28 de março de 2013

Instrumentos de poder

Em antigos tempos, os poderosos lutavam entre si pelo poder utilizando como armas o maior número possível de súbditos dispostos a sacrificar as vidas pela fortuna dos amos. Como os exércitos de escravos nunca tiveram sucesso, excepto como remadores nas galés ou esporadicamente quando se revoltavam, não podiam ser usados como ferramentas de luta pelo poder. Restava então aos poderosos coagir de várias formas os seus subalternos e servos a lutar por eles. Promessas de partilha do saque, de partilha da glória, várias formas de pressão ou apenas a tracção das ideias heróicas e religiosas manipuladas por demagogos e sacerdotes arrastavam os simples para o matadouro.


Na era moderna, as elites dirigentes tornaram-se mais sofisticadas e criaram formas menos perigosas de lutar pelo poder. Ainda usam a vontade dos súbditos de morrer por uma miragem, mas coletivizaram-na. Hoje, em geral, não se permite morrer por uma facção da classe dominante, a não ser em casos de grande crise histórica, mas mesmo assim tem que se considerar que a Pátria está em perigo. Fora dessas situações, só se pode morrer pelo conjunto da classe dominante, ou seja, só se pode morrer pela Pátria.

Que formas mais sofisticadas e menos cruentas descobriram as elites de lutar entre si pelo poder, sem pôr em perigo a saúde, a propriedade e a ordem pública? Pegaram numa velha ideia dos gregos, a democracia. Em vez de usar grandes números de plebeus a tentarem-se entrematar, cada facção da elite dominante tenta convencer a maior quantidade possível de populares a registar a sua preferência política, de forma pacífica e ordeira.

O processo representa alguma continuidade com a situação anterior, mas o confronto agora realiza-se de forma simbólica, ordeira e burocrática, embora possa reverter para o confronto violento em situações de instabilidade.

Para o sistema funcionar é essencial manter a ilusão de representatividade.

Os cidadãos devem ser levados a pensar que o voto representa uma forma de soberania popular e não devem suspeitar que se trata de um método para escolher a facção dominante da oligarquia. Se o suspeitassem, compreenderiam imediatamente que não há qualquer ligação entre as promessas eleitorais e a governação, já que esta serve interesses bem diversos dos do eleitorado.

Mesmo assim, essa  ilusão de representatividade também é um dos fatores de instabilidade da democracia. Nas ocasiões de crise, quando a oposição entre os interesses das elites e os da plebe é mais vincada, existe a possibilidade de se criarem organizações políticas de rotura e de as elites perderem, no todo ou em parte, o controlo do sistema.

A grande vantagem do sistema democrático para os cidadãos  é que o seu funcionamento exige um certo grau de liberdade política. É essa liberdade que permite trabalhar para melhorar o sistema ou subvertê-lo, dependendo do ponto de vista.

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