18 de novembro de 2014

Conceitos da Internet e das redes sociais - Troll

Nesta série educativa, vou começar por uma entidade mais ou menos básica, o troll. Muitos o conhecem, mas estou a dirigir-me a um público português,  muitas vezes principiante nestas viagens, por isso o básico não deve ser desprezado.

O troll é uma criatura mitica, malévola, das lendas nórdicas, que ganhou assento, a partir do Senhor dos Anéis de Tolkien e doutras histórias, na ficção de fantasia moderna e nos cenários de jogos muito populares do tipo dungeons & dragons (masmorras & dragões)


Na Internet, o troll não é um bicho assim tão temível,  é simplesmente mau e chato. Ou começou por ser. O objetivo do troll da Internet é estragar discussões e fóruns. Onde quer que haja um grupo de pessoas a discutir calmamente um assunto qualquer, o troll vai  procurar azedar a discussão,  semear mal-entendidos, baixar o nível.

Se tiver conseguido sabotar uma discussão, indo mesmo ao ponto de fazer os interlocutores perderem a calma e cortarem relações uns com os outros, o troll sentir-se-á feliz. Dirá que a sua recompensa são os lulz. Como sabemos, lol é o riso aberto, laughing out loud.

Mas os lulz são diferentes, são um riso sinistro, tipo filme de terror. Essa é a recompensa do troll.

Mas com o tempo, tudo se torna mais complicado.

Para um troll isolado, no meio de uma discussão,  a melhor solução  é ignorá-lo. Os participantes devem indicar uns aos outros que aquele é um troll e deixar de discutir com ele, frustrando assim os seus objetivos.  Daí o ditado da Internet: Não dêem de comer aos trolls!

Há uns tempos, no meio de uma discussão política no Facebook, um dos intervenientes começou a provocar de forma grosseira um dos meus amigos, por sinal um com quem eu tenho zero pontos de acordo. A coisa descambou de tal maneira que pareciam prestes a combinar um encontro na rua para andar ao soco. Fui investigar o intruso e o perfil não tinha informação nenhuma. Alertei quem estava na discussão que se tratava de um troll e mandei uma mensagem privada ao tal amigo a alertá-lo para a armadilha em que estava a cair. De imediato ele abandonou o confronto. O troll, desmascarado, virou-se contra mim, mas nada podia fazer e acabou por desaparecer dali.

Mas ultimamente tem havido situações em que os trolks aparecem em bandos e é impossível ignorá-los. A situação mais típica é no assédio de ativistas feministas online.

Pode parecer, para qualquer pessoa com alguma abertura de espírito, que as reivindicações feministas são mais ou menos consensuais. Mas não é,  de forma nenhuma, o que se passa, sobretudo quando essas ativistas feministas criticam procedimentos que consideram sexistas.

Há um par de anos, a feminista e ateia norte-americana Rebecca Watson, depois de uma reunião num hotel em Dublin, foi seguida por um dos participantes até ao elevador, às quatro da manhã,  onde lhe propôs ir ao quarto dele tomar um café. Rebecca Watson pronunciou-se publicamente, apelando: "Homens, não façam isto!"

A reação dos trolls foi devastadora. Toda a espécie de insultos grosseiros, fantasias de violação e de assassínio,  imagens chocantes de conteúdo sexual ou violento saturaram as redes sociais durante meses, mesmo anos, no que ficou conhecido pelo Elevatorgate. Mesmo gente de responsabilidade no movimento ateu, que deveria ter mais juízo apareceu a condenar Rebecca Watson, como Richard Dawkins.

Não foi um caso isolado. Anita Sarkesian, que se dedica a analisar e criticar o sexismo dos jogos de computador, para além do assédio generalizado nas redes, viu a sua página da Wikipédia coberta de calúnias e chegou mesmo a ter de cancelar uma conferência devido a uma ameaça de massacre da assistência. Outras ativistas viram os seus endereços publicados na Internet (doxing), os filhos ameaçados,  algumas retiraram-se completamente das redes. Noutros casos, tentaram que fossem despedidas dos seus empregos.

O caso mais recente é a shirtgate. Na missão espacial em que uma sonda acostou a um cometa, um cientista apareceu com uma camisa com mulheres seminuas. Uma jornalista criticou a camisa e outras feministas secundaram a crítica.  O cientista pediu desculpa, mas a claque saiu em defesa dele e quer fazer dele um herói,  e entretanto lançou uma coleta de assinaturas para fazer despedir a jornalista.

Para este tipo de trolls, o unico antídoto parece ser o isolamento social e a solidariedade autêntica com as suas vítimas. Entretanto, também há um robot banidor que mantém uma base de dados dos piores prevaricadores e os mantém longe e banidos do acesso às suas vítimas.

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