16 de dezembro de 2011

O nó górdio

A crise assola a urbe e a orbe e eu pouco tenho dito sobre ela. Não que não tenha pensado sobre a crise, mas antes porque não encontro verdadeiras soluções. Quero dizer, soluções fundamentais.

Ou melhor, encontro, mas parecem-me inalcançáveis.

É melhor eu explicar.


A crise é sem dúvida fruto dos limites do capitalismo, incapaz de globalizar necessidades e soluções coletivas, apenas impondo as consequências do lucro como externalidades abusivas. Mas é também consequência da falência de qualquer espécie de alternativa após múltiplas tentativas em todo o mundo, durante mais de um século, quase sempre com consequências abusivas ou trágicas.

Têm sem dúvida razão os que não posso chamar liberais — mas serei obrigado a chamar órfãos do liberalismo, porque se mexem pelos cânones de uma doutrina ainda operativa mas morta — em dizerem que o incentivo individual é indispensável ao desenvolvimento, à criatividade e à produtividade. Isto está mais que provado. Mas a sociedade que promovem, através de mecanismos que não têm nada que ver com o incentivo individual mas com a acomodação de privilégios instalados, tende para uma oligarquia fechada, precisamente o contrário da sociedade aberta que parecem promover.

Têm também razão os que não posso chamar nem socialistas nem comunistas nem de esquerda — mas serei obrigado a chamar órfãos do marxismo, porque as suas cabeças ainda trabalham com as categorias de uma ideologia historicamente morta e enterrada — em criticar as desigualdades sociais e em promover as formas estatais ou não de solidariedade, mas não podem gabar-se de nenhum sucesso, para além de gigantescas burocracias ou de sociedades tão desiguais como fechadas ou mesmo tiranias brutais.

Porque falham ambos estes caminhos, porque não se verifica um diálogo e um consenso em que se consiga chegar à quantidade certa de incentivo individual, à quantidade certa de solidariedade, à quantidade certa de justiça e de responsabilidade, à capacidade de controlar as coisas do estado, à liberdade certa para desenvolver as coisas da economia?

A resposta para mim é evidente:

O factor que falta aqui está a noventa graus disto tudo, ou é comum a isto tudo. Trata-se da alienação dos cidadãos da coisa pública. Só através da construção de uma nova cidadania, com instituições mais participadas, mais difusas, mais abertas, se poderá desalojar os aparelhos instalados que têm monopolizado o discurso político e assegurado o exclusivo dos dividendos do exercício do poder político, abrindo caminho a que a coisa pública exprima minimamente os interesses e preocupações dos cidadãos.

Na ausência disso, a única coisa que se pode prever é uma sucessão de espasmos penosos, de soluções estafadas e sem sucesso de sinais contrários, sempre com resultados desastrosos.

Evidentemente, ao longo destas crises, é de esperar que a cidadania melhore (se a democracia não se espalhar ao comprido de vez pelo caminho, convenhamos). Mas o preço desse progresso é tão alto e tão penoso que...

Que me dá vontade de estar calado.

Talvez tu, leitor, me ajudes e vejas uma saída melhor disto.

Assim seja.

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