9 de agosto de 2010

Para uma cultura (e ética) universal / Towards a universal culture (and ethics)

 

Versão em Português. See English version in the end.

Quando o TED publicou a conferência de Sam Harris “A Ciência Pode Responder a Questões Morais” em Fevereiro deste ano, iniciou uma grande polémica. Sam Harris afirma, em primeiro lugar, que o conhecimento científico, incluindo o conhecimento da forma como trabalham os nossos cérebros,  influencia a forma como as questões morais são postas. A seguir, argumenta com a consideração das condições gerais em que as sociedades humanas prosperam para mostrar picos que sirvam de exemplo para um mapa da eficiência ética das sociedades. Por fim, argumenta que as opiniões relevantes para a definição do valor de uma moralidade não são as de todas as pessoas, mas as de um grupo de peritos socialmente aceites. O crédito moral do Dalai Lama não é o mesmo que o de um assassino em série. Se não damos valor à opinião dos Talibãs sobre física teórica, porque havemos de apreciar a sua ignorância sobre questões morais?

 

 

Para além dos moralistas religiosos, o que era de esperar, muitos outros sectores vieram criticar Sam Harris. Notável foi a oposição de parte do establishment universitário, às vezes feroz e nada cordata. Sam Harris foi acusado de ser um mau filósofo e de nada compreender da cultura filosófica contemporânea.

O que está em causa, evidentemente, é o relativismo moral, a preposição de que os valores do indivíduo são determinados pela cultura de que faz parte.

Eu simpatizo com as teses de Sam Harris, enquanto começo de uma discussão necessária. Essa discussão será muito complexa e terá que resolver muitos problemas pelo caminho. Um dos problemas para mim, sem dúvida, é o perigo das verdades absolutas. Em ciência não há verdades absolutas, mas numa discussão sobre moral movem-se forças sociais muito mais poderosas que as que excitam os professores nos seus congressos.

 

Culturas e Cultura

O meu ponto de vista, se bem que benévolo em relação a Sam Harris, é um pouco diferente. Sim, eu creio que a cultura determina os valores morais do indivíduo. Mas o que é uma cultura?

Quando Cristóvão Colombo encontrou os Ameríndios, aí sim, temos duas culturas muito diversas e independentes, com valores morais diferentes. E aí também a interacção entre as duas culturas começou imediatamente, através do sexo, da opressão, da doença, da pilhagem, da escravatura e da propaganda religiosa. Dentro de um par de séculos, deixou de haver nas Américas qualquer cultura independente do que então se chamava a Cristandade.

A China e o Japão foram durante algum tempo culturas independentes e altamente desenvolvidas. Mas a seu tempo se integraram, de forma sem dúvida tumultuosa, na cultura mundial. O Japão, depois de ter copiado as formas mais brutais do imperialismo ocidental, foi derrotado e ganhou nova vida como expoente da tecnologia e da sociedade de consumo; a China, derrotada pela Inglaterra e obrigada a abrir as fronteiras ao ópio inglês, viu cair o seu imperador, experimentou durante alguns anos uma democracia corrupta de tipo ocidental e abraçou um regime totalitário inteiramente moldado por uma ideologia vigente entre os intelectuais europeus. Terminado esse pesadelo, integrou-se de novo no modelo ocidental abraçando para já a iniciativa privada, depois se verá se os direitos humanos e a liberdade política.

A história da Índia é paralela, no sentido em que se trata de um dos focos culturais originais do mundo, mas sujeito durante séculos a uma exploração selvagem. O seu isolamento foi menor e há muito que procura activamente a integração.

É difícil encontrar qualquer unidade cultural nos países islâmicos, para além da religião.

 

Cultura mundial

Não há culturas isoladas em parte nenhuma do mundo. O que há é variantes regionais, núcleos diversos de criação cultural e tradições que concorrem para ver o mundo de formas um pouco diferentes, mas que enriquecem o todo.

A cultura mundial é já um facto hoje. É sem dúvida imperfeita, porque baseada em grandes desigualdades e injustiças. É mais fácil a um cineasta de Hollywood arranjar financiamento para fazer uma superprodução de uma ideia banal, do que a um artista de África conseguir um magro subsídio para filmar uma obra prima a que poucos terão acesso. De igual modo, as trocas financeiras, a indústria, o comércio e o impacto ambiental mostram os mesmos desequilíbrios e as mesmas injustiças. Mas a luta contra essas desigualdades não fará voltar a história atrás e não restaurará nenhuma autarcia. Uma cultura mundial mais justa continuará a ser uma cultura mundial, porventura mais integrada ainda, porque a integração das zonas hoje marginalizadas é uma questão de justiça.

Portanto, Sam Harris não está a determinar imperativos éticos independentes da cultura, o que ele está a fazer é a explorar os parâmetros éticos de uma cultura mundial. Sendo a ciência uma das fortes componentes dessa cultura, antes usada pelo ocidente para assegurar a sua supremacia e hoje abraçada por todas as sociedades que almejam desempenhar nela um papel activo, é natural que a ciência desempenhe um papel importante no esclarecimento dos seus imperativos éticos. Que papel exactamente, ver-se-á.

 

De que é feita a cultura mundial?

A liberdade pessoal e os direitos humanos, o acesso a uma educação de qualidade, a possibilidade de trabalhar para melhorar a sua vida, o acesso a bens físicos e culturais de grande riqueza, o participar, pelo menos com a imaginação, na vanguarda do conhecimento, são factores que tornam a cultura mundial desejável a cidadãos do mundo inteiro.

As comunidades que têm capacidade de mais facilmente se integrar na cultura mundial e de contribuir para ela são as que tenham os seus valores e compromissos éticos no que Sam Harris chama os picos: situações que melhor propiciem o desenvolvimento humano. Tendem a ser sociedades permissivas, com liberdade de iniciativa económica, social e política dos cidadãos, com garantias de justiça e protecção contra a opressão.

Isso inquieta, evidentemente, não só os fundamentalistas religiosos como as correntes principais religiosas de todo o mundo. Se por um lado os fundamentalistas procuram isolar o seu povo das influências cosmopolitas, por outro procuram impor o respeito pela sua ética restritiva a nível mundial. Os islamitas procuram assegurar que as mulheres sejam sujeitas aos seus ditames nas sociedades islâmicas, mas procuram também que a sharia continue a oprimi-las mesmo quando emigram. Procuram evitar que o seu povo tenha hipóteses de fuga.

As correntes principais lutam por que os seus valores religiosos sejam os valores da cultura mundial. Sendo o mundo inteiro muito diverso em termos religiosos, com grandes partes do mundo fora da~influência das grandes religiões monoteístas, essa acção só pode ser divisiva. Veja-se o caso da luta da Igreja Católica para que os valores cristãos fossem assumidos como fundadores da União Europeia.

A cultura mundial é um dado adquirido. Compete a cada cidadão do mundo lutar para que no seu núcleo estejam os melhores valores, os que melhores benefícios dêem para todos e que melhor nos permitam prosperar em conjunto.

 

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Towards a universal culture (and ethics)

When TED published Sam Harris’ conference “Science can answer moral questions” February this year, a great polemic was started. Sam Harris says, first, that scientific knowledge, namely the knowledge about how our brains work, influences the way moral questions are posed. Next, he argues about the conditions in which our societies prosper, showing peaks that serve as examples for a map of their moral efficiency. In the end he argues that the relevant opinions to define the value of a morality are not those of everyone, but those of a group of socially accepted experts. The moral credit of the Dalai lama is not the same as the one from a serial killer. If we don’t value the Talibans’ opinion on theoretical physics, why should we give credit to their opinion on moral questions?

Beyond religious moralists, who were to be expected, many other sectors came out to criticize Sam Harris. The strong opposition of some university establishment was notorious. Sam Harris was accused of being a bad philosopher and of understanding nothing about modern philosophical culture.

What is at stake, to be sure, is moral relativism, the proposition that an individual’s moral values depend on the culture he/she belongs.

I feel sympathetic towards Sam Harris’ theses, as a beginning of a necessary discussion. This discussion must be very complex and must solve a lot of problems in the way. A problem for me, no doubt, is the danger of absolute truths. In science there are no absolute truths, but, in a discussion about moral,  far more powerful forces play than those that thrill professors in their congresses.

 

Cultures and culture

My point of view, besides liking Sam Harris’ approach, is a bit different. Yes, I believe a culture determinates the moral values of the individual. But what is a culture?

When Christopher Columbus found the Amerindians, there you have two very diverse and independent cultures, with different moral values. But the interaction begun at once, through sex, oppression, disease, pillage, slavery and religious propaganda. In a pair of centuries, there was no independent culture from what was then called Christendom in the Americas .

China and Japan were for some time independent and highly developed cultures. But they were, at some point, integrated, no doubt in a very tumultuous way, in world culture. Japan, after copying the most brutal forms of Western imperialism, was defeated and started a new life as the standard bearer of high tech and consumerism. China, defeated by England and forced to open her borders to British opium, saw the emperor fall, tried for some years a corrupt western style democracy, and embraced a totalitarian regime wholly cast upon the ideas then current among European intelligentsia. In the end of this nightmare, she got integrated anew, embracing private initiative for now, later to see about human rights and political liberty.

India’s history parallels this, in the sense that she was one on the main cultural sources, but was subject to centuries of savage exploitation. India’s isolation was never strong and she is seeking integration for a long time.

It’s hard to find any cultural unity in the Islamic countries, besides religion.

 

World culture

There are no isolated cultures, anywhere in the world. There are regional variants, diverse nuclei of cultural creation and traditions that work towards seeing the world in somewhat different forms, everyone of them enriching the whole.

World culture is a fact today. It is imperfect, no doubt, because it is based in gross inequalities and injustices. It is easier for a Hollywood filmmaker to get finance to super produce a banal idea, than to an African artist to get a meager subsidy to film a masterpiece few people will ever see. In the same way, financial exchanges, industry, commerce and environmental impact show the same imbalances and the same injustices. But fighting against this inequalities will not bring history back and shall restore no form of autarky. A more just world culture will still be a world culture, probably even more integrated because integration of the now marginalized zones is a question of justice.

Sam Harris is then, not seeking out culture independent ethical imperatives, what he is doing is searching for the ethical parameters of a world culture. As science was one of the strongest components of this culture, once used by the West to insure supremacy and now embraced by every society wanting to be culturally active, it is only natural that science will be called to play a major role enlightening it’s ethical imperatives. What role exactly, we will see.

 

What is world culture made of?

Personal liberty and human rights, access to a quality education, the chance of working to better one’s life and one’s children, access to rich physical and cultural  goods, to participate, at least in imagination, in the vanguard of knowledge, this are factors that make world culture desirable to citizens across the world.

The communities that are more able to easily integrate themselves in a world culture and contribute to it are the ones with their values and ethical compromises at what Sam Harris calls the peaks: positions that better let humans strive. They tend to be permissive societies, with social, economic and political liberties, with guaranties of justice and protection from oppression.

That disquiets  not only religious fundamentalists but also mainstream religious currents all over the world. Fundamentalists try to isolate their people  from cosmopolitan influences, but they try also to impose the respect for their restrictive ethics in the world at large. The Islamists try to make sure women are subject to their diktats in the Islamic societies, but they seek to keep on imposing the sharia on them even when they emigrate. They want their people to have no chances of escape.

Mainstream religious currents fight for their values to be the values of the world culture. As the world is too religiously diverse with large parts of it outside the scope of the great monotheistic religions, this action can only be divisive. See the fight of the Catholic Church to make the European Union assume the Christian values as it’s founding values.

World culture is a given. It’s up to every world citizen to fight for the best values to be at it’s core, the values that give us all the best benefits and permit us all to strive together.

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