30 de novembro de 2008

Susan e Janis

Esta noite saí e bebi uma quantidade apreciável de gin-tonics. Portanto vou falar de coisas de que normalmente não falaria.

Leonard Cohen é o meu grande herói cantor. Nem sequer canta grande coisa, mas exprime coisas profundas e simples que mais de uma vez me deixaram à beira das lágrimas (o que para mim não é nada fácil).

No meio dos anos 60, a canção que fez o sucesso de Leonard Cohen foi "Susan". Aqui está uma interpretação em duo com Judy Collins (que foi a primeira intérprete) em 1976.

Suzanne takes you down
To her place near the river
You can hear the boats go by
You can spend the night beside her
And you know that shes half crazy
But thats why you want to be there
And she feeds you tea and oranges
That come all the way from china
And just when you mean to tell her
That you have no love to give her
Then she gets you on her wavelength
And she lets the river answer
That youve always been her lover
And you want to travel with her
And you want to travel blind
And you know that she will trust you
For you've touched her perfect body
With your mind.

And Jesus was a sailor
When he walked upon the water
And he spent a long time watching
From his lonely wooden tower
And when he knew for certain
Only drowning men could see him
He said all men will be sailors then
Until the sea shall free them
But he himself was broken
Long before the sky would open
Forsaken, almost human
He sank beneath your wisdom like a stone
And you want to travel with him
And you want to travel blind
And you think maybe youll trust him
For hes touched your perfect body with his mind.

Now Suzanne takes your hand
And she leads you to the river
She is wearing rags and feathers
From Salvation Army counters
And the sun pours down like honey
On Our Lady of the Harbour
And she shows you where to look
Among the garbage and the flowers
There are heroes in the seaweed
There are children in the morning
They are leaning out for love
And they will lean that way forever
While suzanne holds the mirror
And you want to travel with her
And you want to travel blind
And you know that she will trust you
For shes touched your perfect body
With her mind.

A Susana leva-te para
A sua casa perto do rio
Podes ouvir os barcos passar
Podes passar a noite com ela
E sabes, ela é meio louca
Mas é por isso que queres lá estar
Ela dá-te chá e laranjas
Vindas desde a China
E quando tentas dizer-lhe
Que não tens amor para dar-lhe
Ela faz-te entrar na sua onda
E deixa o rio responder
Que sempre foste seu amante
E queres ir com ela
E queres ir às cegas
E sabes que ela confia em ti
Porque tocaste o seu corpo perfeito
Com a tua mente

E Jesus era um marinheiro
Quando caminhava sobre a água
E passou muito tempo a vigiar
Da sua solitária torre de madeira
E quando teve a certeza
Que só os afogados o viam
Disse todos os homens serão marinheiros
Até que o mar os liberte
Mas ele próprio estava falido
Muito antes que o céu se abrisse
Abandonado, quase humano
Afundou-se sob a tua sabedoria como uma pedra
E tu queres ir com ele
Queres ir às cegas
E pensas que confias nele
Porque ele tocou o teu corpo perfeito
Com a sua mente.

Bem, a Sunana pega-te na mão
E leva-te para o rio
Ela usa trapos e penas
Do Exército da Salvação
E o sol corre como mel
Na Nossa Senhora do Porto
E ela mostra-te o que ver
Entre o lixo e as flores
Há heróis no sargaço
Há crianças na manhã
Em busca de amor
E buscarão para sempre
Enquanto Susana segura no espelho
E tu queres ir com ela
E tu queres ir às cegas
E sabes que ela confiará em ti
Porque tocou o teu corpo perfeito
Com a sua mente.

Conheci a canção quando foi editada, nos anos 70, muito antes que o céu se abrisse e eu fosse amante de alguém, muito antes que algém tocasse o meu corpo perfeito com a sua mente, ou vice-versa. Mas é próprio da poesia partilhar coisas que nem sabemos que a vida tem. Hoje esta canção ressoa estranhamente com a minha vida, mas já quando a conheci sentia, sem o saber, que assim seria.

Mas sobre a canção, isto passava-se em Montreal. Nossa Senhora do Porto (Nôtre Dame du Bon Secours) tinha uma torre com uma estátua de madeira de Jesus, que, imaginava o poeta, contemplava os afogados. E Susan existia, era uma pessoa real. Mais tarde Leonard Cohen afirmou que nunca dormiu com ela, apenas imaginou coisas que pôs em poesia. Mas enquanto Cohen é um poeta e bardo celebrado, Suzanne Verdal, a última vez que soube dela, era uma sem-abrigo alcoólica na Califórnia. Há alguma justiça nisto? Na verdade, Susan nunca escreveu poesia nem foi uma estrela pop. A vida não está boa para as musas...

Outra musa na vida de Cohen, outra grande canção, outro problema moral. Esta musa foi realmente uma estrela pop, mas foi também infeliz. Chelsea Hotel.

Na TVE em 1988, com legendas e tudo, Leonard Cohen, então com 56 anos, diz que compôs a canção "há mil anos" para Janis Joplin.

I remember you well in the Chelsea Hotel,
You were talking so brave and so sweet,
Giving me head on the unmade bed,
While the limousines wait in the street.

Those were the reasons and that was New York,
We were running for the money and the flesh.
And that was called love for the workers in song
Probably still is for those of them left.

Ah but you got away, didn't you babe,
You just turned your back on the crowd,
You got away, i never once heard you say,
I need you, i don't need you,
I need you, i don't need you
And all of that jiving around.

I remember you well in the Chelsea Hotel
You were famous, your heart was a legend.
You told me again you preferred handsome men
But for me you would make an exception.
And clenching your fist for the ones like us
Who are oppressed by the figures of beauty,
You fixed yourself, you said, "well never mind,
We are ugly but we have the music."

And then you got away, didn't you babe...

I don't mean to suggest that i loved you the best,
I can't keep track of each fallen robin.
I remember you well in the Chelsea Hotel,
That's all, i don't even think of you that often.

Lembro-me bem de ti, no Chelsea Hotel
Falavas tão rebelde e tão doce
Fazendo-me um broche na cama desfeita
Enquanto as limusines esperavam na rua

As razões eram essas, era Nova Iorque
Corríamos pelo dinheiro e pela carne
E para os trabalhadores da canção chamava-se amor
E se calhar ainda chama para os que lá ficaram.

Ah, mas tu safaste-te, não foi querida
Viraste as costas à multidão
Safaste-te e nunca te ouvi dizer
Preciso de ti, não preciso de ti
Preciso de ti, não preciso de ti
E toda essa treta

Lembro-me bem de ti no Chelsea Hotel
Eras famosa, o teu coração uma lenda
Disseste que preferias homens bonitos
Mas no meu caso abrias uma excepção

E fechavas o punho, para aqueles como nós
Somos oprimidos pelas imagens da beleza
Arranjaste-te e disseste, “bem, não interessa
Somos feios mas temos a música”.

E então safaste-te, não foi querida...

Não quero sugerir que fui quem te amou melhor
Não faço colecção de tordos caídos
Lembro-me bem de ti no Chelsea Hotel
É tudo, e nem sequer penso muito nisso.

Morta há muito Janis Joplin de overdose, há qualquer coisa de mórbido na indiscrição poética de Cohen. Mas também, na doçura do tom, uma gentil evocação. Os meus amores estão todos vivos, felizmente, mas muito longe, vivendo outras vidas. E as imagens que me vêm à memória têm às vezes essa doçura improvável. O amor morto motor da saudade, como diria Caetano Veloso.

1 comentário:

  1. Muito bem, não brincando nada nos resta, certo?
    Então cá vou eu... brincar com musas.
    Não tenho dúvida de que Suzanne Verdal também preferia o Gin ao chá e às laranjas
    mesmo sendo estas importados da longe Ásia.
    Aqui, por coincidência, reparo que a origem desta bebida, comum nos dias de hoje em
    discotecas (e normalmente vandalizada com 7up e outros sumos que nem sumos são) não é muito longe do sítio de onde veio o chá.
    Diz-nos então a história que, inventada pelo exército da Companhia das Índias Orientais Inglesas, esta bebida foi criada na Índia inicialmente para prevenir a Malária devido às propriedades medicinais da água tónica.
    Devido ao seu sabor amargo, os soldados juntavam Gin para a tornar mais saborosa e quem sabe tornar as coisas mais divertidas...

    Juntando os Ingredientes: 5 cl de Gin, Água tónica, Casca de Limão e 5 pedras de gelo;
    Cortando a casca de limão com um tamanho médio de 4cmX2cm (pois é esta parte que dá o sabor a limão e não o sumo que torna a bebida ácida) e esmaga-se no fundo do copo. Junta-se o Gin,
    de seguida o gelo e por fim a água tónica. e ficamos com um delicioso drink, que infelizmente
    não cura Malária, mas que em grandes quantidades faz do mais feroz soldado um (surpresa!!)
    delicado poeta.
    Ah pois é!

    Voltando às musas e ao Leonardo...
    Não faz parte dos pré requisitos de uma boa musa a abstracção do elemento sexual?
    Não falo das musas que após o 1-night-stand servem de inspiração para uma nova faixa dos Bon Jovi.
    Falo de musas verdadeiras, aquelas que cantam! Se não cantavam o nome do herói este era esquecido no tempo. Mas elas cantavam, e cantavam... até Apolo saber o nome do sujeito.

    Então as Pierides, as 9 irmãs, nem de amplificador precisavam para constantemente envolverem o hall do Olimpo com novos nomes cintilantes. E como descobriu o rei Pyreneus de Daulis da mais dolorosa das maneiras, as verdadeiras musas sabem voar!
    Voam e matam o nosso amor! O tal motor da saudade do C.V. que eu nunca percebi?!?!?!
    Amor morto para mim leva ao desprezo, esse nunca move nada!
    Se move, é que não esta morto!
    Penso eu de que...

    Desejo um Feliz Gin Tónico e boas musas a todos!

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