3 de julho de 2010

Saudades da violência

Por volta de 1985 (sei disso porque confirmei a data), fui ver Era Uma Vez na América, de Sergio Leone. Filme premiado de um grande realizador, grande produção, uma história sobre factos reais, a ascensão de um gang em Nova Iorque no princípio do século XX. Gostei do filme, mas certas cenas incomodaram-me. Não que eu seja supersensível, mas suspeitei que o aspecto chocante das cenas de sangue e assassínio tenha sido deliberadamente realçado para falar aos instintos sanguinários do público.

ouatiamerica Saí do filme de quatro horas, passava bastante da meia-noite. Acho que foi no Nimas, na Avenida da República. Ou talvez no Monumental. Apanhei um autocarro e fui para o andar de cima. Tenho a imagem. Um grupo de jovens que, percebi pela conversa, tinham ido ver o mesmo filme, sentou-se uns bancos atrás. “Viram a cena das pingas de sangue no candeeiro do tecto?” “Foi de mais, meu!” “E o gajo a ser engolido pelo camião do lixo? Que curte! Ganda filme, vou-ta contar!”

Estes tipos não viram o mesmo filme que eu, pensei. Viram apenas uma sucessão de cenas chocantes e deliciaram-se com elas. O conceito repugnava-me. A crítica falava na poesia visual de Sergio Leone, etc. e tal, mas o público não queria saber disso. Queria sangue.

Os realizadores de Hollywood perceberam a mensagem. Dedicaram-se todos à poesia visual. Um caso que me vem à memória é Quentin Tarantino. A crítica continua a tecer o mesmo tipo de loas e o público a curtir satisfeito a sua pornografia da violência. E vi o mesmo tipo de apreciação do público à saída de Pulp Fiction e de Natural Born Killers.

O fundo da questão

Porque estou a falar de filmes? Porque tive que ir ao fundo da questão. Vivemos todos uma vida de cãezinhos amestrados. Muito raramente temos de arriscar a vida. Ou nunca. As catástrofes naturais acontecem aos outros, no telejornal. Doenças mortais muito raramente nos ameaçam. Para sobreviver temos de passar algumas horas por dia no emprego a não fazer nada de especial.

Os nossos corpos e os nossos espíritos, sobreviventes de milhões e milhões de batalhas sangrentas pela sobrevivência, não estão afeitos a isto. Dentro de nós há um animal não amestrado que gosta de sangue, de porrada, de exprimir os seus sentimentos com as mãos e os pés.

Foi há poucos anos que os homens deixaram de ter de marchar contra os canhões, e as mulheres deixaram de esperar que eles chegassem, vivos ou mortos. Ou deixaram de levar da polícia de choque, ser presos e torturados. Foi há poucos anos que as crianças deixaram de levar um tabefe em vez de ser proibidas de jogar Playstation. Foi há poucos anos que os homens deixaram de ter de defender a sua honra a soco.

Até há pouco tempo era louvado o comportamento do homem que intimidava todos os que se aproximassem da sua mulher, atacando-os à mínima provocação, e que tratava a mulher com altivez, como coisa sua, com uns encontrões e tudo se fosse preciso.

Ah, e a mulher apreciava que o machão a defendesse e até os encontrões eram sinal de amor.

E se qualquer mulher se aproximasse do seu marido, que ele a tivesse encorajado quer não, havia bofetada, puxões de cabelos, arranhões e dentadas a rebolar pelo chão.

Até há pouco tempo, o trabalho era até ao esgotamento, horas sem fim, com dores e com fome. E a fome atacava mesmo, se não havia trabalho.

Até há pouco tempo todos sofriam constantemente, por qualquer razão. Ou era dentes, ou reumático, ou era da coluna, por causa do trabalho, ou por qualquer doença crónica sem cura. E não quero falar de parasitas, para não ferir sensibilidades.

Se eu tivesse um martelo…

Repara, tu que estás a ler isto, podes não estar a ver a tua história ou a história da tua família aqui. Pode ser que sejas de uma família privilegiada, ou pode ser que certas coisas não fossem contadas a uma criança. Nos tempos em que a violência abundava, era escondida. Hoje, que é escassa, é exibida.

Hoje temos problemas. Temos a casa e os carros, o telemóvel, as contas, os garotos que queríamos que fossem especiais mas não estão a esforçar-se, o cônjuge que está a deixar de ter qualquer piada, o amor que devia ser duas vezes por semana e é feito uma vez por mês, só para picar o ponto, uma frustração total. O emprego que um dia destes acaba sem aviso. E os vizinhos que estão melhor na vida que nós.

Havia uma canção há muitos anos, Se eu tivesse um martelo…

No fim, no fim, esta sede de violência gratuita exprime tédio. Um enorme tédio.

Se calhar, deveríamos todos estar a tentar fazer coisas mais difíceis do que estamos. Pôr a fasquia mais alta.

Estava eu aqui a pensar em soluções, mas ocorreu-me que na verdade não é preciso. Brevemente a vida vai pôr-nos à prova, porque os bons tempos estão a acabar. Não espero que voltemos ao antigamente, espero que não, mas muitas coisas a que estamos habituados vão piorar ou desaparecer.

Teremos que acordar. Teremos que lutar. Espero que a crise nos torne melhores pessoas. Porrada, de certeza que vai haver, consequente ou não. Aí já não precisamos da dos filmes…

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