28 de junho de 2010

O chicote, a cenoura e a palmada nas costas

Há uma semanas o meu sobrinho Rui Cabanita publicou um vídeo da RSA (Royal Society for the Arts, a irmã menos conhecida da Royal Society) sobre motivação.

Entre outras coisas muito interessantes, explicava-se que numa tarefa que não incluísse criatividade, a produtividade podia ser aumentada com incentivos quantitativos, vulgo prémios. Porém, uma actividade criativa não pode ser motivada por prémios. Essa conclusão perfeitamente contra-intuitiva e contrária a toda a tradição de gestão de recursos humanos vem espaldada em abundantes números e estudos de caso.

Quando vi, percebi imediatamente, de forma intuitiva, que é verdade.

Em vez de fazerem as pessoas esfalfarem-se para ganhar cada vez mais dinheiro, procura-se pagar o suficiente para que o dinheiro deixe de ser problema, mas criar o máximo de liberdade para que o espírito criativo se possa exprimir. As empresas que conseguem ordenhar esta vaca obtém lucros fabulosos na comercialização de ideias novas, produtos novos e soluções imprevistas para problemas conhecidos.

Percebi porque é que as empresas mundiais que dependem da criatividade têm aqueles ambientes de trabalho fabulosos, onde encorajam as pessoas, não a esfalfarem-se para ganharem incentivos monetários, mas a interessarem-se calmamente por um problema e a puxarem pelas suas células cinzentas, numa anarquia controlada com todas as oportunidades para a descontracção e para a brincadeira.

Uma amiga minha que lá frequenta cursos contou-me sobre a Microsoft, em Oeiras, onde há um piso inteiro com toda a espécie de jogos, desde os jogos de computador até às tabelas de basquetebol, e como as pessoas são encorajadas, de tempos a tempos, a interromper as suas actividades e descontraírem. Há mesmo quartos para quem, interessado em pesquisar um assunto, deixe passar as horas e só termine às quatro da manhã.

Infelizmente, este tipo de ideias não tem qualquer curso, que eu saiba, no nosso país. Não temos qualquer respeito pelo trabalho intelectual e pela criatividade. Com excepção de muito poucos sectores, qualquer boa ideia é copiada imediatamente e desvalorizada.

“Eu podia ter pensado nisso, só que não me lembrei.”

Pior, agora na crise as coisas não vão melhorar. Apodera-se de nós uma espécie de neocalvinismo serôdio. Aperto nos ritmos de produção, incremento do autoritarismo. Miserabilismo.

Os resultados disso na produtividade serão de marginais a prejudiciais. Quanto muito, poderá tentar-se compensar a perda de empregos e de posição do nosso país no mercado global. Sem resultado, claro. Só a subida na posição do país no mercado global nos pode salvar, e esses ganhos de produtividade só são acessíveis pela via criativa.

Portanto, isto vai piorar. A nossa mediocracia (domínio dos medíocres, não confundir com mediacracia, domínio dos media que também é) vai manter-se. Uma inversão dos valores só seria possível no quadro de uma crise gravíssima. Não vai ser bonito.

Por outro lado, repugna-me um pouco esta teoria das relações humanas. É pouco democrática. Para uns o chicote ou a cenoura, para outros a palmada nas costas?

Cada vez mais o trabalho bruto está para além dos incentivos, porque é feito por máquinas. Será possível refazer a educação de forma a que cada pessoa se torne mais criativa, ou desbloqueie a sua criatividade? Espero que sim.

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