15 de janeiro de 2015

Cuidado com as boas notícias...

Os preços dos combustíveis estão a descer, o que, aparentemente, é uma boa notícia. Até há esperanças de que isso ajude a tal famosa recuperação económica, mais esperada que a segunda vinda de Cristo. O nosso inadjetivável primeiro-ministro Pedro Passos Coelho até veio há um par de dias à TV inspirar-nos confiança.

Que o pior já tinha passado, que íamos poder aliviar um bocadinho os sacrifícios, na perspetiva, não de uns amanhãs soalheiros, mas talvez de um pouquinho só de nevoeiro matinal, sem chegar a bater o dente. Corações ao alto era, então, a mensagem.

Como não podia deixar de ser, oiço hoje na rádio uma notícia que fez desmoronar toda esta fantasia: o país está em recessão. Outra vez. Não há fim para o pesadelo.

E à noite encontro este artigo da Bloomberg, Os alarmes de recessão estão a soar ensurdecedores que dá conta que o perigo de recessão não é nacional, caseiro, é global. Diz o articulista que toda a gente tem estado a olhar para os preços do petróleo como uma iniciativa da Arábia Saudita, talvez a mando dos EUA, para prejudicar a Rússia, embora não faça muito sentido, pois prejudica igualmente a indústria petrolífera da América do Norte. Mas na verdade não é só o petróleo a baixar de preço. Todas as matérias-primas, as commodities, têm estado a afundar-se de forma dramática, como mostra o gráfico seguinte do mesmo artigo.


Entretanto as previsões de inflação da zona Euro estão abaixo das previsões de Mario Draghi:

E o mesmo se passa com a inflação no Reino Unido:

Os custos do crédito governamental a cinco aznos aproximam-se do zero, tanto para o Japão como para a Alemanha:

Diz o autor: "Isto não era suposto ser assim. Políticas de zero juros combinadas com quantitative easing deveriam ter suscitado uma recuperação económica global, incentivando a confiança dos consumidores, fazendo subir os salários e tornando as firmas suficientemente otimistas para subirem os preços dos seus bens e serviços. Em vez disso, cada dado novo tem revelado a probabilidade da deflação, um declínio geral nos preços que, dizem-nos os economistas, torna toda a gente relutante em gastar e investir".

A causa da baixa de preço das commodities parece ser então uma baixa global de procura, um sinal inquietante de recessão global.

De um outro artigo, este do Daily Kos, "Não é só o petróleo a cair, e isso não é bom", vem este gráfico que mostra que o fator decisivo da queda dos preços do petróleo foi mesmo uma quebra de procura:

O mesmo artigo chama a atenção para uma matéria-prima com papel de indicador sobre a atividade económica em geral, o cobre, Por ser usado numa multiplicidade de produtos industriais, a procura do cobre é um indicador importante, que também está a dar sinais de alarme:

O Baltic Dry Index, que, apesar do nome, regista o tráfego mundial de navios graneleiros, regista igualmente um declínio:

Os economistas e gestores que tomam decisões sobre esta coisa, pelos vistos, mesmo sendo principescamente recompensados, não sabem o que fazem. Eu, muito menos. Portanto, pode ser que me engane. Esperemos que sim...



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