18 de novembro de 2010

Fecha-se isto? Ou abre-se?

O texto de Clara Ferreira Alves que a Isabel Maria da Palma publicou no seu blogue é mais um dos milhares de textos deste género, escalpelizando a desgraça nacional, desde... desde quando? Contamos os estrangeirados? Contamos o Eça? Contamos o Pessoa?
Exprimem a desilusão com o nosso atraso, exprimem o nosso complexo de inferioridade. Nada mais.
Critiquei o texto por isso, por clamar por visão política ser a ter,
Fui criticado, desafiado a apresentar a minha visão política.
Andei a pensar no assunto uns dias.


Visão política, da minha parte? Não tenho.
Aliás, a minha visão, é de que não há qualquer razão para crer que os bloqueios que existem há séculos se vão desbloquear desta vez, por mais que os cidadãos, justamente indignados, se mexam. Mais, até acredito que, se a indignação popular provocar uma crise política que crie uma nova república, ela será tão coxa e tão viciosa como esta.
Os cidadãos devem cumprir o seu dever, mexer-se, criticar o sistema. Os resultados disto são sempre positivos. Vai-se criando peso do lado positivo, para isto ir melhorando. Ou, quiçá, até para evitar que piore...
Mas não se espere grandes progressos a curto prazo.
Sou pessimista, eu sei.
Não vejo na dinâmica social, cultural e política nada que rompa o bloqueio. Não é das amargas recriminações à volta da distribuição da parca riqueza que virão soluções. Ou, se vierem, serão más.
De onde poderia vir o progresso?
O problema, quanto a mim, não é moral nem de justiça, é que ao balcão nacional estão a vir cada vez menos clientes. Qualquer solução política terá que ser, essencialmente, uma questão comercial.
Mas uma solução comercial com sucesso terá de ser muito inovadora, para trazer o sucesso de volta à loja. As soluções inovadoras, hélas, costumam vir dos sítios onde o avanço é maior.
Como dar a volta à questão?
Deixando de pensar em Portugal.
Como?
Pois é, uma característica de todos estes textos é uma obsessão com o nosso país.
O nosso país, meus amigos, não existe. É apenas uma região da Europa. Os problemas que temos são comuns a regiões semelhantes da Europa, são comuns à próprio Europa.
(Como entidade e identidade nacional, não se preocupem, Portugal nunca acabará. Esse é um espantalho político lamentável.)
Temos de pensar na nossa loja como parte de um centro comercial. Nada contra termos os nossos próprios clientes, mas a nossa oferta deve fazer sentido dentro da oferta do centro.
Em vez da competição idiota com outros países para ver quem recebe mais subsídios, deveríamos estar a pensar em soluções de integração económica europeia, que foi, não sei se se lembram, como todo o projeto europeu começou.
O centro comercial, no seu todo, tem que ser viável, tem que ter sucesso. Ninguém vai querer ter uma loja aberta num centro comercial fantasma. Também ninguém vai querer ter a única loja que faliu num centro comercial florescente.
As ideias para relançar o negócio, não poderemos ir buscá-las è Europa nem à China. Não podemos, porque não se vai buscar ideias. As ideias têm que ser aprendidas, interiorizadas, vividas. Todas as ideias do mundo estão ao alcance de qualquer um, no seu computador. Não serve de nada. Se não forem interiorizadas e vividas, é como se estivessem do outro lado do universo.
Algumas das ideias mais inovadoras e que poderão criar mercados novos virão da investigação científica europeia, que não é a melhor do mundo mas é muitíssimo boa. Nomeadamente no domínio das energias renováveis. É possível que nesse domínio surjam novas formas de viver, novos planeamentos, novos tecidos urbanos e rurais. Temos que estar por dentro disso, desde o início.
Não me importava nada se as indústrias nacionais e até os organismos públicos contratassem sistematicamente técnicos portugueses com experiência no estrangeiro. Não me importava nada se se contratasse sistematicamente técnicos e quadros estrangeiros. Não me importava nada que os técnicos e quadros nacionais fossem sistematicamente para fora, para que os pudéssemos depois contratar.
Não me importava nada se tivéssemos uma política de formação que fizesse algum sentido,
Porque é esse isolamento nacional que é preciso terminar. O pensar só nas nossas coisinhas, nas nossas merdinhas.
Algumas boas ideias em termos de ética e de luta contra a corrupção que tanto preocupam os portugueses hoje poderão implantar-se da mesma maneira, integrando os métodos, as ideias e as pessoas.
A austeridade, se bem que possa ser inevitável, não é solução a prazo. É apenas reduzir os ordenados e regalias na loja, no desespero de ver cada vez menos clientes chegar-se ao balcão.
A produtividade que se ganha pagando ordenados mais baixos não é verdadeiro ganho de produtividade, é apenas uma batota, não representa avanço técnico nem mais eficiência. É apenas o que tem que fazer quem não se tornou mais eficiente, se quer continuar a competir com quem o fez.
E isto é tão válido para Portugal como para o resto da Europa. O enorme mercado interno europeu interessa-nos profundamente, mas para que ele exista os europeus terão de ganhar ordenados.
Conclusão: até concordo com a Clara Ferreira Alves.
Portugal não está a dar.
Portugal é uma depressão, é um frete. Portugal é um beco sem saída.
Vamos abrir as janelas e as portas de par em par. Vamos arejar isto!
No fim, se conseguirmos, tenho a certeza, seremos mais Portugal.

2 comentários:

  1. Ai esta cultura quantitativa está mesmo pela hora da morte... o ensino da matemática precisa de ser refeito do zero. Como é que é possível estar a discutir os problemas do país, ou do que quer q seja, sem quantificar? "Portugal não está a dar"? o que é q não está a dar? em quanto é que não está a dar? é a economia? qual parte da economia? o crescimento anual? qt é que é? qt é q deveria ser? qual é o das outras "lojas" à volta e das distantes? cortes nos ordenados, qt foram? deveriam ter sido menos? deveriam ter sido aumentos? ordenado mínimo de 600€/mês era suficiente? mais? menos? etc, etc, etc.

    Quanto, quanto, quanto.

    São completamente diferentes as medidas que têm de se tomar quando queres subir a produtividade, ou qualquer outra propriedade, em 0,5% ou em 5%.

    Se a tua pergunta é simplesmente, em linhas MUITO gerais, o que podemos fazer para tornar o nosso país mais competitivo, a minha resposta é simples: ser mais otimista e, como tal, mais disposto a abraçar a mudança. Queres mudança mas estás a falhar num dos seus requisitos. Não acreditas verdadeiramente q ela seja possível. E no entanto ela está a acontecer à nossa volta todos os dias, inclusive em portugal... para vê-la, e portanto poder ser otimista, só tens de usar os jornais para limpar o rabo, esquecer os telejornais e retirar dos teus bookmarks os blogs onde é publicada a CFA. Apaga toda a informação fornecida ou discutida por fontes ligadas à comunicação social. Eles têm um fortíssimo interesse económico que entra em conflito com a neutralidade e exatidão da informação.

    De qq modo gosto de alguns aspetos da tua posição como a abertura para o exterior e a visão de marketing. A analogia das lojas tb me pareceu feliz, pelo q obriga a adoptar uma nova perspectiva sobre um velho problema.

    abraço
    rui

    ps: já agora um último comentário, estão à espera que a economia tenha uma taxa de crescimento positiva e constante e acham q está em crise se parar de crescer? pensem bem na alarvidade que isso é. Uma taxa singela de 3,5% ao ano significa que a economia duplica a cada 20 anos. Isto é matemática, não é opinião! Acham isso sustentável, considerando que os recursos não são infinitos? estão mesmo à espera que a nossa economia aumente 16x até 2090?! Até uma taxa de crescimento anual constante de apenas 0,7% significa duplicar a nossa economia neste século. Nada mau, se pensarem que levámos mais de mil anos para construir a economia atual. Mais tarde ou mais cedo as economias de topo no mundo têm de parar ou abrandar até ao ponto em q só crescem qd avanços tecnológicos permitem fazer mais com os mesmos recursos. Como sabem, pela calamidade climática q se avizinha, temos andado a abusar nos recursos. Estão a ver como a cultura quantitativa é absolutamente necessária?

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  2. Rui, para continuarmos a crescer não precisamos gastar mais recursos. Aliás, o crescimento económico interessante neste momento é na direcção da reorganização ou da reinvenção da sociedade para se tornar mais eficiente do ponto de vista energético e ambiental.
    Será isso isso um crescimento económico quando se tenderá a produzir menos quinquilharia e gastar menos energia? Sim, se houver um mercado para essa actividade. Esse mercado xiste e tenderá a crescer, porque esse tipo de serviços é necessário, aliás essencial.
    Tens razão sobre os números, mas os números dão imenso trabalho, mais do que eu tenho disponível para escrever os meus desarrincanços à noite.
    Sim, na verdade não acredito em grandes soluções. Não vejo dinâmica para tal. As ideias que surgem nesta crise a fingir que são soluções são muito pobres, o tecido social não me parece muito criativo neste momento..
    Continuaremos a progredir, sem dúvida, mas pela influência e pelo contágio, como tem acontecido no último par de séculos. Pouco.
    Mais do mesmo, tenho pena.

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