu igual. Para eles eu era um bicho infinitamente superior. Sim, usam formas de homenagem que nas suas espécies correspondem ao trato com um animal considerado superior na hierarquia — o que é muito interessante e um assunto de que falarei a seguir — mas basta comparar a forma como um cão se relaciona com outro cão, com a forma como se relaciona com o seu dono, para perceber que são muito diferentes.

Toda a vida dos humanos é inteiramente incompreensível para um animal doméstico. Imagino que ele compreende as operações mais básicas e mais animais, como a alimentação e a higiene, mas mesmo essas são desempenhadas de uma forma tão estranha que o pobre bicho mal pode perceber que existem.

Para um animal doméstico, os seus donos passam os dias a fazer coisas que não têm qualquer sentido. Mas há acções dos humanos que o afectam e algumas dessas têm sem dúvida um cunho milagroso.

As coisas que fazemos com as mãos estão fora da compreensão dos quadrúpedes, desprovidos das ligações cerebrais sofisticadas desenvolvidas pelos primatas. Numa cozinha, num dado momento, não há comida. Está tudo limpo, não cheira a nada. Vem de lá o dono, mexe nuns pedaços de metal, e de repente há comida, cheirosa e abundante! Há sede, não há água, e o dono toca nuns sítios na parede e sai água! Não adianta nada lamber a torneira do bidé, só sai água quando o dono quer. O único sítio onde há água é na sanita e os donos ficam furiosos se o animal for lá beber, vá-se lá saber porquê...

As portas e portões limitam drasticamente a liberdade do animal, mas só obedecem à vontade dos donos. Tocam-lhes e elas abrem-se, tocam-lhes e elas fecham-se. Todos os encontrões e arranhões do mundo não abrem uma porta, a não ser que o dono venha fazer o seu gesto mágico para abri-la. Os donos em certas ocasiões felizes pedem companhia, noutras condenam o animal ao isolamento, e as portas lá estão para impor a sua vontade.

E os automóveis? Entra-se num sítio, anda-se um bocado aos trambolhões e depois sai-se num lugar completamente diferente, às vezes um lugar inquietante como o veterinário, outras vezes um lugar excelente como a praia...

Outro dos milagres que os humanos fazem com as mãos são as carícias, melhores, mais completas e mais delicadas que tudo o que os bichos podem fazer a si próprios ou uns aos outros.

Hora a hora, os animais domésticos encontram-se completamente à mercê dos seus donos e dos seus inexplicáveis milagres.

Em contrapartida, um animal doméstico compreende desde logo que lhe é exigida obediência cega. Começa com as regras de higiene, com a repressão dos seus comportamentos naturais e continua com centenas de proibições e obrigações, à medida que o animal se socializa, não segundo as regras da sua espécie, mas segundo outras regras, impostas pelos seus donos.

Para um cão, por exemplo, não ladrar às pessoas, não marcar o território em casa, não assaltar a despensa, não disputar a comida aos donos, não entrar em casa, ou entrar só em certas ocasiões, não dormir no sofá da sala, ou dormir lá mas não na cama dos donos, brincar segundo o que os donos esperam dele, ir buscar a caça mas não comê-la, fazer algumas habilidades nada óbvias, defender a casa mas não atacar os amigos do dono, enfim, a lista é enorme e varia de caso para caso, porque as regras impostas por cada dono são diferentes.

Assim o animal, com alguma sorte, vive feliz, bem alimentado, numa tirania benévola ao cuidado de seres superiores. Mais que uma vez, perante a reverência canina das minhas cadelas, imaginei que para elas eu era um deus.

Estamos em terreno muito escorregadio. Podem objectar que um cão não pode ter tal noção. Claro. Não estamos a falar de filosofia!

Durante muito tempo imperou a noção de que os animais não pensavam. Os homem era racional, os animais usavam o instinto. O homem tinha alma, os animais não. Nos últimos tempos foi ao mesmo tempo posta em causa a racionalidade do homem e a falta de pensamento dos animais. Não me vou alongar sobre isso, mas creio que hoje a situação é mais vista como uma linha contínua do que como uma quebra abrupta.

De qualquer modo, não digo que os bichos tinham qualquer noção filosófica sobre deus. O que acontecia era que eles me tratavam com uma veneração e uma uma fé cegas, do mesmo modo que um indivíduo religioso se sente perante a sua divindade. E isso, digo eu, é devido à enorme diferença de nível cultural e mental entre os dois bichos, eu e a minha cadela. E devido também a um processo cultural que começou há talvez 15 000 anos: a domesticação do cão.

Há vários casos em que grandes diferenças culturais levaram a que um grupo humano venerasse outro como deuses. Para além das várias situações políticas em que governantes se arrogaram posição divina, lembro-me de relatos sobre a aparente deificação do capitão James Cook no Hawai, em 1779. E os cultos da carga (cargo cults) que existiram na Nova Guiné e em ilhas do Pacífico, imaginando que a carga dos navios visitantes era trazida por deuses.

Vários escritores de ficção científica especularam sobre relações entre raças extraterrestres de tal diferença de nível que os mais avançados eram, para todos os efeitos, considerados deuses. Philip Jose Farmer, no Cosmos de Kikaha imaginou uma raça de seres superiores (mas moralmente imperfeitos, como os deuses gregos) que criava universos privados e os povoava de criaturas comuns, inclusive humanos, para seu deleite. Robert Heinlein, nos Filhos de Matusalém, imaginou um planeta de gente perfeitamente civilizada e aparentemente autónoma, mas que se revelou estar totalmente dominada por outra espécie superior que vivia nos seus templos. Van Vogt, no Homem dos Mil Nomes, imagina mesmo uma hierarquia, em que seres muito superiores e praticamente considerados deuses pelas culturas inferiores, eram por sua vez considerados atrasados e desdenhados por outras culturas ainda mais superlativas.

Então temos o animais doméstico mais antigo, o cão, sujeito a uma diferenciação genética, com reprodução selectiva há milhares de anos, com alteração das regras de sobrevivência da caça para a dependência dos homens, mudança da alimentação, mudança da cultura, de uma estrutura de alcateia para a simbiose e submissão a outra espécie. Chama-se a isto domesticação. Traços característicos no cão são a criação de uma dependência afectiva total em relação ao dono, a submissão pronta à sua vontade.

Mas outros traços denunciam o carácter recente desta transformação. O cão selvagem ainda está muito próximo. Apesar de terem sido profundamente transformados fisicamente pela domesticação, o mundo mental dos cães parece não ter evoluído assim tanto. Quando os cães são abandonados pela sociedade humana, revertem rapidamente para um comportamento próximo do seu estado selvagem (presumivelmente depois de terem sido eliminados muitos indivíduos incapazes de se adaptarem).

Domar o homem

O processo da civilização2 humana não é muito diferente. Desde a revolução neolítica, as sociedades humanas tornaram-se cada vez mais complexas e dependentes da sua infra-estrutura social. As aptidões conducentes à sobrevivência nas sociedades de caçadores-recolectores foram substituídas parcialmente por outras. O caçador não suporta facilmente o trabalho repetitivo de sol a sol. A obediência a ordens alheias é uma qualidade, preferida à iniciativa individual. Sociedades de grande densidade e crescente complexidade asseguram a sobrevivência de um número crescente de indivíduos, premiando os que se adaptam às suas regras cada vez mais artificiais e excluindo os outros3.

Desde o tempo de Roma, em que pequenos exércitos profissionais e disciplinados desbaratavam hordas enormes de bárbaros, ao século fim do século XIX, com o uso de metralhadoras contra os Zulus (ou Mouzinho de Albuquerque a submeter o Gungunhana), as sociedades mais urbanas e complexas derrotaram sistematicamente, deportaram, escravizaram e exterminaram as culturas de caçadores-recolectores ou mesmo as sociedades rurais mais primitivas. Hoje isso não acontece tanto porque essas sociedades estão praticamente extintas. Os guerreiros que conseguiram isso eram menos corajosos, menos fisicamente aptos, menos capazes de combater independentemente, mas eram mais disciplinados e capazes de se integrar numa operação complexa e de contornos não locais.

A diplomacia tornou-se um bem necessário para sobreviver em teias de relações complexas, com prémio para a capacidade de ignorar ou mesmo louvar o que nos desagrada, desde que não nos ameace. Muitas vezes a sobrevivência depende da capacidade de ser amado ou mesmo tolerado. Cada vez menos pessoas põem alguma vez os pés na natureza, mas cada vez mais enfrentam um meio extremamente complexo e exigente em disciplina, diplomacia, obediência a horários e trabalho cada vez mais abstracto.

Ajuda também ter a capacidade de resistir a epidemias devastadoras.

Tudo isto mudou a humanidade? Geneticamente não, possivelmente não houve ainda tempo para isso. Ao contrário dos cães, a humanidade não foi sujeita a procriação selectiva e aparentemente os critérios de escolha sexual ainda são atávicos. Os tipos guerreiro e mãe continuam a ser preferidos, apesar dos marrões que todos boicotam no secundário terem mais hipóteses de sobrevivência e sucesso.

Somos fisicamente diferentes dos membros das sociedades primitivas? Quase de certeza. Muitos dos indivíduos que, na vida cruel dessas sociedades, eram impiedosamente eliminados (por terem miopia, como eu, por exemplo) hoje sobrevivem e têm sucesso. Pelo contrário, muitos dos tipos mais aguerridos que dantes prosperavam têm hoje tendência a meter-se em problemas e serem marginalizados.

Tenho a certeza que, havendo uma catástrofe da civilização actual, as culturas sobreviventes retornariam rapidamente a um nível básico (depois de, naturalmente, terem sido eliminados milhares de milhões, possivelmente os mais fracos e com menos sorte). Todo o comportamento civilizado desapareceria rapidamente. Isso foi testemunhado repetidamente em situações de fome e calamidade, ao longo da História.

Portanto, o verniz da civilização é fino. Tal como a domesticação dos cães.

Na verdade, eu penso que é o mesmo processo. A civilização é um processo de domesticação. Para sobreviver, os homens tiveram que aprender e submeter-se a regras cada vez mais mais estranhas e arbitrárias, contrárias à forma como tinham vivido durante toda a sua história evolucionária. Tal como o cão tem problemas com as portas e as torneiras, dependemos de toda uma série de mecanismos que dificilmente compreendemos. Nem sequer um quadro governamental compreende todos os aspectos que governam toda a sua vida, quanto mais o homem da rua! Temos simplesmente de aceitar.

Mas aceitar não chega. É preciso aplaudir. Não basta fazer os movimentos, é preciso aderir. Muito do processo da civilização é feito de investimento afectivo. Partindo dos sentimentos do homem primitivo para com o seu grupo, provavelmente semelhantes a estruturas afectivas de outros animais gregários, estes ampliam-se e tornam-se mais complexos, numa estrutura de lealdades sobrepostas. Família e bairro, clube, nação, por exemplo. Os nossos colegas de profissão, os trabalhadores em geral, a terra natal... Mas também contam os ódios de estimação: os estrangeiros, o outro clube, os capitalistas, os comunistas, os pretos, os brancos, os ciganos, os indianos, os chineses, os da Europa de Leste...

Tal como o cão domesticado navega uma paisagem de ansiedades à espera que as suas necessidades sejam satisfeitas pelo dono e ganha uma gratificação afectiva quando isso acontece, o humano domesticado vive na esperança que a sociedade o premeie pelo seu esforço. E a adesão às actividades sociais como o desporto e a política dá-lhe o prazer de pertencer. A necessidade de pertencer é tanto mais importante quanto o indivíduo está dependente disso para sobreviver.

O cão não pode aceitar que os donos se esqueçam dele, porque a sua vida depende literalmente disso. Também o homem não pode dar-se ao luxo de não pertencer, porque a sociedade pode facilmente esquecer-se de sustentá-lo.

Mas todos estes recursos não são suficientemente fortes para impor à sociedade a disciplina e a coesão necessárias. Os cães têm a vantagem do convívio constante com os seus donos, numa ditadura benévola mas implacável. Há pontos de contacto entre a posição dos animais domésticos e a posição das crianças numa família, o que se verifica pela sobrevivência de comportamentos infantis como as marradinhas nos gatos e o abanar o rabo nos cães, que nos animais selvagens desaparecem com a idade adulta.

Tal como as crianças na família, os animais domésticos estão sujeitos a uma ditadura benévola, a uma supervisão constante por criaturas superiores, atentas e bem intencionadas. E adoram os seus senhores, é claro.

A humanidade não teve este tipo de supervisão. A civilização ou domesticação dos humanos foi assim muito mais caótica, sem a supervisão constante de inteligências exteriores. Mas foi também mais rica e mais social, sendo inteiramente uma relação entre humanos.

Mas se lermos as mitologias das várias culturas, não é assim que elas contam as suas histórias. Em todas elas, a civilização ou a domesticação dos homens aconteceu exactamente como a dos cães. Nos mitos, os humanos sempre tiveram um dono ou donos.

Os homens não têm dono, mas precisavam de um para serem domesticados. Portanto inventaram-no. [CONTINUA]


1 Eu sei. Fora a Pinta (nomeada em honra da Praia do Pintadinho, onde foi encontrada, e de uma caravela de Colombo), são nomes politicamente incorrectos. Os gatos chamei-os assim por causa de uma canção do Zeca Afonso (Chamaram-me um dia Cigano e Maltês; menino, não és boa rês...), não porque tivesse nada contra os ciganos e os malteses. Quando chegou a Preta, já estávamos em maré de nomes politicamente incorrectos e ela era realmente uma cadela de água completamente preta. (Voltar ao texto)

2 Ultimamente tornou-se elegante para certos autores porem em causa o progresso e a civilização. Que não há verdadeiro progresso em valores, que se destrói tanto quanto se cria, que se cria tantos problemas como os que se resolve. É paleio sem sentido, bom para quem está de barriga cheia numa universidade ocidental, a pensar que devia fazer dieta e que não devia comer tanto ao almoço. Visto de um bairro da lata no Quénia, estou convencido que o problema tem um aspecto bem diferente.(Voltar ao texto)

3 Podem dizer que a nossa sociedade premeia a iniciativa individual e a liberdade. Mas isso acontece depois de longos hábitos de aceitação do que é ou não é possível se terem imposto, ao longo de milhares de anos. E acontece em sociedades privilegiadas que vivem largamente da exploração da riqueza e do trabalho de outras sociedades com menos riqueza e menos liberdade. Além disso, os valores de iniciativa e liberdade aplicam-se mais às elites do que às amplas massas. Para estas, o conformismo continua a ser um factor de sobrevivência. (Voltar ao texto)

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