2019-11-14

Feios, porcos e maus

A nossa sociedade progride do ponto de vista moral. Devagar, mas progride.

Muitas das normas de boa educação e de tolerância que hoje nos parecem evidentes foram um dia vistas como intrusões ridículas na liberdade individual ou – como chamamos agora – a invasão do politicamente correto.

Estes progressos, por serem lentos e, as mais das vezes, apenas registados na nossa deficiente consciência coletiva, são quase impercetíveis. É preciso comparar o presente com alguma imagem do passado, não adulterada por nostalgia.

Com respeito à moral e ao bom comportamento, a maioria de nós tem essa noção de que antigamente é que havia moral e que o avanço da história se faz à custa de um descalabro moral cada vez maior.

Será assim? Decerto a moral antiga, tradicionalista, camponesa, beata e patriarcal tem vindo a enfraquecer-se muito. Ainda bem, acho eu.

Em sua substituição instalou-se a atomização do indivíduo, isolado de muitas das suas estruturas gregárias e joguete de massivas organizações manipuladoras das suas aspirações, das suas angústias e do seu consumo. Substituir a moral da aldeia pela moral do hipermercado talvez não tenha sido bom negócio.

Mas hoje muitos ativistas e organizações agem na sociedade com padrões e objetivos morais. Exemplos: os feministas, os anti-racistas, os promotores dos direitos dos animais, os ambientalistas. Essas ideias, que noutros lados são chamadas ativismo de justiça social, se têm um tronco comum, devem chamar-se humanistas. O bem já não resulta de um decreto divino, mas de um juízo sobre o que será melhor para os indivíduos e para a comunidade, para o país, para o mundo e até para o futuro da humanidade.

(Alguns dos críticos garantem que este ativismo não passa de uma distração perante as tarefas de política pura e dura. Não vou discutir isso aqui.)

É difícil para nós, que vivemos sempre no momento presente, avaliar se proibir o atirar das beatas de cigarro para o chão ou esperar pacientemente que uma pessoa gaga acabe de se exprimir é um exagero e um fundamentalismo – ou se se trata de comportamentos que dentro em pouco serão considerados essenciais e exigidos a todo o cidadão civilizado.

Não sei. Juro que não sei. Mas, pelo menos, sei que não sei.

E como tenho a sorte de ter vivido 66 bons anos até agora, lembro-me. Lembro-me, por exemplo, como era o meu país nos anos 70 do século XX, no tempo do 25 de Abril.

Não falo da pobreza evidente, da ignorância e do analfabetismo. Falo de outras coisas. Para falar curto e grosso, os portugueses eram feios, porcos e maus.

Escolhi para foto no princípio deste texto um homem a urinar para a parede, numa rua que por acaso é de Paris no presente século, mas seria muito mais endémica no Portugal dos anos 70. Andando por qualquer rua, era constante o cheiro, assim como presenciar o acto. Eu, naturalmente, fazia o mesmo. Era um cidadão dessa época.

Os cafés eram antros imundos. Toda a espécie de detritos eram atirados para o chão: pontas de cigarro e maços vazios, pacotes de açúcar, cascas de amendoins, pevides ou tremoços, guardanapos usados, escarretas. Por vezes, o chão era coberto de serradura.

Era de homem usar sonoros palavrões e a seguir pedir ostensivamente perdão às senhoras. Se as coitadas estivessem a tentar fingir que não ouviam, não tinham sorte nenhuma.

Era também de homem, muito mais que hoje, usar a agressão física para responder a qualquer ofensa.

Na verdade, a pequena violência atravessava toda a sociedade. Eram os homens ao soco, bêbados ou não; eram as mulheres que por vezes se puxavam os cabelos ou se arranhavam, mas era muito mais frequente levarem pancada dos companheiros. Ao ver uma mulher a ser agredida por um homem na rua, era muito raro alguém se meter. Em casa, então, nem pensar. Aliás, o assassínio de mulheres “por motivos passionais” era essencialmente tolerado.

As maiores vítimas dessa violência eram as crianças. Praticamente todos os pais e mães agrediam os seus filhos; uns não se entusiasmavam no castigo e as crianças podiam considerar-se felizes, mas outros, e conheci muitos, foram vítimas de abuso brutal por parte dos seus pais. Mais uma vez, socorrer as vítimas era questão que não se punha. O direito parental era quase absoluto.

Ao entrar na escola, todos os pais recomendavam aos professores que não se esquecessem de usar os castigos corporais sem contemplações.

A agressão fazia parte do dicionário de toda a sociedade. Era usada constantemente.

O termo bullying ainda não tinha aparecido, mas isso só significava que as suas vítimas não tinham a quem recorrer. A crueldade com os animais era também banal.

A maioria dos adultos eram sexualmente infelizes. A ignorância sabotava a procura do prazer, mesmo entre os homens que não imaginavam mais do que uma trepa rápida. Mulheres também raramente conheciam o prazer e pensavam que a violação de que eram vítimas era sexo. Os garotos eram ameaçados com a cegueira ou a impotência se se masturbassem, as meninas eram vítimas da enorme obsessão com a virgindade. A homofobia era a regra.

O racismo era intenso. Num país em guerra com os “turras” e sujeito a uma intensa propaganda de guerra, havia nalguns casos ódio, noutros uma profunda falta de respeito por negros e ciganos. Contar anedotas racistas era vulgar, assim como, mais privadamente, entre os que tinham ido à guerra, histórias de proezas sexuais com “as pretas”.

Vou parar por aqui. Podia escrever mais umas páginas sobre o assunto, mas não vale a pena.

Desse país que acabo de descrever àquele em que vivemos hoje, foi um longo caminho. Não deixámos de ser feios, porcos e maus com o 25 de Abril, mas pudemos começar a melhorar.

Foi um longo caminho. As novas leis mais democráticas não tiveram efeito imediato sobre a vida, porque a vida tem uma inércia muito própria.

Pouco a pouco, começámos a mudar os nossos comportamentos. A ação da ASAE é universalmente odiada, mas, mesmo que tenha havido abusos e perversões, fez com que os cafés despretensiosos que hoje frequentamos sejam equivalentes a estabelecimentos de luxo do antigamente.

Cada melhoria teve que ser conquistada. Houve sempre resistência.

Resistência a deixar de mijar para a parede; a deixar de deitar os cigarros, os tremoços e as escarretas para o chão. Resistência a deixar de resolver as ofensas à pancada.

Resistência a aceitar a igual humanidade de todos, homens, mulheres, negros, ciganos, crianças, não nas grandes coisas políticas, mas nas coisas do dia-a-dia. Como é evidente, ainda falta muito, mas talvez estejamos no bom caminho.

Mas vamos continuar a lutar contra o politicamente correto.

E vamos, sem dar por isso, acabar por aceitar o novo comportamento e censurar quem não cumpre.

Sim, mas entretanto, aparece outra ideia ridícula, politicamente correta, que não vamos querer aceitar.

Até que aceitamos, e tornamo-nos, passo a passo, menos feios, porcos e maus.

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