20 de agosto de 2011

Não tires o chapéu

O meu último casamento desmoronou-se mais ou menos ao mesmo tempo que as torres gémeas de Nova Iorque. Desde então tenho vivido essencialmente solteiro, o que me tem surpreendido, pois não tinha feito planos para tal. Mas parece ser um estado mais ou menos sustentável. Razões porque sim ou porque não escapam-me, nem é esse o tema deste texto.

Por um lado não tenho vocação para uma vida de ascese e oração, mas por outro certos aspectos da minha personalidade moderadamente Asperger vedam-me o acesso aos encontros fortuitos e ao sexo comercial.

Este último recurso acho repelente, mas pode ser um caso de uvas que estão verdes e não prestam. Se fosse capaz iria? Francamente, não sei.

Assim, a arte p... erótica tornou-se importante para as minhas precisões.

Isto não é bem verdade. Sempre usei este tipo de coisas para fecundar a minha imaginação e para combater a rotina. A diferença é que agora não tenho censura doméstica.

Na verdade, eu fui pornógrafo antes de ser púbere. Na escola primária, eu era conhecido pelo jeito para o desenho e frequentemente pediam-me gajas nuas. O problema era que não tinha visto nunca nenhuma. Não havia documentação disponível para esse tipo de ilustração. Tentava espreitar por baixo das saias das minhas tias para tentar perceber o que por lá se passava, sem sucesso. Uma vez até fui apanhado. Não foi bonito. Mas enfim, o que não se sabia inventava-se.chapeu

Estava-se na longa noite. Mesmo mais tarde, no liceu ou secundário, circulavam clandestinamente uns postais marotos a preto e branco, coisa mais inocente do que as fotos que se vê hoje nos suplementos de domingo. Mas na altura eram uma sensação, imagens adoradas horas a fio com os rituais secretos que se imagina. Também apareciam folhas salteadas de narrativas bem mais explícitas, sebentas de muitos tratos.

Estes materiais eram tratados com métodos conspirativos extremos, talvez o que o John Le Carré chamaria regras de Moscovo. Se fosse surpreendido a contemplar essas coisas, eu tinha uma história para servir de cobertura. Um livro de banda desenhada, talvez o Falcão. O meu delito seria esse. Mas mais recôndito estava o material que nunca devia ser encontrado, pois se o fosse eu estava em grandes sarilhos, ia meter pai e padre, sermões e interrogatórios, talvez violência física e vigilância apertada. Quando não estavam a ser contemplados, esses materiais eram transportados para um esconderijo secreto, remoto e longe das minhas coisas pessoais que poderiam ser objeto de busca sem aviso. Enfim, longa noite. Por essa altura já produzia eu banda desenhada hard core, pranchas que foram um sucesso entre os meus amigos mas que nunca mais vi. Essa minha carreira de artista clandestino terminou por aí. Por essa altura também, indiscutíveis autoridades asseguravam às crianças que o onanismo provocava a cegueira e fazia crescer as mamas nos rapazes. Isso afligia-me, pois eu tinha uma miopia grande e era um rapaz gorducho, com umas mamocas bem maiores que muitas meninas da minha idade. Mas a ciência salvou-me, pois logo descobri que aquilo era tudo treta, o que removeu toda a minha fé naquele tipo de autoridades.

E por aí adiante, sempre traí as minhas parceiras comigo próprio, na expressão pitoresca e indignada de uma delas. O que, toda a gente sabe hoje, praticamente qualquer homem ou mulher funcional não se pode coibir de fazer.

Hoje, com a Internet, a oferta é extraordinária em arte p... erótica. Não quero entrar na discussão se é arte ou não. A arte sempre produziu emoções, desde as mais refinadas do prazer estético, às mais básicas e mais animais e humanas, o que vem a dar no mesmo.

Para além da bebidas forte dos materiais audiovisuais, sempre me atraiu o vinho suave da literatura deste campo. A trilogia do Henry Miller, que se via em todas as estantes da minha geração e da seguinte, a Anaïs Nin, o D.H. Lawrence, a Natália Correia com a sua Antologia de Poesia Erótica e Satírica, até o Decameron de Boccaccio e a Fanny Hill.

A narrativa literária tem este trunfo na manga frente ao poder do audiovisual: o que lhe falta em dimensões físicas é compensado por outra dimensão não física: a telepatia. Esta não funciona na vida real (se funcionasse era um sarilho), mas no texto permite-nos conhecer todos os pensamentos e emoções dos personagens, saber, imaginar e em certos casos partilhar as suas sensações mais subtis ou mais discretas. Como todos sabemos, passa-se muito mais debaixo da nossa pele que o que se vê de fora – mas tudo isso é transparente à narrativa literária.

Uma enorme biblioteca

Recentemente descobri na Internet, através de uma amiga norte-americana do Facebook que lá publica, um sítio dedicado à literatura sensual, o Literotica. É um site onde todos podem publicar os seus textos, com algumas centenas de milhar de entradas. Os textos aparecem referidos de acordo com as conhecidas especialidades para este tipo de assunto e filtrados por popularidade, pois há um sistema de votos, prémios e tudo. Há mesmo secções para textos em línguas diferentes do inglês, mesmo uns quantos em português (aí encontrei um texto delicioso sobre um romance entre duas camponesas há umas dezenas de anos, numa prosa quase digna do Aquilino).

É de esperar que neste sítio as fantasias privilegiem comportamentos bastante afastados dos prevalentes na maioria, mas mesmo assim surpreendeu-me a preponderância das narrativas ligadas ao incesto, transversais a todas as variações de género e número. Curioso, talvez inquietante, não sei.

Um aspecto francamente hilariante é a indicação, no início das narrativas de origem norte-americana, de que todos os personagens, mesmo fictícios, têm mais de 18 anos. Já agora deviam ser obrigados a apresentar um documento comprovativo, também imaginário... Há outro pormenor curioso: são incapazes de descrever o aspeto físico de uma mulher sem mencionar a altura e o número do sutiã, nem o de um homem sem mencionar também a altura e o comprimento da pila. Suponho que são um povo muito quantitativo.

Outro tema transversal a tudo é o do domínio/submissão, desde as variedades mais cruas que incluem dor e restrição ou prisão às situações mais sofisticadas de puro controlo mental. Este assunto interessa-me. Uma vez uma mulher abandonou-me e eu fiquei com a nítida sensação que ela desejava ser submissiva na cama, coisa que na altura, com todos aqueles ideais igualitários dos anos 70, eu considerava repulsivo. Mas não façam confusão, era uma mulher bem forte e altiva fora da cama. Pergunto a mim próprio, sabendo o que sei hoje, teria sido capaz de desempenhar o papel? Quereria? Hum...

O comprimento das peças também varia muito, desde descrições de breves encontros casuais até uma biografia quase completa de uma pessoa e os seus amores, casos e separações ao longo dos anos.

Para além da qualidade literária diversa (mas não se vai lá por isso, não é?, se bem que...), a profundidade psicológica e descritiva também varia muito, desde o tipo tiro-e-queda do ponto de vista do predador masculino ou feminino, interessado na quantidade e diversidade mas muito pouco nas pessoas em si, até à narrativa romântica, detalhando todos os estados de alma, medos e inseguranças, de mulheres amantes doutras mulheres, não as machonas (butch), masculinas até à caricatura, mas as outras, as mais femininas, chamadas lipstick lezzies (ou fufas do batom, diríamos nós).

Não é nada original para um homem, mas eu gosto deste grupo, sempre gostei. Sou um estudioso das mulheres, um estudioso que garantidamente nunca compreenderá nada.

Esta exuberância sentimental, com grandes declarações, separações dramáticas e reconciliações ardentes, parece corresponder às sáficas que conheci na vida real. Para estas como para muitas outras mulheres, a emoção está primeiro. Sem o elemento moderador dos homens, a emoção dispara. Suponho que entre os homens com homens se passa o inverso, uns autênticos carniceiros. “Hum, gosto de ti! Bora lá?” Mas são apenas clichés, toda a gente é diferente. Na verdade, nunca fui às secções destes tipos. O meu prazer não passa por lá.

Conhecimentos práticos

Além do mais, sempre se aprende qualquer coisa que pode vir a ser útil, quem sabe. Por exemplo, a questão do tempo e do ritmo. Devido talvez à nossa fisiologia ou a qualquer comportamento arcaico muito enraizado, nós machos tendemos a planear as cenas de cama como obras-primas estruturadas, assim tipo Quinta Sinfonia do Beethoven, com uma entrada emocionante, um tempo mais subtil de variações, para dar tempo à mulher de fazer o seu crescendo (em que por vezes temos de olhar para o teto e pensar em coisas chatas e nada sensuais para não nos precipitarmos), e por fim o gran finale, apoteótico e apoplético, em que ambos têm que terminar em simultâneo e em glória. Como qualquer planeamento detalhado, raramente corre bem.

As sáficas, pelo contrário, são mulheres e podem estar naquilo toda a noite, se quiserem. Portanto, tendem a seguir o seu próprio ritmo e a encontrar o prazer quando o encontram. Lembro-me de uma cena em que a que estava naquele momento no papel passivo estava excitadíssima, impaciente e exigia que a outra a levasse ao prazer imediatamente. Mas a ativa, mais experiente, não ligou nenhuma e continuou pachorrenta as suas carícias, acumulando energia para um final mais poderoso. Qualquer homem tem muito a aprender com isto.

Porém, muitas moças comportam-se com os moços de tal forma que parecem esperar, até exigir deles aquele comportamento falocrático. Aqui é muito difícil ao rapaz dizer que não, porque ela pede exatamente o que ele por inclinação gosta de fazer. Além disso, há quase sempre aqui um pouco de desafio, de convite a que ele mostre o seu poder físico, e a isso é ainda mais difícil negar-se. Caí muitas vezes nessa esparrela, pois caí.

Pronto, vou ficar por aqui senão nunca mais me calo.

Talvez um dia eu ainda possa pôr lições destas em prática.

Entretanto, não tires o chapéu...

Usei esta linguagem algo elíptica de propósito, porque estou num texto público, e não quero que os robots rastejadores da Google/Blogger (é tudo a mesma gente) encontrem palavras-chave que indiquem um assunto um pouco mais sensual, pois podem impor-me um acesso restrito ao blogue. Pela mesma razão, não apresento links ativos, pois os rastejadores iriam descobrir que eram lugares considerados para gente crescida e tramavam-me à mesma. Quanto às. crianças, bah! Se o vosso filho ou filha pós-púbere não está quase sempre a pensar em sexo, levem-no urgentemente ao médico, porque a situação é grave.

2 comentários:

  1. Não tires o chapéu! Gostei.Um texto longo mas descrito de uma maneira original só conseguida pelo Mestre Carlos.
    A prosa leva o leitor à procura do "porquê" do nome do título onde só encontra a justificação no seu final.Fenomenal.Quando ao seu conteúdo já todos sabemos que é mesmo assim!

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