12 de dezembro de 2010

O poder da oração

rosario

Sou ateu há mais de quarenta anos e ainda me lembro das orações católicas que aprendi em criança. Sem dúvida devido ao peso da repetição, essas frases então misteriosas e hoje absurdas continuam gravadas nos meus circuitos mentais.
A minha tendência de céptico é considerar as orações inúteis exercícios para testar a resistência dos fiéis ao tédio. Mas…

Se as orações são inúteis, porque consagram as igrejas tanto tempo à oração? Ok, eu sei que são considerados meios de comunicação mágica com a divindade. Mas nesse caso, para além de testar a paciência dos fiéis, devem estar à procura dos limites da paciência da divindade, repetindo sem parar as mesmas frases tornadas ocas pelo uso. Já imaginaram o que seria, da parte da divindade, caso existisse, ouvir tudo isto de cada um dos fiéis, multiplicado por muitos milhões, repetido por todos os dias de muitos séculos?

Ainda bem que a divindade não existe, porque se existisse teria fulminado há muito todas as comunidades de crentes, só para não os ouvir!

Há orações católicas (vou manter-me dentro do que conheço) que nem sequer são dirigidas à divindade, em especial a mais fundamental de todas elas, o Credo. Minuciosamente discutido em concílios e condensado, o Credo é uma afirmação de pureza ideológica. Repetindo-o, os crentes manifestam a sua conformidade com os cânones da sua fé.

Repetindo-o, também gravam estas orações mais fundo do que a razão alcança, lá nas caves do espírito, longe do exame e do inquérito, onde as coisas são assim ‘porque sim’.

O caso extremo é o rosário. Cada terço tem 50 Avé-Marias e 10 Padre-Nossos, mais algumas orações. Um rosário consiste em três terços, ou quatro, de acordo com uma decisão relativamente recente de João Paulo II, ou seja, 150 ou 200 Avé-Marias e 30 ou 40 Padre-Nossos. Interminável!

Os fiéis são encorajados a rezar um rosário, ou pelo menos um terço todos os dias, garantindo-lhes que, se o fizerem, ganharão indulgência para os seus pecados*. O objectivo é claro, formatar aquelas cabeçorras através da repetição embrutecedora das mesmas frases.

Outras religiões usam os mesmos processos, nomeadamente a hebraica, a islâmica, o hinduísmo e até o budismo.

A força do processo amplifica-se se a oração for dita em grupo ou cantada, como acontece na missa católica e noutras cerimónias, quase sempre acompanhada de gestos ou mudanças de posição simultâneas. Era eu ainda muito  menino, lembro-me da minha mãe me levar à noite a umas novenas que, tanto quanto me lembro, eram cerimónias cujo conteúdo consistia em rezar um rosário, as tais 150 Avé-Marias. Ainda me lembro do som daquela lamúria sem fim.

Nos séculos XIX e XX começou-se a compreender os processos de auto-hipnose e auto-sugestão, através dos trabalhos de James Braid e Émile Coué. Surgiram métodos e práticas destinados a usar estes conhecimentos ao serviço dos indivíduos e não como instrumentos de controlo mental por parte de qualquer igreja. É difícil distinguir o trigo do joio, pois junto prolifera toda a espécie de vigarices e charlatanices.

Mas continua a pôr-se a questão: será possível um indivíduo usar esses antigos instrumentos de escravização mental para controlar a sua própria vida? Não sei. Um desses grupos propõe o que chama Técnicas de Liberdade Emocional, que consistem em recitar um mantra muitas vezes, do tipo “Eu aceito-me e gosto de mim”, junto com movimentos rítmicos e repetitivos, em frente do espelho. Outros usam outros movimentos, como esfregar uma mão na outra.

Parece uma palermice completa mas pode ser que funcione. Eu nunca experimentei, mas a justificação racional soa correcta, apesar dos proponentes se meterem muitas vezes por caminhos pseudocientíficos, como os pontos de energia da acupunctura e outros devaneios New Wave.

Talvez eu recorra a isso em breve, para deixar de fumar…


* Não vou aqui perder tempo a explicar o que é uma indulgência e os seus graus, o que levaria a algumas minúcias extraordinárias e despropositadas. Voltar ao texto

1 comentário:

  1. :) Olá Carlos!
    É uma delícia ler o teu blog ... e adorei este artigo.

    Aprendi o que era um rosário completo - ainda bem que não sou católica :-) ... só a perspectiva de fazer a maratona, deixa-me logo embrutecida, hahahaha.....

    Regards *

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