11 de setembro de 2014

O grelo, afinal, é uma grande planta

Se perguntarem à maioria das pessoas o que é o clítoris, quase todas dirão que se trata daquele botãozito engraçado ali à frente, debaixo do seu pequeno capuz, de onde espreita quando se entusiasma. Alguns dirão mesmo que esse botãozito tem a maior densidade de inervação de todo o corpo humano, homem ou mulher, e que também tem um corpito, assim como uma pilinha, até lhe chamam homenzinho. Quase ninguém dirá é que se trata de um órgão que, escondido, envolve toda a zona vaginal com um corpo cavernoso anular que se enche de sangue em ereção e ainda tem dois cornos projetados da frente até cada uma das virilhas.


Fonte: The Internal Clitoris, The Museum of Sex Blog
 
Estas estruturas já estavam, naturalmente, há muito descritas em Anatomia. Não estavam era funcionalmente integradas num órgão próprio, o que só aconteceu em 1998, quando a urologista Hellen O'Connell, da Austrália, publicou os resultados das suas pesquisas em ressonância magnética e esclareceu o verdadeiro tamanho e significado do clítoris oculto. Trabalhos semelhantes sobre os órgãos masculinos já tinham sido feitos nos anos 70. Foi só em 2009 que os pesquisadores franceses Odile Buisson e Pierre Foldès publicaram a primeira sonografia tridimensional do clítoris estimulado, o que levou a compreender que o que se tinha pensado ser um orgasmo vaginal era, afinal, um orgasmo clitoriano interno!

E isto não é ciência pura. O dr. Foldès tem usado os seus novos conhecimentos para tratar vítimas de excisão clitoriana. Já operou mais de três mil pacientes, ajudando-as a recuperar a sua sensibilidade.

Este belo órgão parece ser o único do corpo humano apenas dedicado ao prazer. Não tem segundas funções. Para além da prática médica, estes recentes conhecimentos talvez ajudem as suas felizes proprietárias a deles tirar o melhor proveito no dia-a-dia (e os não-proprietários, mas utilizadores, a serem mais hábeis no relacionamento com ele, para proveito de todos). Em resumo, o que se pensava ser a Nave do Prazer era apenas a ponte de comando!

Fonte: The Internal Clitoris, The Museum of Sex Blog
 

Porque levou tanto tempo?

Mas não deixam de ser extraordinários os atrasos, erros e ideias fantasistas com que a ciência sobre a sexualidade feminina se depara.
A ciência devia ser objetiva, mas às vezes depara-se com obstáculos mentais à objetividade. Os piores obstáculos são quando os preconceitos dos cientistas os impedem de ver a realidade e distorcem de forma grotesca as suas conclusões. O principal campo onde isso acontece, naturalmente, é em tudo o que se relaciona com o sexo.

Melhor, não se trata exatamente de tudo o que se relacione com o sexo, mas de tudo o que ponha em causa a visão dominante do sexo. Foi assim que durante muitos anos a homossexualidade foi perseguida, até há pouco tempo, não só com argumentos religiosos, mas com argumentos pseudo-científicos. Outro tema foi a sexualidade feminina. Se os campos ligados à obstetrícia em princípio não eram problema, sancionados pela moral dominante, através da bênção bíblica da reprodução, já tudo o que pudesse levar a encarar a mulher como ser sexual era extremamente inquietante para o pensamento patriarcal que dominou os meios científicos no século XIX e primeira metade do XX.

Já escrevi neste blogue sobre a prática extraordinária dos médicos europeus do fim do século XIX que masturbavam as suas pacientes e as levavam ao orgasmo, aparentemente sem disso terem consciência, como forma de tratamento da histeria. O que levou a uma indústria de vibradores promovidos como aparelhos para o bem estar (descrita no filme Histeria), os quais foram rapidamente abandonados quando se percebeu que eram instrumentos de prazer sexual. Só voltaram a ser descobertos nos anos 60 do século XX quando a feminista Betty Dodson pediu emprestado o vibrador que o namorado usava no couro cabeludo, contra a calvície, e o usou na função que hoje conhecemos, passando depois a divulgar o aparelho junto das amigas feministas.

Quanto ao clítoris, foi importante um estudo de Maria Bonaparte em 1924, que o descreveu como o órgão decisivo para o prazer feminino. Mas Maria pensava que o clítoris era apenas o botãozinho que estava à vista e ignorava tudo sobre a vasta estrutura escondida. É curioso que Maria Bonaparte não fosse médica, mas uma paciente que procurava estudar a ciência que não existia para se curar a si própria, usando os seus recursos abundantes (era princesa e descendente de Napoleão).

Os anos 70 do século 20, a par de grandes avanços na sexologia e na liberdade de comportamento, viram instalar-se, no seguimento do Relatório Kinsey, a ideia da compartimentação entre os orgasmos vaginal e clitoriano e mesmo a noção de que o tal canal era relativamente insensível. Masters e Johnson já apontavam para a extensão invisível das estruturas clitorianas e para novas perspetivas sobre o orgasmo, mas tal informação foi praticamente ignorada. Desde então os conceitos mudaram muito e assistiu-se ao aparecimento de práticas e teorias bestante sofisticadas, na medida em que as mulheres tomaram, em grande medida, nas suas próprias mãos a tarefa de compreender os seus próprios corpos e resolveram prescindir ou ignorar as opiniões dos homens. Estas modernas descobertas vêm dar bases científicas, neurológicas e histológicas a conceitos que andavam no ar há vários anos.

E porque me ponho eu a divulgar estas coisas? Pura boa vontade. Para as felizes proprietárias destes milagres da natureza, assim como para os que, deles privados por nascimento, os usam e os adoram, como eu, compreender o clítoris é um passo para a felicidade.

A fonte principal deste artigo é o post The Internal Clitoris no blogue The Museum of Sex. Não faço o link para não me tramar com a classificação deste sítio...

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