16 de dezembro de 2008

Esquerda e moral

Liberdade nas barricadas, Delacroix, pormenor

Há tempos escrevi uma espécie de ajuste de contas pessoal com o marxismo, que republico aqui. Era um balanço das ideias marxistas radicais que professei na minha juventude - e talvez uma tentativa de encontrar uma saída do niilismo centrista em que me mantive desde que as abandonei, há 29 anos.

Mas bater no marxismo é fácil, dada a sua completa falência histórica. O que não é nada fácil é imaginar o que se lhe segue, como filosofia do pensamento e da acção progressista.

Era nesse ponto que o meu artigo me deixou insatisfeito. Pensar no futuro, pois.

Deverá haver uma continuidade do pensamento progressista? Sem dúvida, pelo menos para manter o equilíbrio político. Com tantos problemas difíceis a exigir soluções, da situação ambiental à crise económica, das desigualdades no mundo às opções morais individuais, da concepção do estado e do cidadão à visão do mundo, tem que haver um renascimento do pensamento progressista gerador de políticas mais criativas, de opções mais interessantes, de melhores esperanças.

Vou criar esse pensamento novo aqui, de uma penada? Claro que não, mas dou a minha contribuição para o debate.

O que vou tentar fazer é rever as bases para um pensamento progressista fora das fundações carcomidas da ruína marxista.

Tal pensamento deverá ser radical ou moderado? Gostava que fosse um largo espectro, dos moderados aos intransigentes, tal como aconteceu com as correntes progressistas do passado, incluindo os marxistas. Uma coisa não será: dogmático.

Vou enunciar à cabeça as principais afirmações que me parecem importantes:

  1. A luta de classes deve deixar de ser o fundamento ideológico das proposições políticas que, se forem realmente válidas, devem ser benéficas para todos. Mesmo que se oponham aos interesses imediatos de uma parte, serão válidas se contribuírem para o bem-estar geral, beneficiando mesmo os que podem sentir-se lesados a curto prazo. Nenhum grupo social, etário, classe, etnia, ou género deverá a priori ser excluído ou considerado inimigo.
  2. A miragem anticapitalista deve ser abandonada. Nunca surgiu qualquer indicação da emergência do mítico modo de produção socialista, que deveria suceder ao capitalismo. O capitalismo burocrático de estado que oficialmente foi chamado socialismo durante algum tempo não tinha lugar marcado na história. Era mais ineficiente, mais desumano e mais opressivo que o capitalismo e reverteu facilmente para o capitalismo assim que as condições da opressão brutal em que se baseava enfraqueceram. As alternativas que muitos encontram nas cooperativas, na autogestão ou na democracia industrial não substituem o capitalismo mas podem ser consideradas tentativas de encontrar modos mais humanos de praticá-lo.
  3. Se não há alternativa ao capitalismo, tentar usar os confrontos sociais para provocar o colapso do "capitalismo" é uma opção idiota ou, pior, criminosa. O único resultado possível de tal colapso é piorar as condições de vida de todos. Isso não significa que os empresários e as empresas devam ser considerados sagrados ou intocáveis nem que os confrontos sociais devam ser evitados a todo o custo, mas que as lutas políticas devem ser conduzidas com objectivos reais e não míticos.
  4. Excluída a luta de classes e a motivação anticapitalista, que resta como motor da actividade política? Aquilo que sempre motivou a adesão pessoal e colectiva a qualquer programa, independentemente da mitologia inventada em cada ocasião, ou seja a convicção moral. O pensamento progressista sempre se baseou num conjunto de valores básicos (humanismo, solidariedade, liberdade individual, tolerância, a convicção de que a sociedade podia ser melhorada, irreverência perante a tradição, imaginação) que estiveram na base da adesão aos programas políticos.
  5. Durante muitos anos os marxistas desvalorizaram a questão moral, falando de uma moral de classe ou subordinando a moral aos interesses do partido (o que justificava as piores patifarias), e por fim reivindicando fortes valores morais só válidos dentro do partido e que não partilhavam com o resto dos cidadãos. A moral tem que ser reafirmada para todos. Tem que ser levada a sério. Pode e deve ser abertamente discutida, como convicção social partilhada e assumida, independentemente de motivações religiosas. Não deverá ser monolítica ou dogmática, mas construída contantemente num processo de diálogo: o que é justo, o que é censurável, o que aceitamos, o que rejeitamos. Potencialmente, uma regra moral aplica-se a toda sociedade; na prática, a parte que se aplica deve ser claramente controlada por consenso social.
  6. Muitos dos problemas políticos actuais têm raízes morais e integram-se mal nas construções ideológicas passadas: o ambiente e o aquecimento global, a globalização, a distribuição da riqueza, a extensão da cidadania às minorias excluídas, enfim... Na verdade não é necessária nenhuma construção ideológica, pode-se e deve-se partir directamente da moral para a política.
  7. Não vou entrar aqui na discussão esotérica da filosofia da moral. Não tenho paciência nem competência para tal. Para mim, a moral é sempre social e política: o que os cidadãos, numa dada época, acham comportamentos certos ou errados para si e para os outros. Quem lhes disse o que é certo ou errado? Os deuses? A sua consciência imanente, parte da sua alma imortal? A experiência histórica partilhada pelo povo? Adiante...
  8. O uso do poder, o uso da oposição e os métodos de acção política devem ser reavaliados em funçao desta metodologia. As actuais sociedades democráticas são na prática aristocracias em que uma elite controla o voto através das máquinas partidárias e do acesso aos media e, através do controlo do voto, controla o estado. Habilitar os cidadãos a controlar o estado através do controlo do seu voto é sem dúvida um bom objectivo, moral e político, e também subversivo. Já escrevi sobre isto e escreverei mais no futuro.

O objectivo deste texto não é criar um programa, mas simplesmente reflectir sobre as condições para criá-lo. Hei-de expandir um pouco estes tópicos. Espero ter alimentado um pouco a discussão.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Comente, mesmo que não concorde. Gosto de palmadas nas costas, mas gosto mais ainda de polémica. Comentários ofensivos ou indiscretos podem vir a ter de ser apagados, mas só em casos extremos.