6 de maio de 2011

O planeta

zpSarilhos no nosso quintal

Os portugueses, coitados, andam muito preocupados com a sua crise. Não é para menos, evidentemente. De vez em quando, até cá se passam coisas importantes. Mas se levaram até aqui ensimesmados numa sociedade iludida com promessas de prosperidade sem ter que descobrir novas fontes que a justificassem, enleados na complacência com a corrupção enquanto esta mantivesse um ar simpático e bonacheirão, agora muitos mudaram de ponto de vista e começaram a preocupar-se.

Mas a nova consciência, desculpem lá, é mais do mesmo. Hoje faz-se a análise dos supostos grandes defeitos dos portugueses  e promete-se penitência, arrependimento, jura-se mais austeridade, planeia-se queimar os prevaricadores num grande auto de fé. Imagina-se que se sofrermos com resignação a penitência do pagamento da dívida, seremos enfim perdoados dos nossos pecados e teremos acesso aos campos de leite e de mel.

São os dois lados da consciência barroca, resultado de há 400 anos termos ficado do lado de cá da grande guerra civil europeia que separou a Reforma da Contra-Reforma. A nossa moeda barroca tem duas faces. Numa face o viver de aparências, o amor do espetáculo, da festa e a boa companhia; na outra face, a mais sombria, a fé eivada de culpa, mortificação e medo do castigo, a obsessão da morte, o prazer no sofrimento como chave da futura felicidade. A vontade de sacrificar alguns de nós (outros, de preferência, nanja eu) para aplacar a cólera da divindade, na esperança de que o amor divino seja restaurado e a nossa prosperidade despreocupada volte.

O que une estas duas faces da mesma moeda é que são ambas igualmente provincianas. Nas duas o mundo não entra a não ser em termos metafísicos. O mundo não é conhecido, abraçado, inquirido, estudado, discutido. Não, o mundo, o estrangeiro, os outros, substituiu a deidade castigadora cristã do período barroco no mesmo medo supersticioso (período barroco que entre nós se prolongou até bem dentro do século XIX e muito depois nas suas manifestações populares). É preciso agradar a essa entidade temível, o estrangeiro, senão ele castiga-nos. Se o bajularmos o suficiente, pode ser que nos deixe ser felizes à nossa maneira, no nosso cantinho.

Mas hoje é a pior das épocas possíveis para não compreender o mundo, quando as nossas fronteiras não estão fechadas, o nosso governo não pode proteger-nos de quase nada do que se passa lá fora, quando pessoas do outro lado do planeta disputam a comida que queremos dar aos nossos filhos, os empregos com que esperamos subsistir, as matérias-primas e a energia com que esperamos prosperar.

Má época para sonhar que, após uns anos de sacrifícios, poderemos, nós ou os nossos descendentes, emergir do pesadelo como se nada se houvesse passado. Muito se passou e vai continuar a passar-se e os nossos problemas são apenas uma parte dos problemas que afligem todos os seres humanos que habitam no nosso planeta. Só sairemos da crise se nos fizermos úteis na resolução desses problemas, em vez de os agravar.

Pensemos no mundo

A nossa pequena crise (pequena vista de fora, enorme para nós) é uma parte de uma sucessão de outras crises mundiais. Sabemos isso, mas só prestamos atenção às mais óbvias: a crise financeira mundial de 2008, a crise da dívida externa dos países periféricos da Europa. Era tudo mais simples se se tratasse só dessas crises, pois os remédios seriam óbvios e conhecidos. Era só endireitar com sacrifício as nossas finanças, reformar o sistema político, ou seja, aumentar a nossa eficiência geral, eventualmente à custa de um retrocesso profundo na justiça social e de um aumento das desigualdades. Seria esse o preço de nos tornarmos, como se costuma dizer, uma sociedade mais competitiva.

Em que campeonato iríamos então competir? Esse é o problema, porque o mundo mudou. Em que sentido, ninguém sabe, porque não se sabe que soluções, boas ou más, construtivas ou catastróficas, terão os graves problemas do mundo, problemas esses que não vemos, infelizmente, entrar na discussão nacional durante a presente crise. Os portugueses imaginam, ingenuamente, que o mundo vai continuar a ser como era e que as condições que vigoraram nas últimas décadas se vão manter, possibilitando o projeto de desenvolvimento industrial interiorizado por todos. Não há condições para prosseguir um desenvolvimento industrial sem limites — e as razões para isso são óbvias.Globo

No centro disto tudo está uma questão tão evidente que ignorá-la é uma exercício estudado de negação para quase todos os dirigentes mundiais e para muitos cidadãos iludidos: não há mais planeta Terra.

Com mais de 6×109 pessoas que precisam de comer e beber todos os dias, muitas com hábitos de consumo muito mais complexos e sumptuosos do que isso, o ecossistema está no limite. A via para resolver o problema do excesso de população exige dar a todos os cidadãos do mundo melhores condições de vida, o que exige recursos. Muitos dos recursos vitais são limitados e todos esses estão a ficar próximo do limite, e essa é, afinal, a razão última de todas as crises, apesar do aspeto esotérico e inesperado que cada uma toma.

A própria saturação do planeta causa dificuldades no uso dos recursos, como é evidente no caso da poluição, da escassez de água potável, além de que põe em perigo, para além da nossa espécie, o resto da biosfera do planeta, o que é testemunhado pela grande extinção de espécies vegetais e animais em curso.

Vejamos o problema do petróleo. Estamos a viver os últimos anos do petróleo relativamente barato. Começa a aproximar-se o ponto em que os principais poderes do mundo entram em conflito para assegurar as suas quotas de ouro negro, primeiro disputando-o pela via dos preços, depois tentando açambarcar as fontes e negar acesso aos outros, depois, talvez inevitavelmente, por meios militares. O que fará também subir o seu preço ainda mais. Além disso, o petróleo de mais fácil extração já foi todo descoberto. As novas localizações (de produção muito inferior ao que já foi descoberto) são em zonas cada vez mais difíceis, com custos cada vez maiores e com balanços energéticos cada vez menos eficientes. No dia em que custar um barril de petróleo extrair outro barril de petróleo, este deixará de ser uma fonte de energia viável.

Dirão os meus leitores: mas é possível mudar para energias alternativas. Sim, com certeza. Mas subestimamos muito a importância do petróleo na nossa vida. Não se trata apenas do nosso carrinho passar a ser elétrico. E os tratores agrícolas? E os adubos e pesticidas com origem petroquímica? E os supercargueiros que nos trazem contentores do outro lado do mundo, praticamente a custo zero? Não é preciso pensar na cultura do etanol a roubar recursos à produção alimentar, basta um aumento radical do preço do petróleo para comprometer a sobrevivência dos mais pobres. Compreende-se a luta dos ativistas alimentares indianos e de outros lugares, defendendo a volta à agricultura tradicional e biológica contra as ofensivas da agro-indústria. É literalmente uma questão de sobrevivência para incontáveis milhões. Por ouro lado, a globalização tal qual a conhecemos acabará, se os custos de transportes voltarem a ser significativos. Obriga-nos isso a pensar em reativar a nossa produção local e a nossa agricultura. A escassez alimentar também obriga a pensar na dieta, pois uma alimentação carnívora é muito mais dispendiosa em energia que uma vegetariana.

O nosso mundo não tem falta de energia. No fim de contas, vivemos em cima de uma bola de ferro e rochas incandescentes, perto de uma fornalha termonuclear gigantesca. Mesmo ao nosso nível, abundam fontes de energia, desde as tempestades eléctricas ao vento e às marés. O problema é que nos habituámos a energias muito baratas e fáceis de usar, mesmo sabendo que iam acabar um dia, e nem sequer desenvolvemos a ciência e a tecnologia para usar as novas fontes quando precisássemos. Mudar o modus operandi do mundo inteiro em poucos anos é uma tarefa ciclópica.

O outro grande problema é o aquecimento global. Não há mais nada a discutir, sabemos que está a acontecer e sabemos que o degelo das calotes polares está a dar-se mais rapidamente do que temíamos. O alagamento das costas de todo o Mundo e a glaciação da Europa, por via do desvio da corrente do Golfo possivelmente ainda levam uns anos a chegar, se chegarem, mas a instabilidade climática já chegou. Uma consequência perversa disso é o declínio da produção agrícola mundial. Qualquer pessoa que saiba o b-a bá da agricultura sabe que as culturas dependem de uma meteorologia previsível. Frio, calor, seca, chuva ou geada fora da época prevista comprometem sempre a produção agrícola.

A humanidade tem poucos anos para se reorganizar de forma nova. O caminho mais evidente é o aumento da eficiência energética das comunidades, em vez da sua expansão, como se pensou até aqui. Muitas escolhas dolorosas terão que ser feitas. Sejam quais forem as soluções adotadas, a nossa atual liberdade de transporte vai ser reduzida. É muito provável que o automóvel tenha os dias contados e que o transporte público volte a reinar. Talvez as grandes metrópoles entrem também em declínio, com uma repopulação do campo. Mas isso também tem os seus problemas, porque a disseminação de incontáveis multidões pelo campo tem um impacto ambiental evidente, sobretudo para fauna e flora selvagens ainda sobreviventes. É possível também que, para as populações que não participam na agricultura, a vida urbana seja mais económica em energia, por causa de distribuição eficiente dos bens. Ninguém sabe.

Os problemas colocados por essa reorganização são extraordinários. Muitos deles nem sequer podem ser antecipados. Mesmo que tudo corresse bem e os dirigentes mundiais mostrassem bom senso, em vez de fecharem furiosamente os olhos e de tentarem fechar os nossos, a época que se avizinha ia ser bem difícil. Sendo as coisas como são, não creio que se consiga evitar grandes convulsões, crises ainda mais destrutivas e muito sofrimento. Quase de certeza não estarei cá para ver, mas preocupo-me, para além da humanidade, com os meus descendentes, que gostaria de ver felizes e produtivos num mundo finalmente mais pacífico e racional.

Um aspecto da globalização que certamente se manterá é a globalização das ideias, visto que estas têm custos inferiores de transporte. Por isso, a inovação científica e tecnológica irá continuar. Isso é absolutamente vital para que possamos vencer a crise. Soluções técnicas, científicas, filosóficas, políticas são o grande recurso que permitirá ultrapassar a crise com custos inferiores ao antecipado. Mas a criatividade irá talvez virar-se para melhores soluções na agricultura e na energia que para criar mais gadgets inúteis.

E Portugal?

Este é o mundo em que teremos de sobreviver e atravessar a nossa crise, É um mundo difícil, mas é também um desafio apaixonante, porque seremos chamados a resolver os nossos problemas e inevitavelmente criaremos soluções inovadoras. Quem sabe, talvez o resultado seja feliz e a prosperidade nos sorria, não medida em expansão e enriquecimento para uns quantos, mas em genuína melhoria da qualidade de vida e, porque não, da felicidade da maioria.

Uma coisa é certa, não viveremos no suposto paraíso perdido do desenvolvimento industrial ilimitado dos fins do século XX. Sem dúvida que teremos que usar a nosso favor a eficiência dos mercados e da iniciativa individual, mas os recursos serão limitados. Terão que ser planeados e racionados. As famosas externalidades deixarão, em geral, de ser toleradas.

O planeamento exaustivo do território, por exemplo, passará a ser uma questão vital, a ser discutida e assumida pela comunidade. Decisões nada fáceis irão condicionar a vida de todos. Onde se investem os poucos recursos e os custos e benefícios resultantes tem que ser visto com muito cuidado, com sabedoria e visão.

O que exige que os cidadãos inventem novas formas, mais eficientes, de controlar também o processo político, porque a utilização racional dos recursos escassos é absolutamente decisiva para a nossa sobrevivência. Outro desafio a vencer.

Conclusão

É talvez um pouco pessimista este artigo. Talvez, partindo do princípio que não faremos nada. Mas faremos. Talvez muito tarde, talvez de forma mais desastrada do que seria de esperar, mas lutaremos para sobreviver, lutaremos para ser felizes, sempre o fizemos.

Nos anos 70 do século XX, era impossível pensar no futuro sem contemplar o espectro de uma guerra nuclear catastrófica. Felizmente, uma tal ameaça (ainda) não se concretizou. Talvez os nossos medos de hoje façam sorrir os vindouros, mas isso só acontecerá se lutarmos arduamente para derrotar as crises que nos ameaçam. Nunca metendo a cabeça debaixo da areia.

(Este assunto é de tal modo multifacetado que possivelmente algum aspeto essencial passou sem ser mencionado. Aceito críticas, evidentemente.)

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