9 de setembro de 2012

Portugal deprimido

Aspectos da vida do nosso país, nestes últimos tempos, têm-me feito lembrar um quadro clínico infelizmente, para mim, familiar. Recentemente fui vítima de uma depressão grave e alguns dos sintomas que me habituei a reconhecer e que tive de combater para sobreviver, encontro-os reproduzidos na paisagem mental deste nosso país em crise.

Todos sabemos que a crise é real, não estou a dizer o contrário. O que me faz confusão é a forma como os portugueses a enfrentam. Perpassa em todo o lado uma resignação, um baixar de braços, um encolher de ombros, uma aceitação inexplicável da falta de esperança, da falta de futuro.


As condições brutais impostas pelo capital financeiro internacional, agravadas constantemente pelo Troika Passos ou por um dos seus acólitos, são olhadas com indiferença, mesmo com um encolher de ombros. O coro sicofanta da comunicação social quase completamente açaimada suscita pouco mais que olhares vagos, piadas amargas e fracos sorrisos de descrédito. Existe uma concordância tão alargada que é quase unanimidade em que a austeridade não é para todos e que quem paga a crise são sempre os mesmos, os que trabalham. E no entanto isso é aceite de forma fatalista.


Vincent Van Gogh, 'Homem em Desespero',
Fonte: Wikipedia

Tampouco se espera grande coisa dos remédios tradicionais da esquerda. Nem os tribunos desse campo parecem acreditar no que repetem maquinalmente, quanto mais o seu público.

O que resulta disto é uma enorme resignação. Não uma resignação esperançada, uma decisão de aguentar com estoicismo as dificuldades do presente e do futuro próximo, contando que os bons tempos voltarão. Não. A expectativa de quase toda a gente (à exceção de quem tenha em mira aboletar-se com umas migalhas, colaborando no saque) é que os tempos serão cada vez piores, a injustiça cada vez mais gritante, a simples sobrevivência cada vez mais difícil.

A consciência de cada vez mais portugueses é que o país está a ser saqueado pelo capital financeiro internacional, não no quadro de uma operação capitalista supostamente criadora de atividade económica e de riqueza, mas numa atividade predatória indiferente ao futuro da presa.

Pior ainda, os portugueses sabem disto e não sabem de nenhuma forma de reagir e lutar pela sua sobrevivência, pela sobrevivência do país.

É por isso que me dá a impressão de estar rodeado por uma depressão profunda, quiçá suicidária. Esse estado de espírito convém a quem nos está a violar, evidentemente. Assegura que não seremos capazes de reagir, para além, talvez, de algum esbracejar desconexo.

Reagir

Quem sou eu para dar conselhos ao meu país? Apenas um cidadão entre milhões com a sua opinião, mas não renuncio a ela. Curiosamente, os remédios para esta situação parecem-me seguir na mesma direção dos conselhos que normalmente são dados a quem mergulha num estado depressivo.

É caraterístico de quem está deprimido isolar-se e concentrar-se exclusivamente nas suas desgraças. Romper o estado depressivo implica sempre retomar o contacto com os outros, trocar pontos de vista e encarar formas positivas de resolver os problemas existentes. Evidentemente que, a um nível psicológico, existem muitas vezes também problemas neuroquímicos que exigem medicação, mas vou ignorar isso e tratar esta depressão como puramente reativa.

Para os portugueses, há o problema de Portugal. E há o problema da Grécia para os gregos. E o problema de Espanha para os espanhóis. E por aí fora. O problema é que praticamente todos os países do mundo estão a ser saqueados pelo capital financeiro, o qual ganhou condições para se situar praticamente fora de qualquer controlo e se encontra, pelo contrário, na posição de impor as mais humilhantes e desastrosas condições financeiras a qualquer país. Isolados, os países estão impotentes. Todos eles, mesmo os mais poderosos, serão obrigados a capitular.

A comunicação social mundial pertence também ao capital financeiro. A sua missão é a de criar as condições para que os públicos não compreendam que têm opções e que não estão indefesos.

Os governos de quase todo o mundo são eleitos pelos seus cidadãos, não pelo capital financeiro. Se os seus cidadãos começarem a mostrar-lhes que é importante controlar estas entidades parasitas, podem criar-se condições para uma luta eficaz.

Essa luta nunca será eficaz a nível nacional. Qualquer país rebelde isolado será esmagado e será feito exemplo para atemorizar os outros. O nacionalismo não é a solução. Mas que acontecerá se um número significativo de países se puser de acordo em impor condições drásticas ao capital financeiro? Que tal se a Comunidade Europeia, ou pelo menos parte dela, fosse esse grupo de países? Que aconteceria se um suficiente número de países se pusesse de acordo em só fazer comércio preferencial com países onde os direitos dos trabalhadores fossem respeitados?

Romper o isolamento, procurar aliados, essa é a solução.

Não disse que era fácil. Mas parece-me mais fácil — e menos penoso — que cruzar os braços.

Que pensam disto?

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