21 de novembro de 2015

De barriga cheia

Barriga. Assunto complicado. Fala-se muito dela, mas de forma francamente opressiva. Os agentes que querem ganhar dinheiro a vender dietas ou exercícios, ou mesmo curas milagrosas, referem-se à barriga em termos muito depreciativos. Compreende-se, porque é no envergonhar do utente da barriga que reside o seu possível ganha-pão.

Há também os privilegiados com corpos esbeltos, que mencionam com desprezo os seres inferiores que carregam nos seus corpos o estigma. Como a maioria das elites, a pertença ao privilégio raramente resulta de algum mérito. É sorte, os genes certos ou simplesmente juventude.



A minha não é tão grande, mas...

Também já fui jovem e, senão esbelto, pelo menos bem mais elegante. Como diz uma amiga minha, isso foi "há vinte quilos atrás". Tantos movimentos e ações que se fazem sem custo, sem esforço, sem pensar, quando o corpo funciona perfeitamente! Já lá estive e lembro-me.

Muitas coisas diminuem a mobilidade da pessoa quando passam os anos. Para mim, a maioria das mazelas começou ao virar a página dos sessenta. São conhecidos e reconhecidos os problemas músculo-esqueléticos: lesões nas articulações, artroses, com diminuição da capacidade de mover-se, brincar e trabalhar. Os problemas cardíacos e a tensão alta são mais ameaçadores, mas afetam menos a liberdade de viver – até um dia.

Eu próprio não fazia ideia do que é viver essas diminuições. Quando via alguém a coxear ou numa postura estranha, imaginava tratar-se de um problema essencialmente mecânico. O que eu não relevava era a dimensão de sofrimento associada a todos esses movimentos penosos. Agora sei.

Mas voltemos à barriguita. A maioria dos homens não consegue escapar a ela, quando envelhece, mesmo que tenham sido bem magros antes. Conheço muitos. Eu nunca fui exatamente magro, portanto o meu desenvolvimento ventral era de esperar. A maioria das mulheres não concentra a gordura no abdómen, têm-na espalhada mais ou menos por todo o corpo. Os homens é que têm tendência a usar essa mochila abdominal.

A forma do acrescento também varia. Muitos têm uma espécie de bola, uma barriga de grávida; eu sou daqueles que a têm mais difusa, assim como uma grande almofada entre o peito e a cintura.

Para além da auto-estima diminuída – inevitável perante a suposição implícita de que o barrigudo é alguém de apetite desmedido e preguiça de se mexer, indigno de ser considerado em qualquer escolha sexual – o grande inconveniente da barriga é ser muito incómoda.

Como muitas coisas na vida, cresce lentamente e nós vamo-nos, sem dar por isso, acostumando às limitações da mobilidade.

Começa pela questão do peso. Andar todo o dia com todo aquele fardo é duro, porque aumenta o esforço do coração, da circulação, dos músculos e dos ossos.

O pior é a limitação da capacidade de contorção. Quando vamos dobrar-nos aquela coisa está ali no meio e impede-nos. Sentar no chão e levantar torna-se uma façanha. E quando tentamos dobrar-nos, ficamos de repente sem fôlego. Porquê? Porque a barriga, quando nos dobramos para a frente, comprime-nos os pulmões

Atar os sapatos, está-se a adivinhar, é um trabalho. Tocar com as mãos no chão, estando em pé, é muito difícil.

Mesmo assim, não levem muito a sério este meu lamento. Não sou propriamente velho, mas já entrei na idade em que a vaidade é um luxo desnecessário e mesmo ridículo. O essencial é manter o ginggarelho a trabalhar, limitar os estragos e seguir em frente – até onde der. E ir gozando a vida!

Não me levem a mal aquelas ou aqueles que têm pior saúde e passam sofrimentos de outra ordem de grandeza. Falei aqui dos meus problemas, sabendo bem que, no fim de contas, sou mais ou menos saudável e tenho pouco de que me queixar.

Também senti que tinha piada partilhar esta minha vivência da proeminência ventral. Para os elegantes ficarem com uma ideia do que é ser barrigudo; para os meus confrades de cintura dilatada sentirem que alguém partilha o seu infortúnio, fala disso sem vergonha e desafia a marginalização imposta a quem não corresponde à imagem dominante do corpo.

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