1 de dezembro de 2015

Penso, logo sou previsível... 1. Introdução

Tenho andado a ler textos que me colocaram alguns problemas. Li um livro muito interessante sobre o fascismo — The Anatomy of Fascism de Robert O. Paxton (o linque é para descarregar um PDF gratuito) que, entre muita outra informação fundamental, discutia o problema da radicalização. Pessoas pacíficas e pacatas abraçam uma ideologia extremista e paulatinamente começam a praticar atos cada vez mais antissociais e mais criminosos. Como é isso possível?


Ao mesmo tempo tenho seguido uma polémica que me levou, como dano colateral, a tomar conhecimento de toda uma literatura de investigação precisamente sobre radicalização, desta vez centrada na evolução dos recrutas da Alcaida e do Daesh, mas com construções teóricas criadas no estudo dos terroristas de extrema-esquerda dos anos 70 do século XX e de cultos religiosos lunáticos (How Terrorists Are Made, uma série de quatro postes no blogue Vridar), por exemplo.

Isto põe problemas complicados. Por exemplo, para um polícia ou para um pesquisador vocacionado para apoiar cientificamente a atividade policial, a radicalização põe-se como um processo que faz o indivíduo sair do quadro dos valores políticos aceites na sociedade vigente. A tentação é grande de taxar de radicalização e policiar, para além do terrorismo, toda a atividade política mais antagónica dos partidos do arco do poder.

Mas a democracia, conceptualmente, baseia-se na liberdade dos cidadãos optarem politicamente sem interferência do poder instalado. Importa, assim, balizar claramente o que pode e deve ser policiado e o que tem que ser protegido da intrusão policial.

Todos nós temos opiniões sobre o mundo, baseadas no que sabemos, no que amamos e odiamos, nos valores que absorvemos, nos mitos que usamos. Essas opiniões são importantes para a nossa identidade: Eu sou patriota, eu sou benfiquista, eu sou de esquerda.

As ciências humanas, entretanto, estudam como formamos essas opiniões, como as modificamos, como abandonamos ideias a que antes aderimos e abraçamos outras. Sem surpresa, sabe-se que as nossas opiniões e a sua alteração podem ser descritas de modo científico, o quer dizer que, enquanto imaginamos o nosso pensamento livre e autodeterminado, ele segue caminhos bastante previsíveis.

Previsíveis no que respeita aos grandes números, naturalmente. Quanto ao indivíduo, na sua mente cruzam-se tantos factores diversos, complexos e, na maior parte, desconhecidos que o seu comportamento e pensamento se mantêm imprevisíveis.

Saber se somos realmente previsíveis ao nível individual é uma discussão teórica, psicológica e neurológica que tem andado bastante acesa, mas onde não me quero meter agora. Pode ser que ao nível nano — celular, molecular, iónico e eletrónico — o nosso sistema nervoso seja afetado por uma indeterminação fundamental baseada no princípio da incerteza de Eisenberg; ou pode ser que o número de partículas em ação seja tão grande que esse princípio se torne irrelevante, como acontece em geral no mundo macro em que a nossa consciência habita.

Mas sim, as nossas ideias e a sua mudança são previsíveis, muito no caso da multidão, pouco no caso do indivíduo. O que me interessa aqui são os problemas éticos e filosóficos criados por essa previsibilidade.

Até agora não fiz mais que introduzir o problema, mas o poste já vai longo, estou com sono e com frio e vou deixar o desenvolvimento para o segundo capítulo.

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