Deuses que morrem e ressuscitam: É pagão, pessoal. Superem isso.
Tradução em português de Dying-and-Rising Gods: It’s Pagan, Guys. Get Over It. no seu site richardcarrier.info
29 de março de 2018
A Páscoa deste ano calha, apropriadamente, no Dia das Mentiras. Porque, de facto, a ressurreição de Jesus é semelhante à maior partida da história. Não porque alguém a tenha realmente falsificado (embora as provas que nos restam sejam totalmente consistentes com a hipótese de que sim: veja-se o capítulo de Robert Price “Explaining the Resurrection without Recourse to Miracles” (Explicar a Ressurreição sem Recorrer a Milagres) em The End of Christianity (O Fim do Cristianismo), um livro que recomendo vivamente por todo o seu excelente conteúdo). Mas antes porque as histórias sobre o sucedido — escritas uma geração inteira depois do início da crença, numa terra e numa língua estrangeiras, depois de todas as testemunhas reais já estarem aparentemente mortas e longe do local onde viveram — nos enganaram. Histórias falsas que os cristãos modernos ainda engolem completamente, sem questionar, verdadeiras partidas de 1 de Abril que são.
É claro que a crença original começou com "visões" (alucinações ou sonhos que se acreditavam ou afirmavam ser comunicações reais do Jesus ressuscitado no espaço exterior) inspiradas por leituras "inspiradas" das escrituras (o que levou alguns seitas marginais a acreditar que o messias morreria e ressuscitaria, e que isso assinalaria o início do fim do mundo); e não por encontros reais com Jesus a caminhar num corpo ressuscitado. Esta ideia foi inventada muito tempo depois. Assim como o disco voador de Roswell, que começou por ser apenas alguns paus e papel de alumínio que algum tolo encontrou no deserto, mas evoluiu — exatamente no mesmo período — para uma nave espacial inteira armazenada na Área 51, com corpos alienígenas autopsiados no seu interior. Talvez o segundo maior mito da história.
De qualquer modo, a ideia de um deus salvador pessoal que morre e ressuscita para voltar a viver não era original do cristianismo. Na verdade, era uma moda. Muitas culturas em redor das fronteiras da Judeia, e que ali viajavam e comercializavam, tinham esta crença. Era a grande tendência. Não foi, por isso, de estranhar, neste contexto, que alguns judeus radicais decidissem inventar o seu próprio. E talvez o tenham feito deliberadamente, numa tentativa de reformar o que acreditavam ser um sistema religioso corrupto; ou talvez o tenham feito inconscientemente, com as suas mentes subconscientes a "interpretar" as escrituras com base em ideias que absorveram sem pensar de todas estas culturas e modas estrangeiras, e depois "convencendo" as suas mentes conscientes de que era verdade, evocando visões que confirmavam as suas intuições subtilmente influenciadas. De qualquer modo, Jesus é apenas um recém-chegado à festa. Mais um deus salvador pessoal que morre e ressuscita. Só que desta vez, judeu.
Compreender o contexto
Dentro dos limites do que era então o Império Romano, muito antes e durante o alvorecer do cristianismo, existiram muitos deuses que morriam e ressuscitavam. E sim, eram deuses — alguns até metade deuses, metade humanos, de linhagem divina ou mágica, tal como Jesus (João 1:1-18; Mateus 1:18-25; Lucas 1:26-35; Filipenses 2:6-8 e Romanos 8:3). E sim, morreram. E estavam mortos. E sim, ressuscitaram; e viveram, ainda mais poderosos do que antes. Alguns regressaram no mesmo corpo em que morreram; alguns viveram a sua segunda vida em corpos ainda mais poderosos e mágicos do que aqueles em que morreram, como Jesus (1 Coríntios 15:35-50 e 2 Coríntios 5:1-10). Alguns deixaram túmulos ou sepulturas vazias; ou tiveram corpos que se perderam ou desapareceram. Assim como Jesus. Alguns regressaram à vida no “terceiro dia” após a morte. Assim como Jesus. Todos foram viver e reinar no céu (não na terra). Assim como Jesus. Alguns chegaram a visitar a terra depois de ressuscitarem, para entregar uma mensagem a discípulos ou seguidores, antes de ascenderem aos céus. Assim como Jesus.
Em 2016, escrevi um estudo sobre os vários tipos de crenças relacionadas com o "nascimento virginal" que existiam no contexto cultural da época em que tal nascimento foi atribuído a Jesus (Virgin Birth: It’s Pagan, Guys. Get Over It / Nascimento Virginal: É Paganismo, Pessoal. Ultrapassem isso.). Cada uma destas crenças era diferente de todas as outras. As diferenças são o que as estabelece como deuses diferentes, e não apenas versões reformuladas do mesmo deus. As diferenças são irrelevantes. A difusão cultural e o sincretismo, por definição, produzem sempre diferenças entre as crenças originais e as novas crenças daí resultantes. Assim sendo, é ilógico argumentar que, pelo facto de o Deus A ser "diferente" do Deus B, a mitologia do Deus B não foi adaptada da mitologia do Deus A. Pelo contrário, as ideias que são consideradas comuns (muitos tipos diferentes de nascimentos virginais; muitos tipos diferentes de ressurreições) são vistas como tendo uma característica cultural em comum ("um" nascimento virginal; "uma" ressurreição), e essa característica em comum é então adaptada a um sistema de crenças específico, criando uma nova religião. O processo envolve sempre a transformação: a criação de diferenças. Estas diferenças são trazidas pela cultura nativa, que adota a cultura dominante e depois são adicionadas para transformar a cultura adotada.
O nascimento literalmente espontâneo e totalmente virginal do deus Rá pela Neite egípcia, por exemplo, bem conhecido em todo o Império na época em que os Evangelhos foram escritos, já tinha inspirado a atribuição de elementos mágicos. A inseminação por forças espirituais noutras deusas virgens, como Dânae, inseminada pela chuva dourada de Deus, ou Olímpia, inseminada pelos raios celestiais de Deus, ou Nana, inseminada ao tocar numa amêndoa mágica. Estas adaptações não diferem significativamente da inseminação de Maria por Deus com um fluido mágico chamado Espírito Santo. Ela foi “achada grávida pelo Espírito Santo” (ek pneumatos hagiou: Mateus 1:18), como até o anjo do Senhor disse a José (em Mateus 1:20), ou a Maria (em Lucas 1:35): “o Espírito Santo virá sobre ti” (epeleusetai epi se) “e o poder do Altíssimo te cobrirá” (episkiasei soi) e é por isso que “o Santo que tu deres à luz” será “chamado Filho de Deus”. A remoção obsessiva de qualquer implicação literal de sexo é a adição judaica ao mito adoptado. Mas até isso tinha precedentes — no Rá do Egipto, mais claramente, uma cultura vizinha da da Judeia; mas até mesmo em Olímpia, onde um raio não era, na concepção religiosa antiga, significativamente diferente de uma pomba mágica que voava para Jesus. De qualquer forma, é apenas uma manifestação do “poder do Altíssimo” a entrar para transformar o bem-aventurado. E quando aquele que entra é virgem, e assim permanece até ao nascimento (como acontece com Dânae e Nana), o paralelo é suficientemente completo.
O mesmo se aplica aos deuses ressuscitados.
Cada deus que morre e ressuscita é diferente. Cada morte é diferente. Cada ressurreição é diferente. Tudo irrelevante. O que há de comum é que existe uma morte e uma ressurreição. Tudo o resto é uma mistura de ideias sincréticas das culturas que as originaram e das que as receberam, para produzir um deus e um mito novos e únicos. No meu artigo sobre os nascimentos virginais, também o mencionei a propósito dos deuses ressuscitados, citando todas as provas que já publiquei sob revisão por pares em On the Historicity of Jesus (Sobre a Historicidade de Jesus) (pp. 45-47, 56-58, 98-100, 105-06, 168-73, 225-29). Enumero e discuto também muitas das provas e da teologia da ressurreição no mundo em que o Cristianismo nasceu e do qual tinha pleno conhecimento — tanto judaico como pagão — em Not the Impossible Faith (A Fé Não Impossível), Capítulo 3. Mas no meu blogue, no mesmo parágrafo, também mencionei o artigo de Derreck Bennett, “Ehrman Errs: Yes, Bart, There Were Dying & Rising Gods“ (Ehrman Erra: Sim, Bart, Existiram Deuses a Morrer e a Ressuscitar), como primeiro passo para o demonstrar. Embora tenha dito que sentia que havia ali alguns erros, e que eu próprio escreveria sobre isso algum dia para reforçar os factos e apresentá-los da forma mais correta possível, da mesma forma que fiz com o conceito de nascimento virginal. Bem, aqui vamos nós.
O mitema do deus salvador
Não na Ásia antiga. Nem em qualquer outro lugar. Apenas no Ocidente, da Mesopotâmia ao Norte de África e à Europa. Houve um mito muito comum e popular que surgiu no período helenístico — pelo menos desde a morte de Alexandre Magno, no século IV a.C., passando pelo período romano, até pelo menos Constantino, no século IV d.C. Quase todas as culturas criaram e popularizaram um: os egípcios tinham um, os trácios tinham um, os sírios tinham um, os persas tinham um, e assim por diante. Os judeus, na verdade, chegaram atrasados à festa na criação do seu próprio mito, na figura de Jesus Cristo. Simplesmente não se popularizou entre os judeus e, por isso, acabou por se tornar uma religião gentia. Mas se algum erudito religioso do século I a.C. tivesse sido questionado: "Se os judeus inventassem um destes deuses, como seria ele?", teria descrito toda a religião cristã na perfeição. Antes mesmo de ela existir. Isto não pode ser coincidência.
As características gerais mais comuns a todos estes cultos são (quando eliminamos todas as suas diferenças e o que resta são apenas os pontos em comum):
- São cultos de salvação pessoal (frequentemente evoluídos a partir de antigos cultos agrícolas).
- Garantem ao indivíduo um bom lugar na vida após a morte (uma preocupação ausente na maioria das formas anteriores de religião).
- São cultos nos quais se torna membro (por oposição às religiões comunitárias abertas).
- Implementam um grupo familiar fictício (os membros são todos irmãos e irmãs).
- A entrada é feita através do batismo (o uso de rituais de contacto com a água para efetuar uma iniciação).
- Mantêm-se através da comunhão (refeições sagradas regulares que representam a presença do deus).
- Envolvem ensinamentos secretos reservados apenas aos membros (e alguns apenas a membros de uma determinada posição hierárquica).
- Utilizam um vocabulário comum para identificar todos estes conceitos e os seus respetivos papéis.
- São sincréticos (modificam este conjunto comum de ideias com conceitos distintivos da cultura que os adota).
- São monoteístas ou henoteístas (pregam um deus supremo por quem e a quem todas as outras divindades são criadas e subordinadas).
- São individualistas (relacionam-se sobretudo com a salvação do indivíduo, não da comunidade).
- E são cosmopolitas (transcendem intencionalmente as fronteiras sociais da raça, cultura, nação, riqueza ou mesmo género).
Pode estar a começar a perceber que já descrevemos quase completamente o cristianismo. E fica ainda melhor. Todos estes cultos tinham em comum uma divindade salvadora central, que partilhava a maioria ou todas estas características (quando, mais uma vez, eliminámos todas as suas diferenças e o que resta é apenas o que têm em comum:
- Todos são “deuses salvadores” (literalmente assim chamados e assim denominados).
- São geralmente “filhos” de um Deus supremo (ou ocasionalmente “filha”).
- Todos passam por uma “paixão” (um “sofrimento” ou “luta”, literalmente a mesma palavra em grego, patheôn).
- Esta paixão é frequentemente, mas nem sempre, uma morte (seguida de ressurreição e triunfo).
- Através desta “paixão” (de qualquer tipo) obtêm a vitória sobre a morte.
- Vitória essa que depois partilham com os seus seguidores (normalmente através do batismo e da comunhão).
- Todos eles têm também histórias sobre si, passadas na história da humanidade na Terra.
- No entanto, tanto quanto sabemos, nenhum deles alguma vez existiu de facto.
Isto está a soar ainda mais como o cristianismo, não é? Que estranho. Basta misturar as características culturalmente distintas do judaísmo com que foi sincretizado, como o messianismo, o apocalipticismo, o escriturismo e as ideias particularmente judaicas sobre a ressurreição — bem como a soteriologia, a cosmologia e os rituais judaicos, e outras peculiaridades do judaísmo, como a aversão à sexualidade e a obsessão pela expiação pelo sangue e o sacrifício vicário — e teremos, literalmente, o cristianismo totalmente definido. Antes mesmo de existir.
Pode encontrar todas as provas e pesquisas que comprovam estes factos nos Elementos 11 e 31 do meu livro On the Historicity of Jesus (pp. 96-108; 168-73). Este “pacote comum” foi, de facto, simplesmente “sincretizado” com elementos, ideias, exigências e sensibilidades judaicas (por exemplo, Elemento 17, ibid., pp. 141-43). O mito foi simplesmente judaizado. E assim nasceu o cristianismo. As “diferenças” são o elemento judaico. As semelhanças são o resultado da adoção de mitos difundidos e populares em todo o mundo.
O mitema do deus que morre e ressuscita
Nem todos estes deuses salvadores eram deuses que morriam e ressuscitavam. Esse era um subtema. Na verdade, deuses (e meros homens) que morriam e ressuscitavam constituíam um mito mais vasto, pois os exemplos abundavam mesmo fora do contexto dos cultos salvadores conhecidos (apresentarei uma lista quase completa abaixo). Mas, dentro dos cultos salvadores, surgiu um tipo específico de deus que morria e ressuscitava. E Jesus é o que mais se assemelha a este mito.
Outros deuses salvadores, neste contexto, experimentaram "paixões" que não envolviam a morte. Por exemplo, Mitra passou por um grande sofrimento e luta (não temos muitos pormenores), através dos quais adquiriu o seu poder sobre a morte, que depois partilha com os iniciados no seu culto, mas estamos quase certos de que não se tratou de uma morte. As menções à ressurreição como ensinamento no mitraísmo parecem referir-se ao destino futuro dos seus seguidores (em consonância com a noção persa zoroastriana de uma ressurreição geral, posteriormente adoptada pelos judeus). Portanto, todos aqueles memes da internet que listam Mitra como um deus que morre e ressuscita? Não é verdade. Por isso, por favor, parem de repetir esta afirmação. Da mesma forma, tanto quanto sabemos, Átis só se tornou um deus ressuscitado muito depois do início do Cristianismo (e, mesmo assim, o seu mito mal se assemelha a uma ressurreição; os autores anteriores interpretaram as provas em contrário de forma exagerada). A maioria dos outros deuses, no entanto, possui provas bastante sólidas de que realmente morreram e ressuscitaram como deuses salvadores.
Observei no meu artigo sobre o mito do nascimento virginal:
Bart Ehrman é um daqueles historiadores seculares que, com demasiada frequência, não se dão ao trabalho de verificar os factos, mas simplesmente imitam repetidamente a apologética cristã, tanto no que diz respeito ao mito da morte e ressurreição (não, Dr. Ehrman, Jonathan Z. Smith não refutou o mito [do deus que morre e ressuscita]; ele nem sequer abordou 99% das provas a seu favor, mas simplesmente ignorou quase todas, concentrando-se apenas num exemplo obscuro e, consequentemente, irrelevante — tal como fez N.T. Wright), quanto ao mito do nascimento virginal.
Quanto à parte do nascimento virginal, já a abordei exaustivamente. Agora, vou abordar a parte do deus que morre e ressuscita.
Nota: A abordagem que Wright faz do assunto em The Resurrection of the Son of God (A Ressurreição do Filho de Deus), pp. 80-84; 64-68, ignora de forma tão flagrante uma vasta quantidade de provas que chega a ser fraudulenta (já o demonstrei no Capítulo 3 de Not the Impossible Faith). Da mesma forma, as abordagens de Ronald Nash (The Gospel and the Greeks O Evangelho e os Gregos, por exemplo, pp. 159-62) e de Eddy & Boyd (The Jesus Legend, A Lenda de Jesus, pp. 142-46) são também problemáticas. Estes autores essencialmente não realizam qualquer pesquisa autêntica e distorcem grosseiramente os factos. A metodologia válida é substituída por retórica apologética. Os seus trabalhos sobre o assunto são completamente inúteis para qualquer estudioso sério. Até o notório (e notoriamente obsoleto) ensaio de Bruce Metzger sobre o assunto está repleto de falhas factuais e ilógico (ver a minha análise em OHJ, p. 97, n.º 72). Para uma análise mais honesta sobre os deuses que morrem e ressuscitam, ver o Elemento 31 em Sobre a Historicidade de Jesus (especialmente os estudiosos e as fontes primárias citadas nas diversas notas de rodapé).
Os historiadores tendem ainda a ignorar dogmaticamente os factos reais referentes a estes deuses, recusando-se a examinar qualquer evidência. Esta omissão descredita-os nesse ponto. Não existe uma opinião correta. Pode afirmar-se, por ignorância, que a noção de Osíris "regressar à vida na Terra ressuscitando dos mortos" é uma invenção, pois "nenhuma fonte antiga diz algo assim sobre Osíris (ou sobre os outros deuses)". Isto é tão absurdamente falso que chega a ser chocante que qualquer estudioso honesto o diga (como já demonstrei). Vamos verificar as evidências. As provas reais. Como se espera. Mas antes, uma análise lógica...
É claro que muitos ateus já citaram o lamento do século II do apologista cristão Justino Mártir (Diálogo 69):
Quando dizemos que Jesus Cristo nasceu sem união sexual, foi crucificado, morreu, ressuscitou e subiu aos céus, não propomos nada de novo ou diferente daquilo em que acreditam a respeito daqueles a quem chamam Filhos de Deus. [Na verdade]… se alguém objectar que [Jesus] foi crucificado, isso é comum aos filhos de Zeus (como lhes chamais) que sofreram, como já foi referido anteriormente [ele citou Dionísio, Hércules e Asclépio]. Uma vez que os seus sofrimentos fatais são narrados como não semelhantes, mas diferentes, a sua paixão singular não deveria parecer pior.
Note-se como Justino é menos tolo do que os apologistas cristãos modernos. Admite que as diferenças não importam. Uma vez que cada um dos deuses que sofre e morre é morto por meios diferentes, não se pode argumentar que o mito exige exactamente os mesmos meios de morte. "Mas Osíris não pode ter inspirado o mito de Jesus porque Osíris não foi pregado a uma cruz" é um argumento estúpido. O mito é simplesmente a morte. Ser morto. Sofrer e morrer. O modo exato da morte pode variar livremente. Isso não faz qualquer diferença para a existência e influência do mito. É simplesmente a manifestação particular de uma abstracção genérica. E o argumento de Justino (de que Satanás inventou estas religiões falsas para confundir as pessoas) pressupõe que Justino concordava que o mito existia: de facto, foi promulgado demoniacamente, múltiplas vezes. Intencionalmente.
Da mesma forma, Justino observa que o mitema não é o nascimento virginal, mas a concepção assexuada. Da qual muitos exemplos já tinham sido popularizados na mitologia pagã (por acaso, também existiram exemplos de deuses nascidos de virgens). E pelo seu argumento (de que o Diabo estava deliberadamente a emular o mito de Jesus, antecipadamente), Justino aceitou claramente o mesmo princípio para a "ressuscitação" após a morte: a metafísica específica da ressurreição podia, assim como o método exacto da morte ou da concepção, variar livremente. O mito consiste unicamente na abstração: regressar à vida. De alguma forma. De algum modo. Diremos corporalmente, no mínimo. Mas que tipo de corpo (o mesmo, um novo, um mortal, um imortal) não tinha importância. Se importasse, Justino teria argumentado que "aqueles deuses" não foram realmente ressuscitados. Mas esse argumento nunca lhe ocorreu. Nem a qualquer outro apologista dos três primeiros séculos.
Os cristãos antigos sabiam muito bem que não havia nada de novo no seu deus que morresse e ressuscitasse. Não em relação ao mito em si. As suas alegações limitavam-se a afirmar que a sua versão particular era melhor e a única que de facto aconteceu. Não inventaram os argumentos modernos e estúpidos de que os mitos do deus que morre e ressuscita não existiam ou não faziam parte de um mito comum conhecido por todos. Por exemplo, no mesmo século, Tertuliano, em Prescrição contra Hereges 40, apresenta exatamente o mesmo argumento que Justino. Curioso, não é? Eles tinham melhor acesso às provas do que nós. Sabiam o que era realmente verdade e amplamente conhecido. Deveríamos ouvi-los.
Mas agora vejamos as provas que sobreviveram…
Osíris
Plutarco não só afirma que Osíris regressou à vida e foi recriado, termos exactos para ressurreição (anabiosis e paliggenesia: Sobre Ísis e Osíris 35; ver a minha discussão em The Empty Tomb (O Túmulo Vazio), pp. 154-55), como também descreve o seu regresso físico à Terra após a morte (Plutarco, Sobre Ísis e Osíris 19), mas a ressurreição física do cadáver de Osíris é explicitamente descrita em inscrições pré-cristãs em pirâmides! Osíris também ressuscitou, segundo Plutarco, no “terceiro dia”, e morreu durante a lua cheia, tal como Cristo: a Páscoa ocorre durante a lua cheia; e em Plutarco, Sobre Ísis e Osíris 39 e 42, Osíris morre no dia 17 de Athyr, o último dia da lua cheia, e ressuscita no dia 19, dois dias depois — portanto, três dias no total, tal como Jesus.
Plutarco escreve que “Osíris veio do outro mundo até Hórus e treinou-o para a batalha”, ensinando-lhe lições, e depois “Osíris uniu-se a Ísis após a sua morte e ela tornou-se a mãe de Harpócrates”. É difícil ser mais explícito do que isto. Ao contrário do que afirma Ehrman, não há qualquer menção a Osíris não estar no seu corpo ressuscitado naquele momento. Pelo contrário, todas as versões do seu mito mostram-no a reviver apenas depois de Ísis reconstituir e reanimar o seu cadáver. Como diz Plutarco, “a alma de Osíris é eterna e imperecível, mas o seu corpo Tífon desmembra-o frequentemente e fá-lo desaparecer, e Ísis vagueia por aí na sua busca por ele, e reconstrói-o” (Sobre Ísis e Osíris 54).
E, de facto, esculpidas nas paredes das pirâmides séculos antes do início do Cristianismo, estavam as declarações da deusa Ísis (ou Hórus, ou dos seus agentes): “Eu vim a ti… para te revivificar, para reunir os teus ossos, para recolher a tua carne, para juntar os teus membros desmembrados… ergue-te, rei, [como para] Osíris; tu vives!” (Textos das Pirâmides 1684a-1685a e 1700, = Enunciado 606; cf. Enunciado 670); “Ergue-te; sacode a tua poeira; remove a sujidade que está no teu rosto; solta as tuas ligaduras!” (Textos das Pirâmides 1363a-b, = Enunciado 553); “[Quanto a] Osíris, recolhe os teus ossos; ajeita os teus membros; sacode a tua poeira; desata as tuas ligaduras; o túmulo está aberto para ti; as portas duplas do caixão estão abertas para ti; as portas duplas do céu estão abertas para ti… a tua alma está no teu corpo… levanta-te!” (Textos das Pirâmides 207b-209a e 2010b-2011a, = Enunciado 676). Isto soa-me certamente como uma ressurreição física do corpo de Osíris. (Conforme confirmado pela mais recente tradução de James P. Allen, cf. pp. 190, 224-225, 272. Os encantamentos que esclarece são cantados para e sobre o faraó residente, mas no papel de Osíris, recebendo a mesma ressurreição que Osíris, por exemplo: "foi feito por mim o que foi feito pelo meu pai Osíris no dia em que os ossos foram unidos, no dia em que os pés foram tornados funcionais", "faz por ele o que fizeste pelo seu irmão Osíris nesse dia", etc.)
Plutarco afirma explicitamente que esta ressurreição na Terra (situada na história real da Terra) no mesmo corpo em que morreu (reconstruído e restaurado à vida) era a crença popular, promovida nos contos alegóricos pelo... sacerdócio — bem como a posterior descida do deus para governar o Hades. Mas a “verdadeira” crença secreta ensinada entre os iniciados no sacerdócio era que Osíris se encarnava, morria e ressuscitava todos os anos numa batalha cósmica secreta nos céus sublunares. Portanto, na verdade, ao contrário de Ehrman (que evidentemente nunca leu nenhuma das fontes sobre este ponto), Plutarco afirma que a crença de que Osíris ia para o Hades era falsa (Sobre Ísis e Osíris 78); e, no entanto, mesmo nesta narrativa “pública”, Osíris reina no Hades no seu antigo corpo de carne, restaurado à vida. Logo, ainda claramente ressuscitado. Mas, como Plutarco explica (Sobre Ísis e Osíris 25-27 e 54 e 58), a verdade esotérica era que a morte e a ressurreição do deus ocorriam no espaço sublunar, após cada ano descendo e assumindo um corpo mortal para morrer; e este acontecimento envolvia definitivamente o regresso à vida num novo corpo superior, no qual Osíris ascende a um um reino superior para governar do alto, exatamente como foi dito sobre o Jesus ressuscitado (que não permaneceu na Terra mais do que Osíris). A única diferença é que, ao importarem isto para o judaísmo, que não tinha uma concepção cíclica-eterna, mas sim linear-apocalíptica da história teológica, converteram a morte e ressurreição do deus num acontecimento apocalíptico singular.
E isto é apenas Osíris. Claramente ressuscitado dos mortos no seu corpo original, falecido, restaurado à vida; visitando pessoas na Terra no seu corpo ressuscitado; e depois governando do céu. E isto diretamente adjacente à Judeia, no meio de uma grande população judaica em Alexandria, e popular em todo o império. Mas, como disse Plutarco em Sobre o E em Delfos 9, muitas religiões do seu tempo “narravam mortes e desaparecimentos, seguidos de regressos à vida e ressurreições”. Não apenas essa. Plutarco cita Dionísio como apenas um exemplo (e por outros nomes, como "Zagreus, Nyctelius e Isodeetes"). E sabemos com toda a certeza que este Dionísio não era o único exemplo que Plutarco conhecia. Plutarco menciona-o apenas pela sua estreita associação com Osíris, sendo o mais famoso. O autor pré-cristão Diodoro regista ainda que Ísis ressuscitou Hórus, filho de Osíris, da morte para a vida, novamente no mesmo corpo, e deixou-o imortal (Biblioteca Histórica 1.25.6).
Dionísio
Dionísio (também conhecido popularmente por Baco) teve muitas histórias diferentes contadas sobre ele, assim como Osíris. Mas numa das mais conhecidas, foi morto ao ser despedaçado em bebé (Justino Mártir, Apologia 1.21; Plutarco, Sobre Ísis e Osíris 35; Diodoro, Biblioteca Histórica 5.75.4 e 3.62.6); foi então ressuscitado por uma mulher humana (Sêmele) que lhe concebeu um novo corpo no seu ventre após ter bebido uma bebida mágica feita com pedaços do seu cadáver (Higino, Fábulas 167). Esta é uma ressurreição literal, porém através de um mecanismo elaborado. O deus morre definitivamente e regressa então à vida adquirindo o mesmo tipo de corpo que possuía, montado e "reconstruído" a partir de partes do seu antigo corpo. Nesta versão do mito, é um deus completo (filho de Zeus e Perséfone), mas ainda mortal (capaz de ser morto por desmembramento, como um vampiro); "renasce" então como um semideus (do ventre de uma mulher humana totalmente mortal). Era o deus salvador central dos mistérios báquicos, um dos mais conhecidos e celebrados no mundo ocidental da época. Os batizados no seu culto recebiam a vida eterna no paraíso; e tal como os cristãos (1 Coríntios 15:29), os dionisíacos podiam até batizar-se em nome de entes queridos falecidos, resgatando assim os que já tinham morrido.
Zalmoxis
Zalmoxis foi também um salvador ressuscitado. Os gregos, troçando do culto trácio que o adorava, inventaram a polémica de que ele não tinha realmente morrido, apenas se tinha escondido numa gruta, fingindo assim ter ressuscitado dos mortos. Mas esta polémica diz-nos que os Trácios acreditavam realmente que Zalmoxis tinha morrido e ressuscitado, aparecendo a discípulos na Terra para o provar (ver a minha discussão em "Not the Impossible Faith", pp. 100-05). Os seus discípulos, então, acreditavam que beneficiariam do seu poder para alcançar a vida eterna no paraíso. Num livro que se tornou leitura obrigatória nas escolas de retórica que todos os autores bíblicos cristãos precisavam de ter frequentado para escrever obras tão complexas em grego, Heródoto relata que Zalmoxis “alimentou os líderes do seu povo” num salão “e ensinou-lhes que nem ele, nem os seus convidados, nem nenhum dos seus descendentes morreriam alguma vez, mas que iriam para um lugar onde viveriam para sempre e teriam todas as coisas boas”, e depois desapareceu no subterrâneo “durante três anos, enquanto os trácios desejavam o seu regresso e lamentavam a sua morte”, e depois “ao quarto ano apareceu aos Trácios, e assim eles passaram a acreditar no que ele lhes tinha dito”, usando a sua própria ressurreição para provar a deles (Histórias 4.94–95–96; embora me pergunte se foram realmente três dias e não anos, como era o caso nos cultos da ressurreição de Osíris, Inana e Adónis, como veremos em breve). A história dá a entender que estes cultistas acreditavam na morte e ressurreição corporal do seu deus salvador. Porque só assim é que a polémica grega citada por Heródoto faria sentido, uma vez que imagina Zalmoxis a aparecer no seu mesmo corpo e a visitar os seus seguidores para verificar se estava novamente vivo — e não apenas a aparecer em visões, nem como um fantasma. Consequentemente, Celso, o primeiro crítico conhecido do Cristianismo, incluiu Zalmoxis na sua lista de divindades ressuscitadas (como atesta Orígenes, Contra Celso 2.55).
Inana
Inana é a deusa ressuscitada mais antiga conhecida. Para ela, existe um relato claro da morte e da ressurreição em tábuas de argila inscritas na Suméria mais de mil anos antes do cristianismo, descrevendo claramente a sua humilhação, julgamento, execução e crucificação, e a sua ressurreição três dias depois. Depois de ser despida e julgada, Inana é transformada num cadáver, que é pendurado num prego. Passados três dias e três noites, os seus assistentes pedem o cadáver e ressuscitam-na (alimentando-a com a água e o alimento da vida). Inana ressuscitou, de acordo com o seu plano inicial, pois sabia que o pai a traria de volta à vida, exatamente como narra a história (citações extraídas das tábuas, adaptando a tradução de Samuel Noah Kramer em "History Begins at Sumer", A História Começa na Suméria). Este culto continuou a ser praticado durante o período cristão, sendo Tiro um importante centro do seu culto. Nesta altura, há indícios de que a sua história de ressurreição foi transferida para o seu consorte Tamuz, uma das várias divindades ressuscitadas a que os gregos chamavam Adónis.
Adónis
Adónis era o título de pelo menos um, senão vários, salvadores ressuscitados na época do surgimento do cristianismo, por vezes equiparado a Tamuz, ou possivelmente apenas confundido com ele, mas de qualquer forma, certamente um deus ressuscitado. O estudo detalhado de Tryggve Mettinger, The Riddle of Resurrection: “Dying and Rising Gods” in the Ancient Near East (O Enigma da Ressurreição: 'Deuses Moribundos e Ressuscitados' no Antigo Próximo Oriente) (2001), inclui uma discussão sobre o manuscrito pré-cristão de uma carta particular na qual um homem compara a sua capacidade de sobreviver a várias revoltas mortais à capacidade de Tamuz de regressar sempre dos mortos (p. 201), o que certamente sugere que Tamuz já se tinha tornado o centro do seu próprio culto da ressurreição. Este é o mesmo deus cuja morte foi lamentada até pelas mulheres de Jerusalém (Ezequiel 8:14-15). Não há evidências de que tenha permanecido morto; esta carta por si só atesta que era do conhecimento geral que ele regressava à vida.
No século III d.C., o erudito cristão Orígenes afirma nos seus Comentários a Ezequiel (explicando a mesma passagem) que Tamuz ainda era venerado no seu tempo sob o título de Adónis e, como tal, “fazem-se-lhe certos ritos de iniciação”: “primeiro, que chorem por ele, pois morreu; segundo, que se alegrem por ele, porque ressuscitou dos mortos” (apo nekrôn anastanti). Isto é confirmado um século depois por Jerónimo (Comentário a Ezequiel 3.8.14). Descobertas pré-cristãs recentes atestam que, de facto, um período de júbilo se seguiu ao luto pela morte de Tamuz, o que coincide com a descrição de Orígenes (ver a discussão de Benjamin Foster sobre estas novas evidências em “Descida de Ishtar ao Mundo Inferior”, Before the Muses: An Anthology of Akkadian Literature, Antes das Musas Uma Antologia da Literatura Acádia). [3ª ed., 2005], pp. 498-505). E temos uma descrição semelhante feita por um autor pagão (Luciano ou outro do século II d.C.), que descreve cerimónias nacionais de luto pela morte de Adónis, seguidas, no dia seguinte, de celebrações do seu regresso à vida e ascensão ao espaço exterior. Morto por uma besta, torna-se “um morto”, é sepultado e chorado, e no dia seguinte “proclamam que vive” e ascende (Sobre a Deusa Síria 6-8).
É muito mais provável que a ressurreição deste Adónis já fosse celebrada muito antes do aparecimento do cristianismo do que uma inovação recente. Certamente Orígenes saberia disso e, obviamente, zombaria do facto. Seria igualmente incrível que, mesmo nesta fase inicial, grandes cultos pagãos celebrados por nações inteiras tivessem mudado fundamentalmente toda a sua religião em emulação do cristianismo, que era um culto pouco conhecido, sem influência e raramente apreciado, mesmo quando alguém já tinha ouvido falar dele. Esta conclusão é bastante sólida quando combinada com as evidências pré-cristãs que ligam Tamuz ao mesmo regresso à vida; e outras provas, como o poema pré-cristão de Teócrito (Idílio 15), que discute uma celebração de Adónis no Egito, na qual a morte de Adónis é lamentada, mas depois antecipa o seu regresso, concluindo: “Adeus, querido Adónis; e só espero que nos encontres a todos a prosperar quando regressares no próximo ano!” Outro indício pode ser encontrado nas histórias pré-cristãs de outro deus que morria e ressuscitava, Esmun (conforme documentado em A Handbook of Gods and Goddesses of the Ancient Near East, pp. 104–05), que na antiguidade era comparado a Adónis e Asclépio, por ter histórias semelhantes da sua morte e ressurreição.
Rómulo
Rómulo foi outro deus ressuscitado pré-cristão amplamente conhecido. Não um salvador pessoal, tanto quanto sabemos, mas antes um salvador nacional, na sua forma exaltada chamada Quirino. De acordo com fontes antigas, este semideus era um ser divino preexistente que se encarnou para estabelecer um reino, concebendo um corpo para si no ventre de uma virgem (possivelmente por meios sexuais; não é claro), que foi assassinada pelo Senado Romano (o equivalente romano ao Sinédrio), após o que o seu cadáver desaparece, o sol apaga-se e as pessoas fogem com medo e lamentam a sua morte; Depois regressa novamente à Terra vivo, ressuscitado num novo corpo divino, para pregar o seu evangelho ao discípulo Próculo antes de partir para reinar do alto. Segundo alguns relatos, Rómulo ascendeu diretamente ao céu e o seu corpo mortal consumiu-se no firmamento; mas, de qualquer modo, o seu corpo mortal morre ("Terminei a minha vida mortal", diz a Próculo, segundo Dionísio), e regressa para pregar num corpo imortal, ascendendo depois ao céu, tal como Jesus (1 Coríntios 15:35-50). O nosso relato mais completo vem de Plutarco (Vida de Rómulo 27-28), escrito no final do século I d.C. Mas a morte e o regresso de Rómulo à vida estão atestados em numerosas fontes pré-cristãs (Cícero, Leis 1.3 e República 2.10; Tito 1.16; Ovídio, Fastos 2.491-512 e Metamorfoses 14.805-51; e Dionísio de Halicarnasso, Antiguidades Romanas 2.63.3-4).
Asclépio
Asclépio (ou Esculápio) era também um deus ressuscitado popular. Os apologistas cristãos tentam negar isto dizendo que Asclépio simplesmente, tal como César, “ascendeu ao céu” como um fantasma após a sua morte. Mas não era isso que diziam os antigos adoradores. Celso relatou que “muitos gregos e bárbaros afirmam ter visto, e ainda vêem, frequentemente, não um mero fantasma, mas o próprio Asclépio” (Orígenes, Contra Celso 3.24). Asclépio foi morto por um raio e sepultado (Hesíodo, Fragmentos 125; Eurípides, Alceste 1-7; Cícero, Sobre a Natureza dos Deuses 3.22.57; Orígenes, Contra Celso 3.23). Foi então ressuscitado, tornando-se um deus vivo. Como diz Ovídio, “por um deus [foi] transformado num cadáver sem sangue, e depois de um cadáver tornou-se um deus, renovando duas vezes o [seu] destino” (Metamorfoses 2.647-648). Que isto foi considerado uma ressurreição é plenamente confirmado pela narrativa. Zeus matou Asclépio por ressuscitar os mortos, mas quando Apolo, pai do falecido, se queixou, Zeus cedeu e restituiu Asclépio à vida, desta vez como um deus imortal. Ovídio observa, por isso, que “Zeus fez pelo [seu filho] aquilo que proibiu” (Fastos 6.761); por outras palavras, Zeus proibiu ressuscitar os mortos, mas abriu uma exceção para Asclépio. Entende-se, assim, que Zeus ressuscitou Asclépio. Tinha sido um cadáver. E assim teria permanecido. Mas, por milagre de Deus, agora estava vivo, eterno e imortal, sobrenaturalmente poderoso. Tal como Jesus.
Baal
Baal (ou “Ba’al”) foi um dos mais antigos deuses ressuscitados. A sua morte é provavelmente a mesma lamentada sob o nome de Hadade-Rimmom em Zacarias 12:11. Mas, independentemente disso, nos textos pré-cristãos o cadáver de Baal é encontrado por Anat, pelo que, no seu mito, o deus está definitivamente morto; um texto chega a dizer explicitamente "e os deuses saberão que estás morto", e vários deuses declaram-no morto; ele é então enterrado, e realizados ritos funerários (Mettinger, Riddle, pp. 60-62). Há depois referências claras à ressurreição de Baal. De facto, o seu regresso à vida e a sua imortalidade são utilizados como analogias nos feitiços de imortalidade pré-cristãos (Mettinger, Riddle, pp. 69-71). Embora este deus não fosse ainda um salvador pessoal, mas uma metáfora para a salvação agrícola comunitária, esta era anterior à helenização. Foi transformado num dos muitos deuses salvadores pessoais da região de que ouvimos falar no alvorecer do cristianismo (Júpiter Dolicheno), mas sobre os quais nada podemos saber, devido à destruição de provas pagãs pelos cristãos medievais. Por exemplo, Hipólito dedicou dois capítulos inteiros da sua Refutação de Todas as Heresias aos cultos mistéricos e às suas divindades salvadoras. Curiosamente, estes são os dois únicos livros totalmente destruídos. Vai-se lá entender. O que tentavam os medievais esconder? O que é que eles não queriam que lêssemos? Deixo para a sua imaginação refletir. No mito de Baal, Mot, o deus da Morte que o matou originalmente, é também morto (desmembrado, moído e queimado) e depois ressuscitado ao fim de sete anos.
Hércules
Melcarte é outra das divindades ressuscitadas mais antigas, semelhante a Baal tanto nas suas origens como na possível incorporação futura em cultos de mistério helenísticos posteriores. A sua lenda fundiu-se com a de Hércules (ou Héracles). Séculos antes do cristianismo, e atestado por autores do período romano, Eudoxo de Cnido escreveu que Hércules foi “morto por Tífon, mas Iolau trouxe-lhe uma codorniz, e tendo-a colocado perto de si”, e queimando-a ritualmente, “cheirava-a e voltava à vida” (Ateneu, As Ceias 9.392d-e; ver Mettinger, p. 86). E Josefo atesta a existência de celebrações contínuas da “Ressurreição de Hércules” (tou Hrakleous egersin: in Antiguidades dos Judeus 8.146; erradamente traduzido em Whiston: ver Mettinger, pp. 88-89). Em ambos os relatos, afirma-se explicitamente que se trata da história do Hércules de Tiro, que sabemos ser Melcarte, cuja base de culto era em Tiro.
Diodoro conta outra história de Hércules morto pelo fogo — envenenado, é queimado numa pira funerária. Como os seus ossos desapareceram quando Iolau tentou recolhê-los, conta a história que se concluiu que Hércules tinha ressuscitado e ascendido aos céus (Diodoro, Biblioteca Histórica 4.38.5). A suposição da ressurreição após o desaparecimento de um cadáver não era apenas um tema comum na Antiguidade, mas essencialmente a história contada sobre Jesus (para um estudo completo deste miteme na Antiguidade, ver o livro de Richard Miller, de 2017, "Resurrection and Reception in Early Christianity"; e o livro de Ava Chitwood, de 2004, "Death by Philosophy"). A adição de narrativas de aparição para reforçar a ideia também acompanha muitos destes contos (Rómulo, por exemplo). E pode ter havido algo semelhante para Hércules. Mas, em todo o caso, acreditava-se claramente que ele tinha morrido, ressuscitado e ascendido aos céus com poder divino. Assim como Jesus.
Mettinger encontra uma série de provas pré-helenísticas que se referem aos "ressuscitadores de Melcarte" e a Melcarte como "o ressuscitado", e à sua cerimónia como "a ressurreição" (pp. 90-97). Isto parece-me ambíguo por si só, mas é mais revelador dentro do contexto. A única evidência remanescente para um Hércules tírio ressuscitado, o Melcarte helenístico, permanece conclusiva. Talvez a melhor evidência para Melcarte seja um objeto votivo que retrata a morte, o enterro, o luto e a ressurreição de Melcarte (Mettinger, pp. 98-100; aliás, é aqui novamente sugerida uma sequência de três dias: p. 102). Como observou o sábio Luciano, do século II, a crença popular é que, após a morte, “todos os aspetos corporais... um homem se despoja e abandona antes de ascender aos deuses, como Hércules a arder no Monte Eta antes da deificação; também se desfez de tudo o que herdou da humanidade e ascendeu aos deuses com a sua parte divina pura e imaculada, purificada pelo fogo” (Luciano, Hermotimus 7; ver os estudos em Not the Impossible Faith, p. 121, n.º 13). Assim, embora a sua “ressurreição” seja retratada como uma ascensão direta ao céu, ele morreu, esteve morto e depois desfez-se do seu cadáver, ressuscitando no seu corpo divino superior, após a sua matéria mortal ter sido consumida na pira funerária.
Uma infinidade de deuses e heróis ressuscitados
Mettinger não aborda sequer uma fracção dos exemplos que acabo de examinar (nem nenhum dos que examinarei em breve), e conclui já que “os deuses que morrem são deuses que ressuscitam ou regressam a uma nova vida” (p. 217) e que “existem… deuses que morrem e regressam muito antes da era cristã”, como conclui para Tamuz, Baal e Melcarte; e até mesmo Osíris; e provavelmente, admite, o Adónis do Levante (p. 218). Acrescente-se a estes os exemplos que apresentei e isso torna-se ainda mais evidente. Mettinger conclui que nem todos são exactamente do mesmo “tipo” (por exemplo, nem todos são “deuses da tempestade”), mas todos exibem uma tendência para a “associação e sincretismo” (p. 218). E estes “deuses que morrem e ressuscitam eram conhecidos na Palestina nos tempos do Novo Testamento” (p. 220). Portanto, não há explicação para tal. Tudo o que Mettinger afirma ser diferente entre Jesus e os poucos deuses que examina (p. 221) pode ser explicado tanto pela estrutura comum da religião de mistério helenística como pelo elemento judaico do sincretismo.
A morte e ressurreição de Jesus é um acontecimento apocalíptico singular, e não parte de um ciclo eterno… porque é esse o contributo judaico fundido ao tema da morte e ressurreição. É exatamente assim que um deus que morre e ressuscita seria judaizado. Da mesma forma, o papel da magia de sangue sacrificial e expiatória na estruturação da sua morte é exactamente uma replicação da magia expiatória do templo judaico (Jesus torna-se, portanto, o Yom Kippur: por exemplo, OHJ, Elemento 18, pp. 143-45; pp. 402-07; etc.), fundamental para a soteriologia judaica. Portanto, podemos esperar isso também na criação de qualquer culto salvador judaico. No entanto, os contributos helenísticos incluem o papel de Jesus como ser divino encarnado (e, portanto, semideus e não totalmente humano), modelando, neste aspecto, mais de perto Rómulo (que era também um ser celestial preexistente que assumiu um corpo mortal; e, no mito, até nascido de uma mulher humana), mas, como vimos, muitos outros mortais e semideuses ressuscitados abundaram, inspirando o mesmo conceito. Da mesma forma, o abandono do contexto agrícola comunitário e a sua substituição por uma interpretação de salvação individual futura é exactamente o que aconteceu com muitos outros deuses ressuscitados (como Osíris e Adónis), precisamente em consequência da influência das religiões de mistério helenísticas.
Isto torna-se ainda mais claro quando começamos a alargar o nosso âmbito e procuramos todos os mitos de deuses e heróis ressuscitados, de qualquer tipo. Por exemplo, Ovídio regista a morte dos meros mortais Melicertes e da sua mãe Ino, e a sua ressurreição como deuses depois de Vénus ter implorado a Neptuno que os trouxesse de volta à vida (Metamorfoses 4.512–42). E diversas fontes pré-cristãs relatam o desmembramento, a fervura e a subsequente remontagem e ressurreição do herói-rei Pélops. Há inúmeras histórias deste tipo.
Ao troçar dos cristãos pelas suas crenças religiosas absurdas, o crítico Celso, do século II, enumerou vários outros deuses e heróis ressuscitados cujos mitos acusava os Evangelhos de imitarem. Afirma que as lendas de regresso dos mortos incluíam Zalmoxis, Pitágoras, Rampsínito, Orfeu, Protesilau, Hércules e Teseu. Alguns destes eram mitos de ressurreição reais; outros, apenas visitantes (e fugitivos com sorte) da terra dos mortos. De qualquer modo, Orígenes afirma que Celso estava “a sustentar que estes heróis desapareceram por um certo tempo e se retiraram secretamente da vista de todos os homens, apresentando-se posteriormente como tendo regressado do Hades, pois é esse o significado que as suas palavras parecem transmitir” (Contra Celso 2.56). Por outras palavras, Celso estava a oferecer uma explicação polémica para os mitos pagãos da ressurreição (que eram todos, na verdade, aldrabices), tal como os críticos que Heródoto citava para Zalmoxis, e a sugerir que os cristãos faziam o mesmo com Jesus. Mas isto implica que a crença popular considerava estas ressurreições reais. E, consequentemente, a única defesa de Orígenes não é que estes deuses não estivessem realmente a morrer, ou que não estivessem realmente a afirmar ter morrido, mas sim que Jesus não poderia ter fingido ter morrido, como Celso afirmava que estes outros deuses tinham feito. Orígenes aceitou, portanto, plenamente o argumento de Celso: que os deuses e os heróis ressuscitados eram comuns na mitologia popular. Orígenes só podia argumentar que Jesus era o único verdadeiro.
Zalmoxis e Hércules já abordámos. Mas o que quis Celso dizer ao citar Pitágoras, Rampsínito, Orfeu, Protesilau e Teseu? O próprio Pitágoras terá afirmado ter regressado à Terra depois de ter estado preso no submundo durante “duzentos e sete anos”, embora as nossas fontes não digam como é que ele afirmou ter lá ido parar (Diógenes Laércio, Vida de Pitágoras 15). Rhampsinit (provavelmente, na verdade, Khaemweset) foi um lendário faraó egípcio que visitou o Hades e escapou (Heródoto 2.122); mas como foi para lá vivo (e não por ter morrido), a sua história não é um mito de ressurreição. É mais semelhante à história de Odisseu, que desce à terra dos mortos e regressa ileso (graças à magia). Orfeu, da mesma forma, visita o submundo vivo e escapa ileso. Possivelmente, Pitágoras quis dizer algo semelhante. Portanto, Celso está a incluir estes apenas como exemplos de homens que (ele está a insinuar) simplesmente "inventaram" uma estadia entre os mortos e um regresso à vida, embora não através da ressurreição. Os outros são mais interessantes...
Protesilau é morto nas margens de Tróia. Definitivamente morto. Cumprindo assim um oráculo que previa que ele seria, de facto, morto. É-lhe então permitido ressuscitar por um breve período para visitar e ter relações sexuais com a sua esposa (para uma lista de fontes antigas que compilam a história, ver Ovid Heroides, de James Reeson, p. 115). Como Mark Fullmer afirma no seu livro de 2007, Resurrection in Mark’s Literary-Historical Perspective, «o romancista neroniano Petrónio ridiculariza abertamente a noção de ressurreição» ao equiparar a «ressurreição» do seu pénis (da impotência: Petrónio, Satyricon 140.frg.2) à ressurreição de deuses e heróis como Protesilau. Uma analogia, observa Fullmer, que implica que o público do século I entendia o regresso de Protesilau como uma ressurreição física, e não apenas um fantasma. Fullmer analisa muitos outros exemplos de zombaria das histórias de ressurreição (ou seja, histórias pagãs de ressurreição) na prosa antiga, evidenciando uma consciência da popularidade dessa crença entre as classes mais baixas; da mesma forma (documenta ele) na ficção antiga, com pessoas confundidas com mortas, túmulos encontrados vazios e os seus retornos à vida imaginados como milagrosos. Havia peças encenadas em que até cães morriam e ressuscitavam! (Plutarco, Sobre a Esperteza dos Animais 973e-974a) Isto implica todo um zeitgeist de mania de ressurreição que estas obras estavam a ridicularizar ou a satirizar.
Teseu, o lendário ateniense Teseu, o rei, é um exemplo ainda melhor. Foi visto pelos soldados a ressuscitar dos mortos e a lutar ao lado dos atenienses em Maratona. Pausânias relata que obras de arte atenienses encomendadas apenas trinta anos após a guerra retratavam Teseu a "ressurgir do chão" em Maratona (Descrição da Grécia 1.15.3; ver os estudos em Not the Impossible Faith, p. 121, n.º 12). Plutarco, sempre avesso a cadáveres, chama-lhe um fantasma (em Vida de Teseu 35-36), embora obviamente Teseu precisasse de um corpo para combater fisicamente os soldados inimigos. Uma vez que isso significava que podia ser tocado da mesma forma que Jesus ressuscitado, Teseu deve ter sido ensinado a ressuscitar num novo corpo sobrenatural — o corpo de um deus — deixando a sua carne na sepultura. Assim como Paulo provavelmente ensinou sobre Jesus. De forma semelhante, no caso de Rómulo e Hércules (mas ao contrário de Osíris), o corpo de carne que morre é queimado, desintegrado ou abandonado, e recuperam a vida num novo corpo divino. corpo de matéria superior. Apenas mais um ajustamento teológico sobre a ressurreição como conceito geral.
Celso, noutra passagem, acrescentou Dionísio e Asclépio aos seus exemplos de mitos da ressurreição (que já abordámos), e também os Dióscuros. Os Dióscuros eram irmãos meio-mortais que morriam repetidamente para trocar de lugar no submundo, o que implica que também ressuscitavam repetidamente, caso contrário não poderiam continuar a morrer (Contra Celso 3.22). E não eram os únicos a fazê-lo. Conhecemos vários outros pares assim; e, de facto, Plínio, o Velho, disse que os deuses que “viviam e morriam em dias alternados” eram populares na crença popular (alternis diebus vivientes morientesque: História Natural 2.5). Apenas mais uma forma de ser um deus que morre e ressuscita.
Celso acrescenta ainda o meramente mortal Aristeias de Proconeso, que morreu e cujo cadáver desapareceu, sendo depois encontrado de novo vivo, tendo regressado da terra dos mortos — uma ressurreição tão eficaz como qualquer outra. pode ter (Orígenes, Contra Celso 3.26). Notavelmente, Jesus fez o mesmo, tendo o seu cadáver ressuscitado do lugar onde fora sepultado e regressando para visitar os seus discípulos apenas depois de visitar o submundo (1 Pedro 3:18-19), tal como Aristeas (cuja história remonta a antes mesmo do cristianismo, nas amplamente lidas Histórias de Heródoto, cf. 4.14).
Mais uma vez, as diferenças não são relevantes: era simplesmente entendido que cada um dos Dióscuros ressuscitaria dos mortos todos os anos e, subsequentemente, morreria; que Aristeias morreu e ressuscitou dos mortos. E estes são humanos e semi-humanos. Portanto, não eram apenas os deuses que ressuscitavam dos mortos na mitologia popular. Ressurreições estavam por todo o lado. O tipo de ressurreição podia variar (podia ser uma ressurreição eterna num corpo sobrenatural, como Rómulo, ou o regresso a uma vida meramente mortal, como Aristeias), mas isso é simplesmente uma questão de ajustes teológicos esotéricos de um conceito mais genérico, porém omnipresente. Conceito: que os homens e os deuses podiam ser, e eram frequentemente, ressuscitados dos mortos.
E não é tudo.
Asclépio não era apenas um semideus ressuscitado (como já referi), mas ele próprio era o preeminente "ressuscitador dos mortos", uma razão importante pela qual os pagãos o tinham em tão alta estima. Como Justino, contemporâneo de Celso, não podia negar isso, foi levado a afirmar que "o Diabo" devia ter introduzido "Asclépio como o ressuscitador dos mortos" para minar a mensagem cristã antecipadamente (Diálogo 69). Mais notavelmente, antes da sua própria ressurreição, Asclépio ressuscitou várias outras pessoas dos mortos, segundo alguns relatos, Tíndaro (Plínio, o Velho, História Natural 29.1; Luciano, A Dança 45); segundo outros, Hipólito (Apolodoro, Biblioteca 3.10.3); e segundo outros ainda, Capaneu, Himeneu, Glauco, Órion, Licurgo, as filhas de Preto, e assim por diante (ver a recolha de fontes em Edelstein & Edelstein, Asclepius, pp. 39-41). Por outras palavras, abundavam inúmeras histórias de mortos ressuscitados, apenas em relação às lendas de Asclépio. Por conseguinte, Élio Aristides, um devoto seguidor de Asclépio, simplesmente presumiu que todo o seu público pagão acreditava que um deus poderia ressuscitar um morto (Discurso Fúnebre Em Honra de Alexandre 32,25).
E depois, como escrevi há anos em Not the Impossible Faith:
De facto, Luciano e Apuleio relatam a crença comum de que ressuscitar os mortos (“chamar à vida cadáveres bolorentos”, como Luciano disse ironicamente) era um dos poderes esperados de um feiticeiro, e a feitiçaria era muito popular entre a maioria dos pagãos. Por conseguinte, Apuleio faz com que o seu feiticeiro fictício Zatchlas ressuscite Télephron dos mortos. Mas, entre as alegações “históricas”, Apuleio relata uma ressurreição “médica” levada a cabo por Asclepíades. Acreditava-se também que Apolónio de Tiana tinha ressuscitado uma rapariga dos mortos usando um feitiço. No século IV a.C., Heráclides do Ponto registou que, através de alguma arte misteriosa, Empédocles “preservou o corpo de uma mulher sem vida, sem pulso nem respiração, durante trinta dias” e depois “enviou a mulher morta viva”. Proclo relata que Euríno de Nicópolis foi “sepultado diante da cidade pelos seus parentes”, mas “ressuscitou após o décimo quinto dia do seu sepultamento” e viveu muitos mais anos, e que Rufo de Filipos, um sumo sacerdote pagão, “morreu e ressuscitou ao terceiro dia”, vivendo o suficiente para contar a sua extraordinária história.
Plínio, o Velho, relata que existiam inúmeras histórias semelhantes, acreditadas por muitas pessoas, com ou sem o envolvimento de magia. Diz que Varrão relatou em duas ocasiões diferentes ter visto “uma pessoa a ser levada num esquife para o enterro e que regressou a casa a pé”, além de testemunhar a aparente ressurreição do seu próprio tio por afinidade, Corfidius. Plínio relata ainda que o marinheiro Gabienus teve a garganta cortada “e quase decepada”, mas regressou dos mortos nessa mesma noite para relatar a sua visita ao Hades. Platão regista uma história semelhante, contada por Alcino sobre Er, o Panfílio, que “foi morto em batalha” e, dez dias depois, o seu corpo foi recuperado e levado para casa. De seguida, “aquando do seu funeral, no décimo segundo dia, enquanto jazia na pira funerária, reviveu” e “após regressar à vida, relatou o que disse ter visto no além”. Numa história semelhante, o comandante sírio Bouplagus ressuscita num campo de batalha repleto de corpos (apesar de ter sido esfaqueado doze vezes) enquanto os soldados romanos saqueavam os cadáveres, e repreende os romanos por pilharem os mortos. A senhora Filínion voltou à vida para visitar o seu amado. O vilão Aridaeu caiu e morreu, mas regressou à vida “ao terceiro dia” para relatar a sua viagem ao céu, e foi tão transformado pelo que lá aprendeu que levou uma vida de virtude impecável a partir de então. Timarco passou duas noites e um dia numa cripta sagrada, durante os quais morreu, visitou o céu e regressou.
Por fim, Plínio, o Velho, afirma que também tinha conhecimento de “casos de pessoas que apareceram após o enterro”, mas optou por não os discutir porque o seu livro tratava de “obras da natureza, não de prodígios”. Isto, no entanto, comprova que tais histórias foram transmitidas e acreditadas por muitas pessoas. O próprio Plínio não diz em que acreditava, apenas que estas histórias não eram o tema do seu livro. Mas ainda regista inúmeros regressos da morte e, como vimos, são muitos, muitos mais. Havia também lendas e histórias de pessoas ressuscitadas por ervas mágicas. Parece ter havido uma crença popular de que o imperador Nero regressaria dos mortos, ou de facto regressou. Registam-se também vários casos de “fantasmas” que regressaram da sepultura, nos quais o “fantasma” possuía claramente um corpo físico. A ressurreição era, na verdade, um tema comum na ficção sagrada pagã. Petrónio chegou mesmo a satirizar este tema ao fazer o seu herói embarcar numa peregrinação para “ressuscitar” o seu pénis impotente, e Plutarco menciona uma peça de teatro assistida por Vespasiano, na qual um cão fingia morrer e ressuscitar.
As fontes primárias para cada uma destas afirmações são fornecidas no livro (NIF, pp. 88-89; notas nas pp. 122-23; poderíamos acrescentar Polícrito). Não devemos estranhar que Luciano nos tenha dito que o pagão Antígono lhe tinha dito: "Conheço um homem que voltou à vida mais de vinte dias depois do seu enterro, tendo-o acompanhado tanto antes da sua morte como depois da sua ressurreição" (Amante das Mentiras 26). Como Fullmer afirma correctamente, "o conceito de ressurreição não era 'totalmente estranho ao pensamento greco-romano' antes do advento do cristianismo, mas antes presente no pensamento popular" (Resurrection, p. 72).
Fazendo um Balanço
Todos estes diferentes tipos de morte e ressurreição, todas estas diferentes ressurreições de homens mortos, deuses e semideuses — tantos tipos, tantas versões, tão popularmente acreditadas — demonstram que o público antigo estava em todo o lado fascinado pela ideia de ressurreição, ou regresso dos mortos. E acreditavam em inúmeros mitos exatamente sobre isso. E até transformaram alguns destes mitos em modelos esperançosos de adoração para a sua própria salvação pessoal: o deus ressuscitado, concedendo-lhes o mesmo dom de um futuro regresso à vida. Teriam debatido a que tipo de vida futura desejariam regressar — na mesma carne que morreu, ou numa carne melhorada e tornada imortal, ou num corpo totalmente novo e superior — mas, para cada fantasia, existia um mito para os satisfazer. Os cristãos debatiam também sobre o tipo de ressurreição que desejavam para si; nesta altura, não havia mais consenso do que entre os pagãos. Mas também não eram diferentes deles. Os cristãos não estavam a vender algo novo. Na verdade, estavam a entrar num jogo já popular.
De facto, o historiador pré-cristão Teopompo escreveu que “segundo os Magos [zoroastrianos], os homens ressuscitarão e tornar-se-ão imortais” no apocalipse. A própria noção de ressurreição, sobretudo do mundo inteiro num determinado fim dos tempos, era pagã. Ela só entrou no judaísmo nos séculos anteriores ao aparecimento do cristianismo. Nesta época, os cristãos talvez nem soubessem que a ideia tinha sido originalmente pagã; embora o ensinamento zoroastriano permanecesse amplamente conhecido em todo o Império, e até se tenha tornado uma componente do culto de salvação extremamente popular do mitraísmo quase na mesma altura em que o cristianismo começou, sendo o mitraísmo, na verdade, uma helenização do zoroastrismo persa numa religião de mistério mais familiar. (Veja-se a minha discussão completa sobre este facto em Not the Impossible Faith, pp. 85-86 e 100-05.) Diversas ideias diferentes sobre a ressurreição foram igualmente adoptadas por diferentes seitas judaicas; não havia uma única ideia monolítica "judaica" de ressurreição, mas muitas e variadas. (Veja-se a minha discussão sobre este facto em The Empty Tomb, pp. 107-118.)
Nestas visões do mundo da época, ensinava-se essencialmente que também nós ressuscitaríamos dos mortos para nos tornarmos deuses. O cristianismo não era invulgar ao sugerir o mesmo. Mesmo o uso de um exemplo modelo na figura do salvador emulava uma prática popular de construção de deuses salvadores que morrem e ressuscitam, em cujo triunfo sobre a morte também nós podemos partilhar, através do batismo e da comunhão.
Conclusão
Muitos destes deuses tinham outros mitos, com diferentes histórias e destinos imaginados para eles. Mas isto também se aplicava a Jesus, para quem seitas cristãs rivais (bem como polemistas anticristãos) teceram e ensinaram diferentes histórias sobre o que realmente aconteceu a Jesus, como a sua ressurreição de facto ocorreu e assim por diante. Em algumas versões, Jesus nunca morre (por exemplo, alguém toma o seu lugar na cruz disfarçado, de acordo com os ensinamentos do Segundo Tratado do Grande Sete). Noutras versões, Jesus nunca ressuscita (por exemplo, apenas continua a viver espiritualmente no céu, de acordo com os ensinamentos do Evangelho de Tomé). Mas, tal como podemos escolher concentrar-nos numa versão popular do seu mito que queremos explicar (aquela em que é um deus que morre e ressuscita — seja ressuscitando no seu corpo restaurado, segundo os Evangelhos, ou num supercorpo recém-criado, segundo Paulo), devemos fazer o mesmo com os outros deuses que morrem e ressuscitam e aos quais estamos a seguir os mesmos motivos.
A ressurreição de Jesus, por exemplo, tem mais em comum com o Dionísio reanimado, nascido de Sêmele através de uma poção, do que com aquele nascido de uma segunda conceção sexual por Zeus — relato nesse qual (conhecido apenas pelos fabulistas da Antiguidade tardia), Zeus é quem comeu o coração morto de Dionísio e, assim, imbuído dos átomos necessários para se reproduzir, reinseminou Sêmele sexualmente, em vez de assexuadamente (e Dionísio é, portanto, reconcebido a partir de átomos do seu cadáver e renasce, através desta cadeia de acontecimentos muito mais complexa). As suas histórias são ainda muito diferentes, mas quando procuramos elementos de influência (como a ideia de uma conceção assexuada de um semideus por uma mulher mortal), são os precedentes reais que devemos examinar. Não histórias que não tiveram influência. Os judeus abominavam a ideia de seres divinos se envolverem na reprodução sexual. Assim, quando um judeu criava o seu próprio deus salvador ressuscitado, "nascido de uma mulher", necessitava de procurar ideias de deuses concebidos por uma mulher mortal sem que isso implicasse sexo. Havia muitos modelos deste tipo para inspirar a ideia (discuti vários no meu artigo sobre nascimentos virginais). Ter o seu semideus morto e ressuscitado como um bebé também não satisfazia as necessidades do modelo messiânico de que um judeu necessitaria, pelo que, obviamente, foram considerados outros modelos (outros deuses, cujas histórias de morte se adequariam melhor ao sacrifício expiatório apocalíptico final exigido pela soteriologia judaica). Mas Dionísio é, no entanto, uma das muitas instâncias amplamente conhecidas de um motivo comum: o do deus salvador que nasce milagrosamente, morre e ressuscita — cada um, como Jesus, tão único como o outro: de Dionísio a Osíris, Zalmoxis, Inana, Dolicheno e Adónis (sem mencionar Rómulo, Hércules e Asclépio).
Simplesmente não se pode afirmar que os autores judeus da ideia do seu próprio salvador milagrosamente nascido, que morre e ressuscita, não estivessem de forma alguma conscientes ou influenciados pela ampla manifestação deste tipo de salvador à sua volta, em praticamente todas as culturas que conheciam. Isto é simplesmente absurdo. A coincidência é impossível. É por isso que nem os antigos apologistas cristãos foram tão tolos ao ponto de o afirmar — ou, ainda mais absurdo, que tal modelo de salvador que morre e ressuscita sequer existisse. É claro que existia. E eles sabiam-no muito bem. Escolheram culpar o Diabo. Plagiaram a ideia antecipadamente, para tentar estabelecer uma cultura que descartasse a história de Jesus como apenas mais um mito semelhante aos outros que o Diabo teria criado. Esta é uma defesa ridícula, semelhante a afirmar que a evolução é obviamente falsa porque o Diabo "plantou todos os fósseis".
Não. A única razão plausível para que alguns judeus tenham criado um deus salvador judeu que morre e ressuscita precisamente naquela região e época é que todos os outros já o tinham feito; era tão popular e influente, tão na moda e eficaz, que era inevitável que a ideia se infiltrasse na consciência judaica e irrompesse na cena da revolução "inspirada" de uma fé considerada corrompida. Judaizaram-na, é claro. Jesus é tão diferente de Osíris como Osíris o é de Dionísio, Inana, Rómulo ou Zalmoxis. As diferenças são os ajustes judaicos. Tal como o sistema zoroastriano persa de messianismo, apocalipse, ressurreição mundial, um Satanás maligno em guerra com Deus e um futuro céu e inferno que impõem a justiça como destinos eternos para todos, foi judaizado quando importado para o judaísmo. Nenhuma destas ideias existia no judaísmo antes disso (e não as encontrará em nenhuma parte do Antigo Testamento escrita antes da conquista persa). Ninguém afirmou que estava a "corromper" o judaísmo com estas ideias pagãs (embora, na verdade, estivessem). Simplesmente alegaram que estas novas ideias eram todas judaicas. Ordenadas e comunicadas por Deus, através de escrituras e revelações inspiradas. Os cristãos fizeram exatamente a mesma coisa.
É hora de encarar este facto. E deixar de o negar. É hora de ultrapassar isso. Deuses salvadores ressuscitados eram uma ideia pagã. Tudo o que o cristianismo fez foi inventar uma versão judaica.
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