15 de outubro de 2016

10 segredos sobre a pesca ao clique (click-bait) - o terceiro vai deixar-te espantado!

A pesca ao clique ou iscar ao clique (click-baiting) é uma atividade muito vulgar na Net, mas poucos sabem do que se trata. Dito de outro modo, poucos são os pescadores, mas quase todos já viemos à rede, conscientemente ou não. Sendo assim, resolvi escrever este texto com a estrutura e a linguagem típicas de um artigo de click-baiting.

A estrutura em pontos é típica, bem como o exagero dos títulos. É dessa forma que vou escrever.


  1. Muitas páginas da Web arrecadam proveitos através de publicidade. Esses ganhos são proporcionais ao tráfego que a página atrai. Há uma forma difícil de conseguir tráfego e outra fácil. A difícil é criar um conteúdo interessante que chegue para atrair muitos leitores; a fácil é o click-baiting.
  2. Os sites que se dedicam ao click-baiting não criam nada de novo, antes republicam informação obtida de outros lados. Chamam-se agregadores. Mas criam nova embalagem para essa informação, tornando-a mais sensacionalista e chamativa para o leitor menos atento e menos exigente.
  3. Tudo se joga no título e talvez uma linha ou duas que podem aparecer no rodapé de uma outra página Web. Se o leitor ficar interessado ou intrigado com o assunto, vai clicar na ligação e registar mais uma visita à página. Depois de muitas tentativas e erros, suponho que se chegou à fórmula que está no título deste texto: Saiba N coisas sobre o assunto X, a enésima vai surpreendê-lo!
  4. Depois de obter o mágico clique – a visita – a cereja em cima do bolo é conseguir que o leitor partilhe a notícia na sua rede social, o que vai garantir ainda mais cliques. O valor das visitas pode ser muito superior se, como muitas vezes acontece, não se trata de notícias, mas de publicidade. A fronteira entre publicidade e outra comunicação é muito ténue. Na publicidade abundam as vigarices.
  5. Exemplo de um artigo de click-bait com uma notícia alarmista e sem fundamento sobre o próximo inverno, que deixou muita gente preocupada
  6. Esses sites não têm qualquer interesse na qualidade da informação que oferecem, apenas na quantidade de visitas que obtêm. Creio que, em muitos casos, o processo de seleção é automático, através da escolha das tags e hashtags que estão a ter mais sucesso. Uma rotina automática (um bot) recolhe os artigos com mais visitas e, suponho eu, um operador humano trata de lhes arranjar um título.
  7. O operador humano não deve ter paciência nem tempo para grandes criatividades, possivelmente é um trabalhador mal pago num país pobre que fale a mesma língua do público mais rico a que se destinam as páginas. Sendo assim, o recurso à fórmula é inevitável.
  8. Uma das mais fortes distorções na análise da realidade, defeito esse de que todos sofremos, é o preconceito da confirmação. Acreditamos no que vem confirmar os nossos preconceitos, duvidamos do que os contraria. O click-baiting aproveita-se disso, trabalhando vários públicos com histórias que confirmam o pior das opiniões de cada público. Para quem é da direita, histórias de arrepiar sobre as pessoas da esquerda; para quem é da esquerda, vice-versa. Idem para Benfica, Sporting, Porto...
  9. Ao fim de algum tempo de vigência destas narrativas, cada público tende a viver isolado na sua bolha feita de fábulas que demonizam os seus inimigos e endeusam os seus heróis. As mais descabeladas histórias têm uma difusão incrível, pois o bom senso para duvidar escasseia.
  10. O mais triste, porém, é que os leitores humanos são tão básicos como os bots e difundem sem pensar boatos inacreditáveis. Pode parecer uma ação inocente mas, por exemplo, espalhar a opinião de que as vacinas são perigosas é uma atitude muito irresponsável que coloca crianças em perigo.
  11. Como em tudo na vida, ser melhor custa mais um bocadinho. Antes de difundir coisas que parecem interessantes mas um tanto ou quanto insólitas, que tal investigar um pouco? Sei lá, no caso das vacinas, tentar saber o que pensam os médicos. Na dúvida, o melhor é ficar calado. E se virem uma ligação para uma página com um título como este meu post, evitem-na!

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