26 de fevereiro de 2012

A minha polémica abstrusa preferida

De há uns anos para cá, que de vez em quando, vou ver o que se passa numa das mais estranhas polémicas em curso, num restrito mundo académico. Um assunto em que se esgrime com passagens obscuras de ainda mais obscuros manuscritos, em línguas mortas só conhecidas precisamente pelos sábios que se dedicam a essas polémicas. Mas o assunto, curiosamente, diz respeito a um dos livros mais popularmente conhecidos e a uma das personalidades mais célebres da história.

Nem mais nem menos que a Bíblia e Jesus Cristo. A questão é a historicidade de Jesus Cristo, ou seja, a que tipo de pessoa histórica corresponde a lenda de Jesus Cristo, se é que corresponde a alguma pessoa real.


A maioria dos ateus, assim como todos os cristãos, tem acreditado na existência de um Jesus histórico. Só uma minoria crê que a sua existência é puramente mítica -- o Jesus mito. Porém, recentemente, alguns pensadores ateus e cépticos americanos de peso têm-se juntado a esta minoria. Refiro-me a David Fitzgerald, autor de Nailed: Ten Christian Myths That Show Jesus Never Existed at All, a Richard Carrier, autor de Proving History: Bayes's Theorem and the Quest for the Historical Jesus e a Robert M. Price, autor de The Case Against The Case For Christ: A New Testament Scholar Refutes the Reverend Lee Strobel. Aqui neste vídeo David Fitzgerald expõe o caso:

 


A posição de que as narrativas dos quatro evangelhos cristãos oficiais (Marcos, Mateus, Lucas e João) mais as Epístolas e os Actos dos Apóstolos correspondem à verdade histórica não é hoje defendida por historiadores sérios, fora das correntes fundamentalistas e literalistas. De resto, os próprios quatro Evangelhos apresentam narrativas incompatíveis entre si.

Ao longo dos séculos XIX e XX, um grupo crescente de estudiosos interessou-se pelos textos bíblicos e pelo Novo Testamento cristão, de forma largamente independente das instituições de ensino religioso. Tornaram-se evidentes enormes discrepâncias nos textos, emendas tendenciosas a que foram sujeitos para corrigir o que os autores originais teriam dito e, acima de tudo, a datação era completamente fantasista. Os Evangelhos não poderiam ter sido escritos pelas pessoas a quem eram atribuídos pela tradição, os discípulos de Jesus, pois se trata de textos cinquenta a cem anos, pelo menos, posteriores à sua morte.

De momento, há duas posições credíveis, na minha opinião, com respeito à historicidade de Jesus. De um lado, os que acreditam no Jesus histórico, por exemplo o Jesus Seminar, um grupo de estudiosos bíblicos laicos e crentes que, através de uma crítica severa dos textos bíblicos, podaram tudo o que consideraram historicamente duvidoso -- o que resultou numa poda radical. Descrendo da maioria dos milagres e outras efabulações dos Evangelhos, estes estudiosos crêem mesmo assim num Jesus humilde, talvez ignorante, um profeta milagreiro na base da futura religião.

Da outra corrente, a do Jesus mito, o representante sério mais completo, na minha opinião, é Earl Doherty (há muitas teorias mal cozinhadas e loucas que vamos ignorar), que mantém o web site The Jesus Puzzle e escreveu o livro do mesmo nome. Na sua opinião havia uma multidão de seitas judaicas sob a influência do platonismo grego que postulava um mundo da matéria e outro do espírito. Aquele era o domínio do mal e do corpo, este o da divindade. Para permitir aos homens alguma forma de comunicar com a divindade, imaginaram um faceta da divindade capaz de descer à terra. Chamaram-lhe Sabedoria ou Sofia, um aspeto feminino da divindade objeto de culto entre as seitas judaicas já desde o tempo de Salomão. Mais tarde a teologia evolui, chamaram-lhe o filho do Deus. Esse filho do Deus vem às esferas inferiores da atmosfera e é morto pelos demónios que lá habitam, o que resulta na ruína deles, porque a divindade ressuscita e liberta a humanidade.

Novo passo na evolução da teologia: em vez de vir apenas à atmosfera, às regiões sublunares, enfrentar os demónios, o filho de Deus faz-se homem, morre e ressuscita entre eles.

Algumas das seitas evoluem para o Gnosticismo, com um deus mau que fez o mundo, o Demiurgo, o Deus bom demasiado inacessível para ser uma solução e o Filho como a salvação que vai permitir voltar a reunir os homens com Deus. Outras tornam-se historicistas e procuram a sua validação numa lenda histórica que as ligue ao fundador, e assim investem trabalho, fantasia e falsificação para criar essa história.

Esta teoria explica porque é que as narrativas perto da suposta morte de Jesus não têm qualquer pormenor, que abunda nas que foram escritas mais tarde.

Mas o mais certo é nunca se saber. Os documentos foram todos mutilados e falsificados e possivelmente nada há para além destas fontes extremamente duvidosas. Quanto a mim, não sei grego nem hebraico nem aramaico e por isso nunca estarei habilitado a ter uma opinião independente sobre isto. Mas é a minha polémica abstrusa preferida, pronto!

E para mim não deixaria de ser uma monumental piada, se o Jesus histórico afinal não existisse. Muitos cristãos poderiam continuar a sua relação com um Cristo cósmico sem problemas, mas não a Igreja Católica, cuja legitimidade se apoia na chamada tradição apostólica -- ou seja, num encargo que Jesus teria dado em pessoa ao seu discípulo Pedro e aos seus sucessores. Puf!

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