15 de janeiro de 2016

Debate

Um amigo do Facebook, Jorge Silva Paulo, cujas simpatias pendem para o lado das políticas do governo anterior, convidou-me, entre outros, a comentar um poste em que zurzia no governo de António Costa. Na minha resposta entusiasmei-me e escrevi um texto bastante longo. Publico aqui a intervenção inicial desse amigo, com a devida autorização da sua parte, bem como uma resposta sua e uma tresposta minha. Omiti, naturalmente, as intervenções de terceiros que não são meus amigos no Facebook.


Jorge Silva Paulo – Agora que Costa decidiu onerar os contribuintes no caso do BANIF acho delicioso o silêncio de todos aqueles que ainda há poucos dias se insurgiam contra decisões sobre o BES que achavam certo que iriam onerar os contribuintes.

Também acho delicioso o seu silêncio sobre o adiamento de pagamentos ao FMI (em que se podia trocar dívida com juros a 4,05% por dívida a menos de 3%), que faz pensar que o "tempo novo" de que fala o candidato da Nóvoa é a repetição do tempo vivido de gastar hoje e alguém tratará de pagar amanhã (e quem o fizer é que será o "mau da fita"). E depois dirão alguns que a culpa do endividamento é da banca...

E, para não me alongar muito, acho ainda mais deliciosas as explicações que os mais sectários arranjarão para as afirmações do documento "Portugal: The Way Forward" do IGCP, de Jan-2016 com pérolas deliciosas, sobretudo porque revelam um Governo a dizer uma coisa aos portugueses e outra aos investidores estrangeiros (afinal a TAP foi vendida em Jun-2015 e não pelo governo em gestão como Costa disse; e afinal as exportações estão a mudar o tecido produtivo). A mim não me surpreende, porque Costa já o fez há meses, com chineses. E que Costa mente sempre que isso lhe dá jeito está amplamente comprovado; mas também aí há um notável silêncio dos que tanto protestavam ainda há alguns dias.

Talvez os meus amigos de esquerda me queiram ajudar a perceber estes fenómenos do Governo que eles têm declarado apoiar - quanto mais não seja porque "tudo era melhor do que o desgoverno de PPC", como alguns disseram. Que tal (lista de vários convidados para o debate, entre os quais eu) ... aceitam o desafio?


Carlos Cabanita – Não há muito por onde se pegue nesta discussão. Eu não sou de entrar neste tipo de debate, à volta de pequenas acusações e defesas. Prefiro dizer outra coisa, no meu entender mais estratégica: claro que o governo Costa não tem por programa fazer uma revolução e quem o possa acusar disso não está a ser honesto. Assim, vai ter que arranjar forma de resolver os problemas com soluções não ótimas que têm sempre custos de oportunidade. Pagar o Banif, não pagar o Banif, restruturar a divida, não o fazer... Há sempre custos na opção tomada, como os há na opção contrária.

O que o governo Costa representa, tenho eu esperança, é uma rotura moderada e cautelosa com o cocktail tóxico de austeritarismo e corrupção que nos tem afligido há anos -- e que não começou com Pedro Passos Coelho, longe disso. Sócrates é um elo forte dessa corrente. Desde pelo menos o princípio deste século todo o espetro político se tem deslocado dramaticamente para a direita no Ocidente. O mentor ideológico de Sócrates, Tony Blair, era o alegre cãozinho de George Bush, um trabalhista totalmente neoliberal e neocon. O Partido Republicano dos EUA tornou-se um grupo dos extremos enquanto os democratas tomaram a cargo a política de centro-direita que antes pertencia aos republicanos.

Cá os social-democratas tornaram-se um partido neoliberal de direita enquanto os socialistas, sob a liderança de Sócrates, ocupavam o terreno neoliberal de centro-esquerda. Esta situação correspondia à ofensiva austeritária por todo o lado, com os cumes do capital financeiro em Wall Street, na City e em Frankfurt a exigirem cada vez mais dinheiro, em golpaças cada vez mais descaradas, sob a bandeira da dívida e exigindo que os estados liquidassem todo o seu lado social e os ativos com algum valor, para lhes pagar.

Em Portugal, a austeridade não é um fim em si, mas um pretexto para atacar a saúde e a educação. Por isso PPC queria mais austeridade que a que a Troika lhe impunha.

Esse ciclo chegou claramente ao fim -- e não só cá. Nos EUA os democratas estão em revolta e prestes a impor um candidato que se afirma socialista, contra a candidata entronizada pelo establishment, Hillary Clinton. Na Inglaterra não há melhor sinal do fim do trabalhismo à Blair que a eleição de Jeremy Corbin, e todos conhecemos o que se passa aqui ao lado, não esquecendo a Grécia. O que acontece no nosso país não é isolado.

Creio (espero) que seja o fim do período neoliberal. Não sou nenhum especialista em economia, mas vou ouvindo o que dizem os três especialistas que mais considero, Krugman, Stiglitz e Piketty.

Antes que me mandem farpas erradas, faço notar que não sou marxista e sempre me opus, desde os anos 70, às ditaduras comunistas. Acho que, por ora, o capitalismo ainda é a melhor solução como sistema económico, mas, como todos os processos naturais, é eficiente dentro de parâmetros estreitos, tornando-se tóxico ou definhando fora deles.

Muito mais importante, para mim, é o aprofundamento da democracia, que hoje se transformou num processo corrupto e patético. Os movimentos populares que revolvem esse charco podre, do Bloco aqui ao Podemos em Espanha, ao Syriza na Grécia, ao Corbyn no Reino Unido e ao Bernie Sanders nos EUA enchem-me de esperança. E tenho dito.

Jorge Silva Paulo – Uma narrativa sem factos. Por exemplo, não existe nenhuma doutrina neoliberal; Blair chegou ao poder antes de Bush e já tinha afirmado a 3.ª via com Clinton (e este, sim, é que deu o grande impulso à crise de 2008 com o fim do Glass-Steagall Act em 1999); a economia é um sistema circular, pelo que não há alguém que acumule e só essa entidade usufrua seja do que for; PPC ficou aquém da Troika como se comprova pelo facto de ter ficado aquém das metas do défice fixadas no Memo assinado por Sócrates e o PS; e se o meu caro desse ouvidos a outros que não só aqueles que dizem o que gosta de ouvir talvez tivesse uma visão mais equilibrada.

De resto, acho fascinante esta narrativa que separa o atual PS do PS de Sócrates, quando a maioria das caras são as mesmas e Costa era o n.º 2 de Sócrates. Mas enfim... ser de esquerda é acreditar em utopias e dizer coisas bonitas...

Carlos Cabanita – Não mencionei o safardana do Bill Clinton porque o relambório já ia longo. Ele e o Blair são farinha do mesmo saco. E o neoliberalismo não existe. Folgo em saber. A economia é circular, portanto o drip-down funciona. Tenho que dizer ao papa Chico que está enganado. O PPC teve pena do povo e não o sangrou tanto como os alemães e o FMI queriam. Não seria antes incompetência?

Eu não disse que o PS mudou. Não prestou atenção. O que mudou foi o clima político, nacional e transnacional. O PSD também vai mudar, vai redescobrir a social-democracia. Tem que ser.

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