8 de junho de 2011

Correntes de ar

fato_espacialToda a gente sabe que as constipações e gripes se devem a infeções, que são quase sempre virais (quase sempre no caso das constipações, sempre no caso das gripes), não é verdade?

Não. A maioria as pessoas não sabe ou, mesmo que saiba, ignora o que sabe quando se trata de pensar nessas doenças.

As recomendações que a minha mãe (hoje com 95 anos) e as pessoas do seu tempo me faziam quando eu era garoto ainda são feitas hoje: Agasalha-te, olha que te constipas! Cuidado com as correntes de ar! Andas para aí todo suado, ainda apanhas uma gripe!

Na verdade isto tornou-se evidente para mim outro dia, quando um dos meus colegas de trabalho, uma daquelas pessoas sempre obcecadas com doenças, se mostrou receoso do efeito das correntes de ar na sua saúde.

— Ó pá, as correntes de ar não provocam gripes nem constipações! O mais que podem fazer é refrescar-te as costas…

Quando disse isto, encarei rostos duvidosos. Mesmo os que tendiam a dar-me razão punham limites na afirmação.

— Mas as correntes de ar ajudam os vírus a penetrar, porque diminuem a resistência do organismo!

Tive que ir buscar um texto do médico Artur Couto e Santos num boletim da ARS da região de Lisboa e Vale do Tejo (http://www.arslvt.min-saude.pt/DocumentosPublicacoes/outrosdodumentos/Documents/boletim%20Mitos.pdf), dedicado aos mitos da saúde, que diz o seguinte (mito n.º 8):

“As correntes de ar provocam gripe? Não provocam coisa nenhuma. A gripe é uma doença infecciosa, provocada por um vírus. Se estivermos numa corrente de ar, podemos apanhar uma gripe se, ao nosso lado, estiver um amigo nosso, já doente, que tussa para cima de nós. A corrente de ar limita-se a empurrar os vírus de um para o outro.”

Confirmei depois noutros textos que estas afirmações têm base científica, pois foram comprovadas por testes controlados sobre muitas pessoas que se dispuseram a ser contaminadas por vírus da gripe e de constipação, a bem da ciência (num dos casos as cobaias não eram exatamente voluntárias, pois se tratava de presidiários estadunidenses ansiosos por terem marcas de bom comportamento). Expostos a infeções em diversas condições, desde enregelados de frio até a suar em bica, não se notou qualquer diferença nas taxas de infeção.

Mas a sabedoria popular é muito resistente e mesmo os céticos como eu se podem ver assaltados pela dúvida. Ainda esta tarde, depois de já ter decidido escrever este artigo, estava eu na rua, sujeito a um vento agreste e apenas de T-shirt. E não é que estava a sentir um pinguinho no nariz? Tive que me lembrar que, se estivesse com uma constipação, tê-la-ia apanhado há um par de dias, quando fazia um calor de rachar,  pois a doença tem tempo de incubação. Na verdade, o pingo passou.

O que se faz e não se faz

Não sou médico e não me vou pôr aqui a dar conselhos, mas se as constipações e gripes são provocadas por vírus, estes não têm cura (para além das vacinas) e nada podemos fazer contra eles a não ser deixar o nosso corpo combatê-los pelos seus próprios meios, em vez de nos pormos a tomar coisas desnecessárias e, eventualmente, contraproducentes. Claro que há pessoas com outros problemas, cada caso é um caso.

Na realidade, muitas coisas poderíamos fazer contra as gripes e as constipações, dificultando o contágio, mas dá-me a ideia que essas coisas colidem com gestos profundamente arreigados nas nossas culturas, relacionados com a forma como vivemos em conjunto. Podíamos não meter as mãos constantemente na boca depois de apertarmos as mãos de outros, tocado nos nossos cabelos, em corrimões, maçanetas de portas ou mesmo em ratos e teclados de computador. Podíamos lavar as mãos mais vezes. Podíamos não nos beijar (preço muito caro este, se calhar mais vale ficar doente). Ou podíamos talvez usar máscaras, o que nos faz ficar com um ar sinistro. Um dia um designer de moda ainda concebe umas máscaras elegantes que todos vão querer usar. Talvez uma diminuição mesmo ligeira da velocidade de contaminação tenha efeitos dramáticos nas epidemias.

Finalmente, outra dúvida: se o contágio é independente do frio, porque é que as epidemias têm lugar mais no Inverno? Bem, esta é a resposta mais cómica: porque, para nos protegermos do frio, passamos mais tempo dentro de casa em contato uns com os outros, onde o contágio é mais fácil!

3 comentários:

  1. Pai, como para quase tudo relacionado com a saúde (e não só) há opiniões, artigos e teses para todos os gostos:

    http://www.medipedia.pt/home/home.php?module=artigoEnc&id=573
    aqui diz: "a constipação é especificamente frequente no Outono e no Inverno, normalmente nas regiões de climas frios, porque tanto o frio como as bruscas descidas da temperatura ambiental perturbam a eliminação das partículas e microorganismos que se depositam na mucosa das vias respiratórias, o que favorece o estabelecimento e o desenvolvimento destes vírus. "

    mas também diz, que a constipação é particularmente frequente em "...fumadores e nas pessoas com doenças crónicas das vias respiratórias, como vegetações adenóides, sinusite, faringite, asma brônquica, bronquite e enfisema pulmonar." mas é mais fácil culpar a corrente de ar do que deixar de fumar - certo?!

    Common Cold Certer, http://www.cardiff.ac.uk/biosi/subsites/cold/commoncold.html, tem a teoria que quando o nariz está frio estamos mais susceptíveis de apanhar uma constipação e descarta a teoria de haver mais constipações no inverno por estarmos mais tempo dentro de casa.

    Nota que não fiz uma pesquisa muito profunda, estes 2 links são da primeira página do google quando procurei "constipações e frio", só para dizer que é só escolheres em que queres acreditar, e procurar os artigos que mais te interessam.

    Bjs (até 6ª)

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  2. Estive a ver os teus links. A teoria de que variações de temperatura no nariz influenciam as defesas faz sentido, assim como a de que a vasoconstrição no organismo pode fazer surgir sintomas de constipação em quem já está infetado. Realmente faz mais sentido do que a teoria da acumulação de pessoas dentro de casa no Inverno.
    Mas tudo isto nada tem a ver com as correntes de ar: supostamente, uma corrente de ar normal não afeta muito a temperatura do nariz nem provoca uma vasoconstrição massiva.
    Sobre o tabaco, tens razão, evidentemente. Mas isso é uma outra discussão.

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  3. Lá pq encontras teorias contraditórias ou alternativas, ou falhas numa dada teoria isso não quer dizer que todas tenham o mesmo valor (em termos de capacidade de explicar as observações) e aceitação.

    O pinguinho no nariz não corresponde necessariamente a infeção, pode ser apenas uma reação fisiológica a certas condições ambientais.

    Acerca de tentar reduzir as taxas de infeção, há q ter mto cuidado. No mundo ocidental temos uma quantidade enorme de doenças alérgicas e auto-imunes que muitos estudos sugerem podem estar relacionadas com a falta de contacto com agentes externos e excesso de limpeza. Há outras teorias relacionadas com a poluição mas não são mutuamente exclusivas. Se houver de facto ligação entre infecciosas e alérgicas devemos apontar para um ponto de equilíbrio ótimo e não para a eliminação total das infecciosas e parasíticas, com consequente aumento dos problemas alérgicos. Mais uma vez, tudo parece estar interligado.

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