8 de março de 2011

Exercício moral

Imaginamos que sempre fomos assim. Que sempre tivemos os gostos, opiniões e posturas perante a vida que temos hoje. Essa ficção é possivelmente necessária para assegurar a nossa estabilidade mental e está de certeza ligada a outra ficção, a da continuidade do eu. A continuidade da memória, que nos faz actores e espectadores do filme da nossa vida, é a base da nossa identidade pessoal.

Do mesmo modo, partilhamos identidades colectivas, em termos territoriais (os portugueses, os algarvios, os europeus) ou etários (a gente da minha idade), ou ainda devidos a vários aspectos da nossa situação pessoal como o género, a orientação sexual, as crenças, a riqueza ou falta dela, a família, a profissão, etc. Essas identidades têm a característica de se suporem inalteradas ao longo do tempo (se calhar é por isso que se chamam identidades).

Talvez por ter tido uma vida muito variada e não me ter encaixado muito bem em lado nenhum (mas sem me encaixar demasiado mal em lado nenhum também), tenho esse vício de notar o que muda, na minha vida e na vida colectiva. E também tenho a capacidade de me espantar com a pouca atenção que os meus companheiros de viagem humanos prestam a esses aspectos. Quase toda a gente vive alegremente o dia de hoje, sem memória ou lembrança de que os dias de ontem tenham sido muito diferentes.

Mesmo quando as pessoas contam eventos passados de suas vidas, fico muitas vezes com a suspeita de que a história que está a ser contada é vivida pela pessoa de hoje, inconsciente de que quem a viveu foi outro que já não existe e que a pessoa de hoje, eventualmente, consideraria um estranho. Como um filme histórico passado na Idade Média em que todos os personagens ostentam branquíssimas dentaduras de Hollywood.

Viagem no tempo

Estes rodeios servem de considerandos para uma proposta. Vamos imaginar como vivíamos há 40 anos. (Se o leitor não estava vivo há quarenta anos, pode imaginar na mesma, existe muita informação disponível por aí).

Não havia, é claro, telemóveis nem computadores pessoais. Mas eu não quero falar do óbvio. Há outras coisas. Por exemplo, a higiene pessoal era muito inferior aos dias de hoje. Pouca gente tomava banho todos os dias. Nos transportes públicos, o odor corporal era notório, mas possivelmente as pessoas nem davam por isso. Nas casas havia ainda muito poucos electrodomésticos, de resto o campo não estava quase nada electrificado, muito menos casas tinham água canalizada. Pouca gente tinha carro e os meios de transporte interurbano mais vulgares eram o comboio e a camioneta. Qualquer viagem era uma expedição. O analfabetismo era enorme e a informação escassa, filtrada pela censura. Os níveis de saúde eram muito pobres, com imensas pessoas a carregar ao longo da vida o sofrimento de doenças crónicas.

Podia dizer muito mais coisas, mas quero focar-me no correspondente estado moral dessa cultura. É que a essa miséria física correspondia também uma miséria moral considerável. Nessa sociedade quase não existia ainda a noção dos direitos cívicos nem a noção da dignidade humana (isto, é claro, é relativo e a história sobre esse assunto é mais complexa, mas adiante). A ideologia ultranacionalista vigente fazia de cada um que não correspondente aos padrões estritos de vida sexual, opinião política e religiosa um proscrito. As mulheres eram “domésticas”, na sua maioria. Tinham filhos e cuidavam do lar. Os maus tratos domésticos nem sequer eram notícia, só quando resultavam em morte, e nesse caso chamava-se-lhe crime passional.

A ignorância era soberana. Todas as ideias novas eram consideradas com muita desconfiança e o seu portador mantido debaixo de olho. E a maioria do povo concordava que as províncias ultramarinas eram nossas e estava disposto a mandar os seus filhos a África manter os pretos na ordem (se lhes contaram uma história diferente, desenganem-se). Ecologia era mania de um punhado de malucos.

Progresso na civilização

Hoje, depois de uma revolução política e muitas peripécias políticas e sociais, melhorámos muito. Estamos muito mais ricos, mais confortáveis e, não sei como hei-de dizer isto de outra maneira, mais civilizados. Sim, do ponto de vista moral estamos mais civilizados. O conjunto dos julgamentos morais revela um grande progresso. Muitas das nossas opiniões mais queridas são coisas que não abraçámos de livre vontade, tivemos que engoli-las perante os factos da vida. Mas são nossas, hoje são nossas. Não vou abusar da vossa paciência fazendo enumerações.

Agora imaginem que se passaram vinte ou quarenta anos. Quais serão os padrões morais da nossa comunidade nessa altura? (Se não contam estar vivos nessa altura, não interessa, imaginar não custa). Quais são as injustiças com que nos deparamos indiferentes hoje e que serão insuportáveis nessa altura? Talvez seja a visão de um sem-abrigo na rua. Talvez um velho morrer sozinho seja crime. Talvez os doentes mentais sem tratamento. Talvez o facto de qualquer cidadão não poder desenvolver as suas capacidades seja crime. Talvez um bombardeamento seja considerado um crime de guerra. Talvez (deixo-me levar pela esperança) a própria guerra seja crime.

Faço-vos um convite. Imaginai como será uma moral do futuro e tentai viver de acordo com ela. Isso não vos fará felizes, garanto, mas fará de cada um uma melhor pessoa.

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