6 de abril de 2008

Trabalho

Arbeit macht frei, estava escrito à porta de Auschwitz. O trabalho liberta. Os coitados que lá entravam, quando não podiam trabalhar, eram libertados deste vale de lágrimas. Uma coisa parecida, em russo, estava escrita à porta do campo de concentração de Verkhouta, o maior dos gulags*.

Eu, que não nasci rico, ainda por cima com grandes dificuldades de aprendizagem** nos saberes relacionados com a aquisição de fortuna pessoal, fui condenado a trabalhar. O trabalho libertou-me (mas por pouco) de passar fome.

Estou convencido que o esforço enorme que o Departamento de Defesa americano está a fazer no domínio da inteligência artificial para a criação de máquinas de matar "inteligentes" (por exemplo, aqueles aviões não pilotados que sobrevoam o Iraque, o Paquistão e o Afeganistão e de vez em quando matam uma família de nómadas pensando que era o Bin Laden) um dia destes vai dar fruto na iniciativa privada, com a criação de robots versáteis e polifuncionais, mais económicos que semi−escravos chineses e que vão tornar o trabalho assalariado, tal como o conhecemos hoje, desnecessário e inútil.

O problema é que, se não trabalharmos, muitos de nós ficarão sem desculpa para receber um ordenado. Vai ter que se inventar outra desculpa. Talvez estarmos vivos seja um dia desculpa suficiente, quem sabe...

É pá! Eu era suposto falar sobre o meu trabalho... Mas que assunto aborrecido! Fica para outro dia, tá bem?


* Caso o leitor sofra de défice de informação específica sobre um leque alargado de assuntos (notou esta expressão politicamente correcta?) e não costume ir à Wikipedia, Auschwitz era uma instalação industrial para escravizar e matar pessoas (especialmente judeus, ciganos, comunistas e homosexuais) que os nazis criaram durante a II Guerra Mundial. Verkhouta era o maior dos campos de trabalho escravo, chamados gulags, que existiram na Sibéria no período do paraíso soviético. (Voltar ao topo)

** As modas correntes no domínio da educação não permitem dizer que um indivíduo é burro ou atrasado mental. Já houve tempo em que os termos cretino e imbecil tinham um conteúdo científico. Penso que cretino era um indivíduo com um QI menor que 75 e imbecil quem o tivesse menor que 80, ou coisa parecida. Assim, outrora eu poderia dizer que era, no que toca à aptidão para ganhar dinheiro, um cretino a estudar para me tornar imbecil, mas chumbei. Mas agora não posso dizer isso, porque não devo ofender os... bem, as pessoas com dificuldades de aprendizagem!
Assim, quando o leitor quiser criticar alguém dizendo: "Irra, que é mesmo idiota!", terá que moderar-se e usar a expressão politicamente correcta: "Vê-se mesmo que tem imensas dificuldades de aprendizagem!" Eventualmente, a expressão dificuldades de aprendizagem, ao ser usada como insulto, terá de ser também banida e substituída por outra ainda mais diluída. Mas a realidade a que as palavras se referem vai manter-se a mesma, é claro! (Voltar ao topo)

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